Saiu na folha de São Paulo
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TENDÊNCIAS/DEBATES
País ameaçado
CRISTOVAM BUARQUE
Se algum país quisesse dominar o Brasil no século 21, não teria estratégia melhor do que abandonar a educação de nosso povo
O BRASIL está ameaçado pela "invasão" de um exército de 72 milhões de adultos. São os eleitores sem o ensino fundamental completo. Adultos que aqui nasceram e, sem nenhuma culpa, serão agentes da desagregação nacional nas próximas décadas. Por causa dessa "invasão", dentro de 30 anos estaremos ainda mais mergulhados na violência, na corrupção, na baixa produtividade, na falta de capacidade para criar capital/conhecimento, nas desigualdades social e regional.
Não foi a Abin, nem as Forças Armadas, nem a Polícia Federal que identificou a ameaçadora "invasão" que o Brasil sofre: foi o TSE, ao mostrar que são 104 milhões os eleitores sem o ensino médio completo, dos quais 28,8 milhões são analfabetos ou apenas sabem ler e 72 milhões não concluíram o ensino fundamental.
E esses dados não mostram que raros dos que concluíram o ensino médio tiveram cursos com a qualidade que os tempos atuais exigem, para a pessoa e o país. Mesmo que os dados não sejam exatos (são do momento do cadastramento do eleitor, sem estudos continuados posteriores), eles confirmam uma realidade conhecida.
Se algum país quisesse dominar o Brasil no século 21, não teria estratégia melhor do que abandonar a educação de nosso povo, como nossos próprios dirigentes fizeram ao longo de décadas. Nas próximas, essa situação vai trazer conseqüências catastróficas para o país.
Na democracia: o eleitor sabe votar corretamente, independentemente do grau de instrução, mas, sem educação, não tem alternativas de emprego ou renda, precisa de soluções imediatas para seus problemas. Em vez de votar em um candidato que propõe mudar o quadro futuro da saúde, vota naquele que lhe oferece uma caixa com o remédio para resolver sua doença atual. É um voto inteligente, mas que leva à fragilidade da democracia e ao aumento da corrupção.
Corrupção: a eleição democrática por um eleitorado sem alternativa induz à compra e à venda de votos, daí ao descompromisso do eleito com o eleitor e ao uso do cargo em benefício próprio. O eleitor não tem qualificação e perde o direito de cobrar do seu representante.
Economia: não há futuro para a economia sem mão-de-obra altamente qualificada, com trabalhadores preparados para usar instrumentos modernos. Também não há futuro para a economia que não é capaz de criar capital-conhecimento. Se toda a população jovem não estiver bem educada para fornecer quadros competentes às universidades, estas não desenvolverão o capital-conhecimento com base na ciência e nas técnicas de nível superior que o mundo moderno exige.
Emprego: a economia está trocando operários por operadores. Em vez de formar um operário com um simples curso, é preciso formar um operador de ferramentas inteligente, usando computadores. Isso exige um bom segundo grau completo, idiomas estrangeiros, inclusão digital.
Segurança: é possível que a maldade seja uma característica mais comum entre os educados do que entre os iletrados. Mas, sem alternativas de emprego, estes últimos ficam sem renda para sobreviver e mais facilmente caem na tentação de pequenos crimes -se ficarem impunes, terão incentivo à criminalidade; se forem presos, cairão nas universidades do crime que são as cadeias.
Desigualdade: os dados do TSE não mostram a desigualdade entre o nível de educação do eleitor pobre e o do eleitor rico, mas mostra a desigualdade regional no acesso à educação. O aumento da desigualdade entre as pessoas e entre as regiões será uma das conseqüências previsíveis dos dados divulgados. Alguns conseguem educar-se, têm alternativas, empregos, renda. Outros ficam excluídos.
O pior é que os educados não despertam para os riscos que o país corre. Uma parte nem deseja mudanças, outra defende o voto dos analfabetos sem defender a erradicação do analfabetismo; defende que o capital do patrão deve passar às mãos dos trabalhadores, mas não defende que a escola do filho do operário seja tão boa quanto a escola do filho do patrão, como venho defendendo. O governo Lula continua essa tradição da esquerda generosa, mas não transformadora.
Aos eleitores sem alternativas por falta de educação devemos perdoar suas opções eleitorais, aos eleitores educados não há perdão pela imoral tolerância com a mãe de todos os problemas: o abandono da educação.
Talvez a "CPI do Apagão Educacional" que o presidente do Senado, Garibaldi Alves, se comprometeu a implantar neste primeiro semestre possa servir para acordar o Brasil do risco que nos ameaça.
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CRISTOVAM BUARQUE, 63, doutor em economia, é professor da UnB (Universidade de Brasília) e senador da República pelo PDT-DF. Foi reitor da UnB (1985-1989), governador do Distrito Federal pelo PT (1995-98) e ministro da Educação (2003-04).
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz3101200808.htm
Comentário: O artigo não é alerta para os cidadãos de Pindorama, mas uma vergonha descarada e fétida da gestão dos nossos governantes.
Thursday, January 31, 2008
Tuesday, January 29, 2008
Quais são os valores da propaganda?
Um bom artigo para reflexão.
Saiu na Folha de São Paulo – 28/01/2008.
Ética e propaganda
GILBERTO DUPAS
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Na ordem econômica atual, a função da propaganda é criar continuamente novos objetos de desejo. Assim, faz sentido cobrar ética?
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NA ORDEM econômica atual, que tem garantido vitalidade à lógica da acumulação capitalista, a função da propaganda é criar continuamente novos objetos de desejo. Sendo assim, faz sentido cobrar ética da propaganda?
Vamos examinar exemplos concretos. O mais recente confronto entre privacidade e propaganda envolve alguns provedores de internet, agora incluindo serviço telefônico gratuito, que exigem o direito de invadir em tempo real todo o conteúdo da comunicação com anúncios de produtos e serviços que têm a ver com o assunto da interlocução. Ou seja, joga-se no lixo o sigilo da comunicação em troca de propaganda.
Eis a justificativa de uma das empresas líderes do ramo: "Nós percebemos que, enquanto falam ao telefone, as pessoas fazem alguma coisa a mais.
Decidimos usar isso". E arremata: "Trocar mais personalização com menos privacidade é um conceito aceito no mundo atual". Quanto à violação do sigilo, diz: "Não estamos fazendo nada mais que aquilo que grandes provedores fazem com e-mails".
Um executivo de uma das maiores agências de propaganda do mundo diz: "Reconheço que estamos ficando mais intrusivos a cada avanço tecnológico. Mas adoraria poder pôr minhas mãos nos dados de conversas".
O sistema está pronto para ser implantado em telefones celulares. Outro exemplo é a recente propaganda de lançamento de veículo relacionando acessórios sofisticados que o acompanham. O último da lista: "Loira siliconada no banco de passageiro". E a provocação: "Não quer mais nada não, né?".
Outra montadora, em amplas páginas coloridas de revistas e jornais de grande circulação, mostra uma mansão protegida por bela vegetação. Nas páginas duplas seguintes, ela foi destruída por uma tesoura de jardineiro e o buraco exibe o novo modelo de um utilitário de luxo com a legenda: "Você vai fazer tudo para exibir o seu!". Valores? Loira siliconada e destruição da natureza.
Mais outro. Grande banco exibe enorme anúncio em que aparece uma linda menininha de dois anos. Ela acaba de rabiscar uma nobre parede de madeira com desenhos infantis e a logomarca da empresa. Mensagem: "Você sabe do que vai precisar amanhã? Fique tranqüilo. Nosso banco já está pensando nisso hoje". Valores? Um clientezinho seduzido.
Finalmente, uma das líderes globais em produtos de superluxo publica, em páginas inteiras nas principais revistas e jornais do mundo, enorme propaganda com Mikhail Gorbatchov, o controvertido líder que apressou a queda do império soviético, sentado no banco de trás de uma limusine, que tem ao fundo o muro de Berlim. Ao lado de Gorbatchov, uma elegantíssima sacola de viagem da grife. A imagem é feita pela famosa Annie Leibovitz.
