Saturday, May 10, 2014

Piketty, um problema para a direita

Piketty, um problema para a direita
"Todo mundo certamente discorda de 10% a 20% da argumentação de Piketty e todo mundo têm dúvidas sobre talvez outros 10% a 20%. Mas, em ambos os casos, cada leitor tem seus próprios 10% a 20% pessoais. Em outras palavras, há um consenso majoritário de que cada parte do livro é, de modo geral, correta, o que significa haver um quase consenso de que a argumentação geral do livro é, grosso modo, correta", escreve J. Bradford DeLong, ex-vice-secretário assistente do Tesouro dos EUA, professor de Economia na Universidade da Califórnia em Berkeley e pesquisador associado ao Birô Nacional de Pesquisa Econômica, em artigo publicado pelo jornal Valor, 02-05-2014.

Eis o artigo.

No periódico online "The Baffler", Kathleen Geier tentou recentemente fazer um apanhado geral da crítica conservadora ao novo livro "Capital in the Twenty-First Century", de Thomas Piketty. O espantoso, para mim, é como revela-se fraca a abordagem da direita contra os argumentos de Piketty.

A argumentação do autor é detalhada e complicada. Mas cinco pontos parecem particularmente relevantes:

1- a riqueza de uma sociedade em relação à sua renda anual cresce (ou diminui) até um nível igual à sua taxa de poupança líquida dividida por sua taxa de crescimento.

2- a passagem do tempo e o acaso resultam inevitavelmente em concentração da riqueza nas mãos de um grupo relativamente pequeno - podemos designá-los como "os ricos".

3 - a taxa de crescimento da economia diminui enquanto os frutos da industrialização mais ao alcance da mão são colhidos; ao mesmo tempo, a taxa de poupança líquida cresce devido a uma reversão da tributação progressiva, ao fim da caótica destruição na primeira metade do Século XX e à ausência de razões sociológicas convincentes para que os ricos gastem os suas rendas ou sua riqueza, em vez de poupá-la.

4- uma sociedade em que os ricos têm um grau elevado de influência econômica, política e sociocultural é uma sociedade, sob diversos aspectos, desagradável.

5 - uma sociedade onde a relação riqueza sobre renda anual é um múltiplo muito grande da taxa de crescimento é um ambiente onde o controle sobre a riqueza passa a herdeiros - o que Geier apelidou de "herdeirocracia"; esse tipo de sociedade é sob muitos aspectos ainda mais desagradável do que uma dominada por uma elite rica meritocrática e empreendedora.

Bem, mesmo em forma sintética, esse é um argumento complicado. Por isso, seria de esperar que provocasse o surgimento de um grande volume de material com críticas substanciais. E, de fato, Matt Rognlie atacou o ponto 4, argumentando que o retorno sobre a riqueza varia inversamente em relação à riqueza sobre a renda anual tão fortemente que, paradoxalmente, quanto mais riqueza detêm os ricos, menor sua participação na renda total. Assim, a influência econômica, política e sociocultural dos ricos é também mais fraca.

Tyler Cowen, da George Mason University, em linha com o pensamento de Friedrich von Hayek, argumentou contra os pontos 4 e 5. Os "ricos ociosos", de acordo com Cowen, são um recurso cultural valioso precisamente porque constituem uma aristocracia ociosa. É apenas porque eles não estão vinculados à roda cármica de trabalhar para ganhar seu sustento, comprar suas coisas e gastar para satisfazer suas necessidades e conveniências que eles podem assumir a visão dilatada e/ou heterodoxa sobre as coisas e criar, por exemplo, grande arte.

Outros, ainda, agitavam as mãos e torciam por uma nova revolução industrial que venha a criar mais frutos fáceis de colher e seja acompanhada por uma renovada onda de destruição criativa. Se isso acontecer, será possível mais mobilidade ascendente, negando, assim, os pontos 2 e 3.

Porém o mais extraordinário na crítica conservadora ao livro de Thomas Piketty é quão pouco ela desenvolveu algum desses argumentos e quanto é dedicada a uma furiosa denúncia da capacidade analítica, da motivação e até mesmo da nacionalidade de seu autor.

Clive Crook, por exemplo, argumenta que "os limites dos dados que [ Piketty ] apresenta e a grandiosidade das conclusões que ele tira... beiram a esquizofrenia", produzindo conclusões que são "desprovidas de sustentação ou contraditadas por [seus] próprios dados e análises". E é o "horror de Piketty diante do aumento da desigualdade", especula Crook, que induziu a erro.

James Pethokoukis, por seu turno, julga que a obra de Piketty pode ser reduzida a um tweet: "Karl Marx não estava errado, apenas prematuro. É isso aí. Desculpe, capitalismo. #desigualdadeprasempre".

E há então a pueril acusação de Allan Meltzer, de excessiva "francesidade". Piketty, fique sabendo o leitor, foi colega de seu compatriota francês Emmanuel Saez "no MIT, onde... Olivier Blanchard [do Fundo Monetário Internacional], foi professor. Também este é francês. A França, há muitos anos, implementa políticas destrutivas de redistribuição de renda".

Combinando essas vertentes da crítica conservadora, o verdadeiro problema do livro de Piketty fica claro: o seu autor é um comunista estrangeiro mentalmente instável. Essa é uma velha tática usada pela direita americana, que destruiu milhares de vidas e carreiras durante a era McCarthy. Mas a caracterização de ideias como sendo de alguma forma antiamericanas tem sido sempre um epíteto, e não um argumento.

Por outro lado, nas comunidades americanas de centro-esquerda, como Berkeley, Califórnia, onde moro e trabalho, o livro de Piketty foi recebido com louvor beirando a reverência. Estamos impressionados com o volume de trabalho que ele e seus colegas aplicaram na coleta, compilação e limpeza dos dados; a inteligência e a habilidade com que ele construiu e apresentou seus argumentos; e quanto sangue Arthur Goldhammer suou no trabalho de tradução.

Todo mundo certamente discorda de 10% a 20% da argumentação de Piketty e todo mundo têm dúvidas sobre talvez outros 10% a 20%. Mas, em ambos os casos, cada leitor tem seus próprios 10% a 20% pessoais. Em outras palavras, há um consenso majoritário de que cada parte do livro é, de modo geral, correta, o que significa haver um quase consenso de que a argumentação geral do livro é, grosso modo, correta.

