Uma bela frase para os nossos tempos:
“Os locais mais sombrios do inferno estão reservados para aqueles que mantêm a neutralidade em tempos de crise” (Dante Alighieri, 1265-1321).
Fonte http://dererummundi.blogspot.com/ 13/02/2011.
Sunday, February 13, 2011
Friday, February 11, 2011
Egito um exemplo para o Ocidente: a população pode e deve se reunir para buscar novos modos de vida para o seu povo
Egito um exemplo para o Ocidente: a população pode e deve se reunir para buscar novos modos de vida para o seu povo
O povo quando age de modo espontâneo consegue coisas que muitas não imaginamos - como é o caso do atual Egito. A população pode se reunir e buscar novos modos de vida. A população só precisa se organizar e dizer um basta aos mecanismos de ditadura que assombra as nossas sociedades. Vamos lá Brasil, vamos nos organizar e dizer um basta para os corruptos de ditam as regras no nosso país, como os políticos que estão no poder, e que legislam, governam e se articulam em causa própria e que não visam o bem comum da nossa república. Como é o caso do presidente do senado José Sarney que representa a oligarquia dos picaretas que sugam o nosso Estado brasileiro em causa própria. Chega de picaretagem, vamos mudar a situação do nosso país. Espero que o Egito se liberte dos seus ditadores que “babam” pelo poder e encontre homens e mulheres que visem o bem da sua população.
O povo quando age de modo espontâneo consegue coisas que muitas não imaginamos - como é o caso do atual Egito. A população pode se reunir e buscar novos modos de vida. A população só precisa se organizar e dizer um basta aos mecanismos de ditadura que assombra as nossas sociedades. Vamos lá Brasil, vamos nos organizar e dizer um basta para os corruptos de ditam as regras no nosso país, como os políticos que estão no poder, e que legislam, governam e se articulam em causa própria e que não visam o bem comum da nossa república. Como é o caso do presidente do senado José Sarney que representa a oligarquia dos picaretas que sugam o nosso Estado brasileiro em causa própria. Chega de picaretagem, vamos mudar a situação do nosso país. Espero que o Egito se liberte dos seus ditadores que “babam” pelo poder e encontre homens e mulheres que visem o bem da sua população.
Viva o Egito! O faraó morreu, abaixo a ditadura.
Viva o Egito! O faraó morreu, abaixo a ditadura.
Uma multidão comemora a renúncia de Hosni Mubarak nas ruas do Cairo. O anúncio foi feito pelo vice-presidente, Omar Suleiman, em um curto pronunciamento na TV estatal. Segundo fontes do governo, o presidente teria deixado o Cairo com a família e está em uma cidade litorânea.
Fonte: http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1647234-17665,00-HOSNI+MUBARAK+RENUNCIA+A+PRESIDENCIA+DO+EGITO.html acesso em 11/02/2011.
Uma multidão comemora a renúncia de Hosni Mubarak nas ruas do Cairo. O anúncio foi feito pelo vice-presidente, Omar Suleiman, em um curto pronunciamento na TV estatal. Segundo fontes do governo, o presidente teria deixado o Cairo com a família e está em uma cidade litorânea.
Fonte: http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1647234-17665,00-HOSNI+MUBARAK+RENUNCIA+A+PRESIDENCIA+DO+EGITO.html acesso em 11/02/2011.
Wednesday, February 02, 2011
Deus, uma hipótese desnecessária
Outra entrevista interessante sobre o problema do Niilismo nos nossos tempos, podemos conferir abaixo:
Deus, uma hipótese desnecessária
Embasado na Navalha de Ockham, Paolo Flores D’Arcais pontua que não é preciso apelar para Deus a fim de se explicar o surgimento da vida e do Universo. O relativismo de valores é, portanto, consequência do ateísmo, e o solo comum entre cristãos e ateus deve ser suas escolhas ético-políticas
Por: Por Márcia Junges | Tradução: Benno Dischinger
Deus é uma hipótese desnecessária, pois o surgimento do cosmos e da vida são demonstráveis através de proposições explicadas pela ciência, garante o filósofo italiano Paolo Flores D’Arcais, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para dar sustentação ao seu argumento, vale-se da “Navalha de Ockham”, conceito criado pelo filósofo medieval cristão, o inglês Guilherme de Ockham, para assinalar que pluralidades não devem ser postas sem necessidade. “O relativismo dos valores é uma consequência lógica do ateísmo”, completa. Em seu ponto de vista, “a inteira história humana é, de fato, diacrônica e sincronicamente um gigantesco afresco de valores relativos, incompatíveis uns com os outros”. Dessa forma, o relativismo de valores é um fato, o que não implica, necessariamente, o niilismo, “que consiste em considerar todos os valores como equivalentes”. Para D’Arcais, não há sentido na pergunta “no cenário ocidental de relativismo dos valores, qual é o espaço para a solidariedade e a tolerância?”. Outro tema debatido pelo italiano é a “revanche Deus”: “Quando diminui a esperança terrena na luta política e social, é natural que retorne o seu sub-rogado celeste. O fenômeno da ‘revanche de Deus’ diminuirá tão logo tornem maciças as lutas pela democracia radical, com perspectivas críveis de sucesso ao menos parcial”. O terreno comum entre cristãos e ateus “não depende da fé, mas das escolhas ético-políticas de cada um, seja ele ateu ou crente”, define.
D’Arcais é diretor da revista MicroMega, colaborador dos jornais El País, Frankfurter Allgemeine Zeitung e Gazeta Wyborcza. Professor e pesquisador na Faculdade de Filosofia La Sapienza, da Universidade de Roma, escreveu sua tese de doutorado sobre Adam Smith e Karl Marx. Considerado um dos mais importantes críticos de esquerda da Itália, escreveu inúmeros livros, dos quais destacamos: Esistenza e libertà: a partire da Hannah Arendt (Genova, Marietti, 1990); Etica senza fede (Torino, Einaudi, 1992); L' individuo libertario: percorsi di filosofia morale e politica nell'orizzonte del finito (Torino, Einaudi, 1999); e Il sovrano e il dissidente (Milano: Garzanti, 2004).
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Há algum nexo causal entre ateísmo e relativismo de valores?
Paolo Flores D’Arcais - O ateísmo é a simples constatação que: 1) a história inteira do cosmos, do Big Bang até hoje, o nascimento da vida sobre o planeta Terra e a evolução da vida da lombriga até o homo sapiens, são perfeitamente explicados pela ciência, sem necessidade de recorrer à “hipótese Deus” (e segundo a “navalha de Ockham ”, é sempre filosoficamente inaceitável levantar a hipótese de uma causa oculta quando já temos explicações suficientes). E que: 2) o cérebro do homo sapiens é somente uma evolução e modificação do cérebro de um macaco, e todas as partes de um cérebro se desfazem com a decomposição que segue a morte, como também aqueles segmentos extraordinários do neocórtex do pós-símio sapiens que reassumimos sob o nome de “consciência”. Pelo que, após a morte, não pode existir nenhuma vida pessoal, não pode existir algum “do lado de lá”.
O relativismo dos valores é uma consequência lógica do ateísmo. Mas, continuaria inevitável também sem o ateísmo. A inteira história humana é, de fato, diacrônica e sincronicamente um gigantesco afresco de valores relativos, incompatíveis uns com os outros, visto que, como já recordava Pascal (de fato nada ateu e mesmo catolicíssimo), “... (lei) universal não existe nenhuma. O furto, o incesto, o assassinato dos filhos e dos pais, tudo encontrou seu próprio lugar entre as ações virtuosas”. O relativismo dos valores é um fato, inelutável. Há muitos ateus (ou agnósticos) que procuram remover este fato com inexauríveis e falimentares tentativas de redescobrir uma inencontrável “moral natural”. São as várias formas de “cognitivismo ético” que, no entanto, não resistem à reflexão crítica.
Regresso ao infinito
Ninguém ainda conseguiu, de fato, demonstrar (no mesmo sentido da geometria, ou pelo menos da física e da biologia) que uma asserção moral seja verdadeira recorrendo somente a dados empíricos acertados e à lógica. Para fundar uma asserção moral é, ao invés, sempre inevitável recorrer a uma asserção moral precedente, num regresso ao infinito. O valor primeiro (ou último) que funda toda a cadeia é, portanto, indemonstrável. Para alguém será a dignidade igual entre todos os seres humanos, para outro o direito do mais forte a tornar escravo o mais débil. Entre estas duas morais (e muitas outras possíveis) a questão não é de verdade e falsidade, mas de luta (frequentemente mortal).
IHU On-Line - No cenário ocidental de relativismo de valores, qual é o espaço para a solidariedade e a tolerância?
Paolo Flores D’Arcais - A partir do que expliquei acima, o relativismo dos valores é, portanto, um fato. Mas não implica realmente o niilismo que consiste em considerar todos os valores como equivalentes. Quando se reconhece – o que é inevitável na ótica de um pensamento crítico – que o “cognitivismo ético” e toda pretensão de “moral natural” são ilusões metafísicas, disso não segue, de fato, a equivalência dos valores, mas o dever de escolher explicitamente os próprios valores, na consciência que o valor primeiro (ou último) constitui precisamente uma escolha, uma decisão, que não é fundável no plano da verdade. A moral do nazista não é “falsa”, é abjeta porque eu escolhi como fundamento ético da minha existência a igual dignidade entre todos os homens. Mas, sem esta escolha não estou em condições nem de refutar a opção nazista do ponto de vista argumentativo, nem de combatê-la do ponto de vista prático.
Ora, o Ocidente moderno nasce, com o Iluminismo, precisamente a partir desta escolha. O valor de fundo que permite o produzir-se da modernidade ocidental é a autonomia do ser humano (a partir da sinergia historicamente imprevisível e de todo contingente de ciência + heresia). Autós-nomos, dar-se, de si mesmo, a própria lei. O que implica que tal autonomia considere todos e cada um, pois, caso contrário, seria uma nova forma de heteronomia, de submissão da maioria a alguns privilegiados autocratas. Por isso, não tem nenhum sentido perguntar-se: “no cenário ocidental de relativismo dos valores, qual é o espaço para a solidariedade e a tolerância?”, a partir do momento em que o “cenário ocidental” nasce precisamente escolhendo tolerância e solidariedade como inevitáveis articulações do princípio de autós-nomos. Inevitáveis ambas – a tolerância e a solidariedade – sob o perfil lógico, também se historicamente serão conquistadas através de um processo histórico feito de lutas e sofrimentos ao longo de um par de séculos, da revolução americana até o wellfare dos anos 1960; e o princípio de tolerância se tornará então, desde o início, um pôr em jogo da modernidade, sendo que a solidariedade deverá esperar a irrupção no palco do movimento operário.
Por essa razão, de vez em quando se reduz no Ocidente a solidariedade e a tolerância e são os próprios valores do Ocidente que acabam sendo traídos. Deste ponto de vista, podemos dizer que a história da modernidade é a história de um conflito de resultados alternativos entre os valores do autós-nomos (para todos e para cada um) e as resistências do privilégio e do obscurantismo, que aceitam a modernidade somente sob a vertente das vantagens tecnológicas garantidas pelo progresso científico. Mas, ao mesmo tempo, obstaculizam a modernidade e a combatem enquanto possibilidade de conduzir desencanto, laicismo e democracia às suas lógicas consequências libertário-igualitárias. Deste ponto de vista, a modernidade é também a história da luta entre a democracia levada a sério e o establishment que a quer redimensionar como instrumento de conservação. Mas, neste conflito, que em anos mais recentes está assinalando preocupantes vitórias para os impulsos mais reacionários, a Igreja Católica hierárquica tem andado com as oligarquias e contra a “tolerância e solidariedade” (e também é impróprio continuar repetindo que, do ponto de vista histórico e ideológico, o conceito de autonomia é “tributário” à igualdade cristã, pois são duas coisas muitíssimo diversas).
IHU On-Line - A partir do diagnóstico nietzschiano do niilismo e da morte de Deus, abriu-se espaço para uma compreensão do homem que descambou em relativismo de valores. Por outro lado, há um retorno a Deus como salvação para os totalitarismos e a nadificação ou nulificação dos sujeitos. Que impasses e avanços surgem desse panorama do ponto de vista existencial e de autonomia do ser humano?
Paolo Flores D’Arcais - A “revanche de Deus” não nasce como tentativa de salvação contra os totalitarismos e a aniquilação dos sujeitos. Esta é a tese de Wojtyla e Ratzinger, falsa no plano histórico e insustentável nos planos lógico e filosófico (Wojtyla e Ratzinger fazem remontar os totalitarismos ao iluminismo e à pretensão do autós-nomos!). O Deus da Igreja Católica até encontrou, com os totalitarismos fascistas, formas mais que confortáveis de convivência e Mussolini foi até mesmo gratificado por Achille Ratti, mais conhecido como Papa Pio XI , com o título de “homem da Providência”. A onda atual de “revanche de Deus” (etiqueta que cobre fenômenos entre si muito diversos e não assimiláveis, desde os fundamentalismos – seja o islâmico ou o dos telepregadores protestantes, ou ainda o das católicas “Comunhão e libertação ” ou dos “Legionários de Cristo ” – aos sincretismos de religiosidade “new age” ou às seitas que na China renovam as religiões tradicionais) nasce, ao invés, como sub-rogação das esperanças de realização radical da democracia que caracteriza os dias da vitória contra o nazifascismo e, sucessivamente, os movimentos de luta anticolonialista no terceiro mundo, esperança que dos anos 1970 em diante se reduziu progressivamente.