Entrevistado, um dos donos da marca, que pediu fotos semelhantes com Catherine Deneuve e outros famosos, explica: "Foi uma escolha natural. Queríamos uma personalidade que viveu uma vida plena e mudou as coisas no mundo". "Ficamos espantados quando Gorbartchov aceitou fazê-la com tanta satisfação", arrematou. E concluiu, candidamente: "Todos aspiramos a algo melhor. Alguns podem se oferecer isso já; outros, não podendo obtê-lo agora, vão sonhar com isso e conseguir realizar seu desejo mais cedo ou mais tarde".
Desnecessário dizer mais qualquer coisa sobre a propaganda como construção de objetos de desejo. Essa mesma grife havia colocado, meses antes, imenso outdoor com foto de sua mala de viagem cobrindo toda uma fachada em Xangai. Um fotógrafo clicou-a enquanto um chinês muito pobre passava carregando nos ombros, qual canga de boi, duas pesadas latas d'água.
Estamos destruindo um esquema de valores que, bem ou mal, punha algum limite entre o interesse público e a ganância privada. Para onde caminhamos? Uma pista é um novo lançamento residencial no distrito financeiro de Manhattan. As paredes do edifício, todas de vidro, permitem que seus moradores se vejam na intimidade e sejam vistos, eventualmente sem restrição, por pessoas da rua; inclusive no banheiro, um cubo de vidro.
A propaganda, na voz do arquiteto: "Estamos criando palcos para as pessoas de certa maneira atuarem". Para Sherry Turkle, do MIT, quando levantamos os olhos das telas de plasma dos computadores, só encontramos solidão. Trata-se, no caso, de um desejo desesperado de intimidade que a propaganda manipula, confundindo exibicionismo com aproximação. Enfim, ética supõe valores. Quais são os valores da propaganda?
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GILBERTO DUPAS , 65, é coordenador geral do Grupo de Conjuntura Internacional da USP, presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI) e autor de, entre outras obras, "O Mito do Progresso".
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2801200809.htm
Saiu na Folha de São Paulo – 28/01/2008.
Ética e propaganda
GILBERTO DUPAS
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Na ordem econômica atual, a função da propaganda é criar continuamente novos objetos de desejo. Assim, faz sentido cobrar ética?
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NA ORDEM econômica atual, que tem garantido vitalidade à lógica da acumulação capitalista, a função da propaganda é criar continuamente novos objetos de desejo. Sendo assim, faz sentido cobrar ética da propaganda?
Vamos examinar exemplos concretos. O mais recente confronto entre privacidade e propaganda envolve alguns provedores de internet, agora incluindo serviço telefônico gratuito, que exigem o direito de invadir em tempo real todo o conteúdo da comunicação com anúncios de produtos e serviços que têm a ver com o assunto da interlocução. Ou seja, joga-se no lixo o sigilo da comunicação em troca de propaganda.
Eis a justificativa de uma das empresas líderes do ramo: "Nós percebemos que, enquanto falam ao telefone, as pessoas fazem alguma coisa a mais.
Decidimos usar isso". E arremata: "Trocar mais personalização com menos privacidade é um conceito aceito no mundo atual". Quanto à violação do sigilo, diz: "Não estamos fazendo nada mais que aquilo que grandes provedores fazem com e-mails".
Um executivo de uma das maiores agências de propaganda do mundo diz: "Reconheço que estamos ficando mais intrusivos a cada avanço tecnológico. Mas adoraria poder pôr minhas mãos nos dados de conversas".
O sistema está pronto para ser implantado em telefones celulares. Outro exemplo é a recente propaganda de lançamento de veículo relacionando acessórios sofisticados que o acompanham. O último da lista: "Loira siliconada no banco de passageiro". E a provocação: "Não quer mais nada não, né?".
Outra montadora, em amplas páginas coloridas de revistas e jornais de grande circulação, mostra uma mansão protegida por bela vegetação. Nas páginas duplas seguintes, ela foi destruída por uma tesoura de jardineiro e o buraco exibe o novo modelo de um utilitário de luxo com a legenda: "Você vai fazer tudo para exibir o seu!". Valores? Loira siliconada e destruição da natureza.
Mais outro. Grande banco exibe enorme anúncio em que aparece uma linda menininha de dois anos. Ela acaba de rabiscar uma nobre parede de madeira com desenhos infantis e a logomarca da empresa. Mensagem: "Você sabe do que vai precisar amanhã? Fique tranqüilo. Nosso banco já está pensando nisso hoje". Valores? Um clientezinho seduzido.
Finalmente, uma das líderes globais em produtos de superluxo publica, em páginas inteiras nas principais revistas e jornais do mundo, enorme propaganda com Mikhail Gorbatchov, o controvertido líder que apressou a queda do império soviético, sentado no banco de trás de uma limusine, que tem ao fundo o muro de Berlim. Ao lado de Gorbatchov, uma elegantíssima sacola de viagem da grife. A imagem é feita pela famosa Annie Leibovitz.
Entrevistado, um dos donos da marca, que pediu fotos semelhantes com Catherine Deneuve e outros famosos, explica: "Foi uma escolha natural. Queríamos uma personalidade que viveu uma vida plena e mudou as coisas no mundo". "Ficamos espantados quando Gorbartchov aceitou fazê-la com tanta satisfação", arrematou. E concluiu, candidamente: "Todos aspiramos a algo melhor. Alguns podem se oferecer isso já; outros, não podendo obtê-lo agora, vão sonhar com isso e conseguir realizar seu desejo mais cedo ou mais tarde".
Desnecessário dizer mais qualquer coisa sobre a propaganda como construção de objetos de desejo. Essa mesma grife havia colocado, meses antes, imenso outdoor com foto de sua mala de viagem cobrindo toda uma fachada em Xangai. Um fotógrafo clicou-a enquanto um chinês muito pobre passava carregando nos ombros, qual canga de boi, duas pesadas latas d'água.
Estamos destruindo um esquema de valores que, bem ou mal, punha algum limite entre o interesse público e a ganância privada. Para onde caminhamos? Uma pista é um novo lançamento residencial no distrito financeiro de Manhattan. As paredes do edifício, todas de vidro, permitem que seus moradores se vejam na intimidade e sejam vistos, eventualmente sem restrição, por pessoas da rua; inclusive no banheiro, um cubo de vidro.
A propaganda, na voz do arquiteto: "Estamos criando palcos para as pessoas de certa maneira atuarem". Para Sherry Turkle, do MIT, quando levantamos os olhos das telas de plasma dos computadores, só encontramos solidão. Trata-se, no caso, de um desejo desesperado de intimidade que a propaganda manipula, confundindo exibicionismo com aproximação. Enfim, ética supõe valores. Quais são os valores da propaganda?
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GILBERTO DUPAS , 65, é coordenador geral do Grupo de Conjuntura Internacional da USP, presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI) e autor de, entre outras obras, "O Mito do Progresso".
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2801200809.htm
Thursday, January 10, 2008
"Todos querem ganhar o trono"
A propagação da mentira na República Brasileira.
Saiu no blog do Professor Roberto Romano:
CORREIO POPULAR DE CAMPINAS.
A REPÚBLICA DA MENTIRA
Artigo Publicado em 9/1/2008
Roberto Romano
Nem começamos 2008. Mas deboches e mentiras governamentais já foram jogados em nosso rosto, como bofetadas frias e covardes. Depois do “relaxa e goza”, do “toc-toc-toc” e da frase ministerial sobre “os vôos que atrasam porque o país progride”, veio a morte de passageiros inocentes, e ninguém responde nos poderes pela “pequena falha”. Ninguém responde por nada no país enlouquecido cujo nome é Brasil. Agora, depois que os donos do poder federal perderam o que nunca tiveram (a CPMF seria “contribuição”, não imposto, “provisória” mas não permanente, destinada à “saúde” e seguimos assim) eles de novo mentem, com escárnio. Governo e oposição pactuaram, para que o primeiro tivesse a DRU. Não haveria aumento de impostos, foi a palavra dada. Os rojões ainda tonitruavam de norte a sul e já os tributos eram aumentados, com a caçoada sem pejo: “o presidente prometeu não aumentar impostos em 2007”. Com pessoas assim, quem precisa de sofistas e comediantes na república?
