Wednesday, July 22, 2009

O descalabro e a desmoralização do Legislativo e a ineficácia do Judiciário

Saiu no blog do professor Roberto Romano da UNICAMP.

A coluna de Lula nos jornais
Roberto Romano

Athanasius Kircher (1601-1680), jesuíta competente nas artes de governo, imaginou meios para que as elites dirigentes investigassem tudo sobre os cidadãos e, ao mesmo tempo, deles escondessem tudo. Entre aqueles meios, ele imaginou gigantescos megafones, nos quais a “verdade oficial” seria transmitida. Segredo, de um lado, espionagem e propaganda de outro. Esta foi a receita eficaz para a razão de Estado, receita que, adequando-se aos tempos e lugares, permanece até hoje. Donoso Cortés, no Discurso sobre la ditadura (1849), diz que chega o dia em que os governos proclamam: “temos um milhão de braços, mas não bastam. Precisamos mais, precisamos de um milhão de olhos. E tiveram a polícia e com ela um milhão de olhos. (...) Não bastou aos governos um milhão de braços, não lhes bastou um milhão de olhos. Eles quiseram um milhão de ouvidos, e os tiveram com a centralização administrativa, pela qual vieram parar no governo todas as reclamações e todas as queixas. (...). Mas os governos disseram: não me bastam, para reprimir, um milhão de braços; não me bastam, para reprimir, um milhão de olhos; não me bastam, para reprimir, um milhão de ouvidos; precisamos mais, precisamos ter o privilégio de nos encontrar ao mesmo tempo em todas as partes. E tiveram isto, pois se inventou o telégrafo”. Chegamos hoje à internet, aos meios eletrônicos de busca e controle, além da espionagem dos próprios cidadãos, com uma eficácia que recorda o romance 1984.

O jesuíta e o conservador espanhol do século 19 pegaram traços essenciais da moderna dominação política. O fim último dos governos é o controle, para arrancar da cidadania impostos, votos, soldados para a guerra, etc. Tudo o que os governos puderem fazer para deixar longe dos olhos cidadãos os segredos oficiais, eles procuram (lembre-se o dito de Bismarck: “se o povo soubesse como são feitas as salsichas e as leis”...) e tudo o que os mesmos governos puderem fazer para arrancar informações sobre as “pessoas comuns”, eles o farão. E tudo o que eles puderem fazer para a propaganda de si mesmos, nos jornais, nos rádios, na TV, na internet, eles o farão. No Brasil, desde o DIP, tivemos um crescendo na lógica do segredo e da propaganda. Do controle e censura, ao incentivo à uma imprensa que apoiasse o ditador Vargas, à criação de programas como a Hora do Brasil, tudo foi tentado. Neste sentido, um livro essencial é da Professora Maria Helena Rolim Capelato, Multidões em Cena, propaganda política no varguismo e no peronismo, São Paulo, Ed. Unesp, 2008).

O que Lula faz hoje, e fará amanhã com meios modernos como a internet, segue a lógica do Estado autoritário, cujos inícios se encontram no Estado absoluto do século 17. O historiador Peter Burke, num livro intitulado A fabricação do Rei (RJ, Zahar Ed), mostra que Luis XIV (“O Estado sou eu”) instaurou a propaganda do trono, de modo a fazer com que o regime absolutista fosse aceito e temido e admirado. A coluna de Lula, obra de Martins e secretários, com poderosa ajuda de João Santana, serve para propagar o governo, tornando a sua face atual o regime de amanhã. E este regime não terá três poderes isonômicos, mas apenas um, supremo, o Executivo. A tendência está inscrita em nossa história, desde Dom João VI e Pedro I, com o Poder Moderador que estava acima dos três poderes, com prerrogativas ditatoriais.