Estas esperanças, que encontram uma última labareda em 1968, vêm sendo frustradas pelo triunfo do liberalismo selvagem de Reagan e Tatcher , pelo progressivo empobrecer-se das democracias ocidentais em “partido-cracias”, e pela metamorfose dos vitoriosos movimentos terceiro-mundistas em oligarquias de governo sempre mais corrompidas e sanguinárias. E a derrota do totalitarismo soviético em 1989 confirma este clima de esperanças frustradas: somente alguns países do Leste conseguem – fatigosamente, contraditoriamente, parcialmente – homologar-se às democracias ocidentais (já em crise com respeito aos valores fundantes de “tolerância e solidariedade”, como temos visto), enquanto a Rússia de Putin se torna modelo de “democracia negada” e a China consegue juntar totalitarismo político e desfrute econômico selvagem.
IHU On-Line - A democracia ocidental se baseia no conceito de autonomia e também é tributária ao cristianismo em função da premissa de igualdade. Como analisa o projeto político da modernidade? Ele está esgotado? Por quê?
Paolo Flores D’Arcais - Quando diminui a esperança terrena na luta política e social, é natural que retorne o seu sub-rogado celeste. O fenômeno da “revanche de Deus” diminuirá tão logo tornem maciças as lutas pela democracia radical, com perspectivas críveis de sucesso ao menos parcial. O projeto político da modernidade não se exauriu por isso, mas é mais que incompleto e, portanto, a ser retomado, porque a realização de “tolerância e solidariedade” se chama precisamente democracia radical.
IHU On-Line - Como podemos falar em moralidade, direitos humanos e verdade numa época tão relativista como a nossa?
Paolo Flores D’Arcais - Os direitos humanos são parte integrante desta luta que deve retornar. Mas para ser “humanos”, devem valer realmente para todos. A declaração de Independência americana, escrita por Thomas Jefferson , fala justamente de “direito à obtenção da felicidade”. Uma felicidade tornada impossível tanto pela falta de liberdade quanto pela desmedida das desigualdades econômicas e sociais. Em 1968 os estudantes de Varsóvia se rebelaram justamente contra o regime comunista, gritando “não há pão sem liberdade”, mas vale obviamente também o recíproco: “não há liberdade sem pão”. É necessário, no entanto, ter claro que os direitos humanos, que devem ser de “pão e liberdade” para todos e para cada um, não são de fato humanos no sentido de serem inscritos espontaneamente no coração do homo sapiens. A prevaricação, a prepotência, a violência, a “lei” do mais forte parecem mesmo ser com frequência a tendência mais natural. Os direitos humanos são, na realidade, direitos civis, escolhidos contra naturam através de lutas democráticas dos séculos mais recentes. Estes direitos civis são filhos do relativismo, porque jamais teriam podido nascer sem o princípio do autós-nomos, incompatível, como é óbvio, com qualquer “soberania de Deus”.
IHU On-Line - Que valores são comuns entre cristãos e ateus?
Paolo Flores D’Arcais - Dadas estas premissas que acabo de expor, existe um terreno comum de ação ente ateus e crentes? Certamente, depende do tipo de ateus e do tipo de crentes. Não existe, de fato, uma moral ateia. Existem tantas e um ateu pode ser uma flor de reacionário. E também não existe uma moral dos crentes, mas tantas quantas as interpretações das religiões. Consequentemente, o terreno comum não depende da fé, mas das escolhas ético-políticas de cada um, seja ele ateu ou crente. Por exemplo, entre ateus democráticos que combatem por “justiça e liberdade” e crentes que levem a sério o Evangelho quando se lança contra os ricos (praticamente em cada página) e quando solicita que “teu dizer sim seja sim e teu dizer não seja não, porque o restante vem do demônio”, há plena consonância.
Fonte: http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3705&secao=354 02/02/2011.
Deus, uma hipótese desnecessária
Embasado na Navalha de Ockham, Paolo Flores D’Arcais pontua que não é preciso apelar para Deus a fim de se explicar o surgimento da vida e do Universo. O relativismo de valores é, portanto, consequência do ateísmo, e o solo comum entre cristãos e ateus deve ser suas escolhas ético-políticas
Por: Por Márcia Junges | Tradução: Benno Dischinger
Deus é uma hipótese desnecessária, pois o surgimento do cosmos e da vida são demonstráveis através de proposições explicadas pela ciência, garante o filósofo italiano Paolo Flores D’Arcais, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para dar sustentação ao seu argumento, vale-se da “Navalha de Ockham”, conceito criado pelo filósofo medieval cristão, o inglês Guilherme de Ockham, para assinalar que pluralidades não devem ser postas sem necessidade. “O relativismo dos valores é uma consequência lógica do ateísmo”, completa. Em seu ponto de vista, “a inteira história humana é, de fato, diacrônica e sincronicamente um gigantesco afresco de valores relativos, incompatíveis uns com os outros”. Dessa forma, o relativismo de valores é um fato, o que não implica, necessariamente, o niilismo, “que consiste em considerar todos os valores como equivalentes”. Para D’Arcais, não há sentido na pergunta “no cenário ocidental de relativismo dos valores, qual é o espaço para a solidariedade e a tolerância?”. Outro tema debatido pelo italiano é a “revanche Deus”: “Quando diminui a esperança terrena na luta política e social, é natural que retorne o seu sub-rogado celeste. O fenômeno da ‘revanche de Deus’ diminuirá tão logo tornem maciças as lutas pela democracia radical, com perspectivas críveis de sucesso ao menos parcial”. O terreno comum entre cristãos e ateus “não depende da fé, mas das escolhas ético-políticas de cada um, seja ele ateu ou crente”, define.
D’Arcais é diretor da revista MicroMega, colaborador dos jornais El País, Frankfurter Allgemeine Zeitung e Gazeta Wyborcza. Professor e pesquisador na Faculdade de Filosofia La Sapienza, da Universidade de Roma, escreveu sua tese de doutorado sobre Adam Smith e Karl Marx. Considerado um dos mais importantes críticos de esquerda da Itália, escreveu inúmeros livros, dos quais destacamos: Esistenza e libertà: a partire da Hannah Arendt (Genova, Marietti, 1990); Etica senza fede (Torino, Einaudi, 1992); L' individuo libertario: percorsi di filosofia morale e politica nell'orizzonte del finito (Torino, Einaudi, 1999); e Il sovrano e il dissidente (Milano: Garzanti, 2004).
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Há algum nexo causal entre ateísmo e relativismo de valores?
Paolo Flores D’Arcais - O ateísmo é a simples constatação que: 1) a história inteira do cosmos, do Big Bang até hoje, o nascimento da vida sobre o planeta Terra e a evolução da vida da lombriga até o homo sapiens, são perfeitamente explicados pela ciência, sem necessidade de recorrer à “hipótese Deus” (e segundo a “navalha de Ockham ”, é sempre filosoficamente inaceitável levantar a hipótese de uma causa oculta quando já temos explicações suficientes). E que: 2) o cérebro do homo sapiens é somente uma evolução e modificação do cérebro de um macaco, e todas as partes de um cérebro se desfazem com a decomposição que segue a morte, como também aqueles segmentos extraordinários do neocórtex do pós-símio sapiens que reassumimos sob o nome de “consciência”. Pelo que, após a morte, não pode existir nenhuma vida pessoal, não pode existir algum “do lado de lá”.
O relativismo dos valores é uma consequência lógica do ateísmo. Mas, continuaria inevitável também sem o ateísmo. A inteira história humana é, de fato, diacrônica e sincronicamente um gigantesco afresco de valores relativos, incompatíveis uns com os outros, visto que, como já recordava Pascal (de fato nada ateu e mesmo catolicíssimo), “... (lei) universal não existe nenhuma. O furto, o incesto, o assassinato dos filhos e dos pais, tudo encontrou seu próprio lugar entre as ações virtuosas”. O relativismo dos valores é um fato, inelutável. Há muitos ateus (ou agnósticos) que procuram remover este fato com inexauríveis e falimentares tentativas de redescobrir uma inencontrável “moral natural”. São as várias formas de “cognitivismo ético” que, no entanto, não resistem à reflexão crítica.
Regresso ao infinito
Ninguém ainda conseguiu, de fato, demonstrar (no mesmo sentido da geometria, ou pelo menos da física e da biologia) que uma asserção moral seja verdadeira recorrendo somente a dados empíricos acertados e à lógica. Para fundar uma asserção moral é, ao invés, sempre inevitável recorrer a uma asserção moral precedente, num regresso ao infinito. O valor primeiro (ou último) que funda toda a cadeia é, portanto, indemonstrável. Para alguém será a dignidade igual entre todos os seres humanos, para outro o direito do mais forte a tornar escravo o mais débil. Entre estas duas morais (e muitas outras possíveis) a questão não é de verdade e falsidade, mas de luta (frequentemente mortal).
IHU On-Line - No cenário ocidental de relativismo de valores, qual é o espaço para a solidariedade e a tolerância?
Paolo Flores D’Arcais - A partir do que expliquei acima, o relativismo dos valores é, portanto, um fato. Mas não implica realmente o niilismo que consiste em considerar todos os valores como equivalentes. Quando se reconhece – o que é inevitável na ótica de um pensamento crítico – que o “cognitivismo ético” e toda pretensão de “moral natural” são ilusões metafísicas, disso não segue, de fato, a equivalência dos valores, mas o dever de escolher explicitamente os próprios valores, na consciência que o valor primeiro (ou último) constitui precisamente uma escolha, uma decisão, que não é fundável no plano da verdade. A moral do nazista não é “falsa”, é abjeta porque eu escolhi como fundamento ético da minha existência a igual dignidade entre todos os homens. Mas, sem esta escolha não estou em condições nem de refutar a opção nazista do ponto de vista argumentativo, nem de combatê-la do ponto de vista prático.
Ora, o Ocidente moderno nasce, com o Iluminismo, precisamente a partir desta escolha. O valor de fundo que permite o produzir-se da modernidade ocidental é a autonomia do ser humano (a partir da sinergia historicamente imprevisível e de todo contingente de ciência + heresia). Autós-nomos, dar-se, de si mesmo, a própria lei. O que implica que tal autonomia considere todos e cada um, pois, caso contrário, seria uma nova forma de heteronomia, de submissão da maioria a alguns privilegiados autocratas. Por isso, não tem nenhum sentido perguntar-se: “no cenário ocidental de relativismo dos valores, qual é o espaço para a solidariedade e a tolerância?”, a partir do momento em que o “cenário ocidental” nasce precisamente escolhendo tolerância e solidariedade como inevitáveis articulações do princípio de autós-nomos. Inevitáveis ambas – a tolerância e a solidariedade – sob o perfil lógico, também se historicamente serão conquistadas através de um processo histórico feito de lutas e sofrimentos ao longo de um par de séculos, da revolução americana até o wellfare dos anos 1960; e o princípio de tolerância se tornará então, desde o início, um pôr em jogo da modernidade, sendo que a solidariedade deverá esperar a irrupção no palco do movimento operário.
Por essa razão, de vez em quando se reduz no Ocidente a solidariedade e a tolerância e são os próprios valores do Ocidente que acabam sendo traídos. Deste ponto de vista, podemos dizer que a história da modernidade é a história de um conflito de resultados alternativos entre os valores do autós-nomos (para todos e para cada um) e as resistências do privilégio e do obscurantismo, que aceitam a modernidade somente sob a vertente das vantagens tecnológicas garantidas pelo progresso científico. Mas, ao mesmo tempo, obstaculizam a modernidade e a combatem enquanto possibilidade de conduzir desencanto, laicismo e democracia às suas lógicas consequências libertário-igualitárias. Deste ponto de vista, a modernidade é também a história da luta entre a democracia levada a sério e o establishment que a quer redimensionar como instrumento de conservação. Mas, neste conflito, que em anos mais recentes está assinalando preocupantes vitórias para os impulsos mais reacionários, a Igreja Católica hierárquica tem andado com as oligarquias e contra a “tolerância e solidariedade” (e também é impróprio continuar repetindo que, do ponto de vista histórico e ideológico, o conceito de autonomia é “tributário” à igualdade cristã, pois são duas coisas muitíssimo diversas).
IHU On-Line - A partir do diagnóstico nietzschiano do niilismo e da morte de Deus, abriu-se espaço para uma compreensão do homem que descambou em relativismo de valores. Por outro lado, há um retorno a Deus como salvação para os totalitarismos e a nadificação ou nulificação dos sujeitos. Que impasses e avanços surgem desse panorama do ponto de vista existencial e de autonomia do ser humano?