Em dias de mando petista, falas de bispos não encontram ouvidos favoráveis. O Príncipe só escuta, como é seu hábito, os bajuladores. Mas citarei um bispo sábio, que não fez greve de fome e no entanto mata a sede de saber e justiça de seres humanos, contados em milhões. Falo de Santo Agostinho. “O Senhor chamou o diabo pai da falsidade. (…) Nem todo o que diz mentira é pai da falsidade. Porque se tu recebes de um outro uma mentira, e a aceitas, tu és mentiroso, mas não pai daquela mentira. (…) Mas o diabo é o pai da mentira. Ele alega sua própria falsidade e não a ouviu de ninguém.” (Sermões sobre o Evangelho de João).
Com a entrevista à Piaui, o ex-ministro Dirceu desmente todos os pais e filhos da mentira que se abrigaram durante vinte anos sob a máscara ética. A verdade brota hoje da língua de quem arquitetou o reino da mentira, o império do “nunca ouvi dizer”, a república do Noli me tangere porque sou militante de esquerda e, portanto, sou honesto. A formação petista adoeceu de realismo, de burocratismo, de cegueira auto-causada, de cinismo. Ela perdeu o senso do decoro e se perdeu numa noite suja, na qual ainda estão insepultos cadáveres como o de Celso Daniel.
Terminemos com palavras descrentes, não escritas por um santo, mas por alguém que sabia o que enunciava: “Em alguns lugares do mundo existem ainda povos e rebanhos, mas não entre nós (…) aqui só existem Estados. Estado? O que é isto? Abri os ouvidos e vos falarei da morte dos povos. O Estado é o mais frio dos monstros frios. Ele é frio mesmo quando mente; eis a mentira que sai de sua boca: ‘Eu, o Estado, sou o povo’. Mentira. Os criadores formaram os povos e desenrolaram sobre suas cabeças uma fé e um amor; eles serviram a vida. Mas os destruidores puseram armadilhas para a multidão, é o que eles chamam Estado; eles puseram sobre suas cabeças uma espada e cem apetites. Se ainda existe um povo, ele nada compreende do Estado e o odeia como um pecado contra a moral e o direito. (…) Cada povo tem seu idioma do bem e do mal e o povo vizinho não o entende. Mas o Estado sabe mentir em todas as línguas do bem e do mal e em tudo o que ele diz, mente e tudo o que possui, roubou. Tudo nele é falso; ele morde com dentes falsos, até suas entranhas são falsas. O Estado é o lugar onde todos estão intoxicados, bons e maus, onde todos se dissolvem (…) onde o lento suicídio de todos é chamado ‘vida’. (…) Vede estes supérfluos: eles adquirem riquezas e apenas se tornam mais pobres. Eles querem o poder e, antes, a alavanca do poder, muito dinheiro - esses impotentes! Vede como eles sobem, estes macacos ágeis. Eles sobem uns sobre os outros e se fazem mutuamente cair na lama e no abismo. Todos querem ganhar o trono. Com freqüência é a lama que está sobre o trono, e não raro o trono está plantado na lama. Todos loucos… seu ídolo fede, este monstro frio; eles também fedem, os idólatras…”. Assim Falava Zaratustra, "Dos novos deuses". Retrato mais fiel dos poderosos petistas brasilienses, impossível. Feliz 2008...
Roberto Romano é professor de Ética e Filosofia Política na Unicamp.
Fonte: http://robertounicamp.blogspot.com/
Comentário: É vergonhoso viver num país mergulhado nas sombras da corrupção, da mentira, dos favores, da truculência e dos deboches escancarado .
Saiu no blog do Professor Roberto Romano:
CORREIO POPULAR DE CAMPINAS.
A REPÚBLICA DA MENTIRA
Artigo Publicado em 9/1/2008
Roberto Romano
Nem começamos 2008. Mas deboches e mentiras governamentais já foram jogados em nosso rosto, como bofetadas frias e covardes. Depois do “relaxa e goza”, do “toc-toc-toc” e da frase ministerial sobre “os vôos que atrasam porque o país progride”, veio a morte de passageiros inocentes, e ninguém responde nos poderes pela “pequena falha”. Ninguém responde por nada no país enlouquecido cujo nome é Brasil. Agora, depois que os donos do poder federal perderam o que nunca tiveram (a CPMF seria “contribuição”, não imposto, “provisória” mas não permanente, destinada à “saúde” e seguimos assim) eles de novo mentem, com escárnio. Governo e oposição pactuaram, para que o primeiro tivesse a DRU. Não haveria aumento de impostos, foi a palavra dada. Os rojões ainda tonitruavam de norte a sul e já os tributos eram aumentados, com a caçoada sem pejo: “o presidente prometeu não aumentar impostos em 2007”. Com pessoas assim, quem precisa de sofistas e comediantes na república?
Em dias de mando petista, falas de bispos não encontram ouvidos favoráveis. O Príncipe só escuta, como é seu hábito, os bajuladores. Mas citarei um bispo sábio, que não fez greve de fome e no entanto mata a sede de saber e justiça de seres humanos, contados em milhões. Falo de Santo Agostinho. “O Senhor chamou o diabo pai da falsidade. (…) Nem todo o que diz mentira é pai da falsidade. Porque se tu recebes de um outro uma mentira, e a aceitas, tu és mentiroso, mas não pai daquela mentira. (…) Mas o diabo é o pai da mentira. Ele alega sua própria falsidade e não a ouviu de ninguém.” (Sermões sobre o Evangelho de João).
Com a entrevista à Piaui, o ex-ministro Dirceu desmente todos os pais e filhos da mentira que se abrigaram durante vinte anos sob a máscara ética. A verdade brota hoje da língua de quem arquitetou o reino da mentira, o império do “nunca ouvi dizer”, a república do Noli me tangere porque sou militante de esquerda e, portanto, sou honesto. A formação petista adoeceu de realismo, de burocratismo, de cegueira auto-causada, de cinismo. Ela perdeu o senso do decoro e se perdeu numa noite suja, na qual ainda estão insepultos cadáveres como o de Celso Daniel.
Terminemos com palavras descrentes, não escritas por um santo, mas por alguém que sabia o que enunciava: “Em alguns lugares do mundo existem ainda povos e rebanhos, mas não entre nós (…) aqui só existem Estados. Estado? O que é isto? Abri os ouvidos e vos falarei da morte dos povos. O Estado é o mais frio dos monstros frios. Ele é frio mesmo quando mente; eis a mentira que sai de sua boca: ‘Eu, o Estado, sou o povo’. Mentira. Os criadores formaram os povos e desenrolaram sobre suas cabeças uma fé e um amor; eles serviram a vida. Mas os destruidores puseram armadilhas para a multidão, é o que eles chamam Estado; eles puseram sobre suas cabeças uma espada e cem apetites. Se ainda existe um povo, ele nada compreende do Estado e o odeia como um pecado contra a moral e o direito. (…) Cada povo tem seu idioma do bem e do mal e o povo vizinho não o entende. Mas o Estado sabe mentir em todas as línguas do bem e do mal e em tudo o que ele diz, mente e tudo o que possui, roubou. Tudo nele é falso; ele morde com dentes falsos, até suas entranhas são falsas. O Estado é o lugar onde todos estão intoxicados, bons e maus, onde todos se dissolvem (…) onde o lento suicídio de todos é chamado ‘vida’. (…) Vede estes supérfluos: eles adquirem riquezas e apenas se tornam mais pobres. Eles querem o poder e, antes, a alavanca do poder, muito dinheiro - esses impotentes! Vede como eles sobem, estes macacos ágeis. Eles sobem uns sobre os outros e se fazem mutuamente cair na lama e no abismo. Todos querem ganhar o trono. Com freqüência é a lama que está sobre o trono, e não raro o trono está plantado na lama. Todos loucos… seu ídolo fede, este monstro frio; eles também fedem, os idólatras…”. Assim Falava Zaratustra, "Dos novos deuses". Retrato mais fiel dos poderosos petistas brasilienses, impossível. Feliz 2008...
