Thursday, January 10, 2019

Quem são os discípulos de Olavo de Carvalho que chegaram ao governo e Congresso

A maioria dos pupilos de Olavo de Carvalho que chegou a postos de poder o conheceu no curso online de filosofia que ele criou.
"Vivi para ver um filósofo indicar mais gente para o governo do que o PMDB" - a frase, dita à BBC News Brasil pelo cineasta Josias Teófilo, expõe a empolgação de admiradores do escritor Olavo de Carvalho com a nomeação de vários de seus discípulos para cargos na gestão Jair Bolsonaro.
"Quem diria que um monarquista se tornaria um dos homens mais influentes da República", completa Teófilo citando o regime político defendido pelo escritor - personagem do documentário O Jardim das Aflições, que ele dirigiu em 2016.
A reportagem é de João Fellet, publicada por BBC Brasil, 10-01-2018.
A BBC News Brasil listou os discípulos de Olavo que já exercem ou exercerão cargos no governo federal e no Congresso a partir deste ano (confira a relação abaixo). São, todos eles, alunos ou amigos do filósofo, a quem consideram um mestre intelectual e figura-chave em sua formação política.
Há "olavetes" - como ele próprio já se referiu aos seguidores - com postos no Palácio do Planalto e em três ministérios: Educação, Relações Exteriores e Economia. Em 2017, o filósofo teve uma aluna - a carioca Ludmila Lins Grilo - aprovada no concurso para juíza no Tribunal de Justiça de Minas Gerais.
A influência de Olavo na montagem do governo supera a da bancada evangélica, cujo eleitorado foi crucial na vitória de Bolsonaro mas recebeu um único ministério (Mulher, Família e Direitos Humanos). A ascendência do escritor sobre o governo só se compara à do setor ruralista (que comanda o ministério da Agricultura e deu aval à escolha do ministro do Meio Ambiente) e à da ala militar, responsável por quatro pastas (Defesa, Segurança Institucional, Secretaria de Governo e Infraestrutura).
Na Câmara dos Deputados, Olavo terá cinco seguidores - presença discreta, mas que poderá crescer caso o PSL, partido de Bolsonaro, tire do papel os planos de levar seus 52 deputados eleitos aos EUA para um curso com o escritor nas próximas semanas.

Esoterismo islâmico e astrologia

Radicado nos EUA desde 2005, Olavo, hoje com 71 anos, se popularizou ao criticar a esquerda e defender posições conservadoras em livros e nas mídias sociais nas últimas décadas, o apogeu de uma carreira cheia de guinadas.
Sem jamais ter se formado na universidade, criou um Curso Online de Filosofia(COF) pelo qual, segundo ele, já passaram 12 mil alunos, alguns dos quais chegam agora ao poder. Nos anos 1970 e 1980, antes de se projetar no debate político, Olavo foi membro de uma tariqa (ordem mística muçulmana) e trabalhou como astrólogo em São Paulo.
Hoje se define como católico, assim como seu núcleo principal de seguidores - embora critique com frequência o papa Francisco, que já chamou de "lelé da cuca" por seus acenos a pautas progressistas.

Foro de São Paulo

Uma das visões de Olavo mais disseminadas entre a chamada "nova direita" brasileira trata do poder do Foro de São Paulo, conferência criada em 1990 pelo PT para debater os rumos da esquerda latino-americana e que, segundo o escritor, deu ao partido o "comando estratégico da revolução comunista" no continente.
O filósofo também foi um dos primeiros a disseminar a opinião, encampada pelo governo Bolsonaro, de que a esquerda exerce há décadas o controle da imprensa e do ensino brasileiro - estratégia que, segundo ele, segue o ideário do marxista italiano Antonio Gramsci (1891-1937).
As duas posições são contestadas entre muitos acadêmicos, que apontam a onda de vitórias eleitorais da direita na América Latina como um sinal de que o Foro de São Paulo nunca teve tanta influência, e avaliam que parte da imprensa e da academia no Brasil sempre encampou valores conservadores.