Com o descalabro e a desmoralização do Legislativo e a ineficácia do Judiciário (não existe vazio no poder) o Executivo tende a legislar cada vez mais e não apenas com Medidas Provisórias. Logo ele julgará os cidadãos. Neste modelo político é preciso a figura do Pai da Pátria, como foi Pedro I, “defensor perpétuo do Brasil” e Getúlio Vargas. E como pretende ser Lula (em muitas ocasiões ele indicou a si mesmo como pai do Brasil). As colunas podem ser, caso não apareçam debates e recusas, a fala semanal do Big Brother na imprensa, depois na TV e no rádio abertos, na Internet. E ai de quem não dobrar as orelhas e os joelhos aos paternos conselhos!

http://silncioerudoasatiraemdenisdiderot.blogspot.com/ acesso em 22/07/2009

Saturday, July 04, 2009

FERVILHA EM ÁGUAS QUENTES A MANUTENÇÃO E O APARELHAMENTO DOS ESTADOS

Observações feitas sobre o que acontece na América Latina revelam o quanto somos primários nas relações republicanas e democráticas – Bolívia, Colômbia, Venezuela, Equador, Nicarágua e Honduras – e até mesmo o nosso Brasil – fervilha em águas quentes a manutenção e o aparelhamento dos Estados em nome de alguns “senhores” que querem o poder e o mando em nome do “povo” a qualquer custo no caso do Brasil, podemos recordar da figura do José Dirceu (diretor de operação do mensalão), José Sarney (com suas operações ilícitas no senado – imagine no Maranhão), Collor (o ladrão das migalhas e traidor da elite brasileira – deposto da presidência), Lula (aquele governante que não sabe de nada e representante dos picaretas) e outros oligarcas contrários a república e a democracia que se utiliza nesses momentos instrumentos ditos democráticos para alcançar tal propósito (o mando e poder) com plebiscito ou consultas populares, como os outros governos da América Latina – na mesma linhagem do governo brasileiro que usurpa do poder sem tanques nas ruas brasileiras, com medidas ditatoriais.

Friday, July 03, 2009

Adriano, grato pela lembrança e do texto – também conheço o texto do Schaff e indico na bibliografia da disciplina de Antropologia para os alunos do curso de Sistema de Informação – na segunda parte do livro indicado – temos “Individuo e Sociedade” – segue o pressuposto das relações “entre os dois extremos, o individualismo e o totalitarismo” – vale recordar que vivemos numa sociedade que expulsou o cidadão do seu espaço público e fez do mesmo perder o gosto pela liberdade, como argumenta Hannah Arendt no livro "sobre a Revolução" - mas você tem razão em argumentar que o totalitarismo caminha no tempo e se manifesta com vigor em nossos tempos com novas roupagens para usar a linguagem do Marx. Dois livros interessantes e um ensaio da Hannah Arendt sobre o tema:
SENNET, Richard. A corrosão do caráter. Record, 2004.
SENNET, Richard. O declínio do Homem Público. Companhia das Letras, 1998.
ARENDT, Hannah. Compreender: formação, exílio e totalitarismo. Companhia das Letras, 2008. (Cf. o texto Franz Kafka: uma reavaliação, pp. 96 – 108).
Um abraço!
Daner Hornich
Indico um blog – de um poeta mineiro (um bom amigo de bons tempos) – vale o tempo de navegação na internet para conferir.

Em sua Homenagem podemos partilhar a mesa dos deuses com o poema abaixo:

“Existem grandes horas na vida. Levantamos os olhos para elas como fazemos com as figuras colossais do futuro e da antiguidade, travamos com elas uma luta maravilhosa e sem diante delas, guardamos consistência, elas se tornam irmãs e não mais nos abandonamos” (HÖLDERLIN, Friedrich. Hipérion, 1994, 94.)