Paolo Flores D’Arcais - A “revanche de Deus” não nasce como tentativa de salvação contra os totalitarismos e a aniquilação dos sujeitos. Esta é a tese de Wojtyla e Ratzinger, falsa no plano histórico e insustentável nos planos lógico e filosófico (Wojtyla e Ratzinger fazem remontar os totalitarismos ao iluminismo e à pretensão do autós-nomos!). O Deus da Igreja Católica até encontrou, com os totalitarismos fascistas, formas mais que confortáveis de convivência e Mussolini foi até mesmo gratificado por Achille Ratti, mais conhecido como Papa Pio XI , com o título de “homem da Providência”. A onda atual de “revanche de Deus” (etiqueta que cobre fenômenos entre si muito diversos e não assimiláveis, desde os fundamentalismos – seja o islâmico ou o dos telepregadores protestantes, ou ainda o das católicas “Comunhão e libertação ” ou dos “Legionários de Cristo ” – aos sincretismos de religiosidade “new age” ou às seitas que na China renovam as religiões tradicionais) nasce, ao invés, como sub-rogação das esperanças de realização radical da democracia que caracteriza os dias da vitória contra o nazifascismo e, sucessivamente, os movimentos de luta anticolonialista no terceiro mundo, esperança que dos anos 1970 em diante se reduziu progressivamente.
Estas esperanças, que encontram uma última labareda em 1968, vêm sendo frustradas pelo triunfo do liberalismo selvagem de Reagan e Tatcher , pelo progressivo empobrecer-se das democracias ocidentais em “partido-cracias”, e pela metamorfose dos vitoriosos movimentos terceiro-mundistas em oligarquias de governo sempre mais corrompidas e sanguinárias. E a derrota do totalitarismo soviético em 1989 confirma este clima de esperanças frustradas: somente alguns países do Leste conseguem – fatigosamente, contraditoriamente, parcialmente – homologar-se às democracias ocidentais (já em crise com respeito aos valores fundantes de “tolerância e solidariedade”, como temos visto), enquanto a Rússia de Putin se torna modelo de “democracia negada” e a China consegue juntar totalitarismo político e desfrute econômico selvagem.
IHU On-Line - A democracia ocidental se baseia no conceito de autonomia e também é tributária ao cristianismo em função da premissa de igualdade. Como analisa o projeto político da modernidade? Ele está esgotado? Por quê?
Paolo Flores D’Arcais - Quando diminui a esperança terrena na luta política e social, é natural que retorne o seu sub-rogado celeste. O fenômeno da “revanche de Deus” diminuirá tão logo tornem maciças as lutas pela democracia radical, com perspectivas críveis de sucesso ao menos parcial. O projeto político da modernidade não se exauriu por isso, mas é mais que incompleto e, portanto, a ser retomado, porque a realização de “tolerância e solidariedade” se chama precisamente democracia radical.
IHU On-Line - Como podemos falar em moralidade, direitos humanos e verdade numa época tão relativista como a nossa?
Paolo Flores D’Arcais - Os direitos humanos são parte integrante desta luta que deve retornar. Mas para ser “humanos”, devem valer realmente para todos. A declaração de Independência americana, escrita por Thomas Jefferson , fala justamente de “direito à obtenção da felicidade”. Uma felicidade tornada impossível tanto pela falta de liberdade quanto pela desmedida das desigualdades econômicas e sociais. Em 1968 os estudantes de Varsóvia se rebelaram justamente contra o regime comunista, gritando “não há pão sem liberdade”, mas vale obviamente também o recíproco: “não há liberdade sem pão”. É necessário, no entanto, ter claro que os direitos humanos, que devem ser de “pão e liberdade” para todos e para cada um, não são de fato humanos no sentido de serem inscritos espontaneamente no coração do homo sapiens. A prevaricação, a prepotência, a violência, a “lei” do mais forte parecem mesmo ser com frequência a tendência mais natural. Os direitos humanos são, na realidade, direitos civis, escolhidos contra naturam através de lutas democráticas dos séculos mais recentes. Estes direitos civis são filhos do relativismo, porque jamais teriam podido nascer sem o princípio do autós-nomos, incompatível, como é óbvio, com qualquer “soberania de Deus”.
IHU On-Line - Que valores são comuns entre cristãos e ateus?
Paolo Flores D’Arcais - Dadas estas premissas que acabo de expor, existe um terreno comum de ação ente ateus e crentes? Certamente, depende do tipo de ateus e do tipo de crentes. Não existe, de fato, uma moral ateia. Existem tantas e um ateu pode ser uma flor de reacionário. E também não existe uma moral dos crentes, mas tantas quantas as interpretações das religiões. Consequentemente, o terreno comum não depende da fé, mas das escolhas ético-políticas de cada um, seja ele ateu ou crente. Por exemplo, entre ateus democráticos que combatem por “justiça e liberdade” e crentes que levem a sério o Evangelho quando se lança contra os ricos (praticamente em cada página) e quando solicita que “teu dizer sim seja sim e teu dizer não seja não, porque o restante vem do demônio”, há plena consonância.
Fonte: http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3705&secao=354 02/02/2011.
Niilismo e mercadejo ético brasileiro
Uma entrevista interessante sobre o problema do niilismo - podemos conferir abaixo:
Niilismo e mercadejo ético brasileiro
Corrosão “de alto a baixo” no caráter de indivíduos e grupos e supervalorização do mercado são traços peculiares do niilismo em terras brasileiras, acentua o filósofo Roberto Romano. A ocidentalização do mundo pulverizou o etnocentrismo dissolvente dos paradigmas milenares
Por: Márcia Junges
“O século XX consagra o padrão ocidental de vida, de valores, de técnicas e ciências”, não sem receber reações contra essa “pulverização axiológica do Ocidente”, pondera o filósofo Roberto Romano em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Refletindo sobre o nexo que une niilismo ético e relativismo de valores no século XXI, afirma que “vivemos sob o signo das Luzes europeias e do etnocentrismo que ajudou a corroer paradigmas éticos milenares, no Ocidente e no Oriente”. Romano assinala haver no Brasil “uma peculiar corrosão ética não alheia ao capitalismo, como nas práticas do favor que atravessam todas as relações sociais e políticas”. Em sua opinião, vivemos num “mercadejo ético”, no qual “o caráter dos indivíduos e grupos é corroído de alto a baixo”. E continua: “Nosso Estado preza mais o mercado (inclusive eleitoral) do que as pessoas. Aqui, todos são meios e raros conseguem, pagando preço altíssimo, viver consigo mesmos o segredo da consciência moral. O mercado exerce uma corrosão previsível e impiedosa em todos os setores da vida, incluindo a universidade”. Questionado se o projeto político moderno está arruinado, disse que é arriscado dar um veredito. “Se irá prosperar em detrimento das grandes matrizes éticas e religiosas, não sabemos”.
Roberto Romano cursou doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales - EHESS, na França, e é professor de filosofia na Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Escreveu, entre outros, os livros Igreja contra Estado. Crítica ao populismo católico (São Paulo: Kairós, 1979), Conservadorismo romântico (2ª ed. São Paulo: Ed. UNESP, 1997) e Moral e Ciência. A monstruosidade no século XVIII (São Paulo: Senac Ed., 2002). Atualmente, leciona na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Confira a entrevista.
IHU On-Line - O que explica o niilismo ético e o relativismo de valores que presenciamos no século XXI?
Roberto Romano - Seria tarefa própria a quem se caracteriza pela hybris discorrer sobre todos os prismas da pergunta. Ela é importante, diria mesmo que vital, mas numa entrevista as respostas tombariam no dogmatismo ou na superficialidade. Posso evocar a fábula que narra como produzimos a forma que reconhecemos hoje em nós e nos nossos iguais. Para a fábula, uso noções trazidas pelo saudoso André Leroi-Gourhan . Os homens construíram seu corpo e mente em milênios de tecnologia. Eles verticalizaram a espinha, diminuíram o queixo, aumentaram a caixa craniana e alargaram o campo de visão, o que tornou possível perceber as gradações de espaço e tempo. “Somos inteligentes, porque ficamos de pé”, diz o etnólogo. Eles diminuíram os braços e os tornaram capazes de operar com as mãos e a boca, inventaram a linguagem. Fabricaram instrumentos que permitem agarrar entes naturais dando-lhes sentido útil. O sistema inteiro ainda hoje está em progresso, sobretudo no lado tecnológico. Na faina incessante, idealizaram paradigmas a serem obedecidos nos macroeventos e microeventos da vida coletiva e individual (o indivíduo foi invenção técnica). Na história de todo o nosso parto, diz Gourhan, usamos capacidades contraditórias, o empréstimo e a invenção. Nenhum coletivo humano vive sem emprestar técnicas, cultura e valores de outros. E nenhum deles se desenvolve sem possuir força inventiva própria. Só pode emprestar com eficácia quem for capaz de inventar, e vice-versa.
Em momentos anteriores de nossa apropriação de corpo e mente, valores serviram como paradigmas de ação para os mais diversos grupos. Mas desde longa data os entes humanos entraram em circuitos amplos e diversificados de trato, uns com os outros. Se prestarmos atenção nos complexos civilizatórios, da China ao Egito antigo, da Grécia a Roma, do Renascimento aos nossos dias, nenhum deles é imune à dialética da invenção e do empréstimo. Isso, sem falar na pilhagem de saberes e técnicas, como no caso do Ocidente que assaltou os conhecimentos chineses e orientais durante as chamadas “Grandes Descobertas”. E também o que se passa no trato industrial, quando roubos de tecnologia são costumeiros de país a país. Quanto mais amplo e eficaz, para seus habitantes, o amálgama de valores e técnicas, maior poder possui um coletivo, inclusive porque os empréstimos e invenções são dirigidos, quase imediatamente, para a guerra.
Abismo de ideias
Até o século XIX, no entanto, os conglomerados culturais, étnicos e políticos eram orientados por modelos que eles encontraram e que definiam seus traços principais. Com o imperialismo colonial do Ocidente aumenta a rapidez no trânsito dos empréstimos e das invenções. Diferenças culturais se atenuam em proveito dos ocidentais. Não faltou no Ocidente quem tenha defendido outro modelo que não o definido na Europa, para o trato com a Ásia e a África. Leibniz pensou o ecumenismo não apenas entre europeus, mas entre todos os povos. No caso do catolicismo, o fracasso foi evidente. Os jesuítas (apoiados por Leibniz) queriam preservar na China o culto aos ancestrais, vestes chinesas e filosofia confuciana nos ritos cristãos . Os dominicanos exigiam abolir o culto aos antepassados, vestes romanas, proibição das doutrinas de Confúcio. Venceram os dominicanos e, com eles, o diálogo entre Europa e China foi obstruído até hoje. Apesar de toda a sua boa vontade, os missionários católicos e protestantes na China, no Oriente e na África, não se desvincularam dos poderes coloniais europeus. Se lembrarmos que na China os ingleses colocavam na porta de seus clubes um aviso que proibia a entrada de cães e de chineses, percebemos o abismo entre as ideias ecumênicas de Leibniz e jesuítas e a efetividade histórica.
O século XX consagra o padrão ocidental de vida, de valores, de técnicas e ciências. Leroi-Gourhan, nos seus últimos dias, se preocupava com a inusitada atenuação das diferenças culturais, em proveito dos parâmetros ocidentais. Hollywood era vista por ele como a indústria que, por meio do star system, impunha padrões aos demais continentes, corroendo os valores e as forças inventivas das suas culturas, obrigadas ao empréstimo pela propaganda maciça e pelas armas.
Ocidentalização
Deixemos a fábula e sigamos o adensamento populacional. As cidades, das pequenas às metrópoles, são inventos técnicos. Quanto menor um coletivo, menor número de instrumentos de comunicação, governo, cultura ele movimenta. E mais sólidos se mostram aqueles valores na mente coletiva. O campo ético, ali, é mais denso e compacto, não permite desvios substanciais. Quanto maior o coletivo, mais os valores recebem matizes complexos. Chegamos ao que diz Weber sobre o politeísmo dos valores. O passo não se dá sem quebras internas nos vários sistemas culturais. O imperialismo colonial efetivou tal tarefa em séculos de imposição pelas armas, astúcias diplomáticas, controle das comunicações. Com a última revolução técnica de alcance mundial, nas trocas entre culturas, a da informática (com a internet, a TV a cabo, etc.) os padrões ocidentais, inclusive o nivelamento por baixo dos valores, anunciavam uma vitória definitiva.
Para surpresa de teóricos e políticos, coletivos não ocidentais se mostram capazes de emprestar elementos da “nossa” cultura e também de inventar ou reinventar novas formas. E mais, dentro da própria cultura ocidental se cristalizam movimentos contrários ao politeísmo dos valores. Trata-se, entre outros, do fenômeno ainda não estudado em profundidade merecida, que se afirma sob o título de fundamentalismo. Católicos, protestantes, islamitas condensam seus laços com o passado e reagem contra a pulverização axiológica do Ocidente. As grandes matrizes éticas, com uso da tecnologia mais avançada, entram em campanha contra parte do Ocidente que se expandiu desde o século XV.