A menos que os críticos de direita contrários a Piketty melhorem o nível de sua crítica e realmente apresentem alguns pontos válidos, essa será a avaliação cristalizada sobre o livro de Piketty. Nenhuma quantidade de "anticomunismo" ou "antifrancesismo" fará diferença.



http://www.ihu.unisinos.br/noticias/530900-piketty-um-problema-para-a-direita

O pânico em relação a Piketty

Terça, 06 de maio de 2014
O pânico em relação a Piketty
"A autêntica novidade de O capital é a forma como joga por terra o mais valioso dos mitos conservadores: a insistência em que vivemos em uma meritocracia na qual se ganham grandes fortunas e estas são merecidas". O comentário é de Paul Krugman, economista e prêmio Nobel de 2008 em artigo publicado pelo El País, 05-05-2014.

Eis o artigo.

O novo livro do economista francês Thomas Piketty, O capital no século 21, é um prodígio de honestidade. Outros livros de economia foram sucesso de vendas, mas, diferentemente da maioria deles, a contribuição de Piketty contém uma erudição autêntica que pode causar uma mudança na retórica. E os conservadores estão aterrorizados. Por isso, James Pethokoukis, do Instituto Americano da Empresa, adverte na National Review que o trabalho de Piketty deve ser rebatido, porque, do contrário, “vai se propagar entre a intelectualidade e remodelar a paisagem político-econômica na qual serão travadas todas as futuras batalhas das ideias políticas”.

Pois bem, desejo-lhes boa sorte. Neste momento, o que realmente surpreende no debate é que a direita parece incapaz de organizar qualquer tipo de contra-ataque significativo às teses de Piketty. Em vez disso, a reação tem consistido exclusivamente em desqualificar; concretamente, em alegar que Piketty é um marxista e, portanto, alguém que considera que a desigualdade de ganhos e de riqueza é um assunto importante.

Em breve voltarei à questão da desqualificação. Antes, vejamos por que O capital está tendo tanta repercussão.

Piketty não é o primeiro economista a assinalar que estamos sofrendo um aumento pronunciado da desigualdade, nem mesmo a ressaltar o contraste entre o lento crescimento dos ganhos da maioria da população e o espetacular aumento da renda das classes altas. É certo que Piketty e seus companheiros acrescentaram uma boa dose de profundidade histórica a nossos conhecimentos, e demonstraram que, efetivamente, vivemos uma nova era dourada. Mas já faz tempo que sabíamos disso.

Não, a autêntica novidade de O capital é a forma como joga por terra o mais valioso dos mitos conservadores: a insistência em que vivemos em uma meritocracia na qual se ganham grandes fortunas e estas são merecidas.

Durante as últimas duas décadas, a resposta conservadora às tentativas de transformar o espetacular aumento da renda das classes altas em uma questão política teve duas linhas defensivas: em primeiro lugar, negar que a situação dos ricos esteja realmente tão boa e a dos pobres, tão ruim como está; e, se essa negação não convencer, afirmar que o aumento da renda das classes altas é a justa recompensa pelos serviços prestados. Não os chamem de “o 1%” ou “os ricos”, mas sim de “criadores de emprego”.

Mas como se pode defender isso se os ricos obtêm grande parte de sua renda não de seu trabalho, mas dos ativos que possuem? E o que acontece se as grandes riquezas vêm cada vez mais da herança, e não da iniciativa empresarial?

Piketty mostra que essas perguntas não são improdutivas. As sociedades ocidentais anteriores à Primeira Guerra Mundial efetivamente estavam dominadas por uma oligarquia cuja riqueza era herdada, e seu livro argumenta de forma convincente que estamos em pleno retorno a essa situação.

Portanto, o que um conservador precisa fazer diante do temor de que esse diagnóstico possa ser utilizado para justificar uma maior pressão fiscal sobre os ricos? Ele poderia tentar rebater Piketty com argumentos reais, mas até agora não vi nenhum indício disso. Em vez disso, como eu dizia, tudo tem consistido em desqualificar.

Suponho que isso não deveria ser surpreendente. Participei de debates sobre a desigualdade durante mais de duas décadas e ainda não vi os “especialistas” conservadores conseguirem questionar os números sem tropeçar nos cordões de seus próprios sapatos intelectuais.

Porque seria possível dizer, basicamente, que os fatos não estão do lado deles. Ao mesmo tempo, acusar de ser um extremista de esquerda qualquer um que ponha em dúvida algum aspecto do dogma do livre mercado é um procedimento habitual da direita desde que William F. Buckley e outros como ele tentaram impedir o ensino da teoria econômica keynesiana, não demonstrando que fosse errada, mas acusando-a de ser “coletivista”.

No entanto, foi impressionante ver os conservadores, um após outro, acusarem Piketty de marxista. Até Pethokoukis, que é mais refinado que os demais, diz que O capital é uma obra de “marxismo brando”, algo que só tem sentido se a simples menção da desigualdade de riqueza converte alguém em um marxista. (E talvez eles vejam as coisas dessa forma mesmo.

Recentemente, o ex-senador americano Rick Santorum qualificou o termo “classe média” de “jargão marxista”, porque, como já sabem, nos Estados Unidos não temos classes sociais).

E a resenha do The Wall Street Journal, como era de esperar, dá o grande salto e de alguma forma consegue estabelecer uma relação entre a proposta de Piketty de que seja aplicada um política de impostos progressivos para limitar a concentração de riqueza – uma solução tão americana como a torta de maçã, defendida em seu momento não só pelos economistas de vanguarda, como também pelos políticos convencionais, até, e incluído, Teddy Roosevelt – e os males do stalinismo. Será que isso é realmente o melhor que pode fazer The Journal? A resposta, aparentemente, é sim.

Mas o fato de que seja evidente que os apologistas dos oligarcas americanos carecem de argumentos coerentes não significa que estejam desaparecidos politicamente. O dinheiro continua tendo voz. De fato, graças em parte à Suprema Corte presidida por John G. Roberts, sua voz soa mais forte que nunca. Mesmo assim, as ideias também são importantes, já que dão forma à maneira como nos referimos à sociedade e, em última instância, a nossos atos. E o pânico em relação a Piketty mostra que a direita ficou sem ideias.

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/531013-o-panico-em-relacao-a-piketty

Thomas Piketty, a nova estrela da economia mundial

Quinta, 08 de maio de 2014
Thomas Piketty, a nova estrela da economia mundial
Elogiado pelos prêmios Nobel de Economia, Paul Krugman e Joseph Stiglitz, ressaltado pelo influente editor do jornal Financial Times, Martin Wolf, e analisado em profundidade pelo semanário The Economist. “Capital in the 21st Century” [O capital no século XXI], do economista francês Thomas Piketty (foto), contém um duro ataque ao capitalismo e um traço que considera inerente ao seu funcionamento: uma crescente desigualdade que, cedo ou tarde, será “intolerável”.