Aproximação com a família Bolsonaro

Em entrevista à BBC News Brasil em 2016, Olavo afirmou que, para combater a expansão da esquerda no país, a direita deveria se concentrar em ocupar espaços não no Estado, mas "na igreja, nas escolas, nas sociedades de amigos do bairro, no clube".
Na campanha de 2017, porém, apoiou a candidatura de Jair Bolsonaro e endossou pupilos que concorriam a cargos eletivos. Em retribuição, no primeiro vídeo que gravou após se eleger presidente, Bolsonaro exibiu o bestseller O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, coletânea de artigos de Olavo organizada pelo jornalista Felipe Moura Brasil.
O escritor já vinha se aproximando da família do presidente. Há dois anos, recebeu em sua casa a visita de Eduardo e Flávio Bolsonaro, respectivamente eleitos deputado federal e senador em 2017.
Confira abaixo relação de discípulos de Olavo recentemente nomeados ou eleitos para cargos no Executivo e Legislativo.

Governo Federal


Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores
Ernesto Araújo visitou Olavo de Carvalho antes de ser nomeado ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro 
(Foto: Ministério das Relações Exteriores)
Indicado por Carvalho para o posto, ocupava até então a chefia do Departamento dos Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos do ministério. Aos 51 anos, é um dos mais jovens chanceleres da história do país.
Em artigo na revista The New Criterion, Araújo diz que Olavo "talvez tenha sido a primeira pessoa no mundo a ver o globalismo como um resultado da globalização, a entender seus propósitos horríveis e a começar a pensar sobre como derrubá-lo". Após a posse do chanceler, Olavo disse que o discurso do discípulo - que misturou citações em grego e tupi a menções a Raul Seixas e à banda Legião Urbana - "tem, desde já, um lugar garantido em qualquer antologia séria dos grandes discursos brasileiros".

Filipe Martins, assessor da Presidência para Assuntos Internacionais
Filipe Martins (à dir.) com Carlos Bolsonaro; jovem assessor da Presidência conhece Olavo há mais de uma década 
(Foto: Divulgação)
É considerado por Olavo um dos seus alunos mais brilhantes. Aos 31 anos, desempenhará papel equivalente ao que o professor Marco Aurélio Garcia (1941-2017) tinha nos governos Lula e Dilma.
Nascido em Sorocaba (SP) e formado em Relações Internacionais na Universidade de Brasília (UnB), é diretor de assuntos internacionais do PSL. Para ele, "não é possível compreender o nascimento (ou renascimento) do conservadorismo brasileiro, ou a ascensão do antipetismo, sem considerar o impacto" da obra de Olavo.
Ele costuma comparar o mestre a um hápax legómenon (expressão de origem grega que designa palavras ou ideogramas que aparecem uma única vez na literatura de um determinado idioma), "um personagem tão singular no contexto cultural em que está inserido que acaba por se tornar indecifrável para seus pares".

Ricardo Vélez Rodriguez, ministro da Educação
Colombiano Ricardo Vélez integrou instituto de filosofia fundado pelo jurista Miguel Reale, admirado por Olavo 
(Foto: Marcello Casal Jr | Ag~encia Brasil)
Também indicado por Olavo para o posto, nasceu na Colômbia há 75 anos. Segundo o filósofo, Vélez é, "no mundo, a pessoa que mais entende de pensamento político-social brasileiro". Foi membro do Instituto Brasileiro de Filosofia, fundado pelo jurista e filósofo Miguel Reale, e é considerado por Carvalho um dos maiores pensadores da história do Brasil.
Escreveu livros sobre assuntos diversos, como o conflito armado na Colômbia, o governo Lula e a obra do economista John Maynard Keynes. Antes da nomeação, Vélez vivia em Londrina (PR) e dava aulas na Faculdade Positivo. No discurso de posse, disse que sua gestão se inspirará "em dois grandes educadores", Olavo de Carvalho e Antonio Paim. "Deles emergem a inspiração liberal e conservadora de nossas propostas educacionais."

