Friday, December 09, 2016

Jessé: a elite global por trás da crise da socialdemocracia


Cientista político Jessé Souza: '[Estamos] enfrentando um inimigo de altíssimas proporções [que] se põe de uma forma internacional'


Jornal GGN – Michel Temer já está no poder há mais de seis meses e a crise política não foi estancada. Analistas, sejam eles economistas, cientistas políticos ou da própria imprensa nem mais arriscam prever o futuro próximo da frágil democracia brasileira.
A instabilidade política é um fenômeno que tem se espalhado não só no Brasil, mas em todos os países nos últimos anos. Se por um lado é difícil prever onde os dados lançados pelos jogadores mais influentes do sistema político-econômico irão levar as populações de cada país, por outro, é possível compreender no exemplo brasileiro os interesses por trás da mudança abrupta no poder, e que levou ao afastamento da presidente Dilma. E um dos principais pensadores desse tema hoje no país é o professor da Universidade Federal de Brasília (UnB), Jessé Souza, autor de dois sucessos literários publicados nos últimos anos, "A tolice da inteligência brasileira" (2015) e "A radiografia do Golpe" (2016).
Em entrevista para Luis Nassif, do Jornal GGN, Jessé esclarece os motivos do desequilíbrio causador da pior crise financeira já enfrentada no país hoje: a inabilidade do grupo que assumiu o poder, através do golpe, de construir uma narrativa coerente com o que prometeu à sociedade, ou seja, de que era necessário derrubar um governo incompetente, em termos de gestão, para colocar o país nos trilhos, revelando que o único interesse real era retomar o poder, pelo poder, incentivados por interesses norte-americanos e, de forma mais abrangente, pelo capitalismo mundial.
O mais interessante, pontua Jessé, é que as elites nacionais podem até pensar, num primeiro momento, que saíram ganhando com o investimento que fizeram na crise política que alterou o governo, mas agora, sem capacidade de tirar o país da tempestade, correm sérios riscos de serem devoradas pela massa sedenta por “justiça” contra a corrupção que ajudaram a criar.
Em relação à participação de grupos estrangeiros na instabilidade política, o fato do “inimigo” ser maior torna a retomada do controle democrático do poder ainda mais desafiador. E esse é um fenômeno não só enfrentado no Brasil, mas também em outros países, onde a soberania popular está sendo soterrada por uma força sem rosto do capitalismo mundial. Ora, sem saber exatamente quem é o inimigo, como acertar o alvo?  
"[Estamos] enfrentando um inimigo de altíssimas proporções e que a reação a ele é sempre local, é fragmentada. Ele se põe de uma forma internacional, como a gente viu no nosso golpe aqui (...), nesse filme novo do Oliver Stones, [chamado] 'Snowden', não por acaso, estava lá [a temática do] controle sobre o petróleo, como barrar empresas como a Petrobras, que há alguns anos atrás tinha uma enorme capacidade de investimento, mais do que o próprio estado brasileiro, isoladamente".         
E os donos do poder não trabalham com uma estrutura qualquer, e sim a partir de uma refinada articulação que envolve meios de comunicação e cultura como principais indutores de comportamento das massas, daí o papel importante dos grandes veículos de imprensa em cada país para colocar ou destituir lideranças políticas. Por essa razão, Jesse chama atenção para o perigo da uniformização, cada vez maior, do pensamento.
“A gente está vivendo uma coisa que [Theodor] Adorno dizia, uma sociedade massificada, sem capacidade de reflexão. Você [como elite] retira a reflexão e o fascismo [acaba] vindo de uma forma normal”.
O professor também critica os grupos tradicionais de esquerda que chegaram ao poder e contribuíram para a crise institucional, por não terem avançado na reflexão das mudanças em cursos, tanto na forma como o capitalismo financista se rearticulava, como nas manifestações sociais que, aqui no Brasil, podem ser representadas pelas marchas de Junho de 2013 e, em termos mundiais, pelas ocupações na Europa e a Primavera Árabe.
Acompanhe a seguir a transcrição na íntegra:   
Luis Nassif - Jesse, nessa quadra atual de desmanche das instituições, o que você prevê como desdobramento?
Jesse Souza - Eu acho que nós estamos passando por um esgarçamento institucional, com as piores consequências por conta disso. No meu livro que você citou tentei fazer uma comparação com um assalto a um banco. Como a gente sabe, nos filmes policiais é fácil você arrumar aventureiro para assaltar um banco, mas a coisa começa a esquentar quando você vai dividir o saque. É exatamente o que está acontecendo efetivamente. Você assalta a soberania popular, e na hora de dividir o saque [acontece o conflito] porque, é claro, os atores entraram apostando o que tinham. Quer dizer, o Judiciário com a sua sobrevivência tem a ver com sua legitimação, o mesmo o Congresso, o sistema político. Embora isso [a crise política que levou ao golpe] tenha sido baseado em uma mentira construída midiaticamente, numa distorção sistemática da realidade, o fato é que sendo verdadeiro ou não essas legitimações enredaram os seus atores. Sem contar com a mídia, ainda, que fez o papel de criar um simulacro de realidade, para os fins mais mesquinhos e venais. Por enquanto ela ainda está pautando a realidade, mas eu acho que a médio prazo isso vai ter uma crise importante de confiança.
Para mim essa é a história, não se mexe em coisas como soberania popular, achando que você pode encontrar um substituto para isso. Não existe isso [a democracia] é o único acordo societário possível.
Luis Nassif - Quando a gente vê a crise da social democracia, ou dos estados nacionais em vários locais, o Judiciário qual que será o protagonismo dele aqui? Vai ser caça às bruxas?
Jesse Souza - Acho difícil de antecipar até porque estou pasmo como nós todos. O tema do judiciário tem a ver com o espaço de uma luta interna dentro do aparelho de estado por duas razões: dinheiro, vantagens. Obviamente é um judiciário que eu acho que agora que está se mostrando quanto ganha, suas vantagens, certamente não tem outro paralelo no mundo o que os juízes ganham, e acho que está entrando também outro aspecto que é do controle da agenda do estado, que está avançando.
Mas eu acho que, obviamente, eu não acredito que seja aquela caminhada da vitória para um aprofundamento desse processo, acho que tem a ver com o desespero também. Montou-se uma narrativa da qual ela não está correspondendo na realidade, no fundo era o afastamento da esquerda, e que estava atingindo o sistema político inteiro, e também os partidos que são os partidos base da banca rentista como o PSDB. Obviamente isso não pode chegar ao PSDB, porque foi a banca rentista que bancou o golpe inteiro. Acho que essas coisas todas estão sendo postas agora de modo muito nu.
Luis Nassif - Essa questão do PSDB, você tem uma blindagem da mídia... você pega esse negócio dos 23 milhões do Serra [repassados pela Odebrecht para caixa 2], O Globo não deu nada. Mas a existência das redes sociais, se por um lado também elas são muito segmentadas, é possível manter esse tipo de jogo sem calar as redes sociais?
Jesse Souza - É difícil. O fato é que a gente tem uma parte importante do público cuja opinião é moldada pela grande mídia, e essa grande mídia, no fundo, tem uma enorme influência sobre as redes. Existem pesquisa que 80% do conteúdo das redes é pautado pela grande mídia.
Luis Nassif - É, uma parte desconstruindo, fazendo uma releitura, e uma parte endossando.
Jesse Souza - Exato, temos um espaço importante nas redes, mas ele ainda é um tanto limitado. Mas voltando na questão do desespero, por exemplo, o apoio popular também tem diminuído. Essas últimas [manifestações em favor da Lava Jato]...apesar de ter sido engrandecido.
Luis Nassif - Tentaram transformar 130 mil na opinião nacional.
Jesse Souza - Exatamente, e obviamente é uma porcentagem mínima do tipo de manifestação que a gente tinha o ano passado. Você vê que é o seguimento mais radicalizado, com coisas como 'militares já', ou seja, é a pulsão fascista, que foi transformado em fascista por uma mídia histérica.
Luis Nassif - Você falou da questão do voto popular desmonta tudo isso. Tem espaço para uma eleição direta? Fernando Henrique andou levantando essa hipótese. Hoje uma eleição direita legitimaria um governo com toda essa dispersão que tem de partidos, com destruição de um partido, inabilitação do outro? A coesão estaria como? Num segundo turno eleitoral?
Jesse Souza - Essas questões são extremamente difíceis, porque até o ponto da soberania popular já foi quebrada, tem um encanto aí, porque mesmo que você eleja o outro, você tem agora um jogo... Então, sempre pode tem agora, por um mecanismos de golpe parlamentar, uma forma de um parlamentarismo. Quer dizer você tem um voto de desconfiança, no fundo, da presidente, isso significa uma essência que vai ficar na nossa vida política.
Mas eu acho que, do que está acontecendo agora, do que está acontecendo agora, e com um presidente completamente inábil e disposto a ir às últimas consequências com a maior truculência possível com um projeto antipopular, seja quando você está no meio do jogo, o outro time faz um gol de mão, mas eu tenho que continuar jogando.... Acho que talvez seja uma possibilidade, embora eu tenha dúvidas quanto à eficácia dela.