Fonte: http://goo.gl/KTtQIk
A reportagem é de Marcelo Justo, publicada por BBC Mundo, 07-05-2014. A tradução é do Cepat.

A mensagem recorda (assim como o título da obra) as predições de Karl Marx sobre o inevitável antagonismo entre uma minoria cada vez mais rica e uma maioria cada vez mais relegada.

Não em vão, The Economist chamou Piketty como “o moderno Marx”, mas entre as surpresas deste suposto herdeiro do autor de “O Capital” e do “Manifesto Comunista” está o fato de que foi recebido, simultaneamente, pela Casa Branca e o Fundo Monetário Internacional para que explicasse as suas teses.

Em sua resenha para The New York Review, Paul Krugman procurou sintetizar o interesse que o livro desperta.

“Apresenta um novo modelo que integra o conceito de crescimento econômico com o de distribuição de ingressos salariais e riqueza. Mudará o modo como pensamos sobre a sociedade e a economia”, escreveu Krugman.

R contra G

Piketty não é o primeiro a falar de crescimento da desigualdade. O tema foi tratado por diversos autores, desde Joseph Stiglitz até o coreano Ha-Joon Chang, e mencionado como um dos grandes desafios de nossa época por dirigentes políticos mundiais, começando pelo próprio Barack Obama.

A diferença é que Piketty revoluciona a análise histórica com uma comparação que abarca desde inícios da revolução industrial, no século 18, até nossos dias. Segundo Piketty, o crescimento da desigualdade é inerente ao capitalismo porque a taxa de retorno ou rendimento do capital (R: rate of capital return) é superior à taxa de crescimento econômico (G: rate of economic growth), relação resumida na versão em inglês do livro como “R>G” (R maior que G).

Piketty analisou a evolução de 30 países, durante 300 anos, como explicou ao The New York Times.

“Caso se analise o período de 1700 até 2012, percebe-se que a produção anual cresceu em média 1,6%. Ao contrário, o rendimento do capital foi de 4 a 5%”, destacou Piketty ao jornal.

A consequência deste processo é que, a longo prazo, o próprio crescimento econômico se vê afetado. Em outras palavras, Piketty ataca de frente a ideia de que a distribuição da riqueza econômica é secundária à criação da mesma.

Os 25 anos dourados

Esta tese bate de frente com a premissa da economia neoclássica (baseada em Adam Smith e David Ricardo) que considera que a distribuição da riqueza é um tema secundário do crescimento e que em “economias maduras” (desenvolvidas) a desigualdade se reduz naturalmente.

Esta tese se baseava na chamada curva de Kuznets, que postulava que embora as economias fossem muito desiguais na primeira etapa da industrialização, tornar-se-iam mais igualitárias com o tempo, em virtude de um processo de amadurecimento intrínseco, resultado do crescimento.

Kuznets desenvolveu esta hipótese nos anos 1950 e 1960, no mesmo período em que o capitalismo gozou de seus “25 anos dourados” (1947-1973), em que o crescimento chegou a 4,5% anualmente.

Segundo Piketty este período é uma exceção em razão de fatores históricos aleatórios e institucionais.

“A grande crise de 1914-1945, com a destruição de capital pela inflação, as duas guerras mundiais e a Grande Depressão, somado a mudanças institucionais, como a criação do Estado de Bem-Estar, reverteram um pouco o processo de crescente desigualdade que víamos desde a revolução industrial”, destacou ao jornal The New York Times.

Em outras palavras, com o laissez faire a tendência natural é a desigualdade. Por outro lado, a intervenção da história, que afeta o rendimento do capital e seu investimento (guerras mundiais), e a do estado (redistribuição) podem alterar esta tendência.

Em sua “História do século XX”, o recentemente falecido historiador Eric Hobsbawm apresenta outro ângulo que leva a mesma conclusão: “Uma das ironias do século XX foi que a Revolução de Outubro, que tinha como objetivo a eliminação do capitalismo, acabou lhe salvando ao obrigá-lo a se reformar e planificar sua economia com políticas redistributivas como o New Deal, escrevia o historiador britânico em princípios dos anos 1990. Com a queda do Muro de Berlim, o capitalismo voltou a suas velhas raízes do laissez faire, hoje rebatizadas como neoliberalismo.

Críticas

O livro de Piketty foi criticado a partir de duas perspectivas.

A direita reconheceu a “extraordinária magnitude dos dados reunidos e comparados”, mas discordou da tese principal e da “pobreza” das soluções propostas.

O semanário The Economist sintetizou em sua última edição as críticas.

“Muitos pensam que Piketty se equivoca ao acreditar que o futuro será como o passado, o século XXI como o XVIII e XIX. Outros acrescentam que, na realidade, é cada vez mais difícil obter uma boa rentabilidade do capital investido. E, além disso, a maioria dos super-ricos de hoje conseguiu sua riqueza graças ao seu esforço e não por herança”, destaca o semanário.

A partir de uma perspectiva de centro-esquerda, Piketty também foi criticado porque sua tese se encontraria dentro dos limites da economia “neoclássica”.

O autor de “Post Keynesian Economics: Debt, Distribution and the Macro Economy”, o acadêmico estadunidense Thomas I. Palley, destaca que esta limitação torna possível “mudar algo para que não mude nada”, velha técnica do leopardismo.

“Piketty fornece uma explicação da crescente desigualdade no marco neoclássico e centra o problema na diferença entre a rentabilidade do capital e o crescimento. Este esquema neoclássico o faz enfocar o tema tributário como o remédio, sem prestar atenção às estruturas do poder econômico”, destaca Palley.

Há alternativas?

Em uma coisa todos concordam: a desigualdade cresceu nas últimas três décadas.

Segundo The Economist, hoje 1% da população tem 43% dos ativos do mundo. Os 10% mais ricos detém 83%.

A mensagem de Piketty é que esta situação irá continuar, a não ser que se adote uma série de medidas progressistas globais, como um imposto de 80% sobre a riqueza (não apenas sobre a renda).

Para além da questão se este remédio faz parte do esquema neoclássico, como critica Palley, dado o poder de lobby dos grandes capitais e, em muitos casos, sua direta manipulação da coisa pública (a política econômica de Barack Obama tem estado nas mãos de ex-banqueiros de Wall Street), é bastante improvável que se possa ir adiante. O próprio Piketty não é particularmente otimista.