Aquelas matrizes (confucionismo e budismo na China, Índia e outros; o judaísmo e o cristianismo na Europa e nas colônias europeias, além dos países eslavos; o islamismo na Índia, no Paquistão, no Oriente Médio) definem até hoje um sistema interno de valores e atos. Mas na Europa e setores norte e sul-americanos, se firmou uma tênue camada social definida pelo que se convencionou chamar de “mundo secularizado”. Com a Renascença, as Luzes, os Estados independentes das igrejas, os valores mantidos pelas matrizes éticas mencionadas recebem corrosão virulenta. A parceria entre burgueses e líderes colonialistas, potenciada por intelectuais livres das amarras religiosas, gradativamente e com maior rapidez passou a corroer certezas coletivas que se ancoravam no Eterno ou na ordem natural.
Dissolução e estraçalhamento do indivíduo
A tarefa corrosiva conduzida pela burguesia e seus intelectuais foi descrita por Hegel e Marx . Para mencionar o mundo ético, Hegel usa com frequência inquietante o termo “dissolução” (Auflösung). Na “Filosofia Real” ele define o elemento químico quando unido ao calor: “a matéria calórica é existência, possibilidade de difundir-se perfeitamente; os elementos já estão perfeitamente dissolvidos, carecem entre si de massa, de existência (...). Trata-se da matéria, dissolvida por si mesma (...) que existe enquanto dissolução”. Da química, Hegel vai ao orgânico e guarda o termo “dissolução”. O sangue, no animal, “é a simples dissolução que não apenas contém tudo, mas que é calor, unidade de si e da figura, o devorar-se a si mesmo. Desse modo, o organismo está tenso como indivíduo inteiro perante o exterior, tem fome e sede. É um todo que devora a si mesmo”. No mundo espiritual, humano, a concepção hegeliana do elo entre indivíduos e todo social é de unidade e compenetração. O todo só é através do singular. E o singular só no universal encontra a base de sua existência. Caso o indivíduo se apoie apenas em si mesmo, negando o universal, faz surgir o ideal. Este, por sua vez, começa a dissolver o Todo existente. O mundo ético já se encontra elaborado para o indivíduo na aparência de necessidade externa. Mas a adesão à racionalidade objetiva do Estado pode ser uma submissão simples, ou nascer de um recolhimento livre e meditado.
Ao discutir O sobrinho de Rameau , Hegel descreve o indivíduo e seu estraçalhamento. Ali, os elementos sólidos se dissolvem numa perversão generalizada. Na vida contemporânea, diz o filósofo, “o Bem e o Mal, ou a consciência do bem e do mal, nobre e vil, são desprovidos de verdade; todos esses momentos se pervertem uns nos outros e cada um deles é o oposto de si mesmo”. No reino do “puro cultivo” o espelhamento rege indivíduos e grupos. Todos os partícipes da experiência social nela se integram de modo pervertido: “exercem um para o outro uma justiça universal; cada um tornou-se estranho a si mesmo, em si mesmo, enquanto se insinua em seu oposto, e o perverte do mesmo jeito”.
A “boa consciência” quer “moralizar” o mundo. Mas, se “lamenta a dissolução (Auflösung) de todo esse mundo perverso, ela não pode pedir ao indivíduo que o abandone, pois o próprio Diógenes em seu tonel é por ele condicionado...”. Quem possui consciência ética do mundo sofre. E faz sofrer. É como um turbilhão dissolvente. O mundo, na sua consciência, “tem, sobre si mesmo, o sentimento mais doloroso e o olhar mais verdadeiro - o sentimento de ser a dissolução (Auflösung) de tudo o que se consolida, de ser dilacerado através de todos os momentos de sua existência, fragmentado em todos os seus ossos. Ele é, também, a linguagem desse sentimento e do discurso espirituoso que julga todos os lados de sua condição...”.
Paradigmas corroídos
Vejamos, em diapasão similar, o Manifesto Comunista . Com a burguesia, “todas as relações sociais sólidas tornaram-se enferrujadas; com seu cortejo de concepções e intuições se dissolvem; as que subsistem envelhecem antes de esclerosar. Tudo o que era estabelecido e estável evapora; tudo o que era sagrado se profana. Os homens são, finalmente, constrangidos a considerar com um olho desiludido o lugar que ocupam na vida e nas suas mútuas relações”.
Espero ter sugerido uma via para pensar a questão posta. Não imagino que ela explique o abismo em que nos encontramos. Mas a partir daquele ângulo é possível seguir outros, tão ou mais relevantes para se entender a pergunta. Eu mesmo desenvolvi o problema em escritos, como, por exemplo, o artigo O sublime e o prosaico: Revolução contra reforma , ou também A crise dos paradigmas e a emergência da reflexão ética, hoje” .
Vivemos sob o signo das Luzes europeias e do etnocentrismo que ajudou a corroer paradigmas éticos milenares, no Ocidente e no Oriente. Tais paradigmas foram inventados ou emprestados. O niilismo reside sobremodo nas culturas secularizadas do Ocidente. Nas demais partes do mundo são mantidos os modelos axiológicos antigos, mesmo que revitalizados pelas técnicas e artes (pela internet e labor científico). Um país preso a matrizes rígidas, como o Irã, não por acaso tenta, de modo certo ou não, fabricar artefatos atômicos.
IHU On-Line - Há peculiaridades desse relativismo no caso da sociedade brasileira? Quais seriam elas?
Roberto Romano - No caso brasileiro, a franja da sociedade que se move pelos rescaldos das Luzes, da democracia liberal, do ceticismo enquanto via de pensamento, é ainda mais diminuta do que na Europa e nos EUA. Ocorre entre nós, na verdade, uma peculiar corrosão ética não alheia ao capitalismo, como nas práticas do favor que atravessam todas as relações sociais e políticas. Maria Sylvia Carvalho Franco , em Homens Livres na Ordem Escravocrata mostra que no Brasil as formas violentas e corrosivas do trato social têm origem capitalista e não em supostas heranças pré-capitalistas. No mercadejo ético em que nos inserimos, o caráter dos indivíduos e grupos é corroído de alto a baixo. Aliás, uma releitura urgente, para captar os nossos dilemas coletivos, é o livro atualíssimo de Emmanuel Mounier , O Tratado do Caráter, infelizmente até hoje não traduzido para o vernáculo.
IHU On-Line - Qual seria o solo comum para o entendimento dos seres humanos numa sociedade com essas características niilistas?
Roberto Romano - Eu diria, não em tom de blague, que a existência numa “sociedade” assim se resumiria no enunciado posto em peça teatral tremenda, Huis Clos : “Cada um de nós é o carrasco dos outros”. Donde... “l’enfer c’est les autres” (o inferno são os outros).
IHU On-Line - Que tipo de ética se faz necessária em nossos dias?
Roberto Romano - Claude Lefort , meu orientador de doutorado falecido recentemente, escreveu um belo texto intitulado A invenção democrática: os limites da dominação totalitária (São Paulo Brasiliense, 1983). Recordando o esquema acima, de Gourhan, penso que precisamos de imaginação e força intelectual suficientes para inventar novas sendas éticas, não deixando de emprestar formas e valores do nosso passado e do pretérito da humanidade. Para tal faina o primeiro passo, e não faço um paradoxo, é realizar uma “époche” do que vivemos no presente. O caminho da fenomenologia ainda é um instrumento seguro para sabermos o que fazemos e pensamos. A partir da base essencial que preside nossa consciência poderemos inventar elos novos entre indivíduos, grupos, povos.
IHU On-Line - Em outra entrevista à IHU On-Line, o senhor afirmou que o Brasil é um Estado “despótico e inimigo dos diretos humanos”. Como essa afirmação se relaciona com o niilismo ético e político que vivemos em nosso país?
Roberto Romano - Nosso Estado preza mais o mercado (inclusive eleitoral) do que as pessoas. Aqui, todos são meios e raros conseguem, pagando preço altíssimo, viver consigo mesmos o segredo da consciência moral. O mercado exerce uma corrosão previsível e impiedosa em todos os setores da vida, incluindo a universidade.
IHU On-Line - Em que medida o pós-humanismo é o passaporte que concretiza essa corrosão das instituições e dos valores, iniciada séculos atrás?
Roberto Romano - Eu diria que o próprio humanismo tem sua face desumana. Mesmo autores das Luzes como Montesquieu e Diderot , para não falar de Hume e de outros, mostram uma face etnocêntrica nada favorável aos direitos humanos. Um livro essencial para os nossos dias e reflexão, penso, é o de Laurent Estève (Montesquieu, Rousseau, Diderot: du genre humain ao bois d’Ébène, les silences du droit naturel. Editions Unesco, 2002). Ali, notamos o quanto alguns ícones das Luzes são bastante... tenebrosos. O que se chama de pós-humanismo, no meu entender, é o disfarce de um rosto enodoado de crimes, uma face de Dorian Gray .
IHU On-Line - Para Agamben , o campo de concentração é o paradigma político da modernidade. Como essa constatação nos ajuda a compreender a política praticada no Ocidente?
Roberto Romano - Eu relativizaria o enunciado. A prudência indica ser preciso buscar vários modelos para a intelecção da política ocidental.
IHU On-Line - Acredita que o projeto político da modernidade está esgotado? Por quê?
Roberto Romano - Não sabemos. E se arrisca muito quem disser algo em sentido positivo ou negativo. A “modernidade” está unida ao processo da cultura secularizada, como a indiquei acima. Trata-se de um complexo ideal e fenomênico recente na história humana. Se irá prosperar em detrimento das grandes matrizes éticas e religiosas, não sabemos.
Fonte: http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3703&secao=354 02/02/2011.
Niilismo e mercadejo ético brasileiro
Corrosão “de alto a baixo” no caráter de indivíduos e grupos e supervalorização do mercado são traços peculiares do niilismo em terras brasileiras, acentua o filósofo Roberto Romano. A ocidentalização do mundo pulverizou o etnocentrismo dissolvente dos paradigmas milenares
Por: Márcia Junges
“O século XX consagra o padrão ocidental de vida, de valores, de técnicas e ciências”, não sem receber reações contra essa “pulverização axiológica do Ocidente”, pondera o filósofo Roberto Romano em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Refletindo sobre o nexo que une niilismo ético e relativismo de valores no século XXI, afirma que “vivemos sob o signo das Luzes europeias e do etnocentrismo que ajudou a corroer paradigmas éticos milenares, no Ocidente e no Oriente”. Romano assinala haver no Brasil “uma peculiar corrosão ética não alheia ao capitalismo, como nas práticas do favor que atravessam todas as relações sociais e políticas”. Em sua opinião, vivemos num “mercadejo ético”, no qual “o caráter dos indivíduos e grupos é corroído de alto a baixo”. E continua: “Nosso Estado preza mais o mercado (inclusive eleitoral) do que as pessoas. Aqui, todos são meios e raros conseguem, pagando preço altíssimo, viver consigo mesmos o segredo da consciência moral. O mercado exerce uma corrosão previsível e impiedosa em todos os setores da vida, incluindo a universidade”. Questionado se o projeto político moderno está arruinado, disse que é arriscado dar um veredito. “Se irá prosperar em detrimento das grandes matrizes éticas e religiosas, não sabemos”.
Roberto Romano cursou doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales - EHESS, na França, e é professor de filosofia na Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Escreveu, entre outros, os livros Igreja contra Estado. Crítica ao populismo católico (São Paulo: Kairós, 1979), Conservadorismo romântico (2ª ed. São Paulo: Ed. UNESP, 1997) e Moral e Ciência. A monstruosidade no século XVIII (São Paulo: Senac Ed., 2002). Atualmente, leciona na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Confira a entrevista.
IHU On-Line - O que explica o niilismo ético e o relativismo de valores que presenciamos no século XXI?
Roberto Romano - Seria tarefa própria a quem se caracteriza pela hybris discorrer sobre todos os prismas da pergunta. Ela é importante, diria mesmo que vital, mas numa entrevista as respostas tombariam no dogmatismo ou na superficialidade. Posso evocar a fábula que narra como produzimos a forma que reconhecemos hoje em nós e nos nossos iguais. Para a fábula, uso noções trazidas pelo saudoso André Leroi-Gourhan . Os homens construíram seu corpo e mente em milênios de tecnologia. Eles verticalizaram a espinha, diminuíram o queixo, aumentaram a caixa craniana e alargaram o campo de visão, o que tornou possível perceber as gradações de espaço e tempo. “Somos inteligentes, porque ficamos de pé”, diz o etnólogo. Eles diminuíram os braços e os tornaram capazes de operar com as mãos e a boca, inventaram a linguagem. Fabricaram instrumentos que permitem agarrar entes naturais dando-lhes sentido útil. O sistema inteiro ainda hoje está em progresso, sobretudo no lado tecnológico. Na faina incessante, idealizaram paradigmas a serem obedecidos nos macroeventos e microeventos da vida coletiva e individual (o indivíduo foi invenção técnica). Na história de todo o nosso parto, diz Gourhan, usamos capacidades contraditórias, o empréstimo e a invenção. Nenhum coletivo humano vive sem emprestar técnicas, cultura e valores de outros. E nenhum deles se desenvolve sem possuir força inventiva própria. Só pode emprestar com eficácia quem for capaz de inventar, e vice-versa.