Luis Nassif - E essa questão das esquerdas? Independentemente do golpe, você teve uma crise do próprio governo Dilma que coloca em dúvida políticas típicas de esquerda, embora muitas pessoas digam que foi a implementação que estava errada. De que maneira? Quando você pega a socialdemocracia na Europa endossando esses ajustes que quem paga é só o povo. De que maneira se desconstrói? Essa questão do livre fluxo de capitais que nem Lula nem Dilma ousaria enfrentar... A crise traz a questão dos juros, o peso do fluxo, de alguma maneira pode haver um tempo rápido de recomposição desse pensamento mais social democrata?
Jesse Souza - Acho que pode porque o tempo na política é muito distinto do tempo real, do tempo linear. O tempo político pode se tornar muito intenso e em poucos meses a gente pode ter uma situação completamente nova. E isso tem a ver, por exemplo, porque essa narrativa é tão histérica e tão distorcida que você pode exercer uma crítica em torno dela, claro que precisa ter espaço, obviamente as nossas cartas não são as melhores como a mídia, que é completamente homogênea nesse aspecto.
Mas você toca em uma questão que acho importante que é da pouca tematização que houve da forma juro de comunicação, que tem a ver com o controle do orçamento, orçamento pago pelos mais pobres. É ridículo entre nós isso, o orçamento público é pago 53% por pessoas que ganham até três salários mínimos. Se você joga um pouco mais alto, para 5 salários mínimos é quase 70% do orçamento. Ou seja, não é juste de coisa nenhuma, é uma transferência de renda de todas as classes, o controle do orçamento, que significa uma forma de dominação social, de expropriação do excedente econômico e isso não foi tematizado entre nós. [Bernie] Sanders fez isso nos Estados Unidos, e o país que sofre muito mais com isso, jamais tematizou esse tema, e eu acho que é o tema mais importante, que é a forma que você pode mostrar à Dona Maria e ao seu João, da rua, que não é uma dívida que ele paga na esquina. É o contrário. Todas as falcatruas, no fundo, estão implícitas na própria dívida pública. Quem fez a auditoria em dívida pública no mundo sabe que ali é onde estão as negociatas, falcatruas, em grande escala.
Luis Nassif - E a mais institucionalizada que é juros sobre juros.
Jesse Souza - Exatamente, e os juros reais mais altos do mundo. Então é um mecanismo cruel, primitivo, de uma rapina por parte de uma mínima elite e, eventualmente, da casta superior da classe média, que ganha também com isso sobre a população como um todo, que não percebe a forma. É incrível isso, e essa coisa nunca foi tematizada efetivamente. E é uma forma difícil, é uma forma juros e tal. Ela é muito oculta, você precisa tematizar isso, montar essa narrativa, porque é uma forma de exploração midiaticamente santificada com mentira.
Luis Nassif - Um dos pontos que a gente tem notado, principalmente no segundo governo Lula e no começo do governo Dilma, um fortalecimento das empreiteiras como agentes de desenvolvimento junto com Petrobras, e agora a gente está percebendo da parte da equipe econômica uma tentativa de tirar o protagonismo das empreiteiras e jogar para o mercado financeiro, inclusive através de fundos de investimento que vão adquirir essas empreiteiras. Esse negócio de tirar os 100 bilhões [de reais] do BNDES, proibir o BNDES de financiar... Essa brigas de protagonismo no meio empresarial, esse fenômeno de empreiteira chegou a estudar? A indústria dançou, nos últimos anos, teve enfraquecimento grande. Então as empreiteiras tiveram um papel central, de emprego, parte de tecnologia, inovação, defesa...
Jesse Souza - Exatamente, uma capacidade tecnológica enorme, o que é uma coisa absurda, ou seja, de você penalizar as empresas e a capacidade produtiva do país. Nenhum país com o mínimo de racionalidade faz isso com suas empresas e com sua capacidade de intervenção. E o que é incrível, no fundo, é o plano que obviamente tem a ver com o mecanismo de dominação internacional. Óbvio, no fundo quem está metido nessa coisa está comprometido com lesa-pátria. Ou seja, está acabando com o futuro de uma sociedade inteira, uma desmontagem de cadeias produtivas: petróleo, gás, marinha mercante, e as construtoras que eram parcerias nesses aspectos. Isso aí tem a ver com uma velha leitura dos Estados Unidos no mundo que é manter a divisão de riquezas, e transformar o trabalho, onde você tem aqui uma massa só que exporta e outros que tem produtividade de alto nível tecnológico.
Os Estados Unidos sempre quiseram manter esse status quo, e o Brasil, o BRICS, aproximação com a China, obviamente foi um grande perigo, e o que está se refletindo internamente é que esses agentes nacionais, no fundo, realizaram planos de amesquinhamento nacional acomodados por uma potência estrangeira.
Luis Nassif - Você vê alguma semelhança com os anos 50, onde você teve projetos nacionais aí, [acordos bilaterais com] Egito, Argélia, que acabou... Você vê algumas semelhanças entre a estratégia americana lá e aqui?
Jesse Souza - Vejo sim, claro, tem uma continuidade que me parece óbvia. A manutenção do Sul como municiador de matérias primas e não competidor, e você iria ter o mercado desses países para produtos industrializados.
Luis Nassif - As Forças Armadas, como você está vendo o papel delas?
Jesse Souza - Eu não conheço o tema, nem a coisa por dentro, mas eu imagino que é tradicional nas Forças Armadas também o tema do nacionalismo, que até no fundo, se nós pensarmos no Segundo PND [Plano Nacional de Desenvolvimento] do presidente Ernesto Geisel, que era também um plano extremamente ousado, nacional, desenvolvimentista pela direita. Teve que ter a criação não só de uma matriz produtiva, também a partir de minério etc, também universidades em todas as capitais, centro de pesquisa. Foi um plano extremamente ousado que foi, no fundo, a base das Direitas Já. Não teve nada a ver com espontaneidade popular, isso foi tudo construído também pela imprensa. Na época, jornais de grande circulação lançaram séries de artigos como "República Socialista Soviética do Brasil". Uma loucura, um histerismo como a gente vê agora também. E você tem o quê? Esse tempo se reproduzindo: uma elite irresponsável, que não tem projeto de longo prazo, interessada numa rapina de recursos etc, que foi a base desse processo, também. E as Forças Armadas foram desestabilizadas, também pela mídia, por conta desse ponto.
As Forças Armadas é uma base do pensamento positivista entre nós, que no fundo o único outro, de um aspecto de liberalismo conservador. Por exemplo, caras como Sergio Buarque, Raymundo Faoro, representam também, e que também influenciaram a esquerda. A esquerda foi colonizada por esse tipo de liberalismo. E nas Forças Armadas você teve, de algum modo, sempre historicamente, um contraponto a isso.
Luis Nassif - O Iseb [Instituto Superior de Estudos Brasileiros, criado em 1955 e que orientou o desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek] tentava definir um projeto de país na época. Hoje você não tem esse projeto de país. Onde que você vai buscar esse projeto de país?
Jesse Souza - Ele acabou de ser destruído.
Luis Nassif - Você teve no governo Dilma a construção dessa base, a indústria naval, com o trabalho dela mesmo, a lei de partilha do petróleo e tudo, mas do ponto de vista conceitual, a gente não viu uma sistematização de maneira a virar uma bandeira, inclusive do próprio PT. O que aconteceu? Você tem hoje uma multiplicidade de pontos de discussão, novas universidades, mas a discussão de Brasil, o que aconteceu para chegar a esse empobrecimento? Com exceção do seu livro, você não vê um negócio focado em discutir Brasil. O que aconteceu? Foi a superficialidade das redes sociais?
Jesse Souza - Eu acho mesmo que o que houve foi um processo extremamente bem-sucedido dessas eleitas liberais, que começou com uma espécie de contraposição, especialmente, a partir de 1930, aonde essa elite liberal constrói a USP, tem o Sérgio Buarque como seu grande elemento e tal, grande amalgama, para se contrapor ao projeto estatista, do positivismo, especialmente, do Rio Grande do Sul, que também é as Forças Armadas. E essa coisa um pouco que continuou até hoje, só que essa largada liberal conseguiu convencer, ela é hegemônica na sociedade como um todo.
Luis Nassif - Vamos pegar um fenômeno que a gente percebe hoje, nitidamente com o jornalismo, no Ministério Público, no poder judiciário, que é esse fenômeno do jovem internacionalizado. Porque se abordou muito nesse período a ascensão das massas da Classe C, mas o grande ator político que a gente viu aí foi esse jovem internacionalizado que vai para o serviço público, forma a elite do serviço público, os concurseiros, é um padrão que vem do mercado financeiro... Por que esse fenômeno demorou para ser percebido, a ponto de que, quando eles saem às ruas e passam a articular no ministério público, no TCU, na imprensa, a gente levar aquele susto?
Jesse Souza - Eu acho que isso tem a ver com o fato de que a esquerda...e as pessoas acham que isso tem a ver com ideias, não. Não tem a ver com ideias. N'o fundo as ideias montam nosso comportamento e eu acho que isso mostra uma prisão da esquerda a esses modelos. De tal modo que a coisa que a esquerda faz quando ela atinge o poder, é pensar ou de modo conjuntural, sem um plano, se uma visada de futuro, e também pensa a sociedade como os liberais, como mercado. A única distinção importante aí é que pensa como um mercado um pouco mais ampliado. Mas aí acham que é uma espécie de vulgata marxista, ou seja, de que se você faz modificações no mercado, a sociedade vai, automaticamente, tipicamente um marxismo vulgar, vai mudar a cabeça. Ou seja, como se mudanças na base econômica fossem produzir, milagrosamente, mudanças na forma como você pensa o mundo.