“Hoje, os níveis de desigualdade nos Estados Unidos são semelhantes aos que existiam na Europa em inícios do século XX. A história nos ensina que este nível de desigualdade não é positivo para o crescimento econômico ou a democracia. Os sistemas democráticos não puderam responder de maneira pacífica e a situação apenas foi solucionada após duas guerras mundiais e violentos conflitos sociais. Vamos esperar que desta vez seja diferente”, destaca Piketty.

PARA LER MAIS:

06/05/2014 - O pânico em relação a Piketty
05/05/2014 - “O Capital” de Thomas Piketty: tudo o que você precisa saber sobre o surpreendente best-seller
05/05/2014 - Piketty, um problema para a direita
06/05/2014 - As cloacas do capitalismo: quando ter trabalho não significa sair da pobreza
05/05/2014 - É possível criticar o capitalismo? A discussão suscitada pelo tuíte do Papa
29/04/2014 - 'O Capital no século XXI' revoluciona ideias sobre desigualdade
17/04/2014 - Occupy estava certo: o capitalismo levou o mundo ao fracasso

“O Capital” de Thomas Piketty: tudo o que você precisa saber sobre o surpreendente best-seller

Segunda, 05 de maio de 2014
“O Capital” de Thomas Piketty: tudo o que você precisa saber sobre o surpreendente best-seller
Que o capitalismo é injusto já foi dito antes. Mas é a forma como Thomas Piketty o diz – sutilmente mas com uma lógica implacável – o que levou os economistas da direita a um frenezi, tanto aqui [na Inglaterra] quanto nos Estados Unidos.

O comentário é de Paul Mason, editor cultural e digital do Channel 4 News, em artigo publicado pelo The Guardian, 28-04-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O seu livro – intitulado “Capital in the Twenty-First Century” [O capital no século XXI] – disparou na lista entre os mais vendidos no site Amazon. Tê-lo consigo, em alguns ambientes de Manhattan, se tornou a mais nova ferramenta para se conectar socialmente com jovens progressistas. Ao mesmo tempo, seu autor vem sendo condenado como neomarxista por comentaristas de direita. Afinal, qual a causa de tudo isso?

O argumento de Piketty é que, numa economia onde a taxa de rendimento sobre o capital supera a taxa de crescimento, a riqueza herdada sempre crescerá mais rapidamente do que a riqueza conquistada. Assim, o fato de que filhos ricos podem passar de um ano sabático sem rumo a um emprego no banco, na rede de televisão, etc., do pai – enquanto os filhos pobres continuam transpirando dentro de seus uniformes – não é acidental: é o sistema funcionando normalmente.

Se se tem um crescimento lento junto de rendimentos financeiros melhores, então a riqueza herdada irá, na média, “superar a riqueza acumulada de uma vida toda de trabalho por uma ampla margem”, diz Piketty. A riqueza irá se concentrar em níveis incompatíveis com a democracia, irá abandonar a justiça social. Em suma, o capitalismo cria automaticamente níveis de desigualdade que são insustentáveis. A crescente riqueza daquele 1% não é um episódio isolado nem mera retórica.

Para entender por que o sistema dominante acha esta proposição um tanto desagradável, é preciso compreender que se pensava ser o assunto “distribuição” – termo bonito para se referir à desigualdade – um tema acabado. Simon Kuznets, o bielorrusso emigrado que se tornou uma figura importante da economia americana, fez uso das informações disponíveis à época para mostrar que, embora as sociedades se tornassem mais desiguais nos primeiros estágios da industrialização, esta desigualdade diminuiria na medida em que elas alcançassem a maturidade. Tal “curva de Kuznets” fora aceita pela maioria dos profissionais de economia até Piketty e seus colaboradores produzirem as provas para mostrar que isso era falso.

Na verdade, a curva vai exatamente na direção oposta: o capitalismo começou desigual, achatou a desigualdade durante grande parte do século XX, mas atualmente está voltando em direção aos níveis dickensianos de desigualdade no mundo.

Piketty aceita a ideia de que os frutos da maturidade econômica – aptidões, formação e educação da força de trabalho – promovem, de fato, uma maior igualdade. Mas eles podem ser neutralizados por uma tendência mais fundamental no sentido da desigualdade, que é desencadeada onde quer que a demografia, a baixa taxação ou a fraca organização trabalhista permita. Grande parte das 700 páginas do livro são gastas mobilizando as provas de que o capitalismo do século XXI percorre um trajeto só de ida em direção à desigualdade – a menos que façamos alguma coisa.

Se Piketty estiver certo, haverá enormes implicações políticas, e a beleza do livro é que ele nunca se abstém de apontá-las. O pedido feito por Piketty de um imposto global “confiscatório” sobre a riqueza herdada faz outros economistas, em princípio radicais, parecerem familiares. Ele propõe um imposto de 80% sobre os rendimentos acima de 500 mil dólares ao ano nos EUA, assegurando a seus leitores que não haveria nem uma fuga de grandes executivos para o Canadá tampouco uma desaceleração do crescimento, uma vez que o resultado seria simplesmente suprimir tais rendimentos.

Embora supere a agenda macroeconômica, os golpes colaterais do livro contra a moda microeconômica, muitas vezes trazidas em notas de rodapé, parecem uma piada interna contra a geração para a qual todos os problemas pareciam resolvidos, com exceção dos preços da cocaína vendida nas ruas de Georgetown.

Além disso, o livro hipnotizou os profissionais da economia por causa da forma como Piketty cria teoricamente o seu próprio mundo. Ele define as duas categorias básicas, riqueza e renda, de forma ampla e assertiva como ninguém antes tinha se preocupado em fazer. Os termos e as explicações da obra são extremamente simples; com uma infinidade de dados históricos, Piketty reduz a história do capitalismo a um claro arco narrativo. Para se desafiar a sua argumentação, é preciso rejeitar suas premissas e não sua elaboração.

Desde a primeira página ele, ilustra com observações viscerais, o mundo injusto no qual vivemos: começa com o massacre de Marikana e não esmorece. Ele apresenta não só os índices de juros do século XVIII como provas, mas também as obras de Jane Austen e Honoré de Balzac. Usa estes dois escritores para ilustrar como, no início do século XIX, era lógico desdenhar o trabalho a favor do casamento pela riqueza. Isso se tornou tão presente que fortaleceu o mito central do capitalismo e sua justificativa moral: aquela de que a riqueza é gerada pelo esforço, pela criatividade, pelo trabalho, pelo investimento correto, pelo risco assumido, etc.

Para Piketty, o período de meados do século XX marcado pelo aumento da igualdade foi um pontinho produzido pelas exigências da guerra, do poder do trabalho organizado, da necessidade de uma tributação alta, por fatores demográficos e pela inovação técnica.