Segue abaixo a indicação:

http://arteetfacto.blogspot.com/

Monday, June 22, 2009

Borbulha mundo a fora com pressupostos ditatoriais

Um bom texto para analisar os nossos tempos – “tempos de mentiras” arquitetadas com números, estatísticas, propaganda, programas mirabolantes e embusteiros - foi elaborado pela pensadora Hannah Arendt sobre “A MENTIRA NA POLÍTICA: considerações sobre os Documentos do Pentágono” – segue uma frase do texto: “Os historiadores sabem como é vulnerável a textura de fatos na qual passamos nossa visa cotidiana; está sempre em perigo de ser perfurada por mentiras comuns, ou ser estraçalhada pela mentira organizada de grupos, classes ou nações, ser negadas e distorcida, muitas vezes encoberta cuidadosamente por camadas de falsidade, ou ser simplesmente deixada cair no esquecimento” (Arendt, Crise da República, 16).

Os fatos e os acontecimentos no Irã revelam que não somos inocentes e que não queremos governos ditadores e golpistas com discurso de esquerda (Esses caras não são de esquerda e sabem muito bem que são golpistas em nome de políticas financeiras excludentes e exploradoras como dos bancos brasileiros – ao gosto do governo brasileiro), como aqueles que se espalham pela América do Sul com seus vestígios na manutenção do Estado, como no caso da Venezuela, Bolívia, Colômbia (manutenção americana) e Brasil – e outros países.

A imprensa brasileira é lenta e não faz uma cobertura decente do que ocorre no Irã – o que está ocorrendo com a imprensa brasileira? Queremos revolução no Irã, mas uma revolução democrática com o povo participando nas ruas para o bem comum daquele povo que não deve baixar a sua cabeça para os donos do poder que massacram o espaço público daqueles que lutam por um mundo melhor.

Borbulha mundo a fora com pressupostos ditatoriais.