Porque o que foi que essa esquerda fez? Ela não refletiu sobre como funciona o estado. Ou seja, não tem um projeto, uma ideia disso. Não conseguiu captar as lutas corporativas interestatais. Agiu do pior modo, inclusive ingênuo, quer dizer, o contrário, alimentou o corporativismo de modo sistemático. O que é incrível.
E depois, como não montou uma narrativa, para a própria mudança econômica que estava fazendo, essas classes que subiram acham que a vontade política fica em vigésimo lugar. Primeiro vem Deus, primeiro vem a família... Então você teve aí uma inabilidade, uma incapacidade de montar uma narrativa, uma percepção do mundo.
Luis Nassif - Quando você olha, tanto o PSDB quanto o PMDB, um afastamento da intelectualidade que marcou os partidos. O PT tinha lá seus pensadores que foram saindo gradativamente, assim como os movimentos sociais... O papel do intelectual, o papel do jurista hoje, você acha que tende a substituir o papel do antigo cientista social? Está havendo uma reaproximação da política com os intelectuais, para a tentar entender esse imbróglio todo ou ainda há muita resistência das burocracias. Como você vê os intelectuais e a política aí?
Jesse Souza - Esse é um tema extremamente importante, acho que tem a ver com o fato de uma não reflexão e as pessoas tendem a reproduzir comportamentos e ideias anteriores, quer dizer, tem uma relação que é muito incrível que é, as pessoas tem uma relação afetiva com as ideias que sempre tiveram, com se fosse uma coisa nascivica [que nasceu com elas], ou como se você tirasse um órgão de dentro de si, e tal, quando deveria ser o contrário, você deveria estar distanciado disso e tal para que você possa aprender, melhorar.
Eu acho que gente tem pouquíssimo debate universitário. Não que o debate universitário seja imensamente importante para a esfera pública, mas ele é um alimentador importante, para que depois você tenha ideias públicas, discussão, argumentos, construção. E a gente não tem essa tradição de debate, nem na esquerda. Tanto que você tem aqui a continuidade de consensos acadêmicos absolutamente anacrônicos: Sérgio Buarque, Raymundo Faoro, esse pessoal todo, não ficou no começo do século passado. Eles são hoje a cabeça do Brasil, não tem nenhuma forma dominante nova disso. Obviamente existe o esforço de algumas pessoas, inclusive eu próprio, de tentar criticar partes desse tipo de coisa, que é extremamente perversa e facilita a dominação de uma forma acrítica.
Mas eu acho que no tema dos advogados, acho que é uma classe extremamente importante. Eu até conheci outro tipo, advogados populares que estão se envolvendo agora, acho que está se montando também uma frente ofensiva que é arrasadora também em forma de resistência. Eu tenho visto isso, etc. E, os advogados, mais do que os economistas hoje, é a corporação profissional do poder, ela é o pilar agora. Vocês está num campo aonde a luta está sendo montada e, apesar da maioria desse pessoal sair [nesse jogo] por motivos mesquinhos, também é muito importante que tenha uma minoria, mesmo que seja 10%, mas com um comportamento muito incisivo, que pode ser uma das fendas onde a gente pode ter uma oposição à essa forma dominante.
Luis Nassif - Teve com a queda da presidente teve uma ampliação do estado de exceção. Na sua opinião tem condições para poder piorar muito mais aí, a ponto das liberdades civis serem mais ameaçadas?
Jesse Souza - Acho que sempre tem esse perigo, e é muito assustador tudo, porque se você chegou até aqui, por que não arrebentar mais? Porque é o tema da soberania popular, que a gente já tinha discutido antes. Quer dizer, se você chuta a porta da casa, você já entrou no terreno e aí, se você vai roubar os móveis, se você vai destruir a louça, etc é mais circunstancial do que efetivamente... Mas é bom a gente perceber porque a gente está enfrentando agora é algo internacional, ou seja, é o capital financeiro que não é só uma forma de valorização do capital, não é só uma realidade econômica, é uma realidade hoje em dia política não só aqui. Aqui, talvez, em um dos processos mais absurdos disso, mas isso existe em outros lugares... Índia, etc, em governos formalmente democráticos ainda, que é a mídia assumindo papel de partido, as instituições estatais sem ser mais uma instância de debate, de argumentação, comprada por dinheiro, só para carimbar decisões que a mídia já monta.
É um sistema que tem a ver com a nova concepção de mundo, então ela entra nas pessoas, também o capital financeiro. E vai ser extremamente difícil para a esquerda, por conta disso, o capitalismo financeiro ele monta uma noção, uma nova noção de felicidade para as pessoas. Quer dizer, é uma forma que tem a ver com a exploração sem limites, de não diferenciar mais o tempo de trabalho do tempo de lazer, tem a ver com você imaginar que você é empresário de si mesmo, quando no fundo você deve ao banco. Ou seja, você alimenta essas estruturas hierárquicas mais visíveis de supervisão e controle, porque você põe isso, e claro, o medo de perder emprego e tudo, e é o próprio trabalhador que cumpre essa função agora.
Houve um caso agora aonde esse tipo de interesse, de algum modo, se coaduna, ele se apropria das almas das pessoas, do sentimento, das noções de felicidade que é o que a gente tem de mais importante e de mais íntimo. Então a gente está enfrentando um inimigo de altíssimas proporções e que a reação a ele é sempre local, é fragmentada. Ele se põe de uma forma internacional, como a gente viu no nosso golpe aqui e até, por exemplo, não sei quais dos seus expectadores viu esse filme novo do Oliver Stones, 'Snowden', não por acaso, estava lá o controle sobre o petróleo, como barrar empresas como a Petrobras, que há alguns anos atrás tinha uma enorme capacidade de investimento, mais do que o próprio estado brasileiro, isoladamente. Então essa coisa do capitalismo ser financeiro, com a sede nos Estados Unidos, montam um esquema...
Luis Nassif - Durante anos 1990, 2000 eles [Estados Unidos] vendiam a ideia de que no fim do arco-íris tem um pote de ouro, querendo dar a lição de casa. Como modelo, isso aí garantiu a elegibilidade de vários governos, inclusive a própria socialdemocracia acabou cedendo um pouco. Hoje como gestão de países isso aí acabou, fracassou. Então a democracia, no caso, vamos pegar essa Ponte para o Futuro [programa de crescimento de Michel Temer], isso aí não se sustenta eleitoralmente. De alguma forma o conceito de democracia entrou em crise globalmente?
Jesse Souza - Completamente, quer dizer, isso aí é uma coisa de muito alcance. Porque se você pensar bem, a democracia no ocidente é uma realidade a partir da segunda guerra mundial. Durante várias décadas, entre as guerras, só a Inglaterra e os Estados Unidos eram democracias liberais. Então, obviamente, o jogo democrático exige distribuição de renda, não existe democracia sem, minimamente, você compartilhar, embora alguns tenham muito mais que outros, como sempre. O que está acontecendo agora é que alguns estão tendo um nível de concentração de riqueza inauditos. Não consigo imaginar nenhuma época humana aonde essa riqueza tenha sido tão concentrada. E isso associado à uma espécie de imbecilização do público. Isso que está acontecendo.
A gente está vivendo uma coisa que [Theodor] Adorno dizia, quer dizer, uma sociedade massificada, sem capacidade de reflexão, você retira a reflexão, e o fascismo vindo de uma forma normal, a gente fica controlando ressentimento, medo das pessoas, que é o que está acontecendo aqui.
Luis Nassif - Ao mesmo tempo você tem a mídia que está exercendo esse papel globalmente. Esse modelo de mídia tende a terminar, ou seja, tem que ter uma diluição. Ou seja, o caos, no fundo, vira o alimento das massas?
Jesse Souza - Exatamente. É uma guerra no fundo, de violência simbólica, no fundo, e nós estamos aí acho que no pior nos casos, porque não tem mídia tão ruim como a nossa. Eu não consigo imaginar, nunca ouvi falar... Fico pensando Coreia do Norte [como pior]. Mesmo nos Estados Unidos você tem uma competição maior, e você tem nos países europeus a TV Pública, que não é estatal, que é aonde você tem a diversidade de opiniões. Isso é uma instituição importante, quer dizer, uma sociedade para ser democrática, efetivamente, tem que ter coisas que não se compram com dinheiro, como por exemplo o futuro, educação etc. Isso não é uma coisa que você possa transformar em mercadoria impunemente.
A gente está numa esquina aonde o pensamento de curto prazo, que significa no fundo burrice, porque a definição da falta de inteligência é você pensar a curto prazo, e você não jogar as consequências, ir à longo prazo. Você tem isso tanto no horizonte aonde poderia vir alguma crítica a esse modelo, que é à esquerda. A esquerda não se empenha, não se repensa e não pensa a longo prazo, pegando essas novas coisas. Mesmo partidos que tenham uma extraordinária capilaridade aí, como o PT tem efetivamente, mas aí pensando nas lutas de 30 anos atrás, como se isso fosse voltar, e o mundo é completamente novo, e obviamente as coisas que aconteceram refletem isso, refletem essa incapacidade, mas também a dominação do mundo com essa associação mídia e capital financeiro também pensa a curto prazo. Ou seja a gente está numa quadra histórica extremamente...
Luis Nassif - Ou vem um Hitler ou vem um Roossevelt...
Jesse Souza - [Risos] Tomara que seja um Roossevelt...[risos]