Roberto Romano é professor de Ética e Filosofia Política na Unicamp.
Fonte: http://robertounicamp.blogspot.com/
Comentário: É vergonhoso viver num país mergulhado nas sombras da corrupção, da mentira, dos favores, da truculência e dos deboches escancarado .
Sunday, December 30, 2007
Visões de risco para a democracia
Saiu na Folha de São Paulo
São Paulo, domingo, 30 de dezembro de 2007
Sem Benazir, militares devem reforçar ligações com radicais
AZIZ HUQ
A morte de uma importante líder oposicionista facilitará a Pervez Musharraf a criação de uma coalizão parlamentar que aja de acordo com seus desejos, se forem realizadas as eleições previstas para janeiro. E também torna mais distante a possibilidade de eleições que não sejam manipuladas, e de líderes que respondam ao povo, e não aos seus comandantes uniformizados. Além disso, agora é ainda mais difícil que os militares paquistaneses abandonem seu relacionamento simbiótico com a linha dura religiosa, nas urnas e nas ruas.
Minha aspiração e esperança de democracia no Paquistão não é um sonho romântico. Em lugar disso, a democracia paquistanesa representa a melhor esperança de redimir o desastre que o Paquistão veio a se tornar para a política de segurança nacional dos EUA.
Não deveria escapar à atenção de ninguém que Musharraf até o momento vem dependendo abertamente do Jamiat Ulema-e-Islam (JUI), um partido religioso favorável ao Taleban, especialmente na Província do Baluquistão. Muitas reportagens consistentes e plausíveis identificaram a região como o local de refúgio de líderes importantes da Al Qaeda, a exemplo de Osama bin Laden, que podem confiar no apoio de líderes tribais e religiosos simpáticos à sua causa.
Musharraf depende, para sua sobrevivência política, de facções políticas no mínimo simpáticas ao maior inimigo dos Estados Unidos, e possivelmente culpadas de cumplicidade com o terrorismo. Em meio ao lodaçal da política interna paquistanesa, o amigo de nosso amigo pode bem ser nosso inimigo. Bush vem apoiando um líder militar que, embora alegue ter contido os religiosos militantes, depende dele para seu sucesso nas urnas.
Espiões e Al Qaeda
Sem democracia, porém, não existe a mais remota possibilidade de romper esse elo fatal e de remover o refúgio da liderança da Al Qaeda. Sem democracia, há escassas chances de que os líderes tribais e religiosos que oferecem proteção estratégica ao Taleban sejam conquistados como aliados.
Sem democracia, não há chance de uma reforma das madrassas, que não só formam "mártires" para a Caxemira e o Afeganistão como ajudam e reconfortam o pequeno número de muçulmanos ocidentais que desejam justificar a violência.
Um agravante é a incompetência americana. Como no Iraque, bilhões de dólares em assistência foram desperdiçados por incompetência e descuido, e por isso o Exército paquistanês continua incapaz ou pouco disposto a invadir as áreas de refúgio do Taleban.
Pior, não existe plano alternativo em vista. Sob a tutela dos EUA, os militares paquistaneses engordaram e se tornaram ainda mais toscos.
A política do governo Bush para o Paquistão constitui, em resumo, um desastre. Como de hábito, a Casa Branca presumiu que força militar -no caso exercida por um Estado vassalo- seria capaz de restringir o terrorismo.
Como de hábito, os líderes americanos fracassaram em compreender relacionamentos complexos, no caso o elo entre a ISI [agência de espionagem paquistanesa] e a Al Qaeda, que remonta à guerra soviética do Afeganistão, e a maneira pela qual a corrupção e a inclinação cada vez maior a uma política de base religiosa conduzem mais e mais pessoas a aderir à ideologia maniqueísta de nossos inimigos.
Estados falidos
A política do governo americano para o Paquistão é pior que um desastre. Ela está fomentando a erosão do limitado sucesso conquistado no Afeganistão. Está alimentando a propaganda de que os EUA apóiam tiranos. E está impedindo a realização do objetivo de longo prazo: um Paquistão que não sirva de refúgio a terroristas ou campo de treinamento para recrutas do Ocidente.
A morte de Benazir Bhutto prova que o governo Bush se colocou em uma situação sem saída. Além da repetição cruel da trágica história paquistanesa, a morte de Benazir deveria servir como marco das dimensões do fracasso do governo Bush na região.
Porque, em 12 de setembro de 2001, existia um Estado falido, o Afeganistão, que poderia servir de refúgio a terroristas.
Agora, as políticas do governo americano criaram dois novos Estados em falência, que não só podem como provavelmente vão sustentar atividades terroristas no futuro.
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Tradução de PAULO MIGLIACCI
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft3012200703.htm
Comentário: Visões de risco para a democracia num mundo mergulhado em posições e tendências totalitárias, radicais e fundamentalistas.
São Paulo, domingo, 30 de dezembro de 2007
Sem Benazir, militares devem reforçar ligações com radicais
AZIZ HUQ
A morte de uma importante líder oposicionista facilitará a Pervez Musharraf a criação de uma coalizão parlamentar que aja de acordo com seus desejos, se forem realizadas as eleições previstas para janeiro. E também torna mais distante a possibilidade de eleições que não sejam manipuladas, e de líderes que respondam ao povo, e não aos seus comandantes uniformizados. Além disso, agora é ainda mais difícil que os militares paquistaneses abandonem seu relacionamento simbiótico com a linha dura religiosa, nas urnas e nas ruas.
Minha aspiração e esperança de democracia no Paquistão não é um sonho romântico. Em lugar disso, a democracia paquistanesa representa a melhor esperança de redimir o desastre que o Paquistão veio a se tornar para a política de segurança nacional dos EUA.
Não deveria escapar à atenção de ninguém que Musharraf até o momento vem dependendo abertamente do Jamiat Ulema-e-Islam (JUI), um partido religioso favorável ao Taleban, especialmente na Província do Baluquistão. Muitas reportagens consistentes e plausíveis identificaram a região como o local de refúgio de líderes importantes da Al Qaeda, a exemplo de Osama bin Laden, que podem confiar no apoio de líderes tribais e religiosos simpáticos à sua causa.
Musharraf depende, para sua sobrevivência política, de facções políticas no mínimo simpáticas ao maior inimigo dos Estados Unidos, e possivelmente culpadas de cumplicidade com o terrorismo. Em meio ao lodaçal da política interna paquistanesa, o amigo de nosso amigo pode bem ser nosso inimigo. Bush vem apoiando um líder militar que, embora alegue ter contido os religiosos militantes, depende dele para seu sucesso nas urnas.
Espiões e Al Qaeda
Sem democracia, porém, não existe a mais remota possibilidade de romper esse elo fatal e de remover o refúgio da liderança da Al Qaeda. Sem democracia, há escassas chances de que os líderes tribais e religiosos que oferecem proteção estratégica ao Taleban sejam conquistados como aliados.
Sem democracia, não há chance de uma reforma das madrassas, que não só formam "mártires" para a Caxemira e o Afeganistão como ajudam e reconfortam o pequeno número de muçulmanos ocidentais que desejam justificar a violência.
Um agravante é a incompetência americana. Como no Iraque, bilhões de dólares em assistência foram desperdiçados por incompetência e descuido, e por isso o Exército paquistanês continua incapaz ou pouco disposto a invadir as áreas de refúgio do Taleban.
Pior, não existe plano alternativo em vista. Sob a tutela dos EUA, os militares paquistaneses engordaram e se tornaram ainda mais toscos.