Dito de forma direta, se o crescimento for alto e o rendimento do capital for suprimido, poder-se-á ter um capitalismo mais igualitário. Mas, diz Piketty, uma repetição da era keynesiana é improvável: o trabalho está enfraquecido, a inovação tecnológica está demasiado lenta, o poder global do capital está demasiado forte. Além disso, a legitimidade deste sistema desigual é alta, isso porque ele encontrou formas de estender a riqueza à classe empresarial de uma forma que não se conseguiu fazer no século XIX.

Se o autor estiver certo, as implicações para o capitalismo são bastante negativas: estamos diante de um capitalismo com baixo crescimento, combinado com altos níveis de desigualdade e baixos níveis de mobilidade social. Se o sujeito não nascer na riqueza, será bastante difícil enriquecer.

Seria Piketty o novo Karl Marx? Qualquer um que tenha lido este último saberá que ele não o é. A crítica de Marx ao capitalismo não era sobre a distribuição, mas sobre a produção: para Marx não seria o aumento da desigualdade, mas sim uma ruptura no mecanismo de lucro o que levaria o sistema a seu fim.

Onde Marx via relações sociais – entre trabalhadores e gerentes, proprietários de fábricas e a aristocracia rural –, Piketty vê apenas categorias sociais: riqueza e renda. A economia marxista vive num mundo onde as tendências interiores do capitalismo são contrariadas por sua experiência de superfície. O mundo de Piketty é feito somente de dados históricos concretos. Então, as acusações de um marxismo suave estão completamente equivocadas.

Mais precisamente, Piketty colocou uma bomba não detonada dentro da economia clássica, dominante. Se a causa subjacente da catástrofe bancária de 2008 foi a queda na renda ao lado de uma crescente riqueza financeira, então – diz Piketty – estas coisas não foram por acaso: não foram produtos de uma regulação frouxa ou de uma ganância simples. A crise é o produto do sistema funcionando normalmente, e devemos esperar mais.

Um dos capítulos mais interessantes é o debate proposto por Piketty do aumento quase universal daquilo que ele chama de “Estado social”. O crescimento contínuo na proporção da renda nacional consumida pelo Estado, gasto nos serviços universais, em pensões e benefícios, sustenta o autor, é uma característica irreversível do capitalismo moderno. Ele observa que tal distribuição se tornou uma questão de “direito” às coisas – de saúde e pensões – em lugar de simplesmente ser um problema dos índices de tributação. A sua solução é uma taxa específica, progressiva, sobre a riqueza privada: um imposto excepcional sobre o capital, possivelmente combinado com o utilização ostensiva da inflação.

A lógica política para a esquerda está clara. Durante grande parte do século XX a redistribuição fora feita através de imposto sobre os rendimentos. No século XXI, qualquer partido que queira redistribuir precisará confiscar a riqueza, e não somente a renda.

O poder da obra de Piketty é que ela também desafia a narrativa de centro-esquerda da globalização, que acreditava que a requalificação da força de trabalho, combinada com uma redistribuição amena, iria promover a justiça social. Isso, demonstra Piketty, é um engano. Tudo o que a social-democracia e o liberalismo podem produzir, com suas atuais políticas, é o iate do oligarca coexistindo com o banco de alimentos para todo o sempre.

A obra de Piketty, “Capital in the Twenty-First Century” (diferentemente de “O Capital”, de Marx) contém soluções no próprio terreno do capitalismo: os 15% de impostos sobre o capital, os 80% de impostos sobre os altos rendimentos, uma transparência obrigatória em todas as transações bancárias, uma utilização ostensiva da inflação para a redistribuição da riqueza. Ele considera algumas destas soluções “utópicas”, e está certo nisso. É mais fácil imaginar um colapso do capitalismo do que uma elite consentir com estas ideias.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/530907-o-capital-de-thomas-piketty-tudo-o-que-voce-precisa-saber-sobre-o-surpreendente-best-seller

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Francisco entre os lobos

Francisco entre os lobos
O desafio da revolução de Francisco será jogado nos próximos anos. O desembocadouro poderá ser, para a Igreja, um New Deal como o de Roosevelt ou um terremoto como a perestroika de Gorbachev. "Iniciamos uma nova etapa na Igreja", são as suas palavras reveladas pelo amigo teólogo Victor Manuel Fernández.

Publicamos aqui um trecho do livro do jornalista italiano Marco Politi, intitulado Francesco tra i lupi (Ed. Laterza, 2014). O texto foi publicado no jornal Il Fatto Quotidiano, 03-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Dois papas no Vaticano. E no horizonte se perfila um pontífice temporário. O Papa Francisco não tem muito tempo para a sua revolução. Na Argentina, onde muitos tinham intimidade com ele e têm menos temor reverencial, vários expoentes religiosos evidenciam que os anos à sua disposição não são muitos.

O padre Ignacio Pérez del Viso, seu antigo professor, afirma que o pontífice "se dá conta de que não tem diante de si um papado de 20 anos. Ele sente a pressão das reformas, que ele deve implementar dentro de três ou quatro... Ele deve agir enquanto sentir o apoio das pessoas".

A abdicação de Ratzinger mudou completamente a fisionomia do papado. Não se é mais pontífice para sempre. No dia seguinte à sua renúncia, o ex-ministro das Relações Exteriores vaticano, o cardeal Giovanni Lajolo, observava: "A decisão de Bento XVI valerá como precedente também para os seus sucessores".

O ex-porta-voz de Bergoglio, padre Marcó, dissera no rádio: "Depois do gesto de Bento, não pareceria estranho se Francisco renunciasse, depois de ter feito o que pensava que devia fazer".

A um ano da eleição, o papa ainda está bastante sozinho dentro da estrutura eclesiástica. Isso explica a sua extraordinária determinação. Ele goza de um consenso muito amplo entre os fiéis e na opinião pública agnóstica e não crente, mas na Cúria não se manifesta, por enquanto, um forte partido pró-Bergoglio. Ao contrário, há quem espere que o papa argentino seja uma exceção transitória.

Não existe na Igreja um movimento organizado de apoiadores da sua revolução. O associacionismo católico até agora permaneceu parado, enquanto nos tempos de João Paulo II eram visíveis a presença e a pressão de movimentos como o Opus Dei e o Comunhão e Libertação, ativamente inclinados em favor do programa do papa polonês.