Delator diz que Odebrecht deu R$ 2 mi para campanhas de Alckmin

O do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), recebeu 2 milhões de reais em dinheiro vivo para cobrir gastos das campanhas de 2010 e 2014, afirma a empresa Odebrecht em seu acordo de leniência – espécie de delação para pessoas jurídicas. De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, executivos da empreiteira citaram nominalmente duas pessoas próximas ao governador como intermediárias dos repasses, mas negaram ter falado diretamente com Alckmin.
De acordo com a delação, os 2 milhões de reais em espécie foram entregues no escritório do empresário Adhemar Ribeiro em São Paulo. Ribeiro é irmão da primeira-dama, Lu Alckmin. Outro repasse foi feito para o hoje secretário de Planejamento do governo paulista, Marcos Monteiro, político muito próximo ao governador.
Uma das delações que citou os repasses ilegais para as campanhas de Alckmin foi feita pelo executivo Carlos Armando Paschoal, ex-diretor da Odebrecht em São Paulo e um dos funcionários responsáveis por negociar doações eleitorais para políticos. Conhecido por suas iniciais, CAP, o executivo também mencionou o repasse de 23 milhões de reais via caixa dois para a campanha presidencial de 2010 do atual ministro das Relações Exteriores, José Serra (PSDB).
CAP é dos 77 funcionários da Odebrecht que assinaram há duas semanas um acordo de delação premiada com investigadores da Lava Jato. Ainda de acordo com a Folha, a prestação de contas feita ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aponta que não há doações diretas da Odebrecht à conta da candidatura de Alckmin em 2010 e 2014. O TSE tem em seus registros apenas uma doação oficial, feita em 2010, da empresa petroquímica da empreiteira, A Brasken.
Fonte: http://www.msn.com/pt-br/noticias/crise-politica/delator-diz-que-odebrecht-deu-rdollar-2-mi-para-campanhas-de-alckmin/ar-AAlkCxb?li=AAggXC1&ocid=mailsignout