Em momentos anteriores de nossa apropriação de corpo e mente, valores serviram como paradigmas de ação para os mais diversos grupos. Mas desde longa data os entes humanos entraram em circuitos amplos e diversificados de trato, uns com os outros. Se prestarmos atenção nos complexos civilizatórios, da China ao Egito antigo, da Grécia a Roma, do Renascimento aos nossos dias, nenhum deles é imune à dialética da invenção e do empréstimo. Isso, sem falar na pilhagem de saberes e técnicas, como no caso do Ocidente que assaltou os conhecimentos chineses e orientais durante as chamadas “Grandes Descobertas”. E também o que se passa no trato industrial, quando roubos de tecnologia são costumeiros de país a país. Quanto mais amplo e eficaz, para seus habitantes, o amálgama de valores e técnicas, maior poder possui um coletivo, inclusive porque os empréstimos e invenções são dirigidos, quase imediatamente, para a guerra.
Abismo de ideias
Até o século XIX, no entanto, os conglomerados culturais, étnicos e políticos eram orientados por modelos que eles encontraram e que definiam seus traços principais. Com o imperialismo colonial do Ocidente aumenta a rapidez no trânsito dos empréstimos e das invenções. Diferenças culturais se atenuam em proveito dos ocidentais. Não faltou no Ocidente quem tenha defendido outro modelo que não o definido na Europa, para o trato com a Ásia e a África. Leibniz pensou o ecumenismo não apenas entre europeus, mas entre todos os povos. No caso do catolicismo, o fracasso foi evidente. Os jesuítas (apoiados por Leibniz) queriam preservar na China o culto aos ancestrais, vestes chinesas e filosofia confuciana nos ritos cristãos . Os dominicanos exigiam abolir o culto aos antepassados, vestes romanas, proibição das doutrinas de Confúcio. Venceram os dominicanos e, com eles, o diálogo entre Europa e China foi obstruído até hoje. Apesar de toda a sua boa vontade, os missionários católicos e protestantes na China, no Oriente e na África, não se desvincularam dos poderes coloniais europeus. Se lembrarmos que na China os ingleses colocavam na porta de seus clubes um aviso que proibia a entrada de cães e de chineses, percebemos o abismo entre as ideias ecumênicas de Leibniz e jesuítas e a efetividade histórica.
O século XX consagra o padrão ocidental de vida, de valores, de técnicas e ciências. Leroi-Gourhan, nos seus últimos dias, se preocupava com a inusitada atenuação das diferenças culturais, em proveito dos parâmetros ocidentais. Hollywood era vista por ele como a indústria que, por meio do star system, impunha padrões aos demais continentes, corroendo os valores e as forças inventivas das suas culturas, obrigadas ao empréstimo pela propaganda maciça e pelas armas.
Ocidentalização
Deixemos a fábula e sigamos o adensamento populacional. As cidades, das pequenas às metrópoles, são inventos técnicos. Quanto menor um coletivo, menor número de instrumentos de comunicação, governo, cultura ele movimenta. E mais sólidos se mostram aqueles valores na mente coletiva. O campo ético, ali, é mais denso e compacto, não permite desvios substanciais. Quanto maior o coletivo, mais os valores recebem matizes complexos. Chegamos ao que diz Weber sobre o politeísmo dos valores. O passo não se dá sem quebras internas nos vários sistemas culturais. O imperialismo colonial efetivou tal tarefa em séculos de imposição pelas armas, astúcias diplomáticas, controle das comunicações. Com a última revolução técnica de alcance mundial, nas trocas entre culturas, a da informática (com a internet, a TV a cabo, etc.) os padrões ocidentais, inclusive o nivelamento por baixo dos valores, anunciavam uma vitória definitiva.
Para surpresa de teóricos e políticos, coletivos não ocidentais se mostram capazes de emprestar elementos da “nossa” cultura e também de inventar ou reinventar novas formas. E mais, dentro da própria cultura ocidental se cristalizam movimentos contrários ao politeísmo dos valores. Trata-se, entre outros, do fenômeno ainda não estudado em profundidade merecida, que se afirma sob o título de fundamentalismo. Católicos, protestantes, islamitas condensam seus laços com o passado e reagem contra a pulverização axiológica do Ocidente. As grandes matrizes éticas, com uso da tecnologia mais avançada, entram em campanha contra parte do Ocidente que se expandiu desde o século XV.
Aquelas matrizes (confucionismo e budismo na China, Índia e outros; o judaísmo e o cristianismo na Europa e nas colônias europeias, além dos países eslavos; o islamismo na Índia, no Paquistão, no Oriente Médio) definem até hoje um sistema interno de valores e atos. Mas na Europa e setores norte e sul-americanos, se firmou uma tênue camada social definida pelo que se convencionou chamar de “mundo secularizado”. Com a Renascença, as Luzes, os Estados independentes das igrejas, os valores mantidos pelas matrizes éticas mencionadas recebem corrosão virulenta. A parceria entre burgueses e líderes colonialistas, potenciada por intelectuais livres das amarras religiosas, gradativamente e com maior rapidez passou a corroer certezas coletivas que se ancoravam no Eterno ou na ordem natural.
Dissolução e estraçalhamento do indivíduo
A tarefa corrosiva conduzida pela burguesia e seus intelectuais foi descrita por Hegel e Marx . Para mencionar o mundo ético, Hegel usa com frequência inquietante o termo “dissolução” (Auflösung). Na “Filosofia Real” ele define o elemento químico quando unido ao calor: “a matéria calórica é existência, possibilidade de difundir-se perfeitamente; os elementos já estão perfeitamente dissolvidos, carecem entre si de massa, de existência (...). Trata-se da matéria, dissolvida por si mesma (...) que existe enquanto dissolução”. Da química, Hegel vai ao orgânico e guarda o termo “dissolução”. O sangue, no animal, “é a simples dissolução que não apenas contém tudo, mas que é calor, unidade de si e da figura, o devorar-se a si mesmo. Desse modo, o organismo está tenso como indivíduo inteiro perante o exterior, tem fome e sede. É um todo que devora a si mesmo”. No mundo espiritual, humano, a concepção hegeliana do elo entre indivíduos e todo social é de unidade e compenetração. O todo só é através do singular. E o singular só no universal encontra a base de sua existência. Caso o indivíduo se apoie apenas em si mesmo, negando o universal, faz surgir o ideal. Este, por sua vez, começa a dissolver o Todo existente. O mundo ético já se encontra elaborado para o indivíduo na aparência de necessidade externa. Mas a adesão à racionalidade objetiva do Estado pode ser uma submissão simples, ou nascer de um recolhimento livre e meditado.
Ao discutir O sobrinho de Rameau , Hegel descreve o indivíduo e seu estraçalhamento. Ali, os elementos sólidos se dissolvem numa perversão generalizada. Na vida contemporânea, diz o filósofo, “o Bem e o Mal, ou a consciência do bem e do mal, nobre e vil, são desprovidos de verdade; todos esses momentos se pervertem uns nos outros e cada um deles é o oposto de si mesmo”. No reino do “puro cultivo” o espelhamento rege indivíduos e grupos. Todos os partícipes da experiência social nela se integram de modo pervertido: “exercem um para o outro uma justiça universal; cada um tornou-se estranho a si mesmo, em si mesmo, enquanto se insinua em seu oposto, e o perverte do mesmo jeito”.
A “boa consciência” quer “moralizar” o mundo. Mas, se “lamenta a dissolução (Auflösung) de todo esse mundo perverso, ela não pode pedir ao indivíduo que o abandone, pois o próprio Diógenes em seu tonel é por ele condicionado...”. Quem possui consciência ética do mundo sofre. E faz sofrer. É como um turbilhão dissolvente. O mundo, na sua consciência, “tem, sobre si mesmo, o sentimento mais doloroso e o olhar mais verdadeiro - o sentimento de ser a dissolução (Auflösung) de tudo o que se consolida, de ser dilacerado através de todos os momentos de sua existência, fragmentado em todos os seus ossos. Ele é, também, a linguagem desse sentimento e do discurso espirituoso que julga todos os lados de sua condição...”.
Paradigmas corroídos
Vejamos, em diapasão similar, o Manifesto Comunista . Com a burguesia, “todas as relações sociais sólidas tornaram-se enferrujadas; com seu cortejo de concepções e intuições se dissolvem; as que subsistem envelhecem antes de esclerosar. Tudo o que era estabelecido e estável evapora; tudo o que era sagrado se profana. Os homens são, finalmente, constrangidos a considerar com um olho desiludido o lugar que ocupam na vida e nas suas mútuas relações”.
Espero ter sugerido uma via para pensar a questão posta. Não imagino que ela explique o abismo em que nos encontramos. Mas a partir daquele ângulo é possível seguir outros, tão ou mais relevantes para se entender a pergunta. Eu mesmo desenvolvi o problema em escritos, como, por exemplo, o artigo O sublime e o prosaico: Revolução contra reforma , ou também A crise dos paradigmas e a emergência da reflexão ética, hoje” .
Vivemos sob o signo das Luzes europeias e do etnocentrismo que ajudou a corroer paradigmas éticos milenares, no Ocidente e no Oriente. Tais paradigmas foram inventados ou emprestados. O niilismo reside sobremodo nas culturas secularizadas do Ocidente. Nas demais partes do mundo são mantidos os modelos axiológicos antigos, mesmo que revitalizados pelas técnicas e artes (pela internet e labor científico). Um país preso a matrizes rígidas, como o Irã, não por acaso tenta, de modo certo ou não, fabricar artefatos atômicos.
IHU On-Line - Há peculiaridades desse relativismo no caso da sociedade brasileira? Quais seriam elas?
Roberto Romano - No caso brasileiro, a franja da sociedade que se move pelos rescaldos das Luzes, da democracia liberal, do ceticismo enquanto via de pensamento, é ainda mais diminuta do que na Europa e nos EUA. Ocorre entre nós, na verdade, uma peculiar corrosão ética não alheia ao capitalismo, como nas práticas do favor que atravessam todas as relações sociais e políticas. Maria Sylvia Carvalho Franco , em Homens Livres na Ordem Escravocrata mostra que no Brasil as formas violentas e corrosivas do trato social têm origem capitalista e não em supostas heranças pré-capitalistas. No mercadejo ético em que nos inserimos, o caráter dos indivíduos e grupos é corroído de alto a baixo. Aliás, uma releitura urgente, para captar os nossos dilemas coletivos, é o livro atualíssimo de Emmanuel Mounier , O Tratado do Caráter, infelizmente até hoje não traduzido para o vernáculo.
IHU On-Line - Qual seria o solo comum para o entendimento dos seres humanos numa sociedade com essas características niilistas?
Roberto Romano - Eu diria, não em tom de blague, que a existência numa “sociedade” assim se resumiria no enunciado posto em peça teatral tremenda, Huis Clos : “Cada um de nós é o carrasco dos outros”. Donde... “l’enfer c’est les autres” (o inferno são os outros).
IHU On-Line - Que tipo de ética se faz necessária em nossos dias?
Roberto Romano - Claude Lefort , meu orientador de doutorado falecido recentemente, escreveu um belo texto intitulado A invenção democrática: os limites da dominação totalitária (São Paulo Brasiliense, 1983). Recordando o esquema acima, de Gourhan, penso que precisamos de imaginação e força intelectual suficientes para inventar novas sendas éticas, não deixando de emprestar formas e valores do nosso passado e do pretérito da humanidade. Para tal faina o primeiro passo, e não faço um paradoxo, é realizar uma “époche” do que vivemos no presente. O caminho da fenomenologia ainda é um instrumento seguro para sabermos o que fazemos e pensamos. A partir da base essencial que preside nossa consciência poderemos inventar elos novos entre indivíduos, grupos, povos.
IHU On-Line - Em outra entrevista à IHU On-Line, o senhor afirmou que o Brasil é um Estado “despótico e inimigo dos diretos humanos”. Como essa afirmação se relaciona com o niilismo ético e político que vivemos em nosso país?
Roberto Romano - Nosso Estado preza mais o mercado (inclusive eleitoral) do que as pessoas. Aqui, todos são meios e raros conseguem, pagando preço altíssimo, viver consigo mesmos o segredo da consciência moral. O mercado exerce uma corrosão previsível e impiedosa em todos os setores da vida, incluindo a universidade.
IHU On-Line - Em que medida o pós-humanismo é o passaporte que concretiza essa corrosão das instituições e dos valores, iniciada séculos atrás?
Roberto Romano - Eu diria que o próprio humanismo tem sua face desumana. Mesmo autores das Luzes como Montesquieu e Diderot , para não falar de Hume e de outros, mostram uma face etnocêntrica nada favorável aos direitos humanos. Um livro essencial para os nossos dias e reflexão, penso, é o de Laurent Estève (Montesquieu, Rousseau, Diderot: du genre humain ao bois d’Ébène, les silences du droit naturel. Editions Unesco, 2002). Ali, notamos o quanto alguns ícones das Luzes são bastante... tenebrosos. O que se chama de pós-humanismo, no meu entender, é o disfarce de um rosto enodoado de crimes, uma face de Dorian Gray .