Um papa obtém obediência quase absoluta quando age ao longo dos trilhos da tradição. Se, ao invés, quer mudar e reformar, são infinitos os modos grandes e pequenos de lhe opor obstáculos. João XXIII encontrou resistências abertas e subterrâneas ao seu projeto reformador. O monge-teólogo Enzo Bianchi considera o pontificado de Francisco como uma "segunda primavera", mas não esconde o medo de que a dinâmica possa ser bloqueada. Os setores conservadores apontam para o desgaste do papa argentino, alavancam a fadiga que pode surgir com a repetição das suas exortações. Difundem o temor de que Francisco está construindo uma "outra Igreja", saindo dos trilhos da tradição, da doutrina e da reta interpretação da palavra de Deus.

"O senhor está nos desconcertando e não sabemos mais onde é o nosso bairro e onde, ao invés, é o fronte inimigo", escreveu-lhe Lucrecia Rego de Planas, ex-diretora da edição espanhola do Catholic.net no México.

Os críticos dentro do aparato curial criticam Francisco por criar comissões e comitês demais, por se mover de maneira solitária, por não se concentrar em poucos objetivos, por não expressar uma visão teológica estruturada, por falar demais, por ceder demais aos gostos da multidão.

Há quem se rebele contra a ideia de que Francisco diminui a "sacralidade da pessoa papal". Quando Francisco condena a fofoca e a circulação de calúnias dentro dos aparatos, ele pensa nos sabotadores que falam em voz baixa. "Gostaria de morrer católico, e espero que Bergoglio deixe ao sucessor a possibilidade de ser papa!", é a frase exasperada de um monsenhor hostil às reformas. Não se deve subestimar nem mesmo a oposição inerte daqueles que na Cúria estão incertos em relação ao seu futuro e ao seu papel, e sentem que a estabilidade dos ditames tradicionais vacila.

Ao lado dos padres e prelados que admiram Francisco, há quem liquide com desencanto as suas palavras, especialmente sobre o tema da pobreza. Há uma rede subterrânea de interesses ramificados, que olha com suspeita e incômodo para as reformas.

O Papa Francisco sente desgosto pela corrupção dos corações. "Todos somos pecadores, mas nem todos corruptos", declarou ele em uma reunião de superiores das ordens religiosas. "Aceitam-se os pecadores, não os corruptos", que devem ser expulsos de seminários e institutos, reitera o pontífice. E as obras da Igreja devem ser geridas com pobreza de coração, sem que o padre se identifique, anulando-se, com a mentalidade de um empresário.

Palavras que parecem ressoar em um deserto. "Na Cúria, a resistência está crescendo", admite um curial. A reação do pontífice ora é tingida de humorismo, ora se faz pensativa. "Fizeram-me um gol do meio-campo", comenta ele, quando lhe organizam alguma nomeação pouco convincente. Diante das tensões subterrâneas, a sua reação é serena: "O demônio se agita... estamos no bom caminho".

Na missa com os novos cardeais, criados no consistório de fevereiro, ele advertiu que o Vaticano não é uma corte: "Ajudemo-nos a evitar intrigas, fofocas, corjas, favoritismos, preferências". Terminado o rito, o pontífice exortou para se trabalhar pela "unidade" da Igreja, pronunciando a palavra quatro vezes de uma vez só. É um sinal de alerta.

O que contribui para um certo "estar sozinho" de Francisco é a complexidade do seu caráter. O papa, que encoraja a participação na Igreja, tão compañero dos seus padres em Buenos Aires, amável com os fiéis, privadamente, conserva uma solidão própria. Uma personalidade vaticana, que o conhece há anos, diz sobre ele: "De Santo Inácio, escreveu-se que ele observava uma 'distância cordial' em relação aos outros. Jorge Mario Bergoglio, à sua maneira, é assim. E isso lhe dificulta construir uma equipe em torno dele".

As missas matinais em Santa Marta diante de grupos de fiéis nascem da necessidade de não perder, como padre, o contato direto com o povo de Deus ao redor da eucaristia. O rito se desenrola em uma extrema essencialidade. Durante a consagração, quando segura a hóstia elevada, Francisco a olha fixamente, com uma extraordinária intensidade. Não há nada em torno dele. Poderia ser em qualquer lugar. Celebrando a eucaristia no deserto como Teilhard de Chardin ou em um campo de concentração dos totalitarismos do século XX.

Embora ele tenha um programa, Francisco, na realidade, ignora o porto ao qual irá chegar. "Fazer as pequenas coisas de todos os dias com um coração grande e aberto a Deus e aos outros... dentro de grandes horizontes" é a sua bússola. Para aqueles que estão convencidos de que mudanças e reformas podem ocorrer rapidamente, Francisco opõe a ideia de que é preciso tempo para preparar uma mudança autêntica. Nasce daí o sentimento de calma que o acompanha, enquanto ele trabalha sem pausas – nada de férias, nada de excursões pela natureza como Wojtyla ou passeios nos jardins vaticanos como Ratzinger.

Francisco chegou ao fim do primeiro ano de pontificado com o rosto marcado pelo cansaço. Às vezes, tem os olhos inchados de fadiga, e atingem-no momentos de fraqueza. "O trabalho é muito, mas estou contente", confidenciou ele a um conhecido argentino.

A sintonia extraordinária que se criou entre ele e os fiéis representa o escudo contra as críticas e as tácitas sabotagens em curso nos aparatos eclesiásticos. "Esse pontificado dará muitas surpresas", prevê o cardeal Tauran. O desafio da revolução de Francisco será jogado nos próximos anos. O desembocadouro poderá ser, para a Igreja, um New Deal como o de Roosevelt ou um terremoto como a perestroika de Gorbachev. "Iniciamos uma nova etapa na Igreja", são as suas palavras reveladas pelo amigo teólogo Victor Manuel Fernández.

Se conseguir transformar os Sínodos dos bispos em instrumento de coparticipação no governo papal, torná-los pequenos concílios onde se identifica a rota da Igreja no mar da modernidade – envolvendo também, no futuro, o povo dos fiéis –, a revolução de Bergoglio se tornará irreversível.