Daner Hornich

Wednesday, June 17, 2009

Correspondência inédita entre Hannah Arendt e o estudante Hans-Jürgen Benedict

04/05/2008 - 02h29
Leia correspondência inédita entre Hannah Arendt e o estudante Hans-Jürgen Benedict
da Folha de S.Paulo
Em carta de 1967, a pensadora antecipa questões que estariam no centro dos acontecimentos do Maio de 68.
Hans-Jürgen Benedict
355 Marburg
Universitätsstrasse 30-32
Marburg, 3 de junho de 1967
Estimada senhora!
Ao reler, nos últimos dias, seu livro sobre a Revolução Húngara e o imperialismo totalitário, senti-me como quem recorda, depois de muito tempo, os ideais de sua própria juventude e só consegue vê-los à distância, tristemente, como através de um véu.
Do mesmo modo, os acontecimentos desde então lançaram uma nova luz sobre as suas idéias de outrora, cujo apelo não perdeu atualidade: conservar a memória dos acontecimentos é tão necessário agora como então, e a repressão brutal à revolução deve ser continuar a ser objeto de condenação. O que me parece ter envelhecido é a posição a partir da qual a senhora argumentava em seu livro. Como também me parece questionável a veemência de seu veredicto, a ênfase com que a senhora condenou o imperialismo russo.
Para começar por este último ponto: talvez a reviravolta na política russa ainda não fosse visível à época da redação do ensaio. Mas mesmo se fosse esse o caso (coisa de que duvido: a nova tendência foi volta e meia ocultada por crises e só ganhou nitidez a partir de Kossygin e da não-intervenção no conflito do Vietnã), isso justificaria o esforço de negar substancialmente ao comunismo toda possibilidade de mudança e fixá-lo definitivamente em suas feições stalinistas? Isso não significaria limitar a abertura da história no que tange à esfera de poder comunista?
Seus prognósticos quanto aos desenvolvimentos externos e internos bem podiam ser precisos naquela ocasião, mas não necessariamente assim. Justamente essa suposta ausência de potencial do "imperialismo totalitário" vem agora se vingar: já há muito que não há terror organizado na URSS, e a política exterior de coexistência da URSS vem lhe valendo a crítica de contribuir para a persistência da miséria no Terceiro Mundo.
A mudança de rumo da política russa surpreendeu a todos, de tal modo que se torna mais urgente a questão de saber de onde ela provém. A senhora concordaria com a idéia de que a etiqueta de "totalitarismo/ poder absoluto" já não faz justiça ao comunismo russo e de que já não se pode dizer que este opere unicamente por "considerações de poder" e almeje apenas a "construção de um mundo fictício"? A própria renovação do comunismo russo, tal como se exprime na definição de coexistência formulada no programa do Partido Comunista da URSS em novembro de 1961, não mostra que ele se volta a se comprometer com uma renovação do gênero humano e com um mundo melhor, que idéias originais da revolução, enterradas durante o stalinismo, voltam a cobrar vida?
Em segundo lugar: a situação se inverteu desde a Revolução Húngara. Essa mesma situação não nos força a reformular --ainda que com pesar e a contragosto-- o título de seu livro como "A Guerra do Vietnã e o Imperialismo Americano"?.
A senhora não se identificou, em seu ensaio, com a posição do Ocidente, por mais que fosse dali que criticasse o imperialismo totalitário. Tratava-se, para a senhora, de dar contornos nítidos à liberdade genuína que se mostrava na Revolução Húngara. Ao fazê-lo, a senhora excluía, de caso pensado, o problema econômico, a assim chamada questão social, de vez que esta não pertenceria, a seu ver, ao âmbito da política.
Mas a questão social não se tornou, hoje em dia, o problema político por excelência?
A luta do Terceiro Mundo contra a pobreza, a fome e o analfabetismo não tem a ver com liberdade, humanidade e solidariedade num sentido revolucionário? Sua redução do problema e sua interpretação da Revolução Francesa como má revolução não justifica o modo de pensar do governo norte-americano, que se sente no direito de intervir "onde quer que haja governo fracos e tecidos sociais instáveis" (McNamara)?
Em seu grande livro sobre a revolução, a senhora responsabilizou o pauperismo das massas na revolução francesa pela desfiguração de baixo para cima do processo de realização da liberdade revolucionária.
A alternativa, hoje, seria a pacificação americana "de cima para baixo"? E ainda por cima com a pretensão de pôr fim definitivo à "época dos revolucionários românticos e agressivos" (Walt Rostow)?