Carlos Nadalim, secretário de Alfabetização do Ministério da Educação (MEC)
Carlos Nadalim mantinha site e era coordenador pedagógico de escola em Londrina antes de nomeação. Na foto, junto com Olavo de Carvalho (Foto:Reprodução | Youtube)
Também aluno do Curso Online de Filosofia (COF) de Carvalho, Nadalim era até a nomeação coordenador pedagógico da escola infantil Mundo do Balão Mágico, em Londrina (PR), e mantinha um blog com dicas sobre a educação infantil.
Em 2015, Olavo escreveu no Facebook que Nadalim havia feito mais pela educação brasileira "do que todos os iluminados do MEC juntos" ao desenvolver um método para alfabetizar crianças em casa. Nadalim diz que as técnicas já foram usadas por 2.758 pais e mães.

Murilo Resende Ferreira, diretor de Avaliação da Educação Básica do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) do MEC
Murilo Resende Ferreira é aluno de Olavo desde 2009 e membro do Escola sem Partido (Foto: Diário Centro Mundo)
Aluno de Carvalho desde 2009, a quem se refere como "meu grande professor", é doutor em economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e integra o movimento Escola Sem Partido. No MEC, supervisionará a elaboração do Exame Nacional do Ensimo Médio (Enem).
Em audiência pública em 2016, Ferreira disse que educação brasileira vive sob uma "ditadura marxista", na qual crianças são expostas a teorias que promovem o incesto e a pedofilia. Foi membro do MBL (Movimento Brasil Livre), mas deixou o grupo após divergências.

Adolfo Sachsida, secretário de Política Econômica do Ministério da Economia
Adolfo Sachsida tornou-se aluno de Olavo há 14 anos: "Foi como encontrar a luz em meio às trevas", afirmou 
(Foto: IPEA)
Ex-pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e doutor em Economia pela Universidade de Brasília (UnB), tornou-se aluno de Olavo há 14 anos. "Foi como encontrar a luz em meio às trevas", ele relatou no Facebook.
Em 2016, Olavo e Sachsida gravaram um vídeo em que comentaram temas como a "doutrinação ideológica" nas escolas e riscos que eles atribuíam à presença de muçulmanos na "onda migratória na Europa e no Brasil".

Câmara dos Deputados


Bia Kicis (PRP-DF), deputada federal eleita
Eleita pela primeira vez em 2017, Bia Kicis ganhou projeção política durante a onda de protestos contra os governos do PT. Na foto com Jair Bolsonaro (Foto: Reprodução | Facebook)
Eleita pela primeira vez em 2017, é procuradora aposentada e se refere a Olavo como "nosso querido Mestre". Para ela, o filósofo "é um grande Pai de muitos brasileiros, que despertaram por meio de seu conhecimento e de sua generosidade".
Durante a campanha, Olavo gravou um vídeo dizendo que, caso fosse eleitor do Distrito Federal, votaria em Kicis, que também frequentou seu Curso Online de Filosofia(COF). Ela ganhou projeção entre a "nova direita" ao militar nos últimos anos em movimentos contra o PT e pelo impeachment de Dilma Rousseff.

Joice Hasselmann (PSL-SP), deputada federal eleita
A candidatura da jornalista Joice Hasselmann foi publicamente apoiada por Olavo, que a considera uma representante da 'antimídia'. Na foto com Jair Bolsonaro (Foto: Reprodução | Twitter)
Jornalista, Joice teve sua candidatura apoiada publicamente por Olavo e foi a mulher mais votada da história na eleição para a Câmara. "Vou apoiá-la até a morte, ela é antimídia, condensa em si a verdade do jornalismo brasileiro, que foi sufocada por todos esses bandidos ao longo de várias décadas", afirmou o filósofo.
Joice agradeceu o endosso, definindo Olavo como um "parceiro, leal, amigo, protetor, além de um GÊNIO". "Você conhece meu coração e sabe que não vamos te decepcionar!", afirmou.

Paulo Martins (PSC-PR), deputado federal eleito
Também jornalista, Paulo Martins considera Olavo de Carvalho "o grande responsável pelo início da reação cultural no Brasil" (Foto: Nilson Bastian | Arquivo Câmara dos Deputados)
Também jornalista, foi eleito em 2017 ao concorrer pela segunda vez para a Câmara. É aluno de Olavo, que ele considera "o grande responsável pelo início da reação cultural do Brasil".
Quando era comentarista do Jornal da Massa, transmitido pelo SBT no Paraná, Martins recomendou no programa o livro O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, de Olavo. Na ocasião, definiu o filósofo como "um homem de inteligência absolutamente sublime e argumentação acachapante".