IHU On-Line - Para Agamben , o campo de concentração é o paradigma político da modernidade. Como essa constatação nos ajuda a compreender a política praticada no Ocidente?
Roberto Romano - Eu relativizaria o enunciado. A prudência indica ser preciso buscar vários modelos para a intelecção da política ocidental.
IHU On-Line - Acredita que o projeto político da modernidade está esgotado? Por quê?
Roberto Romano - Não sabemos. E se arrisca muito quem disser algo em sentido positivo ou negativo. A “modernidade” está unida ao processo da cultura secularizada, como a indiquei acima. Trata-se de um complexo ideal e fenomênico recente na história humana. Se irá prosperar em detrimento das grandes matrizes éticas e religiosas, não sabemos.
Fonte: http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3703&secao=354 02/02/2011.
Tuesday, October 26, 2010
Claude Lefort e a invenção democrática
Claude Lefort e a sua contribuição para o pensamento político.
Claude Lefort e a invenção democrática
Olgária Matos analisa o legado do filósofo Claude Lefort, falecido em 03-10-2010, aos 86 anos. Críticas à democracia, burocracia e totalitarismo estão entre suas grandes contribuições
Por: Márcia Junges
“Pensador da democracia como invenção política, a invenção democrática de Lefort indica que a democracia o será por todo o tempo em que ela for uma forma de convivência social e de resolução de conflitos em busca de sua própria definição”. A afirmação é da filósofa Olgária Matos, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. De acordo com ela, “é invenção sua também a ideia que a sociedade de massa pode tanto exercer a democracia e o conflito quanto ‘solucioná-lo’ pelo totalitarismo”.
Pioneiro na denúncia dos totalitarismos, Claude Lefort faleceu no dia 3 de outubro, aos 86 anos, conforme nota publicada nas Notícias do Dia do sítio do IHU em 20-10-2010 (a nota pode ser lida em http://bit.ly/bAFKMZ. Colaborador da revista Les Temps Modernes até entrar em choque com Sartre pelo compromisso deste último com os comunistas e cofundador, junto com Henri Lefebvre e Cornelius Castoriadis, do Socialismo ou Barbárie, desde jovem esteve próximo ao marxismo, influenciado por seu mestre Maurice Merleau-Ponty . Equilibrou em sua carreira a pesquisa e o ensino: foi professor no Liceu de Nîmes e depois no de Reims (1949-1951); foi professor da Universidade de São Paulo, no Brasil (1952- 1953); assistente na Sorbonne (1953-1955); diretor do departamento de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade de Caen (1965- 1971); e diretor de estudos na École des Hautes Études et Sciences Sociales – EHESS (1975- 1989). Nascido em Paris em 1924, apesar de suas origens marxistas, envolveu-se, no final dos anos 1940, na criação do grupo Socialismo ou Barbárie, que posteriormente lançou uma revista homônima, que surgiu na ruptura com o movimento trotskista. Esse afastamento se tornou definitivo quando descobriu O Arquipélago Gulag de Alexandr Solzhenitsin, sobre o qual escreveu o artigo Un homme un trop.
Graduada e especialista em Filosofia pela Universidade de São Paulo – USP, Olgária Matos é mestre em Filosofia pela Universidade de Paris e doutora em Filosofia pela USP com a tese Os arcanos do inteiramente outro: a Escola de Frankfurt, a Melancolia, a Revolução (São Paulo: Brasiliense, 1984). É pós-doutora pela EHESS, na França, e livre-docente pela USP, onde leciona no Departamento de Filosofia. De sua extensa produção bibliográfica, citamos Discretas Esperanças: reflexões filosóficas sobre o mundo contemporâneo (São Paulo: Nova Alexandria, 2006), Vestígios: escritos de filosofia e crítica social (São Paulo: Palas Athenas, 1998) e 1968: As barricadas do desejo (São Paulo: Editora Brasiliense, 1981).
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Qual é o maior legado do filósofo Claude Lefort?
Olgária Matos - O maior legado de Claude Lefort para os tempos que estão aí e virão é a questão da democracia. Sua noção de “democracia selvagem” evoca, ampliando-a, a experiência originária do governo, não do povo, mas da assembleia do povo, ou seja, todas as forças sociais em presença, enfatizando sempre o elemento de indeterminação do presente que é o espaço de criação política e de liberdade radical. Pensador da democracia como invenção política, a invenção democrática de Lefort indica que a democracia o será por todo o tempo em que ela for uma forma de convivência social e de resolução de conflitos em busca de sua própria definição. Outra maneira de dizer que, em política, não existem soluções definitivas.
IHU On-Line - Qual é a atualidade sobre suas análises a respeito da burocracia e do totalitarismo?
Olgária Matos - Nosso tempo assistiu a duas figuras do totalitarismo, o nazismo e o estalinismo, o primeiro com sua utopia da raça pura, e o segundo com a utopia do “homem novo”. O pensamento totalitário é o que busca soluções definitivas no sentido de controlar a pluralidade que constitui o mundo social e a heterogeneidade das forças, interesses e paixões políticas. A burocracia é um fenômeno que se aprofunda todas as vezes em que há crise política e de valores, uma vez que ela se funda no segredo da informação e em diversas formas de controle, desde os micropoderes de funcionários médios até o macropoder em que a noção de competência política se baseia na de função técnica. A despersonalização e a formalização de que se vale a burocracia se alia ao que hoje se denomina estado de exceção que tem nela sua face “benigna”. A natureza do fenômeno totalitário foi trabalhada de maneira inédita por Lefort, uma vez que ele o analisou na figura do “um”, encontrando em uma questão epistemológica sua dimensão política, a sociedade sem classes ou a sociedade com uma única raça homogênea.
É invenção sua também a ideia que a sociedade de massa pode tanto exercer a democracia e o conflito quanto “solucioná-lo” pelo totalitarismo. Por isso, é central em seu pensamento da democracia a sociedade de massa, cujo complicador se encontra justamente em ela ser, ao um só tempo, sociedade de classe e de massa, quer dizer, nela há formas institucionais de funcionamento e também tendência à dispersão do mundo do trabalho e das diversas formas de acúmulo do capital baseadas na intensificação da produção através das novas tecnologias além de a sociedade de massa se basear na “comunicação” e na “informação”, com os núcleos “invisíveis” da produção da consciência social.
IHU On-Line - E no que tange ao totalitarismo, como seu pensamento pode fomentar a autocrítica da esquerda?
Olgária Matos - Como pensador da liberdade radical, Lefort cedo identificou mesmo nas formas de crítica da burocracia uma variante “liberal” do totalitarismo, como Trotski. A esquerda tradicional - aquela que herda do século XIX a prática da clandestinidade e governos absolutistas e cujas leis se baseavam em privilégios de classe - por vezes mantém práticas cuja eficácia se supunha existir, no limite, na guerra social, apostando muito das rupturas definitivas e na violência revolucionária tomada como produtora de consciência e do novo. Lefort, ao afirmar a legitimidade do conflito, não elide a questão dos interesses antagônicos, mas realça o que pode haver de entendimento no conflito. Autor do monumental Maquiavel, o trabalho da obra, Claude Lefort enuncia que a política como as obras de pensamento é trabalho imanente que produz democracia, o exercício de direitos e de invenção de novos direitos, sempre no sentido de que privilégios e carências, não podem se universalizar. Por isso também a economia não pode ser a medida do político, mas a autonomia com respeito à barbárie do mercado.
IHU On-Line - Quais são os principais limites e possibilidades da democracia apontados por Lefort?
Olgária Matos - As análises de Lefort sobre maio de 1968 contêm já a crítica das formas tradicionais de produção de “consenso”, pois em A Brecha, Lefort mostra que ele foi o momento la boétienao da política francesa, momento disruptivo em que a palavra se liberou e com ela a criatividade social em que a rua tomou a palavra, quer dizer, o pensamento se fez público e o direito de discordar é a base da vida social em suas tensões e distensões. Mostra também que a política democrática não necessita da ideia de líder, de guia, de “partido consciência de classe”, porque a invenção democrática não depende nem das virtudes, nem dos vícios dos governantes, mas da qualidade de suas instituições.
IHU On-Line - Como podemos transpor para nosso momento político brasileiro a crítica do filósofo ao nivelamento “por baixo” promovido pela democracia? De que forma as falhas apontadas por Lefort à democracia podem contribuir no fortalecimento deste sistema?
Olgária Matos - A democracia que foi-se instituindo a partir da Revolução Francesa se baseou na educação humanista, formadora do laço social, tanto que o professor era chamado instituteur porque ele “instituía” a sociedade; e estudante é eleve porque a educação eleva a criança e sublima o povo. Esta educação dita republicana garantia que todo cidadão era portador de “sabedoria política” porque seria o agente em exercício da crítica que vinha do mundo “letrado”, quer dizer, que passava pela qualidade de sua escolarização. Assim o repertório da discussão política e a livre faculdade de julgar estariam garantidos não só pelas condições materiais de existência, mas sobretudo pela “vida do espírito”. Na sociedade de massa, ou da comunicação, ou da informação, altamente tecnologizada e despolitizada, só conserva da politização as formas de convencer por “ideologias” e pelas formas de militância que possuem por sua natureza fórmulas prontas, quer dizer, formas de “doutrinamento”. Por isto é que Lefort dizia que a sociedade de massa pode tanto resultar em democracia (exercícios de criatividade social, política, ética, estética, científica) quanto em ditaduras, pois se o presente é contingente e o futuro é incerto, essa brecha de nossa indeterminação necessita de “sabedoria prática”, “presença de espírito” para que escolhas sejam feitas no sentido de ampliação do espaço público e do bem-estar material, moral, cultural, e possam ser compartilhadas.
>> Olgária Matos já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. O material está disponível no sítio do IHU (www.ihu.unisinos.br).
• Uma discussão sobre progresso, laços afetivos e política. Entrevista especial com Olgária Matos, concedida em 05-7-2006 e publicada nas Notícias do Dia
Fonte: http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3609&secao=348 26/10/2010
Claude Lefort e a invenção democrática
Olgária Matos analisa o legado do filósofo Claude Lefort, falecido em 03-10-2010, aos 86 anos. Críticas à democracia, burocracia e totalitarismo estão entre suas grandes contribuições
Por: Márcia Junges
“Pensador da democracia como invenção política, a invenção democrática de Lefort indica que a democracia o será por todo o tempo em que ela for uma forma de convivência social e de resolução de conflitos em busca de sua própria definição”. A afirmação é da filósofa Olgária Matos, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. De acordo com ela, “é invenção sua também a ideia que a sociedade de massa pode tanto exercer a democracia e o conflito quanto ‘solucioná-lo’ pelo totalitarismo”.
Pioneiro na denúncia dos totalitarismos, Claude Lefort faleceu no dia 3 de outubro, aos 86 anos, conforme nota publicada nas Notícias do Dia do sítio do IHU em 20-10-2010 (a nota pode ser lida em http://bit.ly/bAFKMZ. Colaborador da revista Les Temps Modernes até entrar em choque com Sartre pelo compromisso deste último com os comunistas e cofundador, junto com Henri Lefebvre e Cornelius Castoriadis, do Socialismo ou Barbárie, desde jovem esteve próximo ao marxismo, influenciado por seu mestre Maurice Merleau-Ponty . Equilibrou em sua carreira a pesquisa e o ensino: foi professor no Liceu de Nîmes e depois no de Reims (1949-1951); foi professor da Universidade de São Paulo, no Brasil (1952- 1953); assistente na Sorbonne (1953-1955); diretor do departamento de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade de Caen (1965- 1971); e diretor de estudos na École des Hautes Études et Sciences Sociales – EHESS (1975- 1989). Nascido em Paris em 1924, apesar de suas origens marxistas, envolveu-se, no final dos anos 1940, na criação do grupo Socialismo ou Barbárie, que posteriormente lançou uma revista homônima, que surgiu na ruptura com o movimento trotskista. Esse afastamento se tornou definitivo quando descobriu O Arquipélago Gulag de Alexandr Solzhenitsin, sobre o qual escreveu o artigo Un homme un trop.
Graduada e especialista em Filosofia pela Universidade de São Paulo – USP, Olgária Matos é mestre em Filosofia pela Universidade de Paris e doutora em Filosofia pela USP com a tese Os arcanos do inteiramente outro: a Escola de Frankfurt, a Melancolia, a Revolução (São Paulo: Brasiliense, 1984). É pós-doutora pela EHESS, na França, e livre-docente pela USP, onde leciona no Departamento de Filosofia. De sua extensa produção bibliográfica, citamos Discretas Esperanças: reflexões filosóficas sobre o mundo contemporâneo (São Paulo: Nova Alexandria, 2006), Vestígios: escritos de filosofia e crítica social (São Paulo: Palas Athenas, 1998) e 1968: As barricadas do desejo (São Paulo: Editora Brasiliense, 1981).