Se for assim, então essa pacificação de cima para baixo terá de reconhecer que inadvertidamente se transformou em contra-revolução no sentido clássico do termo.
Em outras palavras: em que termos a senhora esboçaria o capítulo adicional da história da revolução que os últimos desenvolvimentos tornaram necessário?
Permita-me, ainda a esse respeito, acrescentar mais uma questão, derivada da introdução a seu novo livro: mesmo contrapondo-se antiteticamente revolução e política de poder, não haverá distintas formas de violência, uma que se exerce como fim em si mesma, e uma outra que se exerce como meio de abolir a si mesma? A violência será mesmo "muda"? A resistência violenta dos oprimidos do Terceiro Mundo não fala por muitos livros?
Escrevo-lhe estas linhas no mesmo dia em que se divulgou que um estudante berlinense foi morto por um policial durante as manifestações contra o xá da Pérsia. Estas já não são questões meramente acadêmicas na Alemanha Ocidental.
Anticomunismo, falta de liberdade política e injustiça no Terceiro Mundo parecem formar um complexo. A guerra do Vietnã demonstrou para nós, estudantes, a unidade do mundo e a necessidade de transformá-lo. Começamos a entender que estamos envolvidos na persistência de situações indignas na Pérsia, no Vietnã ou no Brasil. Acreditamos ter aprendido --e em boa parte por sua influência-- com o nosso passado e por isso nos sentimos implicados onde quer que algo de semelhante se repita.
Sua resposta a estas perguntas não apenas seria de grande valia para nós como também fortaleceria nossa oposição.
Com admiração,
Hans-Jürgen Benedict
Com Tradução de SAMUEL TITAN JR.
*
Hannah Arendt
370 Riverside Drive
New York, NY 10021
25 de novembro de 1967
Prezado senhor Benedict,
O senhor está a par das errâncias de sua bela carta, que só me chegou às mãos, depois de todas as tribulações, quando eu já me aprontava a embarcar num avião. Quero tentar responder-lhe agora; é uma pena que deva fazê-lo por escrito.
O senhor diz ter relido minha brochura sobre a revolução húngara [1956]. Até onde sei, a editora Piper a retirou do mercado --com a minha concordância. Suas objeções estão corretas-- são as mesmas que me faço hoje. Não pus fé no desenvolvimento da situação na Rússia.
E, para lhe mostrar o que penso hoje, remeto-lhe em anexo a nova introdução a "As Origens do Totalitarismo", republicado aqui no ano passado. Não vale a pena mandar o livro inteiro, uma vez que não alterei nada, exceto a introdução à segunda edição (que corresponde à edição alemã); na segunda edição americana, publiquei como epílogo minhas considerações sobre a revolução húngara --que agora simplesmente excluí. Também lhe envio o prefácio inédito ao volume sobre o imperialismo de meu livro sobre o poder total-- para a edição em brochura, a editora decidiu dividi-lo em três volumes. Creio que o senhor encontrará a resposta a suas perguntas nesses textos; no caso da introdução datilografada, o senhor pode começar a ler a partir da terceira seção, à página 14. Respondo, portanto, apenas aquilo que o senhor não encontrará necessariamente nos textos anexos.
Jamais ataquei o comunismo enquanto tal, muito menos o reduzi a uma posição totalitária. Sempre me manifestei com toda clareza contra a identificação de Lênin com Stálin ou mesmo de Marx com Stálin. Não diria que o comunismo se modificou, mas sim que a forma de domínio se transformou. O que temos hoje na Rússia, é a ditadura do partido único, uma variante da tirania --e apenas isso-- que era de se esperar pelo curso "normal" das coisas após a morte de Lênin, não fosse a intervenção de Stálin. Também não acredito no "potencial" de autotransformação do sistema totalitário --seria como se uma monarquia absoluta pudesse rumar por si só para uma monarquia constitucional.
A morte de Stálin, a derrota e a morte de Hitler --esses acontecimentos externos foram decisivos. Se subestimei alguma coisa, foi o assim chamado fator subjetivo, isto é, o elemento estritamente pessoal e, a par dele, a dificuldade de encontrar sucessores para o déspota. As coisas poderiam ter tomado outro rumo, caso se tivesse encontrado alguém disposto a seguir em frente-- talvez Béria, se bem que duvido muito. Inclino-me a pensar que nem mesmo Kruschev (ou seja lá como se grafa seu nome em alemão), no ano de 1957, quando escrevi a brochura, sabia por certo até onde as coisas chegariam --por mais que estivesse bem mais decidido do que eu pensava a pôr fim aos traços mais essencialmente criminosos do sistema.
Também no que toca o seu segundo ponto --imperialismo americano no Vietnã--, estamos de acordo quanto ao essencial, como o senhor verá pelo novo prefácio.