Tuesday, December 06, 2016

Quando o povão for às ruas cobrar a fatura, o Brasil fechará para balanço

"Fico me perguntando se chegará o dia em que o 'povão' – a maioria amorfa em nome do qual tudo é feito, mas que raramente se beneficia do grosso do Estado – irá às ruas", escreve Leonardo Sakamoto, jornalista, em artigo publicado em seu blog, 04-12-2016.
Segundo ele, "no dia em que esse pessoal resolver dizer basta às castas de políticos corruptos, de elites econômicas sanguessugas e de demagogos violentos e antidemocráticos, percebendo que, crise após crise, são eles que pagam o pato num país em que lucros ficam com o andar de cima e prejuízos com o andar de baixo, acho que o tempo vai fechar".
Eis o artigo.
Antes de mais nada, considero mais do que justa e necessária mobilizações contra a corrupção. Como escrevo sempre neste espaço, espero que a operação Lava Jato alcance todos os partidos políticos e suas lideranças envolvidos em falcatruas, bem como grandes empresas, mesmo que isso signifique o fim do mundo. Até porque mobilização contra apenas um lado não é mobilização, é massa de manobra.
Da mesma forma, considero mais do que insana e descabida qualquer mobilização por ''intervenção militar''. Espero que essa minoria barulhenta nas manifestações – minoria que tem problema de cognição no que diz respeito à História do Brasil – não seja contagiosa a ponto de inviabilizar o futuro do país.
Dito isso, é fascinante como é construída a noção de que uma sociedade complexa, como a brasileira, conta com apenas uma única ''opinião pública''.
Milhares de manifestantes tomam as ruas de várias cidades brasileiras contra as mudanças no pacote anticorrupção realizadas pela Câmara dos Deputados e em apoio à operação Lava Jato. A partir desse fato, políticos, jornalistas e formadores de opinião passam a dizer que a ''população brasileira'' foi às ruas, que a ''população brasileira'' quer tal coisa, que a ''população brasileira'' está cansada disso ou daquilo.
Mas sem uma pesquisa de opinião que mostre que os manifestantes representam, de forma proporcional, todos os estratos e grupos da sociedade, não é possível fazer essa tal afirmação. Isso é desejo de quem faz a análise ou, pior, má intenção.
Porque a mesma extrapolação nunca foi aplicada para dizer que a ''população brasileira'' exigia uma reforma agrária e a limitação do tamanho dos latifúndios com base nas históricas marchas do MST, que reuniam dezenas de milhares de pessoas.
Tratar das reivindicações do ''grupo que foi às ruas'' seria mais honesto. Mas que graça teria, não é mesmo?
Durante as manifestações pelo impeachment nos últimos dois anos, muitos analistas afirmavam que elas eram herdeiras das jornadas de junho de 2013. Contudo, pesquisas realizadas pelo instituto Datafolha mostraram que o perfil de participantes de ambos os protestos eram diferentes e que aqueles jovens de 2013 não haviam retornado às ruas para ser a favor ou contra o impeachment.
Voltaram, por um breve período de tempo, nas manifestações contra Cunha por conta de seu projeto que limitava o direito ao aborto e durante as ocupações das escolas públicas. Mas, interessantemente, não foram poucos os analistas que chamaram essas manifestações de ''coisa de baderneiro'' sendo que há três anos diziam que os mesmos jovens eram ''herois'' ou estavam ''construindo o futuro''.
O que nos lembra que um discurso é promovido em certas estruturas tradicionais de comunicação se pode ser apropriado e ressignificado por elas.
Uma manifestação pode ter vários significados. E isso não depende apenas de quem recebe a notícia, mas também de como esse ato vai ser interpretado e difundido por jornalistas, políticos, magistrados, procuradores, ativistas, formadores de opinião nas redes sociais, entre outros.
Não raro, a simplificação boba que diz que um grupo de pessoas, por mais numeroso que seja, representa toda a ''população brasileira'' serve a um discurso e é vendido como tal.
Mesmo durante o impeachment, pesquisas mostraram que as razões pela insatisfação com o governo Dilma eram diferentes entre os mais ricos (que eram maioria nas manifestações de rua, reclamam da corrupção e defendiam um Estado menor) e os mais pobres (que passaram a querer sua saída, mas porque a economia estava ruim e o Estado não estava sendo suficientemente grande para garantir um colchão melhor de proteção social).
Diante disso, qual a principal razão da ''população brasileira'' para a insatisfação com a ex-presidente?
Uma coisa relativamente simples é colocar um assunto na lista de trending topics do Twitter. Basta que um tema ative formadores de opinião na rede em um curto espaço de tempo ou que uma milícia digital, que possua perfis falsos, ative sua rede.
O resultado é que muita gente acredita realmente que o mundo está falando sobre aquele assunto. Não, não está. O mundo não são algumas milhares de pessoas ou robôs atuando por um propósito. E isso é o suficiente, contudo, para que isso paute parte da imprensa.
Por fim, sem demérito para todos os grupos que ocupam as ruas com suas demandas, fico me perguntando se chegará o dia em que o ''povão'' – a maioria amorfa em nome do qual tudo é feito, mas que raramente se beneficia do grosso do Estado – irá às ruas. Até agora, ele não saiu de casa nem pró, nem contra nenhum governo. Não posta sua indignação nas redes sociais, porque faz parte daqueles 40% de população que está fora da internet. Continua onde sempre esteve: trabalhando pelo bem-estar de uma minoria, com medo de perder o emprego e assistindo a tudo bestializado pela TV.
No dia em que esse pessoal resolver dizer basta às castas de políticos corruptos, de elites econômicas sanguessugas e de demagogos violentos e antidemocráticos, percebendo que, crise após crise, são eles que pagam o pato num país em que lucros ficam com o andar de cima e prejuízos com o andar de baixo, acho que o tempo vai fechar.
Desconfio, que – nesse dia – essa imensa maioria não será chamada pelos mesmos analistas de ''população brasileira'', mas de vândalos e hordas de bárbaros. Mas, daí, será tarde demais.