A política do governo Bush para o Paquistão constitui, em resumo, um desastre. Como de hábito, a Casa Branca presumiu que força militar -no caso exercida por um Estado vassalo- seria capaz de restringir o terrorismo.
Como de hábito, os líderes americanos fracassaram em compreender relacionamentos complexos, no caso o elo entre a ISI [agência de espionagem paquistanesa] e a Al Qaeda, que remonta à guerra soviética do Afeganistão, e a maneira pela qual a corrupção e a inclinação cada vez maior a uma política de base religiosa conduzem mais e mais pessoas a aderir à ideologia maniqueísta de nossos inimigos.
Estados falidos
A política do governo americano para o Paquistão é pior que um desastre. Ela está fomentando a erosão do limitado sucesso conquistado no Afeganistão. Está alimentando a propaganda de que os EUA apóiam tiranos. E está impedindo a realização do objetivo de longo prazo: um Paquistão que não sirva de refúgio a terroristas ou campo de treinamento para recrutas do Ocidente.
A morte de Benazir Bhutto prova que o governo Bush se colocou em uma situação sem saída. Além da repetição cruel da trágica história paquistanesa, a morte de Benazir deveria servir como marco das dimensões do fracasso do governo Bush na região.
Porque, em 12 de setembro de 2001, existia um Estado falido, o Afeganistão, que poderia servir de refúgio a terroristas.
Agora, as políticas do governo americano criaram dois novos Estados em falência, que não só podem como provavelmente vão sustentar atividades terroristas no futuro.
________________________________________
Tradução de PAULO MIGLIACCI
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft3012200703.htm
Comentário: Visões de risco para a democracia num mundo mergulhado em posições e tendências totalitárias, radicais e fundamentalistas.
Mobilização social fortalece democracia na América Latina
Saiu na folha de São Paulo
São Paulo, domingo, 30 de dezembro de 2007
ENTREVISTA / JOSÉ MAURÍCIO DOMINGUES
Mobilização social fortalece democracia na América Latina
Para pesquisador, região ingressa na "terceira fase da modernidade" com instituições mais fortes, mas economia ainda atrasada
DOIS MOVIMENTOS caracterizam os últimos 25 anos da América Latina: de um lado, o processo de institucionalização das democracias avançou e há hoje uma forte pressão para a inclusão social, política e econômica de setores secularmente alijados; de outro, o subcontinente tem cada vez menos peso na economia mundial, permanecendo no papel secundário de exportador de commodities. Esta é, em síntese, a análise do sociólogo José Maurício Domingues.
MARCELO BERABA
DA SUCURSAL DO RIO
Professor e diretor do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), Domingues é autor do recém-lançado "Aproximações à América Latina - Desafios contemporâneos" (Civilização Brasileira).
Na sua opinião, a reversão do quadro de sócio periférico da economia globalizada terá de contemplar um forte investimento integrado dos principais países da região, encabeçados pelo Brasil, em ciência e tecnologia. Leia abaixo os principais trechos da entrevista que ele deu à Folha, na sede do Iuperj, no bairro carioca de Botafogo.
FOLHA - A democracia está consolidada na América Latina?
JOSÉ MAURÍCIO DOMINGUES - Ela não está consolidada inteiramente em lugar nenhum do mundo, haja vista a situação americana, com Bush vetando a proibição de tortura. Democracia é sempre frágil e tem de ser conquistada todos os dias por uma cidadania minimamente mobilizada. Mas acho que nos últimos 25 anos ela fez avanços muito significativos na América Latina.
Os sujeitos sociais, coletiva e individualmente, são hoje mais livres, mobilizados e comprometidos com a democracia do que jamais foram no passado.
A tendência é uma mobilização cidadã ao lado do processo de institucionalização da democracia.
FOLHA - No livro o senhor se refere a uma terceira fase da modernidade na América Latina. Como a caracteriza?
DOMINGUES - Esse é um processo global. A primeira fase da modernidade é liberal restrita, começa no final do século 18 e se estende pelo século 19. Na segunda fase, no período dos anos 1930 ao final dos anos 1990, o Estado vai ter uma maior presença. A terceira fase se caracteriza por uma revolução científica e tecnológica muito forte, por uma pluralização das identidades sociais e por uma modificação nas formas do Estado.
Isso implica uma maior complexidade social e a tendência a uma utilização cada vez mais ampla dos mecanismos de rede.
A América Latina se moderniza muito, nessa terceira fase, sob o ponto de vista social e político, mas economicamente não. O modelo neoliberal foi uma resposta à crise dos anos 1970. Na América Latina isso resultou no sepultamento definitivo do nacional-desenvolvimentismo e na abertura generalizada dos mercados.
Nós somos hoje grandes exportadores de commodities como soja, carne, aço, minério de ferro, e é em cima disso que estamos montados nesta retomada do desenvolvimento econômico, entre aspas, na onda do crescimento da economia mundial.
FOLHA - O que há de comum nos processos em curso na Venezuela e na Bolívia?
DOMINGUES - São processos políticos absolutamente distintos. O processo boliviano é basicamente popular e democrático. Em nenhum momento o governo ou o MAS (Movimento ao Socialismo) propõem construir o socialismo na Bolívia. Alguns inclusive falam em capitalismo andino. É um processo de democratização, de integração das populações indígenas a um Estado que sempre foi controlado pelas oligarquias. É um movimento que vem do final dos anos 1980, que pela primeira vez vê surgir o indígena como ator político autônomo e que vai desaguar na ascensão do Evo Morales ao poder com a idéia de refundar o Estado boliviano de uma forma democrática e integradora, utilizando os recursos naturais para conseguir algum desenvolvimento.
Já o caso venezuelano não tem nada a ver com isso. A Venezuela era um sistema político liberal cuja força residia nas clientelas que a oligarquia podia construir através do petróleo abundante. Só que é um sistema que apodreceu por dentro, sobretudo pelo acordo entre os principais partidos pelo qual, não importava quem ganhasse as eleições, todos continuavam no poder e com a população marginalizada.
Isso gerou insatisfação social, que não levou a uma organização popular, mas a uma rebelião crescente dentro das Forças Armadas.
Neste sentido, Hugo Chávez emerge numa situação política quase de terra arrasada. Ele surge como uma liderança cesarista que catalisa determinadas demandas da sociedade em função da sua figura pessoal e de suas bases nas Forças Armadas. Isso abriu a possibilidade de mobilizações populares, mas gerou resistência em setores da oligarquia que estavam acostumados a mandar sem contestação.
FOLHA - É uma democracia frágil?
DOMINGUES - O problema é que também Chávez tem tendências antidemocráticas. Espero que a derrota no referendo arrefeça seus ânimos de concentração de poder e que a oposição também aprenda que pode ganhar eleitoralmente, porque é uma oposição extremamente golpista. Agora se chegou a um certo empate político, o que talvez abra a possibilidade de consolidação institucional da democracia na Venezuela.
FOLHA - O processo na Bolívia pode chegar à separação?
DOMINGUES - Tem setores em Santa Cruz e outras províncias ricas que gostariam de se separar do país. Mas acho que não vai chegar a isso. Primeiro, Morales terá de recuar de alguma maneira e renegociar o pacto. O Exército já disse que não aceita a separação. Os presidentes da América Latina deixaram claro que tampouco a aceitam.
Você não cria um país sem reconhecimento internacional, sem que as Forças Armadas sejam coniventes e sem que negocie muito largamente dentro do próprio país, a não ser que parta para a guerra civil. Acho que isso não vai ocorrer, embora haja tensões nesta direção. Eles vão ter de renegociar o pacto.
Não vai ser exatamente o que Morales e o MAS querem, mas também não será o que querem Santa Cruz e aliados.
FOLHA - É nítido o esforço do Brasil de construir um processo de integração na América Latina. O que impede a aceleração desta integração?
DOMINGUES - Um dos problemas básicos tem a ver com a nossa posição subordinada à divisão internacional do trabalho. Outro dificuldade é a pouca integração física. Nosso desenvolvimento científico e tecnológico é muito baixo, o Brasil de longe excede os outros países latino-americanos. E há complicações do ponto de vista econômico, embora o Brasil tenha muito mais a ganhar do que a perder, porque é hoje uma plataforma de exportação de grandes corporações para o restante da América do Sul.