PARA LER MAIS:

09/12/2013 - ''A reforma da Igreja terá um alto custo. Preparemo-nos!''. Artigo de Enzo Bianchi
20/03/2013 - ''Reforma da Cúria? Inevitável e não agradará a todos''. Entrevista com João Braz de Aviz
28/10/2013 - “A reforma da Cúria será um processo longo”, afirma Maradiaga
16/02/2012 - Os ''lobos'' ao redor do papa
18/06/2013 - ''Há resistência, mas o papa nos ensina a dizer 'não' a formas perversas de poder e corrupção''
02/05/2014 - Reforma da Cúria encontra cada vez mais resistências
22/04/2014 - Francisco encontra oposição na Cúria Romana, diz cardeal

O tuíte do Papa sobre a desigualdade social aponta para uma recalibragem social, política e econômica

Sexta, 09 de maio de 2014
O tuíte do Papa sobre a desigualdade social aponta para uma recalibragem social, política e econômica
"Francisco e Piketty veem a mesma condição humana, o primeiro através dos olhos da experiência e dos evangelhos; e o segundo, através de pilhas de documentos e planilhas", constata o editorial do National Catholic Reporter - NCR, 07-05-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o editorial.

Ele veio com a clareza de um trovão numa planície qualquer. Cruzou o mundo num tuíte retuitado 14 mil vezes num único dia. Veio apenas duas horas depois dos últimos aplausos na Praça de São Pedro que deram fim à cerimônia de canonização dos santos João XXIII e João Paulo II.

Foi como se o Papa Francisco estivesse nos dizendo aonde precisamos ir, como igreja e como família humana, caso queiramos seguir um curso moral. É lá fora, entre os pobres e despossuídos do mundo. É lá onde encontramos a salvação.

Num tuíte de poucas palavras ele disse: “A desigualdade é a raiz dos males sociais”.

Vivemos um momento sem precedentes. Temos um pontífice que possui um grande apreço por questões globais e pela família humana, por seus anseios e falhas, como ninguém antes. Este é o nosso primeiro papa do sul global. Ao mesmo tempo, o seu cenário é amplo; a sua voz, clara; sua entrega, simples; sua autoridade, inatacável; seu domínio na comunicação, poderoso como o último celular lançado.

É claro, muitos não podem ouvir. Para uns, a mensagem é simples demais para se prestar atenção. Alguns, por exemplo, da direita política foram rápidos no criticar o tuite papal. Suas palavras, disseram eles, foram enigmáticas, demasiado simplistas, até mesmo ingênuas, incapazes de entender a economia moderna.

O que eles veem – e temem – é um papa que tem uma voz moral com uma vantagem política.

Como se fosse para fortalecer a pungência do momento, as palavras do Papa Francisco vieram ao mesmo tempo em que o novo livro do economista francês Thomas Piketty – “Capital in the Twenty-First Century” [O capital no século XXI] – estava aparecendo em todas as listas de best-sellers. Este tratado bem-documentado, de 700 páginas, sustenta que o capitalismo deste século está numa viagem só de ida em direção a uma maior desigualdade. A nós é dado a certeza de uma desigualdade maior nas próximas décadas – isso sem uma grande intervenção política. Piketty não está sugerindo o descarte do capitalismo. Diz que este sistema pode funcionar para todos, mas que precisa de sérios ajustes – como um imposto de 15% sobre o capital, um imposto de 80% sobre altos rendimentos e uma transparência imposta em todas as transações bancárias.

Estas não são as mensagens que a direita quer ouvir. Alguns da esquerda podem questionar o seu abraço à possibilidade de reforma dentro do próprio sistema.

Até que ponto o sistema permitiu que esta situação se instalasse? Nos Estados Unidos, segundo Piketty, os 1% dos mais ricos se apropriaram de 60% do aumento dos rendimentos nacionais entre 1977 e 2007. O curso, diz ele, não irá mudar, dadas as diretrizes políticas atuais, dadas as leis que estão sendo escritas pelos que mais lucram com o sistema.

Francisco e Piketty veem a mesma condição humana, o primeiro através dos olhos da experiência e dos evangelhos; e o segundo, através de pilhas de documentos e planilhas.

Em termos essenciais, vivemos num estado de pecado social, que requer uma recalibragem social, política e econômica. Francisco não é sociólogo e nem economista. O que ele conhece a partir da experiência – e que está dizendo abertamente ao mundo – é que o seu povo não está comendo, enquanto que, relativamente, uns poucos super-ricos vivem num esplendor inimaginável.

Dentro do atual sistema econômico global, riqueza significa influência na política. Quanto maior a riqueza, maior a influência – e maior a capacidade de moldar as leis a seu favor, o que contribui para o privilégio e poder político. O desafio é o de que junto com as fortunas vieram a influência política e o poder, mas também vieram maiores desigualdades numa série de questões: desde condenações à prisão e educação pública até impostos sobre ganhos de capital e iates particulares.

A desigualdade sem precedentes está atolada na inércia política. Os que fazem as leis resistem à mudança – mesmo quando uma mudança se faz necessária para a saúde, e mesmo sobrevivência, do planeta.

O tuite do Papa Francisco aparece como um ponto de exclamação à sua exortação apostólica de novembro, “Evangelii Gaudium”, onde escreve: “Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população veem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora”.

Poderá haver alguma dúvida?


Fonte:http://www.ihu.unisinos.br/noticias/531103-editorial-o-tuite-do-papa-sobre-a-desigualdade-social-aponta-para-um-curso-moral

A direita prepara rebelião contra o Papa Francisco

IHU/Unisinos
Quinta, 08 de maio de 2014




A direita prepara rebelião contra o Papa Francisco

Desde o início, o Opus Dei apoiou o novo percurso do Papa Francisco: a crise na Igreja e, em particular, da Cúria Romana eram por demais evidentes; a reviravolta considerada necessária por muitos; e a maioria que defendia no conclave uma mudança radical tornavam-se amplas.
A reportagem é de Francesco Peloso, publicada no sítio Linkiesta, 04-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Assim, ao longo desses primeiros 12 meses, a Companhia de Jesus e a Obra fundada por Josemaria Escrivá de Balaguer se encontraram, embora à distância, unidas na mesma obra depois de serem, por muito tempo, adversários irredutíveis.

Mas agora algo está mudando: de fato, o papa, além de reforma da Cúria vaticana, de uma ação de transparência financeira levada adiante com uma certa decisão e da promoção de um modelo de Igreja mais austero e atento às necessidades das pessoas, deixou claro que pretende também proceder profundas modificações no magistério sobre temas delicados como os da família.

Mas Francisco foi ainda mais longe, assumindo de peito aberto as temáticas econômicas e sociais. As suas críticas ao modelo capitalista expressadas no documento Evangelii gaudium provocaram fortes reações dos think tanks conservadores do exterior, da direita católica norte-americana nostálgica do wojtylianismo, do Tea Party e daquela parte da imprensa que apoia a inoxidabilidade da religião neoliberal apesar da crise.