O Brasil de ponta cabeça

No Brasil pós impeachment é difícil encontrar a luz no fim do túnel e o pior está por vir: a delação do "fim do mundo" dos executivos da Odebrecht, escreve Florestan Fernandes Junior, jornalista, em artigo publicado por El Pais, 05-12-2016.
Eis o artigo.
O maestro soberano Antonio Carlos Jobim sabia das coisas: o Brasil, realmente, não é para principiantes. O Brasil é de cabeça para baixo e, dependendo do momento, pode parecer estar de cabeça para cima. Já tinha acabado de escrever este artigo quando chega a notícia da queda do poderoso Renan Calheiros da presidência do Senado. O país, mais uma vez, dá uma guinada de 180 graus.
A trama se torna ainda mais surreal: quem assume a presidência é o senador petista JorgeViana. A decisão do ministro do STF Marco Aurélio Melo jogou no colo da oposição duas pautas bomba: a PEC 241 e a Reforma da Previdência. A esquizofrenia chegou ao auge neste fim de 2016. É como um castelo de cartas: basta derrubar a primeira para que as outras desmoronem.Ainda em novembro já havia sinais contraditórios dos atores políticos do momento. Numa entrevista coletiva da força-tarefa da Lava Jato, o promotor Deltan Dallagnol afirmou, com toda a convicção, que a presidente deposta Dilma Rousseff fez mais pelo combate à corrupção que a base aliada do atual governo. Mas, pera aí: então foi o combate à corrupção e não a desonestidade que levou Dilma ao impeachment?
Na realidade, Dallagnol olhou no espelho do passado mirando seus inimigos do presente: os políticos que aprovaram o impeachment para estancar aquilo que o senador Romero Jucá chamava de “sangria”. A troca do titular pelo vice, além de não estancar a hemorragia, aprofundou a recessão e o desemprego. O sangue subiu à cabeça dos milhões de espectadores que estão perplexos com o novo enredo proposto pela composição PMDB/PSDB. Aliás, o drama só aumenta. Pitadas diárias de terror nas páginas dos sites. É ministro emparedando ministro na liberação de paredes de um arranha-céu em Salvador. Ligações gravadas com o presidente e até a Advocacia-Geral da União arrastada para o centro do novo escândalo. A ponte do futuro levou o país para o seu pior passado, destruindo conquistas sociais importantes realizadas nos últimos 25 anos.
Sem respaldo popular e legitimidade, a face do novo-velho governo assusta e aprofunda as incertezas. Inseguro, o presidente tem medo até de tomar pequenas decisões como ir ou não ao velório dos jogadores da Chapecoense. O tal mercado e os setores produtivos estão impacientes. A taxa de investimento é a menor dos últimos 13 anos e o nosso PIB destoa dos países vizinhos da América Latina. No último trimestre encolheu 0,8%. Um investidor me disse que só agora caiu a ficha de que teria custado bem menos ao país aceitar a CPMF do antigo ministro da Fazenda Joaquim Levy e tocar a economia até a eleição de 2018. Mas, agora, Inês é morta. E ficou difícil, no curto prazo, encontrar soluções políticas e econômicas para a nação. Na Fazenda, Henrique Meirelles balança e o nome Armínio Fraga é cotado como seu substituto. Como num passe de mágica, tem gente propondo até a volta do ex-presidente FHC numa eleição indireta.
No Brasil pós impeachment é difícil encontrar a luz no fim do túnel. É mais fácil encontrar contas polpudas em paraísos fiscais, mansões, apartamentos de luxo, carros importados e muitas joias. Fácil constatar também as marcas da má administração que levaram estados comoRio de Janeiro e Rio Grande do Sul a não terem dinheiro sequer para pagar em dia o funcionalismo público. Mas o pior está por vir: é a delação do fim do mundo que será feita pelos executivos da Odebrecht. Ela deve atingir cerca de 200 políticos de quase todos os partidos. Na lista do caixa 2 estariam senadores, deputados, governadores, ministros e, dizem, até presidentes da República. Segundo a revista Veja, a empreiteira teria feito contribuições milionárias e não declaradas para os tucanos José Serra e Geraldo Alckmin. Vinte e cinco deputados da bancada do PT correram para apoiar a proposta de anistia ao caixa 2 elaborada no gabinete de Rodrigo Maia (DEM). A proposta não vingou.
De volta às ruas, os paneleiros desfilaram no domingo sua ira contra Renan Calheiros e a Câmara dos Deputados pelas mudanças feitas no pacote anticorrupção. Por ora, pouparam Michel Temer. Estão em compasso de espera aguardando determinações vindas dos articuladores invisíveis do movimento. Mais uma vez, levaram para a Paulista os bonecos de Sergio Moro e de Lula transformando a avenida numa Gotham City na luta do Bem contra o Mal, numa clara incapacidade de distinguir o que é ou não real. Esqueceram que Lula e o PT já não estão mais no poder. Boatos se espalham de que Sergio Moro pretende encerrar em breve a Lava Jato e passar um ano nos Estados Unidos. Preparam agora o enforcamento definitivo de Renan Calheiros e seus coadjuvantes do Congresso.
Resta saber se os nobres parlamentares que aprovaram o impeachment de Dilma estão dispostos a entregar suas próprias cabeças. A crise entre os poderes chegou ao seu ápice e tem confundido o pensamento da maioria. E a situação ainda pode piorar muito. Preocupado, o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo acha que FHC e Lula deveriam se encontrar para propor saídas. Será que eles terão a grandeza para isso?

Aposentadoria aos 65: Proposta sugere que trabalhador braçal é descartável

"Há milhões de pessoas, fundamentais para o crescimento do país, que se esfolaram a vida inteira e não deveriam ser deixadas na beira da estrada quando deixarem a população economicamente ativa", escreve Leonardo Sakamoto, jornalista, em artigo publicado por portal Uol, 05-120-2106.
Eis o artigo.
A proposta apresentada pelo governo Michel Temer para a reforma da Previdência Socialconsidera que o Brasil é um grande escritório com ar condicionado, água mineral em copinho reciclável e mobiliário ergonômico, com polpudo tíquete-refeição, bônus no final do ano e previdência privada complementar.
Essa é a única justificativa plausível para propor 65 anos como idade mínima para aposentadoria, considerando que há milhões de trabalhadores braçais de Estados com baixo índice de desenvolvimento humano, como o Maranhão, cuja expectativa de vida é pouco maior do que isso. Muitos dessas pessoas começam a trabalhar antes mesmo da idade mínima de 14 anos prevista por lei (como aprendiz) e, aos 18, já cortavam 12 toneladas de cana de açúcar diariamente, queimavam-se produzindo carradas de carvão vegetal para abastecer siderúrgicas e limpavam pasto ou colhiam frutas sob um sol escaldante. Ou carregavam pesados sacos de 50 kg de cimento, caindo de andaimes na construção civil.
Essa mudança na Previdência pode ser plausível para a vida de advogados, economistas, jornalistas, cientistas sociais, administradores de empresas, políticos, magistrados, procuradores. Mas e para quem começou desde cedo entregando seu corpo como instrumento de trabalho para atividades físicas desgastantes e, agora, descobre que ele é tão descartável quanto luvas e máscaras?
O governo Michel Temer deveria ter que explicar a proposta para um grupo de cortadores de cana ou de pedreiros. Não através das propagandas bonitinhas feitas para a TV, que escondem boa parte dos fatos, mas sim em um ''pergunta e resposta'', cara a cara, mano a mano. Sem meias palavras, sem enganações. Se saírem inteiros de lá, podem tocar a reforma.
A sociedade mudou, a estrutura do mercado de trabalho mudou, a expectativa de vida mudou. Portanto, as regras que regem a Previdência Social podem e devem passar por discussões de tempos em tempos. E, caso se encontrem pontos de convergência que não depreciem a vida dos trabalhadores, não mudem radilcamente as regras do jogo no meio de uma partida e atendam a essas mudanças, elas podem passar também por uma modernização.
Contudo, essa discussão não pode ser conduzida de forma autoritária ou em um curto espaço de tempo. Pois essas medidas não devem servir para salvar o caixa público, o pescoço de um governo e o rendimento das classes mais abastadas, mas a fim de readequar o país diante das transformações sem tungar ainda mais o andar de baixo.
O ideal seria, antes de fazer uma reforma da Previdência Social, garantirmos a qualidade do trabalho no Brasil, melhorando o salário e a formação de quem vende sua força física, proporcionando a eles e elas qualidade de vida – seja através do desenvolvimento da tecnologia, seja através da adoção de limites mais rigorosos para a exploração do trabalho. O que tende a aumentar, é claro, a produtividade. Basta ver a ''vida'' dos empregados de frigoríficos em todo o país, que são aposentados por invalidez aos 30 e poucos anos por sequelas deixadas pelo serviço para entender do que estamos falando.
Mas como isso está longe de acontecer, a discussão talvez passe por um regime diferenciadopara determinadas categorias, que manteria o tempo de contribuição para garantir a aposentadoria integral. Mas isso a reforma que está sendo proposta pelo governo não diz. Trata a sociedade como o grande escritório com ar condicionado ajustado para 17 graus citado acima. E, ainda por cima, quer mexer na aposentadoria rural – que é um dos maiores programas de distribuição de renda do país e garante a dignidade para milhões de pessoas.
Por fim, como já alertei aqui, o melhor de tudo é que o discurso está sendo construído de forma que os trabalhadores achem importantíssimo e justas as mudanças que vão lhes tirar direitos sem uma consulta prévia. Porque uma eleição é exatamente isso: uma consulta sobre um projeto de governo ou de país que se quer implantar.
Se, em uma eleição presidencial, ganhasse uma candidatura que defendesse abertamente a proposta de impor uma idade mínima de 65 anos para quem está na ativa à aposentadoria, a população brasileira, ao menos, terá sido consultada sobre fatos que interferem em sua vida.
Michel Temer quer aprovar a Reforma da Previdência o quanto antes a fim de mostrar para parte dos que o ajudaram a chegar lá que ele, quando promete, retira e entrega.
Sabe que a maior prova de que a população repudiaria qualquer político com essa plataforma é que a base aliada de seu governo no Congresso Nacional se borrou de medo de discutir a reforma da Previdência antes das eleições municipais. Afinal, o que diriam para seus eleitores sobre a razão de terem votado a favor de postergar a aposentadoria do populacho?
Há milhões de pessoas, fundamentais para o crescimento do país, que se esfolaram a vida inteira e não deveriam ser deixadas na beira da estrada quando deixarem a população economicamente ativa. Pena que não será assim que as coisas vão acontecer.

