Mensagem enviada pelo Professor Valverde - sobre a crise financeira.
"Caros Alunos,
Se puderem, leiam Eric Hobsbawn em entrevista à BBC sobre a crise financeira, em anexo.
Abraços,
Valverde"
BBC Brasil21 de outubro, 2008 - 13h50 GMT (11h50 Brasília)
Crise expõe perigo de fortalecimento da direita, diz Hobsbawm
O britânico Eric Hobsbawm, considerado um dos historiadores mais influentes do século 20, disse à BBC nesta terça-feira que o maior perigo da atual crise financeira mundial é o fortalecimento da direita.
“A esquerda está virtualmente ausente. Assim, me parece que o principal beneficiário deste descontentamento atual, com uma possível exceção – pelo menos eu espero – nos Estados Unidos, será a direita”, disse Hobsbawn, em entrevista à Rádio 4.
O historiador marxista comparou o atual momento “ao dramático colapso da União Soviética” e ao fim de “uma era específica”.
“Agora sabemos que estamos no fim de uma era e não se sabe o que virá pela frente.”
Hobsbawn diz não acreditar que a linguagem marxista, que lhe serviu de norte ao longo de toda sua carreira, será proeminente politicamente, mas intelectualmente, “a análise marxista sobre a forma com a qual o capitalismo opera será verdadeiramente importante”.
Abaixo, os principais trechos da entrevista.
Muitos consideram o que está acontecendo como uma volta ao estadismo e até do socialismo. O senhor concorda?
Bem, certamente estamos vivendo a crise mais grave do capitalismo desde a década de 30. Lembro-me de um título recente do Financial Times que dizia: O capitalismo em convulsão. Há muito tempo não lia um título como esse no FT.
Agora, acredito que esta crise está sendo mais dramática por causa dos mais de 30 anos de uma certa ideologia “teológica” do livre mercado, que todos os governos do Ocidente seguiram.
Porque como Marx, Engels e Schumpter previram, a globalização - que está implícita no capitalismo -, não apenas destrói uma herança de tradição como também é incrivelmente instável: opera por meio de uma série de crises.
E o que está acontecendo agora está sendo reconhecido como o fim de uma era específica. Sem dúvida, a partir de agora falaremos mais de (John Maynard) Keynes e menos de (Milton) Friedman e (Friedrich) Hayek.
Todos concordam que, de uma forma ou de outra, o Estado terá um papel maior na economia daqui por diante.
Qualquer que seja o papel que os governos venham a assumir, será um empreendimento público de ação e iniciativa, que será algo que orientará, organizará e dirigirá também a economia privada. Será muito mais uma economia mista do que tem sido até agora.
E em relação ao Estado como redistribuidor? O que tem sido feito até agora parece mais pragmático do que ideológico...
Acho que continuará sendo pragmático. O que tem acontecido nos últimos 30 anos é que o capitalismo global vem operando de uma forma incrivelmente instável, exceto, por várias razões, nos países ocidentais desenvolvidos.
No Brasil, nos anos 80, no México, nos 90, no sudeste asiático e Rússia nos anos 90, e na Argentina em 2000: todos sabiam que estas coisas poderia levar a catástrofes a curto prazo. E para nós isto implicava quedas tremendas do FTSE (índice da bolsa de Londres), mas seis meses depois, recomeçávamos de novo.
Agora, temos os mesmos incentivos que tínhamos nos anos 30: se não fizermos nada, o perigo político e social será profundo e ainda mais depois de tudo, da forma com a qual o capitalismo se reformou durante e depois da guerra sob o princípio de “nunca mais” aos riscos dos anos 30.
O senhor viu esses riscos se tornarem realidade: estava na Alemanha quando Adolf Hitler chegou ao poder. O senhor acredita que algo parecido poderia acontecer como conseqüência dos problemas atuais?
Nos anos 30, o claro efeito político da Grande Depressão a curto prazo foi o fortalecimento da direita. A esquerda não foi forte até a chegada da guerra. Então, eu acredito que este é o principal perigo.
Depois da guerra, a esquerda esteve presente em várias partes da Europa, inclusive na Inglaterra, com o Partido Trabalhista, mas hoje isso já não acontece.