O único elemento de consolo na história toda é que o país vai se agitando mais e mais e que o governo não pode fazer nada a respeito, se não quiser atingir os fundamentos da república. Confio que o senhor esteja a par disso e não entrarei em detalhes. Pode bem ser que estejamos no início de um novo desenvolvimento imperialista --não necessariamente totalitário; o que é certo é que a república dos EUA não sobreviverá a um tal curso das coisas, isto é, a república como forma de governo, não o próprio país. Também o país se encontra sob grave ameaça, mas isso não me importa tanto. Minha lealdade vincula-se a esta república --não ao país-- e, é claro, também às pessoas, entre as quais, feitas as contas, me sinto melhor do que nunca.
O senhor me pergunta ainda se a questão social se tornou a questão política por excelência. A luta contra a pobreza e a fome diz respeito exclusivamente à pobreza e à fome, pelo menos no que diz respeito aos pobres e famintos, que não costumam ser os que conduzem ou que poderiam conduzir essa luta.
E a luta contra o analfabetismo é cada vez mais uma pré-condição para o fim da pobreza e da fome. A pobreza e a fome (chame-as como quiser) impediram que surgisse, dos movimentos de libertação na Ásia e na África, surgisse alguma coisa com um mínimo de estabilidade. A pobreza e a fome criaram o vácuo de poder --também na América do Sul, onde a corrupção dos governos é o reverso dessa medalha-- que agora está ressuscitando o imperialismo.
Toda formação política se caracteriza pelo poder (não pela violência!) que ela é capaz de exercer; pobreza, fome e analfabetismo criam apenas impotência. Não me venha com os vietnamitas, que de fato conquistaram poder no curso da guerra de guerrilha; nós já os conhecíamos quando ainda se chamavam "indochineses". Não são absolutamente um povo miserável, mas um povo desafortunado, mas altamente dotado e herdeiro de uma cultura antiga. Trata-se, ali, de libertação nacional, mas não, absolutamente, do que entendemos por liberdade. E o mesmo vale, creio eu, para Cuba, onde cabe a nós a culpa maior pelo desdobrar dos acontecimento rumo à tirania russa. Mas olhe bem para os outros Estados sul-americanos.
Bem, chegamos então ao "capítulo adicional da história da revolução que os últimos desenvolvimentos tornaram necessário". Quisera eu ser tão otimista quanto o senhor! A Pax Americana, contra a qual Kennedy se exprimiu com veemência e que Johnson proclamou abertamente, é um pesadelo imperialista --mas, por isso mesmo, apenas um sonho.
A "pacificação de cima para baixo" de que o senhor fala é impossível tecnicamente, seja em termos militares ou econômicos. Ninguém é rico o bastante para ajudar a quem não consegue se ajudar; foi possível dar auxílio à Alemanha ou ao Japão, mas não há como ajudar a Índia, o Egito ou o Congo. E, no que diz respeito aos militares, a Guerra do Vietnã deveria ser prova suficiente de que as superpotências já não têm como conduzir guerras convencionais; e graças a Deus estão todos de mãos amarradas no que diz respeito à guerra atômica. É claro que seria possível invadir o Vietnã, o Vietnã do Norte e ocupar e violentar o país com alguns milhões de soldados. Mas, sem falar nos tremendos riscos políticos, quantas vezes um país como os EUA poderia se permitir esse tipo de coisa?
De resto, o senhor tem razão em mencionar Walt Rostow nesse contexto. Ele de fato quer uma contra-revolução, e a ideologia sob a qual navegam todos os esforços nesse sentido é o anticomunismo, cuja origem e formulação ideológica se deve, como o senhor sabe, em boa medida a ex-comunistas. Como um amigo, o crítico norte-americano Harold Rosenberg, escreveu a Sartre há alguns anos: tome cuidado com o comunismo, ele é canteiro do anticomunismo! Précisément!.
No que diz respeito à violência: não há revolução que tenha triunfado graças à simples violência. Há, é claro, o levante violento dos oprimidos, que entretanto só conseguiu alguma coisa quando o poder do Estado já estava minado. É sempre a impotência, a cólera cega e tremenda dos impotentes que se manifesta como violência.
Quando ela triunfa, o caos puro e simples se instala no dia seguinte --simplesmente porque todos que descarregaram sua ira começam imediatamente a divergir. Daí não virá nenhuma resistência. E, se acha que algo do gênero está se dando no Vietnã, creio que o senhor está fundamentalmente equivocado. E creio haver algo do gênero, um erro do mesmo gênero, em outra de suas observações. O senhor afirma que a guerra do Vietnã teria revelado aos estudantes "a unidade do mundo e a necessidade de transformá-lo". Quanto a esse último ponto, podemos concordar sem mais delongas; mas a "unidade do mundo", supondo que o senhor entenda por esse termo mais que uma espécie de solidariedade, é apenas um sonho. Apenas em termos técnicos o mundo constitui uma espécie de unidade. Sob todos os outros pontos de vista, sobretudo no que diz respeito à política e às chances de um desenvolvimento rumo à liberdade, cada país constitui um caso à parte.