Fala-se muito na integração física, importante, na integração dos mercados, decisiva, mas o desenvolvimento científico-tecnológico é um eixo fundamental para se levar à frente essa integração, capacitando os nossos vizinhos até para que a gente possa ter mais complementaridade com eles.
FOLHA - Ao tomar posse, a nova presidente da Argentina, Cristina Kirchner, atacou os Estados Unidos. Vários países têm relações tensas com Washington. Como analisa essa relação?
DOMINGUES - A Argentina sempre teve uma relação difícil com os Estados Unidos. O período do Menem [Carlos Menem, presidente entre 1989 a 1999] é uma exceção. Vários países da América Latina em vários momentos tiveram períodos tensos com os Estados Unidos. Antigamente, eles viam a região como uma extensão natural do seu poder.
O período do Bush [George W., presidente dos EUA) é um período de muito pouca preocupação com a América Latina.
Eles deram umas pancadas no Chávez, reclamaram um pouco do Kirchner, afagaram um pouco o Lula porque parecia mais moderado, mas deram muito pouca importância ao subcontinente. Perderam a discussão da Alca e tentaram comer pelas beiradas com os tratados de livre comércio.
Acho que isso vai mudar muito se for confirmada a ascensão dos democratas no próximo ano. Se isso acontecer, nós vamos ter certamente uma mudança de posição e um interesse muito maior pela América Latina, como os democratas sempre demonstraram.
FOLHA - Isso é bom ou ruim?
DOMINGUES - Isso significa uma situação muito mais complexa, porque eles vão querer nos trazer de volta para a sua órbita de influência com muito mais flexibilidade, oferecendo alguma coisa, mas por outro lado nos amarrando mais. Os Estados Unidos perderam de fato influência na América Latina nos últimos seis, sete anos, mas a tendência é que, se o governo democrata realmente emergir, nós tenhamos relações mais sutis e mais complexas.
FOLHA - E a Argentina?
DOMINGUES - A Argentina é o país mais importante da América do Sul para o Brasil. É o nosso parceiro fundamental e a integração está avançando, apesar de todos os problemas do Mercosul.
A criação agora pela Cristina Kirchner do Ministério da Ciência e Tecnologia vai aumentar a integração científica. A América Latina tem cada vez menos peso na economia mundial. Só vamos conseguir reverter a situação se dermos um salto científico-tecnológico.
FOLHA - O Chávez alardeia o perigo de invasão dos Estados Unidos. Ele corre esse risco?
DOMINGUES - Não, eu não acredito que os Estados Unidos vão invadir a Venezuela ou vão bombardeá-la. Mas a região de fronteira com a Colômbia é uma região complicada. Os EUA têm muitas bases militares, ajudam muito militarmente a Colômbia, é uma zona potencial de conflitos se houver interesse dos EUA em desestabilizar o governo Chávez.
Mas não acredito que o problema seja esse. Nem acredito que o Chávez esteja se armando muito. Os Exércitos da América Latina estão destruídos há 20, 30 anos, com exceção do Chile, que tem o Exército mais bem equipado de toda a América latina. Não creio que haja um ambiente de tensão militar na América Latina nem de corrida armamentista.
O Chávez utiliza muito essa retórica [da invasão americana] para tentar mobilizar um sentimento nacional em torno da figura dele e em torno das Forças Armadas, que são o pilar de seu poder na Venezuela.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft3012200714.htm
Comentário: Uma entrevista para ser analisada e pontuada dentro do espaço público e democrático - devemos concordar que o investimento em ciência e tecnologia é ponto chave para alavancar o desenvolvimento político, social e econômico na America Latina – Será que o Brasil vai despertar para essa perspectiva?
São Paulo, domingo, 30 de dezembro de 2007
ENTREVISTA / JOSÉ MAURÍCIO DOMINGUES
Mobilização social fortalece democracia na América Latina
Para pesquisador, região ingressa na "terceira fase da modernidade" com instituições mais fortes, mas economia ainda atrasada
DOIS MOVIMENTOS caracterizam os últimos 25 anos da América Latina: de um lado, o processo de institucionalização das democracias avançou e há hoje uma forte pressão para a inclusão social, política e econômica de setores secularmente alijados; de outro, o subcontinente tem cada vez menos peso na economia mundial, permanecendo no papel secundário de exportador de commodities. Esta é, em síntese, a análise do sociólogo José Maurício Domingues.
MARCELO BERABA
DA SUCURSAL DO RIO
Professor e diretor do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), Domingues é autor do recém-lançado "Aproximações à América Latina - Desafios contemporâneos" (Civilização Brasileira).
Na sua opinião, a reversão do quadro de sócio periférico da economia globalizada terá de contemplar um forte investimento integrado dos principais países da região, encabeçados pelo Brasil, em ciência e tecnologia. Leia abaixo os principais trechos da entrevista que ele deu à Folha, na sede do Iuperj, no bairro carioca de Botafogo.
FOLHA - A democracia está consolidada na América Latina?
JOSÉ MAURÍCIO DOMINGUES - Ela não está consolidada inteiramente em lugar nenhum do mundo, haja vista a situação americana, com Bush vetando a proibição de tortura. Democracia é sempre frágil e tem de ser conquistada todos os dias por uma cidadania minimamente mobilizada. Mas acho que nos últimos 25 anos ela fez avanços muito significativos na América Latina.
Os sujeitos sociais, coletiva e individualmente, são hoje mais livres, mobilizados e comprometidos com a democracia do que jamais foram no passado.
A tendência é uma mobilização cidadã ao lado do processo de institucionalização da democracia.
FOLHA - No livro o senhor se refere a uma terceira fase da modernidade na América Latina. Como a caracteriza?
DOMINGUES - Esse é um processo global. A primeira fase da modernidade é liberal restrita, começa no final do século 18 e se estende pelo século 19. Na segunda fase, no período dos anos 1930 ao final dos anos 1990, o Estado vai ter uma maior presença. A terceira fase se caracteriza por uma revolução científica e tecnológica muito forte, por uma pluralização das identidades sociais e por uma modificação nas formas do Estado.
Isso implica uma maior complexidade social e a tendência a uma utilização cada vez mais ampla dos mecanismos de rede.
A América Latina se moderniza muito, nessa terceira fase, sob o ponto de vista social e político, mas economicamente não. O modelo neoliberal foi uma resposta à crise dos anos 1970. Na América Latina isso resultou no sepultamento definitivo do nacional-desenvolvimentismo e na abertura generalizada dos mercados.
Nós somos hoje grandes exportadores de commodities como soja, carne, aço, minério de ferro, e é em cima disso que estamos montados nesta retomada do desenvolvimento econômico, entre aspas, na onda do crescimento da economia mundial.
FOLHA - O que há de comum nos processos em curso na Venezuela e na Bolívia?
DOMINGUES - São processos políticos absolutamente distintos. O processo boliviano é basicamente popular e democrático. Em nenhum momento o governo ou o MAS (Movimento ao Socialismo) propõem construir o socialismo na Bolívia. Alguns inclusive falam em capitalismo andino. É um processo de democratização, de integração das populações indígenas a um Estado que sempre foi controlado pelas oligarquias. É um movimento que vem do final dos anos 1980, que pela primeira vez vê surgir o indígena como ator político autônomo e que vai desaguar na ascensão do Evo Morales ao poder com a idéia de refundar o Estado boliviano de uma forma democrática e integradora, utilizando os recursos naturais para conseguir algum desenvolvimento.
Já o caso venezuelano não tem nada a ver com isso. A Venezuela era um sistema político liberal cuja força residia nas clientelas que a oligarquia podia construir através do petróleo abundante. Só que é um sistema que apodreceu por dentro, sobretudo pelo acordo entre os principais partidos pelo qual, não importava quem ganhasse as eleições, todos continuavam no poder e com a população marginalizada.