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Qual é o maior legado do filósofo Claude Lefort?
Olgária Matos - O maior legado de Claude Lefort para os tempos que estão aí e virão é a questão da democracia. Sua noção de “democracia selvagem” evoca, ampliando-a, a experiência originária do governo, não do povo, mas da assembleia do povo, ou seja, todas as forças sociais em presença, enfatizando sempre o elemento de indeterminação do presente que é o espaço de criação política e de liberdade radical. Pensador da democracia como invenção política, a invenção democrática de Lefort indica que a democracia o será por todo o tempo em que ela for uma forma de convivência social e de resolução de conflitos em busca de sua própria definição. Outra maneira de dizer que, em política, não existem soluções definitivas.
IHU On-Line - Qual é a atualidade sobre suas análises a respeito da burocracia e do totalitarismo?
Olgária Matos - Nosso tempo assistiu a duas figuras do totalitarismo, o nazismo e o estalinismo, o primeiro com sua utopia da raça pura, e o segundo com a utopia do “homem novo”. O pensamento totalitário é o que busca soluções definitivas no sentido de controlar a pluralidade que constitui o mundo social e a heterogeneidade das forças, interesses e paixões políticas. A burocracia é um fenômeno que se aprofunda todas as vezes em que há crise política e de valores, uma vez que ela se funda no segredo da informação e em diversas formas de controle, desde os micropoderes de funcionários médios até o macropoder em que a noção de competência política se baseia na de função técnica. A despersonalização e a formalização de que se vale a burocracia se alia ao que hoje se denomina estado de exceção que tem nela sua face “benigna”. A natureza do fenômeno totalitário foi trabalhada de maneira inédita por Lefort, uma vez que ele o analisou na figura do “um”, encontrando em uma questão epistemológica sua dimensão política, a sociedade sem classes ou a sociedade com uma única raça homogênea.
É invenção sua também a ideia que a sociedade de massa pode tanto exercer a democracia e o conflito quanto “solucioná-lo” pelo totalitarismo. Por isso, é central em seu pensamento da democracia a sociedade de massa, cujo complicador se encontra justamente em ela ser, ao um só tempo, sociedade de classe e de massa, quer dizer, nela há formas institucionais de funcionamento e também tendência à dispersão do mundo do trabalho e das diversas formas de acúmulo do capital baseadas na intensificação da produção através das novas tecnologias além de a sociedade de massa se basear na “comunicação” e na “informação”, com os núcleos “invisíveis” da produção da consciência social.
IHU On-Line - E no que tange ao totalitarismo, como seu pensamento pode fomentar a autocrítica da esquerda?
Olgária Matos - Como pensador da liberdade radical, Lefort cedo identificou mesmo nas formas de crítica da burocracia uma variante “liberal” do totalitarismo, como Trotski. A esquerda tradicional - aquela que herda do século XIX a prática da clandestinidade e governos absolutistas e cujas leis se baseavam em privilégios de classe - por vezes mantém práticas cuja eficácia se supunha existir, no limite, na guerra social, apostando muito das rupturas definitivas e na violência revolucionária tomada como produtora de consciência e do novo. Lefort, ao afirmar a legitimidade do conflito, não elide a questão dos interesses antagônicos, mas realça o que pode haver de entendimento no conflito. Autor do monumental Maquiavel, o trabalho da obra, Claude Lefort enuncia que a política como as obras de pensamento é trabalho imanente que produz democracia, o exercício de direitos e de invenção de novos direitos, sempre no sentido de que privilégios e carências, não podem se universalizar. Por isso também a economia não pode ser a medida do político, mas a autonomia com respeito à barbárie do mercado.
IHU On-Line - Quais são os principais limites e possibilidades da democracia apontados por Lefort?
Olgária Matos - As análises de Lefort sobre maio de 1968 contêm já a crítica das formas tradicionais de produção de “consenso”, pois em A Brecha, Lefort mostra que ele foi o momento la boétienao da política francesa, momento disruptivo em que a palavra se liberou e com ela a criatividade social em que a rua tomou a palavra, quer dizer, o pensamento se fez público e o direito de discordar é a base da vida social em suas tensões e distensões. Mostra também que a política democrática não necessita da ideia de líder, de guia, de “partido consciência de classe”, porque a invenção democrática não depende nem das virtudes, nem dos vícios dos governantes, mas da qualidade de suas instituições.
IHU On-Line - Como podemos transpor para nosso momento político brasileiro a crítica do filósofo ao nivelamento “por baixo” promovido pela democracia? De que forma as falhas apontadas por Lefort à democracia podem contribuir no fortalecimento deste sistema?
Olgária Matos - A democracia que foi-se instituindo a partir da Revolução Francesa se baseou na educação humanista, formadora do laço social, tanto que o professor era chamado instituteur porque ele “instituía” a sociedade; e estudante é eleve porque a educação eleva a criança e sublima o povo. Esta educação dita republicana garantia que todo cidadão era portador de “sabedoria política” porque seria o agente em exercício da crítica que vinha do mundo “letrado”, quer dizer, que passava pela qualidade de sua escolarização. Assim o repertório da discussão política e a livre faculdade de julgar estariam garantidos não só pelas condições materiais de existência, mas sobretudo pela “vida do espírito”. Na sociedade de massa, ou da comunicação, ou da informação, altamente tecnologizada e despolitizada, só conserva da politização as formas de convencer por “ideologias” e pelas formas de militância que possuem por sua natureza fórmulas prontas, quer dizer, formas de “doutrinamento”. Por isto é que Lefort dizia que a sociedade de massa pode tanto resultar em democracia (exercícios de criatividade social, política, ética, estética, científica) quanto em ditaduras, pois se o presente é contingente e o futuro é incerto, essa brecha de nossa indeterminação necessita de “sabedoria prática”, “presença de espírito” para que escolhas sejam feitas no sentido de ampliação do espaço público e do bem-estar material, moral, cultural, e possam ser compartilhadas.
>> Olgária Matos já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. O material está disponível no sítio do IHU (www.ihu.unisinos.br).
• Uma discussão sobre progresso, laços afetivos e política. Entrevista especial com Olgária Matos, concedida em 05-7-2006 e publicada nas Notícias do Dia
Fonte: http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3609&secao=348 26/10/2010
Sunday, September 26, 2010
as razões e desrazões do lulismo
A sempre lúcida Maria Sylvia de Carvalho Franco, em um artigo sobre as razões e desrazões do lulismo na Folha de São Paulo.
Conferir:
Razões e desrazões do lulismo
O lulismo seria um continuador do varguismo? Sim, mas pelo que Getúlio tinha de pior, segundo Maria Sylvia Carvalho Franco e Sergio Fausto, que fazem um contraponto ao artigo de André Singer "A história e seus ardis", publicado na Ilustríssima, em 19/9
De casas, pastores e lobos
RESUMO Lula valeu-se da herança varguista do paternalismo para constituir seu governo e sua popularidade, calçada na cultura da carência dos brasileiros, em violações de direitos e no marketing político. O alardeado êxito comercial leva a escolhas eleitorais sem racionalidade, que ignoram fragilidades econômicas e valores cívicos.
MARIA SYLVIA CARVALHO FRANCO
ENTRE AS IMAGENS ARCAICAS do poder político estão as do pastor e do pai. Esta última figura, o presidente Lula reclamou explicitamente para si. Não bastasse a evocação do paternalismo, as mazelas que o acompanham fazem-se mais e mais visíveis. O cerne dessa ordem está, justamente, em transpor a casa -moradia da família grande, com pais, filhos, parentes, clientela, compadres, afilhados e companheiros- para o palácio, com seus membros convertidos em ministros, deputados e senadores, agregados, sindicalistas e executivos de empresas oficiais.
Emblemáticos desse regime são os acontecimentos na Casa Civil deste governo, tornada gabinete pessoal de José Dirceu e da ministra demissionária. Ambos convenientemente descartados. Lula de nada sabia, esteve cego, surdo, calado; Dilma resguarda-se dos eventuais dolos de seu factótum, simples "assessora".
A gratidão aos acólitos, nula nesses protagonistas, é virtude privada e pouco interessa em política: importantes são os princípios que fundam o Estado e o espírito da magistratura, como a prudência e o respeito à legalidade. Nesse campo ético, o governante obriga-se a responder por seus próprios atos e os de seus adjuntos. O avesso dessa máxima orienta nossos dirigentes. Em atos e palavras, a disciplina necessária aos negócios públicos é subvertida com farsas tramadas para eludir responsabilidades.
Daí é um passo converter a economia doméstica em economia política, o interesse privado em fins coletivos, a dominação pessoal em benefício para os pobres, a pura mentira em razão de Estado. O crime de violação de sigilos constitucionalmente garantidos, como as declarações de rendimentos, transforma-se em ato banal para o ministro da Fazenda. As vítimas desse atentado convertem-se em réus, a imprensa que divulga os feitos transforma-se em golpista que os maquina.
VALORES INVERTIDOS A esse quadro de condutas e valores invertidos Dilma pertence: escolheu integrá-lo ao sagrar-se "mãe", como seu padrinho diz-se "pai" dos brasileiros. À sombra do arcaico paternalismo, acomodou-se um esmaecido perfil de mulher moderna, da jovem ex-resistente contra a ditadura, da universitária e profissional habilitada.
É confrangedor ver a espinha humana vergar às técnicas de controle político: a curvatura vai da aparência física à indumentária, ao discurso, à identidade, perdida na aliança com personagens cujo estigma a candidata quer afastar de si.
José Dirceu faz sua campanha Brasil afora, Antonio Palocci -derrubado no episódio da violação, sem mais, de um preceito constitucional- a avaliza junto aos empresários, temerosos da "guerrilheira", mas desatentos à ameaça que representa, a eles como a toda a cidadania, a possível devassa, sem ordem judicial, na vida econômica de qualquer pessoa. Palocci é enaltecido em jantar, com direito a fotografia risonha e cordial, impressa em jornais, comemorando a "classe média" alardeada na propaganda e erguida ao paraíso mercantil.
DA MÃO PARA A BOCA Há quem afirme que essa "classe média, pela primeira vez neste país, compra e vota com racionalidade". A associação é significativa: compra e vota. Racionalidade, nesse exíguo espaço de pensamento, inexiste: se a minguada Bolsa Família -suposto arcano da prosperidade- permite ao pobre comer, a racionalidade vai da mão para a boca (dizia o velho Marx).
Esse critério de voto realça outro arquétipo do mando político, o pastoreio, reativado por Lula e Dilma ao prometerem "cuidar" dos brasileiros. Filhos são singulares, não compõem um rebanho de animais dóceis, tangidos pelo pastor. Este "trata" de sua manada: a alimenta, supervisiona e preside seus cruzamentos, reproduzindo-a e engordando-a para o corte. Se o pastor e seus ajudantes fornecem comida, dia virá em que, por sua vez, comerão o redil, convertendo-se em lobos, saciando-se com o poder garantido pelos votos encurralados.
É esse viés obsoleto que Lula soube expandir, distorcendo o regime democrático. Não raro, o pastor comunga, com sua confraria, a mesma origem e formação, o que o torna conhecedor das almas que visa aliciar e bom juiz das palavras que as atingirão. Mas, neste caso, Lula não é só um ex-partícipe do rebanho e do sertão que abandonou, ao passar para a classe dominante com suas benesses: ele é simbólico dessa cultura de carência e sabe explorá-la, apoiado em suas falanges de marqueteiros.
A clássica técnica de dominação -medo e esperança-, entranhada na crença em entidades salvadoras, é a energia que nutre o fantástico aplauso ao governo: o temor de perder o recebido, conjugado à expectativa de conservá-lo e à gratidão pela dádiva concedida, não deixa nada contido "sub ordine rationis", tudo é carreado para a superstição.
FÉ E GRAÇA O amálgama -fé e graça- impulsiona o calamitoso circuito inverso, rumo ao retrocesso, de nossas instituições políticas. Em entrevista à Folha, Maria Celina D'Araujo cotejou o presente "pai do povo" com Getúlio Vargas, destacando decisiva diferença entre ambos: Vargas formou uma força de trabalho industrial, urbana, organizada. Interferiu, portanto -muitas vezes para o mal, com implacável ditadura-, nas diretrizes da organização econômica e social do país. Sua outorga de direitos ao trabalhador não gerou uma consciência autônoma, mas não explorou o puro assistencialismo.
Lula projetou a cultura política para atrás de Vargas, revertendo-a no mínimo à República Velha (1889-1930), com a sua tralha de favores, hoje reforçada pela ampliação capitalista e pelas técnicas de controle sociocultural, monitorando as eleições desde as imagens dos candidatos até o mais recôndito sufrágio. De Vargas, retomou o domínio do sindicato e transfez o peleguismo em arma para o aparelhamento do Estado.