Marcel van Hattem (Novo-RS), deputado federal eleito
Marcel van Hattem diz que Olavo foi responsável por seu 'despertar político'; ele começou carreira em 2004 como vereador em Dois Irmãos (RS) (Foto: Reprodução | Facebook)
Formado em Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e mestre em Ciência Política, Hattem também atuou como jornalista antes de ingressar na política, em 2004, como vereador em Dois Irmãos (RS).
Em 2007, elegeu-se deputado federal pela primeira vez. Aluno de Olavo, diz que o filósofo foi o responsável por seu "despertar político", tendo descrito "como as doutrinas revolucionárias e os partidos totalitários, socialistas e comunistas, levariam nosso país ao ponto em que chegou". Em 2016, o filósofo elogiou o discípulo. "Por que acho o Marcel van Hattem um sujeito sério? Porque antes de se meter na política federal ele derrotou a esquerda na sua universidade - e pagou alto preço por isso."

Carla Zambelli (PSL-SP), deputada federal eleita
Carla Zambelli militou no Movimento nas Ruas; ela gravou vídeo com Olavo em defesa da liberação da posse de armas 
(Foto: Agência Brasil)
Gerente de projetos, candidatou-se pela primeira vez em 2017. Aproximou-se de Olavoenquanto militava no Movimento nas Ruas, que ganhou projeção nos protestos contra o governo Dilma Rousseff. Em 2017, Olavo, Zambelli e o músico Lobão gravaram um vídeo em defesa da liberação da posse de armas.
Até conhecer o filósofo, em 2011, Zambelli diz que "não era nem de direita nem de esquerda, só contra a corrupção". O contato com Olavo fez com que ela percebesse a afinidade com seus valores. "Não é que virei conservadora, eu me identifiquei com as coisas que ele falava."
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/585955-quem-sao-os-discipulos-de-olavo-de-carvalho-que-chegaram-ao-governo-e-congresso