Isso gerou insatisfação social, que não levou a uma organização popular, mas a uma rebelião crescente dentro das Forças Armadas.
Neste sentido, Hugo Chávez emerge numa situação política quase de terra arrasada. Ele surge como uma liderança cesarista que catalisa determinadas demandas da sociedade em função da sua figura pessoal e de suas bases nas Forças Armadas. Isso abriu a possibilidade de mobilizações populares, mas gerou resistência em setores da oligarquia que estavam acostumados a mandar sem contestação.
FOLHA - É uma democracia frágil?
DOMINGUES - O problema é que também Chávez tem tendências antidemocráticas. Espero que a derrota no referendo arrefeça seus ânimos de concentração de poder e que a oposição também aprenda que pode ganhar eleitoralmente, porque é uma oposição extremamente golpista. Agora se chegou a um certo empate político, o que talvez abra a possibilidade de consolidação institucional da democracia na Venezuela.
FOLHA - O processo na Bolívia pode chegar à separação?
DOMINGUES - Tem setores em Santa Cruz e outras províncias ricas que gostariam de se separar do país. Mas acho que não vai chegar a isso. Primeiro, Morales terá de recuar de alguma maneira e renegociar o pacto. O Exército já disse que não aceita a separação. Os presidentes da América Latina deixaram claro que tampouco a aceitam.
Você não cria um país sem reconhecimento internacional, sem que as Forças Armadas sejam coniventes e sem que negocie muito largamente dentro do próprio país, a não ser que parta para a guerra civil. Acho que isso não vai ocorrer, embora haja tensões nesta direção. Eles vão ter de renegociar o pacto.
Não vai ser exatamente o que Morales e o MAS querem, mas também não será o que querem Santa Cruz e aliados.
FOLHA - É nítido o esforço do Brasil de construir um processo de integração na América Latina. O que impede a aceleração desta integração?
DOMINGUES - Um dos problemas básicos tem a ver com a nossa posição subordinada à divisão internacional do trabalho. Outro dificuldade é a pouca integração física. Nosso desenvolvimento científico e tecnológico é muito baixo, o Brasil de longe excede os outros países latino-americanos. E há complicações do ponto de vista econômico, embora o Brasil tenha muito mais a ganhar do que a perder, porque é hoje uma plataforma de exportação de grandes corporações para o restante da América do Sul.
Fala-se muito na integração física, importante, na integração dos mercados, decisiva, mas o desenvolvimento científico-tecnológico é um eixo fundamental para se levar à frente essa integração, capacitando os nossos vizinhos até para que a gente possa ter mais complementaridade com eles.
FOLHA - Ao tomar posse, a nova presidente da Argentina, Cristina Kirchner, atacou os Estados Unidos. Vários países têm relações tensas com Washington. Como analisa essa relação?
DOMINGUES - A Argentina sempre teve uma relação difícil com os Estados Unidos. O período do Menem [Carlos Menem, presidente entre 1989 a 1999] é uma exceção. Vários países da América Latina em vários momentos tiveram períodos tensos com os Estados Unidos. Antigamente, eles viam a região como uma extensão natural do seu poder.
O período do Bush [George W., presidente dos EUA) é um período de muito pouca preocupação com a América Latina.
Eles deram umas pancadas no Chávez, reclamaram um pouco do Kirchner, afagaram um pouco o Lula porque parecia mais moderado, mas deram muito pouca importância ao subcontinente. Perderam a discussão da Alca e tentaram comer pelas beiradas com os tratados de livre comércio.
Acho que isso vai mudar muito se for confirmada a ascensão dos democratas no próximo ano. Se isso acontecer, nós vamos ter certamente uma mudança de posição e um interesse muito maior pela América Latina, como os democratas sempre demonstraram.
FOLHA - Isso é bom ou ruim?
DOMINGUES - Isso significa uma situação muito mais complexa, porque eles vão querer nos trazer de volta para a sua órbita de influência com muito mais flexibilidade, oferecendo alguma coisa, mas por outro lado nos amarrando mais. Os Estados Unidos perderam de fato influência na América Latina nos últimos seis, sete anos, mas a tendência é que, se o governo democrata realmente emergir, nós tenhamos relações mais sutis e mais complexas.
FOLHA - E a Argentina?
DOMINGUES - A Argentina é o país mais importante da América do Sul para o Brasil. É o nosso parceiro fundamental e a integração está avançando, apesar de todos os problemas do Mercosul.
A criação agora pela Cristina Kirchner do Ministério da Ciência e Tecnologia vai aumentar a integração científica. A América Latina tem cada vez menos peso na economia mundial. Só vamos conseguir reverter a situação se dermos um salto científico-tecnológico.
FOLHA - O Chávez alardeia o perigo de invasão dos Estados Unidos. Ele corre esse risco?
DOMINGUES - Não, eu não acredito que os Estados Unidos vão invadir a Venezuela ou vão bombardeá-la. Mas a região de fronteira com a Colômbia é uma região complicada. Os EUA têm muitas bases militares, ajudam muito militarmente a Colômbia, é uma zona potencial de conflitos se houver interesse dos EUA em desestabilizar o governo Chávez.
Mas não acredito que o problema seja esse. Nem acredito que o Chávez esteja se armando muito. Os Exércitos da América Latina estão destruídos há 20, 30 anos, com exceção do Chile, que tem o Exército mais bem equipado de toda a América latina. Não creio que haja um ambiente de tensão militar na América Latina nem de corrida armamentista.
O Chávez utiliza muito essa retórica [da invasão americana] para tentar mobilizar um sentimento nacional em torno da figura dele e em torno das Forças Armadas, que são o pilar de seu poder na Venezuela.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft3012200714.htm
Comentário: Uma entrevista para ser analisada e pontuada dentro do espaço público e democrático - devemos concordar que o investimento em ciência e tecnologia é ponto chave para alavancar o desenvolvimento político, social e econômico na America Latina – Será que o Brasil vai despertar para essa perspectiva?
CIRCO NA AMERICA LATINA
La anécdota sólo se conoce superficialmente. Las narcoguerrillas comunistas de las FARC, de acuerdo con Hugo Chávez, montaron un gran circo mediático para liberar a tres inocentes cautivos secuestrados en las selvas colombianas desde hace varios años. Pensaban acaparar los titulares de medio mundo, pero otros terroristas más oportunos, aunque igualmente siniestros, les aguaron la fiesta con el asesinato de Benazir Bhutto en Pakistán. La publicidad, pues, será mucho menor. En todo caso, ¿qué objetivos perseguían los protagonistas de este espectáculo obsceno, basado en explotar los sufrimientos de las víctimas y de sus familiares colombianos? Comencemos por Hugo Chávez.
El venezolano buscaba proyectar su imagen y consolidar su condición de líder de una zona de influencia. Forma parte de su psicopatía narcisista, pero también de su estrategia. Planteó la operación como un triunfo político colectivo. Era una oportunidad para presentarse a la cabeza de un conjunto de países a los que se propone vincular a sus delirantes planes de constituir un bloque político internacional dedicado a hostilizar a Occidente. Así que, rápidamente, les pidió a sus aliados que designaran a personas de cierto rango que demostraran su poder de convocatoria. Chávez, como todos los capos, cobra con intereses los recursos que entrega. Sus obligados deudores, en algunos casos, son los agradecidos receptores de esos maletines electorales llenos de petrodólares que circulan como cometas por toda la zona.
Argentina envió al ex presidente Néstor Kirchner y al canciller Jorge Taiana; Cuba, a Germán Sánchez, embajador en Caracas, conocido por los venezolanos como el Virrey, un hábil y endurecido representante de los servicios cubanos de inteligencia; Ecuador escogió a Gustavo Larrea, ex ministro del Interior; Brasil, a Marco Aurelio García, un hombre muy cercano a Lula y a Castro; y Bolivia, al viceministro Sacha Llorenti. Junto a ellos, despistado, viajaría el embajador francés Hadelin de la Tour-du-Pin, a quien probablemente le divierte esta pintoresca excursión por el trópico, tal vez convencido de ser el bondadoso agente de un acto caritativo, o un personaje secundario en una novela de García Márquez.