Na “Reforma” da Previdência, farsa desmascarada

Conservadores “denunciam” corrupção do Congresso, mas pedem que corruptos liquidem direitos do povo. Outras Palavras lança novo site, para informar em profundidade sobre uma luta crucial
Por Antonio Martins
Às vezes, diz o brocado, é mais fácil pegar um mentiroso que um coxo. Nos últimos dois anos, os conservadores brasileiros surfaram na onda do sentimento anti-establishment que percorre o planeta. Deram-lhe conteúdo reacionário. Em maio, derrubaram um governo que ensaiava reformas sociais tímidas porém inéditas – acusando-o de responsável por práticas de corrupção que marcam a história do país há séculos. Promoveram uma série inédita de ataques aos direitos sociais, aos serviços públicos e às liberdades democráticas. Governam como saqueadores, loteando o Estado e desmantelando as políticas públicas. Agora, quando começa a ficar claro que o resultado é o aprofundamento da crise, do desemprego e do empobrecimento, jogam a cartada do punitivismo. Convocam a população às ruas para pressionar por “dez medidas” que, se aprovadas, nos aproximarão ainda mais de um Estado Policial. Investem contra o Congresso Nacional. Ao fazê-lo, no mesmo momento em que o Palácio do Planalto tenta aprovar a “Reforma” da Previdência, arriscam-se a um enorme passo em falso, capaz de comprometer o conjunto de sua estratégia.
É que a manobra revela o caráter farsesco de seu “ataque” ao establishment. O sistema político brasileiro está, de fato, minado pela corrupção. As delações dos executivos da Odebrecht sugerem que só esta empresa – uma das dezenas que praticam permanentemente lobbyno Congresso – financiava e cobrava favores de cerca de metade (300) dos 594 deputados e senadores senadores. Mas como “denunciar” os corruptos e defender, ao mesmo tempo, que eles continuem governando e investindo contra os direitos da maioria?
É exatamente este o movimento em curso. Ontem, os noticiários da TV Globo e Globo News exortavam a população a ir às ruas contra parlamentares desonestos. A partir de hoje, as duas emissoras pedirão que estes mesmíssimos senhores invistam contra direitos históricos do povo. Hipocrisia idêntica é praticada pelos blogs (Spotnik e O Antagonista, por exemplo) ligados a movimentos como o MBL e Vem pra Rua. O pacote de maldades é vasto. Não se trata de uma reforma, mas de um autêntico desmonte da Previdência – talvez o único esboço de Estado de Bem-Estar Social que as maiorias conseguiram arrancar das elites, num dos países mais desiguais do mundo.
O tempo mínimo necessário para obter aposentadoria aumentará – em alguns casos, em até dez anos. A regra valerá inclusive para os que já ingressaram no mundo do trabalho, numa clara violação do princípio do direito adquirido. O próprio valor do benefício cairá em relação aos valores já minguados de hoje — exceto para os que acumulem, no momento da retirada, cinquenta anos de contribuições. As aposentadorias rurais e dos idosos deixarão de acompanhar o salário-minimo, o que as tornará irrisórias em pouco tempo. As pensões por morte serão achatadas. A lista completa teria 17 itens, todos retrógrados e impopulares.
Não se trata de propostas de difícil compreensão, como no caso da PEC 241/55. Serão sentidas por milhões. Têm sentido oposto ao defendido por Dilma e Temer, em 2014. Sequer foram cogitadas por Aécio Neves, o segundo colocado nas eleições. Como impô-las? Comprando maioria num Congresso “de corruptos”?
TEXTO-MEIO
Recorre-se nesse ponto à arma onipresente da ideologia. A contrarreforma não seria opção política, mas fatalidade técnica. O atual sistema teria se tornado inviável, por acumular déficits constantes e crescentes. O “ajuste” visaria, na verdade, evitar sua quebra certa. Estas fórmulas serão repetidas mil vezes, nos próximos dias, talvez para testar de novo a hipótese de Goebbels, sobre os meios para transformar mentiras em verdades…
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Outras Palavras lança hoje um novo site, dedicado à defesa da Seguridade Social. Chama-se
Previdência – Mitos e Verdades. Pode ser encontrado em www.outraspalavras.net/previdencia Seus objetivos políticos são claros: contribuir para desmascarar a “reforma” do governo e, num sentido mais amplo, a farsa em que se apoia a atual ofensiva conservadora. Seus métodos são os que procuramos praticar em toda nossa atividade jornalística. Investigação e análises profundas. Recusa à superficialidade e ao panfleto. Confiança na autonomia e espírito crítico dos leitores.
Para fazê-lo, mobilizamos três jornalistas tarimbados e sagazes – Glauco Faria, Patrícia Cornils e Nicolau Soares – e uma designer e editora de vídeos criativa – Gabriela Leite. Em defesa da Previdência e Seguridade Pública, eles examinarão o sistema atual e suas características. Mostrarão que, ao contrário do que alegam os conservadores, é preciso ampliar (e não reduzir) os benefícios, para construir uma sociedade um pouco menos injusta. Argumentarão que, para isso, as reformas necessárias são de sentido oposto às propostas pelo governo. Tributar os mais ricos, sempre poupados por nosso sistema tributário. Eliminar isenções (por exemplo, as que beneficiam o agronegócio). Rever privilégios: é aceitável reduzir a aposentadoria dos trabalhadores rurais e dos idosos e manter as pensões de marajás dos deputados e juízes?
Criado a partir de um projeto de Outras Palavras, o novo site já tem um primeiro apoiador: a Central dos Trabalhadores Brasileiros, (CTB). Seu aporte material permitiu formar a equipe e lançar a inicitavia A cláusula de independência editorial é pétrea. Eventuais erros e insuficiências em nosso trabalho são de responsabilidade exclusiva de Outras Palavras. Para uma batalha tão dura, queremos ampliar o leque de apoiadores. Além de outras centrais sindicais, ele pode incluir organizações e pessoas empenhados em lutar pelos direitos sociais e em reverter a maré conservadora que entristece o Brasil. Como é também marca registrada de nosso trabalho, a prestação de contas será pública.
Uma era – a Modernidade – está morrendo. As velhas relações sociais, econômicas e políticas tornam-se rapidamente obsoletas. O novo pode ser muito melhor ou pior, frisa Immanuel Wallerstein, mas não há volta atrás. Em meio à tempestade, chegaremos a um porto seguro? Não podemos saber de antemão, seguiremos navegando.