Uma Igreja dentro da Igreja. Artigo de Massimo Faggioli

“Os debates em círculos conservadores e tradicionalistas na Igreja oferecem um contraste gritante com a visão desse pontificado sobre a relação entre a Igreja e o mundo moderno. Alguns ‘ismos’ teológicos um tanto mofados estão novamente em circulação.”
A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos, em artigo publicado por Commonweal, 08-01-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Na exposição universal de 1867 em Paris, o Estado papal optou por ser representado por uma catacumba. Era uma época em que o papado, que já havia perdido a maior parte do Estado papal e também perderia Roma em 1870, era apocalíptico sobre o futuro da Igreja no mundo moderno.
Ao mesmo tempo, os leigos católicos estavam entrando em uma nova era de mobilização e engajamento com o mesmo mundo, com o encorajamento da hierarquia católica, que sabia que perdera grande parte de sua influência direta sobre a sociedade moderna.
Hoje, durante o pontificado do Papa Francisco, vemos uma situação oposta: um papa que prega “a alegria do Evangelho” e tem pouco tempo para nostalgia, e uma crescente coorte de intelectuais católicos (uma minoria na Igreja, mas especialmente ativa nos Estados Unidos) que olham com expectativa para o século XIX.
Os debates em círculos conservadores e tradicionalistas na Igreja de língua inglesa – e particularmente nos Estados Unidos – oferecem um contraste gritante com a visão desse pontificado sobre a relação entre a Igreja e o mundo moderno. Alguns “ismos” teológicos um tanto mofados estão novamente em circulação.
Há, por exemplo, uma nova onda de ultramontanismo que busca uma concepção idealizada de Roma para seus pontos de referência. Há também um relativo ressurgimento do “integrismo”, inspirando congressos na Universidade de Notre Dame e em Harvard. O novo integrismo dá um passo além do pós-liberalismo católico mais provisório, ou da simples proclamação da crise do catolicismo liberal. O integrismo é a tentativa de imaginar para a Igreja Católica – mas também para o mundo em que a Igreja vive – um futuro que rejeite a separação “liberal” entre os poderes temporal e espiritual, e subordina o primeiro ao segundo.
De acordo com Sacramentum Mundi (publicado pela primeira vez entre 1968 e 1970, e agora disponível online – seu editor geral foi Karl Rahner, SJ), o integrismo é:
“A tendência, mais ou menos explícita, de aplicar padrões e diretrizes tiradas da fé para toda a atividade da Igreja e de seus membros no mundo. Ela surge da convicção de que a autoridade básica e exclusiva para dirigir a relação entre o mundo e a Igreja, entre a imanência e a transcendência, é a autoridade doutrinal e pastoral da Igreja.”
Aqui, pode-se detectar uma diferença sutil entre a definição clássica de integrismo e a sua variação do século XXI. Essa nova linhagem está focada quase exclusivamente no campo político. De fato, o que mais se assemelha é outro fenômeno da cultura católica do século XIX: o intransigentismo– a crença de que qualquer concessão ou acomodação com o mundo moderno põe a fé em perigo.
Ao contrário do mero conservadorismo, que valoriza elementos do passado e procura preservá-los, o intransigentismo rejeita o moderno de forma direta e preventiva. Isso tem consequências para o pensamento teológico dos católicos que hoje se chamam integristas, tradicionalistas e ultramontanistas.
Para esses católicos, os últimos 60 anos – e especialmente o Vaticano II – ou não importam de modo algum ou só importam se puderem ser interpretados como uma confirmação do ensinamento passado da Igreja.