COMÉRCIO Voltando ao pastor: se o rebanho prospera, alimentado pelos milhões aspergidos na economia, o milagre alimenta o comércio especializado em vender para pobres, para a "classe média" que teria alterado, reza a propaganda, a estrutura social do país. Mas, de fato, os pobres continuam pobres, não raro adquirindo produtos inferiores e precários (por isto mesmo reiterativos das compras), "made in China" ou aqui produzidos por imigrantes ilegais na situação de escravos.
Enquanto isto, o comércio de altíssimo luxo multiplica-se nos centros ricos. A pletora de importações -da quinquilharia aos carros preciosos, todos produtos acabados- anuncia a desindustrialização e compromete as reservas cambiais (lembremos de Dutra). Insistindo no plano comercial -a grande arma publicitária-, indaga-se: que é da menor desigualdade social? Até quando se afastará a inadimplência (Serasa, agosto 2010)?
E o setor produtivo, com a perda bilionária da exportação de bens industrializados, face à de matérias-primas, com a pauta de exportações regredindo ao nível de l978, resultando em queda no saldo comercial, rombo nas contas externas e maior dependência de capitais a curto prazo?
Enfim, menos empregos e menos riqueza, somadas a outras consequências, como a falta de infraestrutura e a evasão empresarial (Associação do Comércio Exterior do Brasil). A economia vai bem? O ministro da Fazenda inverte sua tendência funesta e afirma que a exportação majoritária de commodities não é problema.
DESRAZÃO Impossível ser contra mitigar a pobreza material, mas a vida do espírito não deve continuar miserável. Que livre-arbítrio pode emergir nesse mundo avesso à consciência crítica? Esta é outra arma brandida pela sofística própria à propaganda. Quanto menos informados os eleitores (a não ser no interesse da facção que sustenta a catequese, como o merchandising de seus prosélitos), melhor para os marqueteiros, exímios em desvirtuar os valores democráticos para alavancar seus mecenas.
Essa inversão ética bloqueia compreensões racionais: há quem fique perplexo diante da sobrevivência de Lula através dos escândalos que o atingem, razões sobejas para sua rejeição. Mas a solércia o leva a abandonar os náufragos, convertendo a ingratidão pessoal em decoro cívico, punitivo da prevaricação. Os subterfúgios que implementou fornecem-lhe a escapatória: nada acontece porque o chamado "cenário" onde ele habita funda-se na desrazão instalada ao longo das camadas sociais, tornando-as crédulas em maravilhas. Todas as aparências servem à prestidigitação publicitária: o mundo efetivo é escondido, as deformações de seus aspectos são meticulosamente produzidas, mitos fabricam os candidatos, engrandecendo suas proporções.
O perigo, nessa engrenagem de seres vivos, é que estes podem escapar ao planejado: a irracionalidade que a sustenta pode ameaçá-la, pelo açodamento e por certezas impensadas, como em suas crises periódicas.
De todo modo, enquanto a falange de marqueteiros a serviço de Lula, infantaria pesada, faz razia no território político e colhe seu butim, a desordenada oposição custou a perceber que caíra, distraída, em um campo de batalha.
"Lula não é só um ex-partícipe do sertão que abandonou, ao passar para a classe dominante: ele é simbólico dessa cultura de carência e sabe explorá-la"
"Impossível ser contra mitigar a pobreza, mas a vida do espírito não deve continuar miserável. Que livre-arbítrio pode emergir nesse mundo avesso à consciência crítica?"
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il2609201006.htm acesso em 26/09/2010.
Conferir:
Razões e desrazões do lulismo
O lulismo seria um continuador do varguismo? Sim, mas pelo que Getúlio tinha de pior, segundo Maria Sylvia Carvalho Franco e Sergio Fausto, que fazem um contraponto ao artigo de André Singer "A história e seus ardis", publicado na Ilustríssima, em 19/9
De casas, pastores e lobos
RESUMO Lula valeu-se da herança varguista do paternalismo para constituir seu governo e sua popularidade, calçada na cultura da carência dos brasileiros, em violações de direitos e no marketing político. O alardeado êxito comercial leva a escolhas eleitorais sem racionalidade, que ignoram fragilidades econômicas e valores cívicos.
MARIA SYLVIA CARVALHO FRANCO
ENTRE AS IMAGENS ARCAICAS do poder político estão as do pastor e do pai. Esta última figura, o presidente Lula reclamou explicitamente para si. Não bastasse a evocação do paternalismo, as mazelas que o acompanham fazem-se mais e mais visíveis. O cerne dessa ordem está, justamente, em transpor a casa -moradia da família grande, com pais, filhos, parentes, clientela, compadres, afilhados e companheiros- para o palácio, com seus membros convertidos em ministros, deputados e senadores, agregados, sindicalistas e executivos de empresas oficiais.
Emblemáticos desse regime são os acontecimentos na Casa Civil deste governo, tornada gabinete pessoal de José Dirceu e da ministra demissionária. Ambos convenientemente descartados. Lula de nada sabia, esteve cego, surdo, calado; Dilma resguarda-se dos eventuais dolos de seu factótum, simples "assessora".
A gratidão aos acólitos, nula nesses protagonistas, é virtude privada e pouco interessa em política: importantes são os princípios que fundam o Estado e o espírito da magistratura, como a prudência e o respeito à legalidade. Nesse campo ético, o governante obriga-se a responder por seus próprios atos e os de seus adjuntos. O avesso dessa máxima orienta nossos dirigentes. Em atos e palavras, a disciplina necessária aos negócios públicos é subvertida com farsas tramadas para eludir responsabilidades.
Daí é um passo converter a economia doméstica em economia política, o interesse privado em fins coletivos, a dominação pessoal em benefício para os pobres, a pura mentira em razão de Estado. O crime de violação de sigilos constitucionalmente garantidos, como as declarações de rendimentos, transforma-se em ato banal para o ministro da Fazenda. As vítimas desse atentado convertem-se em réus, a imprensa que divulga os feitos transforma-se em golpista que os maquina.
VALORES INVERTIDOS A esse quadro de condutas e valores invertidos Dilma pertence: escolheu integrá-lo ao sagrar-se "mãe", como seu padrinho diz-se "pai" dos brasileiros. À sombra do arcaico paternalismo, acomodou-se um esmaecido perfil de mulher moderna, da jovem ex-resistente contra a ditadura, da universitária e profissional habilitada.
É confrangedor ver a espinha humana vergar às técnicas de controle político: a curvatura vai da aparência física à indumentária, ao discurso, à identidade, perdida na aliança com personagens cujo estigma a candidata quer afastar de si.
José Dirceu faz sua campanha Brasil afora, Antonio Palocci -derrubado no episódio da violação, sem mais, de um preceito constitucional- a avaliza junto aos empresários, temerosos da "guerrilheira", mas desatentos à ameaça que representa, a eles como a toda a cidadania, a possível devassa, sem ordem judicial, na vida econômica de qualquer pessoa. Palocci é enaltecido em jantar, com direito a fotografia risonha e cordial, impressa em jornais, comemorando a "classe média" alardeada na propaganda e erguida ao paraíso mercantil.
DA MÃO PARA A BOCA Há quem afirme que essa "classe média, pela primeira vez neste país, compra e vota com racionalidade". A associação é significativa: compra e vota. Racionalidade, nesse exíguo espaço de pensamento, inexiste: se a minguada Bolsa Família -suposto arcano da prosperidade- permite ao pobre comer, a racionalidade vai da mão para a boca (dizia o velho Marx).
Esse critério de voto realça outro arquétipo do mando político, o pastoreio, reativado por Lula e Dilma ao prometerem "cuidar" dos brasileiros. Filhos são singulares, não compõem um rebanho de animais dóceis, tangidos pelo pastor. Este "trata" de sua manada: a alimenta, supervisiona e preside seus cruzamentos, reproduzindo-a e engordando-a para o corte. Se o pastor e seus ajudantes fornecem comida, dia virá em que, por sua vez, comerão o redil, convertendo-se em lobos, saciando-se com o poder garantido pelos votos encurralados.
É esse viés obsoleto que Lula soube expandir, distorcendo o regime democrático. Não raro, o pastor comunga, com sua confraria, a mesma origem e formação, o que o torna conhecedor das almas que visa aliciar e bom juiz das palavras que as atingirão. Mas, neste caso, Lula não é só um ex-partícipe do rebanho e do sertão que abandonou, ao passar para a classe dominante com suas benesses: ele é simbólico dessa cultura de carência e sabe explorá-la, apoiado em suas falanges de marqueteiros.
A clássica técnica de dominação -medo e esperança-, entranhada na crença em entidades salvadoras, é a energia que nutre o fantástico aplauso ao governo: o temor de perder o recebido, conjugado à expectativa de conservá-lo e à gratidão pela dádiva concedida, não deixa nada contido "sub ordine rationis", tudo é carreado para a superstição.
FÉ E GRAÇA O amálgama -fé e graça- impulsiona o calamitoso circuito inverso, rumo ao retrocesso, de nossas instituições políticas. Em entrevista à Folha, Maria Celina D'Araujo cotejou o presente "pai do povo" com Getúlio Vargas, destacando decisiva diferença entre ambos: Vargas formou uma força de trabalho industrial, urbana, organizada. Interferiu, portanto -muitas vezes para o mal, com implacável ditadura-, nas diretrizes da organização econômica e social do país. Sua outorga de direitos ao trabalhador não gerou uma consciência autônoma, mas não explorou o puro assistencialismo.
Lula projetou a cultura política para atrás de Vargas, revertendo-a no mínimo à República Velha (1889-1930), com a sua tralha de favores, hoje reforçada pela ampliação capitalista e pelas técnicas de controle sociocultural, monitorando as eleições desde as imagens dos candidatos até o mais recôndito sufrágio. De Vargas, retomou o domínio do sindicato e transfez o peleguismo em arma para o aparelhamento do Estado.
COMÉRCIO Voltando ao pastor: se o rebanho prospera, alimentado pelos milhões aspergidos na economia, o milagre alimenta o comércio especializado em vender para pobres, para a "classe média" que teria alterado, reza a propaganda, a estrutura social do país. Mas, de fato, os pobres continuam pobres, não raro adquirindo produtos inferiores e precários (por isto mesmo reiterativos das compras), "made in China" ou aqui produzidos por imigrantes ilegais na situação de escravos.
Enquanto isto, o comércio de altíssimo luxo multiplica-se nos centros ricos. A pletora de importações -da quinquilharia aos carros preciosos, todos produtos acabados- anuncia a desindustrialização e compromete as reservas cambiais (lembremos de Dutra). Insistindo no plano comercial -a grande arma publicitária-, indaga-se: que é da menor desigualdade social? Até quando se afastará a inadimplência (Serasa, agosto 2010)?
E o setor produtivo, com a perda bilionária da exportação de bens industrializados, face à de matérias-primas, com a pauta de exportações regredindo ao nível de l978, resultando em queda no saldo comercial, rombo nas contas externas e maior dependência de capitais a curto prazo?
Enfim, menos empregos e menos riqueza, somadas a outras consequências, como a falta de infraestrutura e a evasão empresarial (Associação do Comércio Exterior do Brasil). A economia vai bem? O ministro da Fazenda inverte sua tendência funesta e afirma que a exportação majoritária de commodities não é problema.
DESRAZÃO Impossível ser contra mitigar a pobreza material, mas a vida do espírito não deve continuar miserável. Que livre-arbítrio pode emergir nesse mundo avesso à consciência crítica? Esta é outra arma brandida pela sofística própria à propaganda. Quanto menos informados os eleitores (a não ser no interesse da facção que sustenta a catequese, como o merchandising de seus prosélitos), melhor para os marqueteiros, exímios em desvirtuar os valores democráticos para alavancar seus mecenas.
Essa inversão ética bloqueia compreensões racionais: há quem fique perplexo diante da sobrevivência de Lula através dos escândalos que o atingem, razões sobejas para sua rejeição. Mas a solércia o leva a abandonar os náufragos, convertendo a ingratidão pessoal em decoro cívico, punitivo da prevaricação. Os subterfúgios que implementou fornecem-lhe a escapatória: nada acontece porque o chamado "cenário" onde ele habita funda-se na desrazão instalada ao longo das camadas sociais, tornando-as crédulas em maravilhas. Todas as aparências servem à prestidigitação publicitária: o mundo efetivo é escondido, as deformações de seus aspectos são meticulosamente produzidas, mitos fabricam os candidatos, engrandecendo suas proporções.
O perigo, nessa engrenagem de seres vivos, é que estes podem escapar ao planejado: a irracionalidade que a sustenta pode ameaçá-la, pelo açodamento e por certezas impensadas, como em suas crises periódicas.
De todo modo, enquanto a falange de marqueteiros a serviço de Lula, infantaria pesada, faz razia no território político e colhe seu butim, a desordenada oposição custou a perceber que caíra, distraída, em um campo de batalha.
"Lula não é só um ex-partícipe do sertão que abandonou, ao passar para a classe dominante: ele é simbólico dessa cultura de carência e sabe explorá-la"
"Impossível ser contra mitigar a pobreza, mas a vida do espírito não deve continuar miserável. Que livre-arbítrio pode emergir nesse mundo avesso à consciência crítica?"
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il2609201006.htm acesso em 26/09/2010.
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