O fim do governo Temer e a implosão do golpismo

“O governo Temer acabou”, constata Aldo Fornazieri, diretor Acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política, em artigo publicado por Jornal GGN, 05-12-2016.
Segundo ele, “o governo acabou porque, se a agressão aos trabalhadores era coisa sabida de antemão, agora os setores médios percebem que continuarão perdendo e que a indústria terá menos do que teve com Dilma. Tudo somado, comércio e serviços também começam a perceber os rombos da canoa em que embarcaram. Empresas endividadas, sem crédito, além de demitirem, caminham para o desespero do fechamento”.
Fornazieri, doutor em Ciência Política, destaca, por outro lado, que “as esquerdas continuam à deriva e não conseguem perceber a natureza dos tempos e o rumo dos acontecimentos e as suas proposições não conseguem atrair ninguém para além da militância”.
Eis o artigo.
As duas últimas semanas marcaram o fim do governo Temer e a implosão do bloco que patrocinou o golpe parlamentar. O governo Temer continua existindo formalmente. Mas deixou de existir enquanto efetividade, enquanto capacidade de tirar o país da crise. Já se disse que nada tem a oferecer a não ser o agravamento da recessão, o aumento do desemprego, o ataque às políticas sociais e aos direitos e a violência contra o espírito e a letra daConstituição de 1988.
O governo acabou porque as parcas esperanças que uma parte minoritária da sociedade nutria em relação a ele se desfez na percepção de que o núcleo central do Planalto é uma quadrilha e porque as ilusões da retomada do crescimento se afogaram na falta de legitimidade do comando político e econômico do Brasil.
A figura insípida de Temer se move como um fantasma quase imperceptível na Brasília das permissividades. A equipe econômica, cantada em prosa e verso pelos áulicos da agressão à democracia, caminha para a inanição em face da falta de oxigênio, que lhe foi tirado por Temer e sua quadrilha e pelo oportunismo inominável do PSDB. Se essa equipe tem alguma dignidade - pois é de se duvidar de que servidores de golpistas tenham dignidade - deveria entregar os cargos e ir para casa. Não há como servir o Brasil num governo que foi constituído para se servir a si mesmo.
O governo acabou porque, se a agressão aos trabalhadores era coisa sabida de antemão, agora os setores médios percebem que continuarão perdendo e que a indústria terá menos do que teve com Dilma. Tudo somado, comércio e serviços também começam a perceber os rombos da canoa em que embarcaram. Empresas endividadas, sem crédito, além de demitirem, caminham para o desespero do fechamento.
Mas o motivo principal do fim efetivo do governo Temer é porque ele é fruto de uma grande farsa. E aqui vale lembrar as duas primeiras frases de O 18 Brumário de Luiz Bonaparte: "Hegel observou algures que todos os grandes fatos e personagens da história universal aparecem como que duas vezes. Mas esqueceu-se de acrescentar: uma vez como tragédia e outra como farsa". O impeachment de Collor teve uma dimensão trágica por se tratar do primeiro presidente eleito depois de quase 30 anos sem eleições presidenciais. Aquele movimento uniu a sociedade e o governo que resultou, discorde-se ou não dele, teve propósitos honestos em Itamar Franco. Ele afastou ministros mediante meras denúncias. Constituiu uma equipe econômica competente, que tinha algo a oferecer ao país e que solucionou um dos mais graves problemas que corroia a renda dos brasileiros: a inflação.
governo Temer emergiu como fruto de uma dupla farsa: a farsa da manipulação da opinião pública em nome do combate à corrupção e a farsa do próprio impeachment, que não passou de um golpe. O golpe, patrocinado por toda espécie de conspiratas e traições, entregou o poder a um governo desonesto, corrupto, a um presidente que agiu para proteger o crime de um ministro em seu próprio gabinete, que mantém em seu ministério vários ministros denunciados e que ele mesmo é depositário de uma série de denúncias e suspeitas. A sua equipe econômica nada tem a remediar, nada tem a oferecer, a não ser a exigência de sacrifícios aos mais pobres. Compare-se as duas situações e a farsa ficará evidente.

A implosão do bloco golpista

Desnudada a inviabilidade do governo Temer, o bloco golpista implodiu. O PSDB, dividido, e sabendo que não pode morrer abraçado a Temer, prepara o desembarque, que não é consensual. Alguns querem salvar o que não pode ser salvo. Outros querem o desembarque, mas aqui também não há consenso: a) deixar que Temer e o PMDB se afundem sozinhos; b)afastar Temer e assumir o poder; c) afastar Temer e aprovar uma emenda para eleições diretas já. Fernando Henrique Cardoso tratou de transformar "A Ponte para o Futuro" do PMDB em uma frágil pinguela, prestes a se despedaçar nas águas turbulentas da crise.
Mas as fissuras do bloco golpistas se apresentam em outras partes: a grande mídia perdeu as mesuras com o governo; na Congresso, a inquietação se alastra, pois a anistia ao caixa 2 e a crimes conexos foi pactuada como moeda de troca no impeachment, mas está inviabilizada pela reação da opinião pública; os protestantes verde-amarelos voltaram às contra o Congresso, Renan e Rodrigo Maia e ameaçam assumir o "Fora Temer"; Gilmar Mendes e Dias Toffoli se aliaram a Renan e congressistas para minar a Lava Jato e enfrentar juízes e procuradores. O maremoto da Odebrecht se aproxima de Brasília e as perguntas de Eduardo Cunha atormentam o sono de Temer e da cúpula do PMDB.
O que se vê é o agravamento da crise política e institucional, que já existia à época de Dilma. O Executivo deixou de funcionar desde o início de 2015. Incapacidades e conspirações foram a regra do jogo. Juízes e procuradores formaram o Partido da Moralidade e se apresentam como salvadores da pátria. O Congresso se move ao sabor dos interesses da degradação da política. O STF se tornou parte da crise ao não defender a Constituição. Essa crise é prolongada e, talvez, só uma nova Constituinte, com a mobilização das ruas, poderá remediá-la.

As esquerdas sem rumo

Com exceção do MTST e de um ou outro agrupamento, as esquerdas continuam a deriva. O PT, dividido, não consegue propor nenhuma estratégia. Parte da bancada do partido passou a ser dirigida por Renan Calheiros. Não foram poucos os que se condoeram com as prisões de Cunha e de Sérgio Cabral. Há até aqueles que elogiam Gilmar Mendes.
As esquerdas não conseguem perceber a natureza dos tempos e o rumo dos acontecimentos. Suas proposições não conseguem atrair ninguém para além da militância. Correm o risco de ver a direita tomar-lhe a bandeira do "Fora Temer" e do PSDB propor as "Diretas Já". O fato é que as esquerdas, desde o início de 2015, não conseguem propor uma saída para a crise. Tinham a chance de retomar a bandeira ética sob o governo Temer, mas estão permitindo que a direita a desfraldem novamente nas ruas.
Enquanto as esquerdas político-partidárias permanecem inertes, na base da sociedade ocorrem vários movimentos e mobilizações na defesa de direitos e contra a PEC do teto. Mas, no geral, permanecem fragmentados nos seus particularismos, pois ninguém consegue propor uma agenda geral. Com mais de 12% de desemprego, as centrais sindicais e os sindicatos, paralisados em sua perplexidade, não conseguem propor um movimento contra o desemprego.
As elites, confusas, buscam reposicionar-se em face da crise. Nunca tiveram um projeto para o país e apoiaram qualquer governo que as servisse. Estão percebendo que o governo Temer não consegue servi-las a contento. Tendem a ver no PSDB e em Alckmin uma tábua de salvação. As classes médias, indignadas, porque em parte perdedoras e em parte enganadas, retomam as mobilizações. As periferias, desconfiadas e abandonadas, observam o cenário político à distância enquanto continuam com suas lutas. As esquerdas estão feridas e o sangue que delas jorra alimenta a direita. A incapacidade e a desmoralização das esquerdas vão empurrando a sociedade para a direita. O agrupamento estamental-burocrático do Estado - Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal - procuram conferir um rumo à crise ao seu modo, combinando medidas legais com medidas de exceção.
Em face de tudo isso e das incertezas da crise, faltam líderes. Se as elites se socorrem no PSDB, as classes médias buscam uma nova liderança, um outsider, um empresário, um juiz e, no limite, um Bolsonaro. O estamento burocrático ainda não tem um líder propriamente político como alternativa. Nas esquerdas sobram indefinições, perplexidades e paralisia. O fato é que a sociedade não suportará por muito mais tempo a degradação do país e o clima de conflagração social que vai se instalando. Ela buscará alternativas. Penderá para quem tiver força organizada e mobilização. Fará surgir um líder, mesmo que seja efêmero, pois essa crise não é efêmera.

Militares, ciências, Educação Popular.

A pandemia atual expõe a falácia de alguns dogmas sobre a pós modernidade, ela mesma integra a lista dos enunciados falsos de evidências lóg...