Essa é, entre outras coisas, uma leitura errada do que o Papa Bento XVI disse sobre a continuidade; enquanto ele enfatizava a continuidade da própria Igreja como um único sujeito estendido ao longo da história, isso não significa necessariamente que toda doutrina permaneça constante. Os documentos da Igreja que são essenciais para entender como a tradição teológica funciona na Igreja Católica, especialmente as quatro constituições do Vaticano II (por exemplo, a Dei verbum sobre a Escritura, a Tradição e o Magistério), não fazem realmente parte da cultura dessa visão de mundo intransigente. Tipicamente, essa cultura teológica lê a declaração conciliar sobre a liberdade religiosa, Dignitatis humanae, como se ela estivesse perfeitamente de acordo com o ensinamento anterior da Igreja sobre esse tópico.
O novo intransigentismo celebra o “Sílabo dos Erros” de Pio IX (1864) e a sua recusa em se adaptar aos tempos modernos. O Sílabo apontou seu fogo contra quatro desenvolvimentos modernos: a Reforma, o Iluminismo, a Revolução Francesa e o Estado liberal. Mesmo assim, havia raízes comuns entre o intransigentismo teológico, o legitimismo (a legitimidade sagrada do poder político) e o tradicionalismo legal (em oposição ao constitucionalismo). Os reacionários católicos de hoje acrescentariam mais um alvo: o Vaticano II, entendido como a capitulação da Igreja à modernidade e à ordem liberal.
É interessante como o catolicismo liberal do século XIX é diferente do catolicismo liberal de hoje, e como o intransigentismo católico do século XIX é semelhante ao intransigentismo de hoje. O catolicismo liberal hoje aceita muito mais a sociedade individualista e burguesa do que no século XIX, quando tinha um viés mais profético. Mas o intransigentismo realmente não mudou muito nos últimos 150 anos, especialmente quando se trata da questão do Estado confessional – uma questão sobre a qual o ensinamento oficial da Igreja mudou, sim, durante esse período.
Seria interessante perguntar aos proponentes desse tipo de catolicismo o que eles acham da difícil situação dos católicos que têm de viver como minorias sob regimes integristas confessionais não cristãos, e por que esses católicos não parecem ter tanto medo do liberalismo.
Todos os interessados nesse assunto devem ler o que Yves Congar escreveu sobre isso em um famoso apêndice ao livro “Verdadeira e falsa reforma na Igreja”, de 1950 (curiosamente, Congar decidiu não publicar esse apêndice sobre o “integralismo e a mentalidade de direita” na segunda edição do seu livro em 1969, e a mesma decisão foi tomada para a tradução em inglês publicada em 2011).
Lá, Congar abordava a afinidade desse tipo de catolicismo pela direita política, fundamentado no sonho de restaurar uma ordem monárquica, ou pelo menos autoritária. O “integrismo” e a “mentalidade de direita” convergem na tendência de condenar tudo o que apareceu depois de uma certa data na história.
Congar listou oito elementos típicos da mentalidade integrista:
- o pessimismo sobre a natureza humana;
- a crença na necessidade de uma autoridade forte;
- a desconfiança no desenvolvimento doutrinal;
- uma inclinação para assegurar que o catolicismo não se torne muito fácil;
- uma ênfase em fórmulas dogmáticas sobre a realidade subjetiva da fé;
- uma preferência pelo raciocínio dedutivo sobre o raciocínio indutivo;
- o autoritarismo eclesial; e
- a ideia de que a eclesiologia da Igreja deveria ser moldada não pela dimensão mística, mas por uma hierarquia rígida.
O integrismo, continua Congar, não é uma heresia, porque escolhe a ortodoxia e a hierarquia. Mas Congar observa: “Uma ênfase exagerada na ortodoxia também pode ser um modo de abandonar o catolicismo”. E acrescentava as palavras de John Henry Newman sobre o integrismo: “Eles constroem uma Igreja dentro da Igreja (...) enquanto fazem de seus pontos de vista um dogma. Eu não estou defendendo a mim mesmo contra eles, mas sim contra o que eu chamaria de seu espírito cismático”.
http://www.ihu.unisinos.br/585937-uma-igreja-dentro-da-igreja-artigo-de-massimo-faggioli