Para las FARC, la liberación de las dos mujeres y del niño nacido en cautiverio conlleva seis objetivos:
* Demostrar flexibilidad y mejorar su incómoda imagen de asesinos y narcotraficantes.
* Obligar al odiado Gobierno de Uribe a reconocerles cierta legitimidad.
* La admisión, aunque sea provisional, de “zonas de despeje”.
* La introducción en el conflicto de factores internacionales que les son favorables.
* Respaldar y complacer a Hugo Chávez, el más valioso de sus cómplices.
* Y, acaso, dar un paso hacia la táctica que les propone el venezolano: respaldar a un candidato afín en las elecciones del 2010, como ya apuntó recientemente Raúl Reyes, la cabeza política de las FARC. Prepararse, en suma, para lograr en las urnas lo que no han conseguido con cuatro décadas de violencia. Tras esa hipotética victoria seguiría el acostumbrado guión: una nueva Constitución y la progresiva y total desarticulación de los mecanismos democráticos republicanos.
Lo que nadie puede explicarse es qué hace un personaje como Nicolás Sarkozy en un barrio tan peligroso y en compañía tan poco recomendable. De Sarkozy, presidente de Francia, uno esperaría una conducta más seria. Debe saber que el Consejo de la Unión Europea, con muy buenas razones, ha declarado terroristas a las FARC, una nutrida banda integrada por miles de personas dedicadas a la extorsión, el narcotráfico, los secuestros y los asesinatos, cuyo declarado objetivo, lo que constituye un serio agravante, es crear un manicomio colectivista de corte soviético cuando consiga ocupar el Palacio de Nariño. ¿Dónde está la coherencia de una diplomacia que hace pocas semanas advertía sobre la peligrosidad de Irán y hoy se interna en la selva colombiana de la mano del gran aliado de Ahmadinejad en el mundo? ¿Cómo es posible que la misma Francia que en Europa contribuye leal y eficazmente a la persecución de ETA, en América Latina caiga en la ingenuidad de bailar al son que tocan los narcoterroristas colombianos?
Uno, claro, se alegra por la liberación de los rehenes y por sus familiares, pero sin olvidar ni un momento que esta operación montada por Chávez y por las FARC no está dirigida a fomentar la paz en Colombia, sino a debilitar aún más la precaria estabilidad del Gobierno legítimo de Uribe, y a contribuir a la demolición de la frágil democracia que, no se sabe cómo, subsiste en el torturado país. Uno, que conoce la fauna de la región y no se hace ilusiones, también puede entender el comportamiento irresponsable de Brasil, Argentina, Ecuador y Bolivia (ignoro por qué no invitaron a Daniel Ortega al aquelarre), pero Francia debe ser mucho más que una desordenada y caótica República gobernada con la punta de una banana. Francia debería ser otra cosa.
www.firmaspress.com
Fontes: http://www.2001.com.ve/articulo_opinion.asp?registro=1637
Comentário: Balelas na America Latina com pequenas histórias “anti-democráticas”.
El venezolano buscaba proyectar su imagen y consolidar su condición de líder de una zona de influencia. Forma parte de su psicopatía narcisista, pero también de su estrategia. Planteó la operación como un triunfo político colectivo. Era una oportunidad para presentarse a la cabeza de un conjunto de países a los que se propone vincular a sus delirantes planes de constituir un bloque político internacional dedicado a hostilizar a Occidente. Así que, rápidamente, les pidió a sus aliados que designaran a personas de cierto rango que demostraran su poder de convocatoria. Chávez, como todos los capos, cobra con intereses los recursos que entrega. Sus obligados deudores, en algunos casos, son los agradecidos receptores de esos maletines electorales llenos de petrodólares que circulan como cometas por toda la zona.
Argentina envió al ex presidente Néstor Kirchner y al canciller Jorge Taiana; Cuba, a Germán Sánchez, embajador en Caracas, conocido por los venezolanos como el Virrey, un hábil y endurecido representante de los servicios cubanos de inteligencia; Ecuador escogió a Gustavo Larrea, ex ministro del Interior; Brasil, a Marco Aurelio García, un hombre muy cercano a Lula y a Castro; y Bolivia, al viceministro Sacha Llorenti. Junto a ellos, despistado, viajaría el embajador francés Hadelin de la Tour-du-Pin, a quien probablemente le divierte esta pintoresca excursión por el trópico, tal vez convencido de ser el bondadoso agente de un acto caritativo, o un personaje secundario en una novela de García Márquez.
Para las FARC, la liberación de las dos mujeres y del niño nacido en cautiverio conlleva seis objetivos:
* Demostrar flexibilidad y mejorar su incómoda imagen de asesinos y narcotraficantes.
* Obligar al odiado Gobierno de Uribe a reconocerles cierta legitimidad.
* La admisión, aunque sea provisional, de “zonas de despeje”.
* La introducción en el conflicto de factores internacionales que les son favorables.
* Respaldar y complacer a Hugo Chávez, el más valioso de sus cómplices.
* Y, acaso, dar un paso hacia la táctica que les propone el venezolano: respaldar a un candidato afín en las elecciones del 2010, como ya apuntó recientemente Raúl Reyes, la cabeza política de las FARC. Prepararse, en suma, para lograr en las urnas lo que no han conseguido con cuatro décadas de violencia. Tras esa hipotética victoria seguiría el acostumbrado guión: una nueva Constitución y la progresiva y total desarticulación de los mecanismos democráticos republicanos.
Lo que nadie puede explicarse es qué hace un personaje como Nicolás Sarkozy en un barrio tan peligroso y en compañía tan poco recomendable. De Sarkozy, presidente de Francia, uno esperaría una conducta más seria. Debe saber que el Consejo de la Unión Europea, con muy buenas razones, ha declarado terroristas a las FARC, una nutrida banda integrada por miles de personas dedicadas a la extorsión, el narcotráfico, los secuestros y los asesinatos, cuyo declarado objetivo, lo que constituye un serio agravante, es crear un manicomio colectivista de corte soviético cuando consiga ocupar el Palacio de Nariño. ¿Dónde está la coherencia de una diplomacia que hace pocas semanas advertía sobre la peligrosidad de Irán y hoy se interna en la selva colombiana de la mano del gran aliado de Ahmadinejad en el mundo? ¿Cómo es posible que la misma Francia que en Europa contribuye leal y eficazmente a la persecución de ETA, en América Latina caiga en la ingenuidad de bailar al son que tocan los narcoterroristas colombianos?
Uno, claro, se alegra por la liberación de los rehenes y por sus familiares, pero sin olvidar ni un momento que esta operación montada por Chávez y por las FARC no está dirigida a fomentar la paz en Colombia, sino a debilitar aún más la precaria estabilidad del Gobierno legítimo de Uribe, y a contribuir a la demolición de la frágil democracia que, no se sabe cómo, subsiste en el torturado país. Uno, que conoce la fauna de la región y no se hace ilusiones, también puede entender el comportamiento irresponsable de Brasil, Argentina, Ecuador y Bolivia (ignoro por qué no invitaron a Daniel Ortega al aquelarre), pero Francia debe ser mucho más que una desordenada y caótica República gobernada con la punta de una banana. Francia debería ser otra cosa.
www.firmaspress.com
Fontes: http://www.2001.com.ve/articulo_opinion.asp?registro=1637
Comentário: Balelas na America Latina com pequenas histórias “anti-democráticas”.
Sunday, December 23, 2007
o nascimento do bom gosto em todas as coisas da vida
Uma pequena lembrança de Diderot para os nossos tempos; “A instrução adoça os caracteres, aclara sobre os deveres, sutiliza os vícios, os sufoca ou vela, inspira o amor à ordem, à justiça e às virtudes, e acelera o nascimento do bom gosto em todas as coisas da vida” (Diderot, 2000, 264).
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