É toda uma área que começa a se incomodar diante das muitas novidades do pontificado: assim, nos últimos dias, em Roma, por iniciativa do Acton Institute, laboratório econômico conservador norte-americano de inspiração católica, realizou-se um dia de estudos sobre "Fé, Estado e Economia: perspectivas do Oriente e do Ocidente".

O conferencista de excelência foi o sacerdote e professor Martin Rhonheimer, pertencente ao Opus Dei, professor de ética e filosofia política da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, ou seja, a prestigiosa universidade da Obra na capital italiana.

Rhonheimer defendeu, em síntese, que o estado social, assim como toda forma de proteção pública, acaba limitando a liberdade das empresas e o livre mercado; são estes, ao invés, os únicos e verdadeiros pilares da difusão do bem-estar, os reguladores – juntamente com a responsabilidade individual fundamentada em princípios éticos – do progresso econômico e social. Não só: para o estudioso do Opus Dei, o próprio conceito de redistribuição econômica é um engano.

É o mercado que "trabalha" pelo bem comum, destacou Rhonheimer. Portanto, é dentro dele que se desenvolvem empresas voltadas ao lucro e sem fins lucrativos, e, consequentemente, iniciativas de caridade. Não há necessidade do Estado. O essencial é encorajar a livre iniciativa dos cidadãos.
Mesmo na tradição católica, ressaltou Rhonheimer, foi alimentado o mito de "um capitalismo cruel e selvagem", que deve ser regulamentado pelo Estado através de intervenções sobre os preços e salários para se chegar a mecanismos de redistribuição da riqueza. Tudo errado. Uma forma de subsidiariedade absoluta é a via mestra para garantir formas de solidariedade social (privadas e não públicas). O governo deve se retirar dentro de limites bem definidos, as forças do mercado e da responsabilidade do indivíduo são capazes de se autorregulamentar sozinhas. Nada de novo, mas a radicalidade dos tons é surpreendente.

A posição expressada pelo Papa Francisco tanto na Evangelii gaudium quanto em várias entrevistas, incluindo a concedida ao jornal La Stampa, era o oposto dessa postura. Bergoglio reafirmou várias vezes as suas críticas às "teorias da 'recaída favorável', segundo as quais todo crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue produzir por si só uma maior equidade e inclusão social no mundo". "Havia a promessa – destacava o pontífice – de que, quando o copo estivesse cheio, ele transbordaria, e os pobres seriam beneficiados com isso. O que acontece, ao invés, é que, quando está cheio, o copo magicamente se engrandece, e assim nunca sai nada para os pobres". Isso, observava depois o bispo de Roma, não significa ser marxista; mas o esclarecimento não foi suficiente para deter os críticos suspeitos do exterior.

Além disso, o próprio Bergoglio parece quase provocar a ala teocon quando tuíta – como ocorreu no dia 28 de abril – afirmações do tipo: "A desigualdade é a raiz dos males sociais". Além disso, são incontáveis os discursos do papa nos quais se pedem "políticas" para reduzir a pobreza e as desigualdades sociais, isto é, intervenções públicas.

E não só: está prestes a chegar uma encíclica ambientalista que será escrita com a contribuição dos bispos da Amazônia (em particular, com a contribuição de Dom Erwin Kräutler, que recebeu ameaças pela sua defesa das populações indígenas). É difícil que surja dela uma laudatio do mercado livre e selvagem. Assim, do Financial Times à Forbes, o papa sul-americano que põe em discussão a globalização financeira provoca descontentamentos que se ampliam cada vez mais na área católica próxima dos teocons.

Além disso, quem está à frente do Acton Institute é um sacerdote, Robert Sirico, reaganiano de primeira hora e defensor de um liberalismo radical na economia, segundo um modelo em que o empregador é livre para demitir a qualquer momento, assim como o trabalhador pode mudar de emprego quando quiser, porque os dois sujeitos, na realidade, estão no mesmo plano.

A sua teoria foi definida de "a opção preferencial pela liberdade", em oposição à "opção preferencial pelos pobres", cunhada pelos bispos da América Latina na segunda metade dos anos 1960, quando surgia a teologia da libertação.

Também se deve notar que, entre os promotores do dia de estudos organizada pelo Acton Institute, figura também o Dignitas Humanae Institute, presidido pelo cardeal norte-americano ultratradicionalista Raymond Leo Burke.

No conselho do órgão, encontramos também o arcebispo de Milão, Angelo Scola, e depois os purpurados conservadores Elio Sgreccia, Francis Arinze, Malcolm Ranjth e Walter Brandmüller, além do ex-arcebispo de Hong Kong, Joseph Zen Ze-Kiun – contrário à linha diálogo com Pequim sobre temas da liberdade religiosa –, que também foi um dos conferencistas do congresso. O evento, por outro lado, além de gozar do apoio de outras estruturas do Opus Dei, foi promovido também por várias outras organizações, dentre as quais se destacava o Instituto Sturzo.

Talvez, de modo ainda incerto, estaria se coagulando uma primeira oposição interna ao papa? É o que se saberá nos próximos meses, quando o sínodo sobre a família também começará seus trabalhos.
Ao mesmo tempo, deve-se lembrar que o prelado do Opus Dei, Javier Echevarria, ainda nos últimos dias, repetiu em uma entrevista ao jornal Tempo como, por parte da Obra, não há nenhuma oposição em relação ao que o pontífice está fazendo.

Este último, de sua parte, continua a se mover com atenção em relação à prelazia: aprovou, dentre outras coisas, a beatificação de Alvaro del Portillo, o primeiro sucessor de Balaguer como prelado do Opus Dei; no dia 29 de abril, nomeou o bispo Carlos Lema Garcia como auxiliar da diocese de São Paulo, no Brasil, uma das maiores do mundo.

Dado que o Opus Dei, com o jovem bispo José Gomez, já "governa" a megadiocese de Los Angeles, deve-se notar que alguns homens do Opus Dei estão em ascensão. Nem todos, no entanto: no Peru, o arcebispo de Lima e poderoso cardeal opusiano Juan Cipriani Thorne é fortemente contestado pelo episcopado local. O jogo, em suma, está em aberto.
Para ler mais:

06/05/2014 - Francisco entre os lobos
02/05/2014 - Reforma da Cúria encontra cada vez mais resistências
19/03/2014 - “Estes são aqueles que resistem a Francisco”, revela Andrea Riccardi
11/10/2013 - As oposições ao Papa Francisco. Artigo de Massimo Faggioli
12/03/2014 - Padres austríacos alertam para a existência de uma “frente anti-Francisco” em Roma
19/11/2013 - O desconforto anti-Francisco de alguns católicos

Militares, ciências, Educação Popular.

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