Uma solução para (quase) tudo: trabalhar menos

“Trabalhar menos resolve realmente o quê?, me perguntaram recentemente. Eu prefiro inverter a questão: existe alguma coisa que trabalhar menos não resolva?”
A opinião é do historiador e jornalista holandês Rutger Bregman, autor de “Utopia para realistas: como construir um mundo melhor” (Ed. Sextante, 2018), em artigo publicado por The Guardian, 18-04-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Se você perguntasse a John Maynard Keynes qual seria o maior desafio do século XXI, ele não precisaria pensar duas vezes. O lazer.
De fato, Keynes previu que, salvo “erros desastrosos” cometidos pelos formuladores de políticas (austeridade durante uma crise econômica, por exemplo), o padrão de vida ocidental multiplicaria o de 1930 em pelo menos quatro vezes dentro de um século. De acordo com seus cálculos, em 2030, estaríamos trabalhando apenas 15 horas por semana.
No ano 2000, países como o Reino Unido e os Estados Unidos já eram cinco vezes mais ricos do que em 1930. No entanto, à medida que avançamos nas primeiras décadas do século XXI, os nossos maiores desafios não são muito o lazer e o tédio, mas sim o estresse e a incerteza.
Trabalhar menos resolve realmente o quê?, me perguntaram recentemente. Eu prefiro inverter a questão: existe alguma coisa que trabalhar menos não resolva?
Tomemos as mudanças climáticas. Uma mudança mundial para uma semana de trabalho mais curta poderia cortar pela metade o CO2 emitido neste século. Países com uma semana de trabalho mais curta têm uma pegada ecológica menor. Consumir menos começa trabalhando menos – ou, melhor ainda –, consumindo a nossa prosperidade na forma de lazer.
As horas extras são mortais. Longos dias de trabalho levam a mais erros: cirurgiões cansados são mais propensos a escorregões, e soldados que ficam muito pouco tempo de olhos fechados são mais propensos a errar os alvos.
De Chernobyl ao ônibus espacial Challenger, gerentes sobrecarregados geralmente demonstram ter desempenhado um papel nos desastres. Não é por acaso que o setor financeiro, que desencadeou o maior desastre da última década, está absolutamente gemendo de tantas pessoas fazendo horas extras.
Inúmeros estudos mostraram que pessoas que trabalham menos estão mais satisfeitas com suas vidas. Em uma recente pesquisa realizada entre mulheres trabalhadoras, pesquisadores alemães quantificaram o “dia perfeito”. A maior parte dos minutos (106) iria para “relações íntimas”. No fim da lista, estavam o trabalho (36) e os deslocamentos (33).
Os pesquisadores observaram que, “a fim de maximizar o bem-estar, é provável que o trabalho e o consumo (que aumentam o PIB) possam desempenhar um papel menor nas atividades diárias das pessoas em comparação com agora”.
Obviamente, você não pode simplesmente cortar um trabalho em pedaços menores. No entanto, pesquisadores da Organização Internacional do Trabalho (OIT) concluíram que o trabalho compartilhado – no qual dois empregados de meio turno dividem uma carga de trabalho tradicionalmente atribuída a um trabalhador de tempo integral – chegou perto de resolver a última crise econômica. Particularmente em tempos de recessão, com o aumento do desemprego e a produção excedendo a demanda, compartilhar trabalhos pode ajudar a amenizar o impacto.
Além disso, países com semanas de trabalho mais curtas consistentemente se classificam no topo dos rankings de igualdade de gênero. A questão central é conseguir uma distribuição mais equitativa do trabalho. Somente quando os homens fizerem a sua parte na cozinha, na limpeza e em outras formas de trabalho doméstico é que as mulheres estarão livres para participar plenamente na economia em geral.
Tomemos a Suécia, um país com um sistema verdadeiramente decente de assistência infantil e licença-paternidade – e a menor disparidade de tempo de trabalho entre homens e mulheres.
Além de distribuir empregos de forma mais igualitária entre os sexos, nós também temos que compartilhá-los ao longo das gerações. As pessoas mais velhas, cada vez mais, querem continuar trabalhando mesmo depois de atingirem a idade de aposentadoria. Mas, enquanto os trintões estão se afogando no trabalho, nas responsabilidades familiares e nas hipotecas, os idosos lutam para serem contratados, embora o fato de trabalhar (um pouco) provou trazer benefícios para a saúde.
Jovens trabalhadores que estão entrando agora no mercado de trabalho podem muito bem continuar trabalhando até os 80 anos. Em troca, eles poderiam trabalhar não 40 horas por semana durante todos esses anos, mas talvez apenas 20-30. “No século XX, tivemos uma redistribuição de riqueza”, observou um importante demógrafo. “Neste século, a grande redistribuição será em termos de horário de trabalho.”
E depois há a questão da desigualdade econômica. Os países com as maiores disparidades de riqueza são precisamente aqueles com as semanas de trabalho mais longas. Enquanto os pobres estão trabalhando mais horas apenas para sobreviver, os ricos estão achando cada vez mais “caro” tirar uma folga à medida que aumentam suas taxas horárias. Hoje em dia, trabalho e pressão excessivos são símbolos de status. O tempo para si mesmo é cada vez mais cedo comparado ao desemprego e à preguiça, certamente em países onde a lacuna de riqueza se ampliou.
Não tem que ser assim. Temos a capacidade de cortar um grande pedaço da nossasemana de trabalho. Isso não apenas tornaria toda a sociedade mais saudável, mas também daria um fim em incontáveis pilhas de tarefas inúteis e até mesmo prejudiciais (uma pesquisa recente constatou que 37% dos trabalhadores britânicos pensam ter um “trabalho de merda”).
Uma renda básica universal seria a melhor maneira de dar a todos a oportunidade de fazer mais trabalhos não remunerados, mas incrivelmente importantes, como cuidar de crianças e idosos.
“Mas todo mundo não ficaria grudado na TV o tempo todo?”, você poderia se perguntar. Na verdade, é precisamente em países com excesso de trabalho como o Japão, a Inglaterra e os Estados Unidos que as pessoas assistem a uma quantidade absurda de televisão. Até quatro horas por dia na Inglaterra, o que soma nove anos ao longo de uma vida média.
É claro, nadar em um mar de tempo livre não deve ser fácil. Mas é por isso que a educação do século XXI deveria preparar as pessoas não apenas para ingressar na força de trabalho, mas também (e mais importante) para a vida.
“Como os homens não estarão cansados em seu tempo livre”, escreveu o filósofo Bertrand Russell em 1932, “eles não exigirão apenas diversões que sejam passivas e vãs.”
Nós podemos nos virar com a boa vida, se tirarmos o tempo para isso.
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/585938-uma-solucao-para-quase-tudo-trabalhar-menos

Militares, ciências, Educação Popular.

A pandemia atual expõe a falácia de alguns dogmas sobre a pós modernidade, ela mesma integra a lista dos enunciados falsos de evidências lóg...