Tome a questão da guerra de guerrilha. Sem dúvida, uma modalidade de luta muito eficaz para povos oprimidos, sobretudo diante de invasores estrangeiros. Mas quantos povos, em sua opinião, estão em condições de organizar uma guerra assim? Não se esqueça de que a expressão Terceiro Mundo é apenas um conceito negativo e se refere a todos aqueles povos que não se encontram nas esferas de poder russa ou americana. O senhor acha mesmo que isso basta para constituir uma unidade?
Quanto ao seu último ponto, não resta dúvida de que estamos envolvidos na persistência de "condições indignas" na Pérsia, no Vietnã e no Brasil, mas não cabe a nós transformá-las. Esta me parece ser uma espécie de delírio de grandeza às avessas. Tente fazer política na Pérsia, e o senhor logo estará curado. Sua responsabilidade diz respeito a impedir que se perpetuem condições indignas na Alemanha ou que se matem estudantes durante uma manifestação. Temo que isso já o manterá mais que ocupado.
Politics, like charity, begins at home. Se amanhã --e isso seria bem possível--, após a retirada das tropas americanas do Vietnã, os vietnamitas começaram a se degolar mutuamente, eu não me sentirei em nada responsável. A política é sempre, entre outras coisas, a arte do possível, e as possibilidades dos homens e dos povos são sempre limitadas. Não reconhecer esses limites é um delírio de grandeza, por mais que este se oculte por trás de sentimentos sublimes.
E isto, em política, é muito perigoso, ainda mais na Alemanha. Espero que não tenha aprendido isto com meus escritos. É verdade que Clémenceau disse (durante o affaire Dreyfus): "L'affaire d'un seul est l'affaire de tous", mas é claro que ele se referia a todos os franceses. Se um cavalheiro de Pequim tivesse aparecido então para lhe dizer que o affaire também lhe dizia respeito, Clémenceau provavelmente o teria julgado ligeiramente perturbado.
Não me leve a mal! Tais confusões, por mais que sejam elementares, produzem-se facilmente quando se começa a generalizar. Em certo sentido, todos nós incorremos nelas, mas é preciso prestar atenção para não perder o bom senso.
Nenhum de nós pode mudar todo o mundo, porque nenhum de nós pode ser cidadão do mundo; e costumam se inclinar por uma responsabilidade mundial justamente aquelas pessoas que fogem, por razões compreensíveis, à responsabilidade por seu mundo. Não há como determinar teoricamente os limites, que entretanto facilmente se mostram em termos práticos. Quando se trata de política, é preciso aprender a pensar em termos limitados.
Isso não é fácil para quem, como o senhor ou como eu, vem de uma tradição filosófica pesada e grandiosa como a alemã, pois é da essência do pensamento transpor limites.
Poderíamos continuar a conversar e a discutir nestes termos, sem --quero crer-- cair em birras ou meras disputas. Mas está carta já está longa demais. E agora me ocorre que não lhe escrevi com uma cópia em carbono para o professor Bahr. Posso pedir que encontre uma máquina xerox e lhe faça chegar uma cópia?
Com os melhores votos, sua
Hannah Arendt
Tradução de SAMUEL TITAN JR.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u397646.shtml 04/05/2008

Comentário: é sempre bom refletir sobre os diversos pontos de vista e analisar com cautela e prudência as construções dos nossos julgamentos sobre os acontecimentos e os eventos políticos que emergem em nosso mundo - em meio a tantas ideologias borbulhando em nossas reflexões e pensamentos.

Sunday, June 07, 2009

Humanista

Uma bela frase da Hannah Arendt sobre a importância do humanista em tempos de especialidades a todo custo.
"O que Cícero de fato diz é que, para o autêntico humanista, nem as verdades do cientista, nem a verdade do filósofo, podem ser absolutas; o humanista, portanto, não é um especialista, exerce uma faculdade de julgamento e de gosto que está além da coerção que nos impõe cada especialidade" Hannah Arendt.
Daner Hornich

Militares, ciências, Educação Popular.

A pandemia atual expõe a falácia de alguns dogmas sobre a pós modernidade, ela mesma integra a lista dos enunciados falsos de evidências lóg...