A esquerda está virtualmente ausente, Assim, me parece que o principal beneficiário deste descontentamento atual, com uma possível exceção – pelo menos eu espero – nos Estados Unidos, será a direita.
O que vemos agora não é o equivalente à queda da União Soviética para a direita? Os desafios intelectuais que isto implica para o capitalismo e o livre mercado são tão profundos como os desafios enfrentados pela direita em 1989?
Sim, concordo. Acredito que esta crise é equivalente ao dramático colapso da União Soviética. Agora sabemos que acabou uma era. Não sabemos o que virá pela frente.
Temos um problema intelectual: estávamos acostumados a pensar até então que havia apenas duas alternativas: ou o livre mercado ou o socialismo. Mas, na realidade, há muito poucos exemplos de um caso completo de laboratório de cada uma dessas ideologias.
Então eu acho que teremos de deixar de pensar em uma ou em outra e devemos pensar na natureza da mescla. E principalmente até que ponto esta mistura será motivada pela consciência do modelo socialista e das conseqüências sociais do que está acontecendo.
O senhor acredita que regressaremos à linguagem do marxismo?
Desde a crise dos anos 90, são os homens de negócio que começaram a falar assim: “Bem, Marx predisse esta globalização e podemos pensar que este capitalismo está fundamentado em uma série de crises”.
Não acredito que a linguagem marxista será proeminente politicamente, mas intelectualmente a natureza da análise marxista sobre a forma com a qual o capitalismo opera será verdadeiramente importante.
O senhor sente um pouco recuperado depois de anos em que a opinião intelectual ia de encontro ao que o senhor pensava?
Bem, obviamente há um pouco a sensação de schadenfreude (regozijo pela desgraça alheia).
Sempre dissemos que o capitalismo iria se chocar com suas próprias dificuldades, mas não me sinto recuperado.
O que é certo é que as pessoas descobrirão que de fato o que estava sendo feito não produziu os resultados esperados.
Durante 30 anos os ideólogos disseram que tudo ia dar certo: o livre mercado é lógico e produz crescimento máximo. Sim, diziam que produzia um pouco de desigualdade aqui e ali, mas também não importava muito porque os pobres estavam um pouco mais prósperos.
Agora sabemos que o que aconteceu é que se criaram condições de instabilidades enormes, que criaram condições nas quais a desigualdade afeta não apenas os mais pobres, como também cada vez mais uma grande parte de classe média.
Sobretudo, nos últimos 30 anos, os benefíciários deste grande crescimento têm sido nós, no Ocidente, que vivemos uma vida imensuravelmente superior a qualquer outro lugar do mundo.
E me surpreende muito que o Financial Times diga que o que se espera que aconteça agora é que este novo tipo de globalização controlada beneficie a quem realmente precisa, que se reduza a enorme diferença entre nós, que vivemos como príncipes, e a enorme maioria dos pobres.
Caro leitor boa reflexão!
Thursday, October 30, 2008
Wednesday, October 15, 2008
PUC-SP: convergir para mudar
CARTA DO PROFESSOR VALVERDE DE APOIO AO PROFESSOR FÁBIO GALLO – NA DEMOCRACIA VIGORA A LIBERDADE, O ESPÍRITO PÚBLICO, A ESCOLHA E A OPÇÃO COM RESPEITO PELO SEU CANDIDATO SEM BAIXARIA – TRISTE FOI OBSERVAR NA PUC-SP CARTAZES PICHADOS ... IMATURIDADE POLÍTICA E MÁ FÉ NO EXERCÍCIO DEMOCRÁTICO E REPUBLICANO. PARABÉNS PROFESSOR VALVERDE – PELA POSIÇÃO E APOIO AO PROFESSOR FÁBIO GALLO.
PUC-SP: convergir para mudar
Antonio José Romera Valverde [1]
Há exatos 28 anos a PUC de São Paulo, com liberdade rara no ambiente acadêmico brasileiro, realiza eleições diretas para escolha de Reitor, com participação de alunos, professores e funcionários. Entre os dias 21 e 24 deste mês, o rito democrático se repetirá, com uma novidade: mais do que a escolha do Reitor e, também do Vice-Reitor, estarão em jogo o futuro daquela que é uma das mais conceituadas universidades brasileiras, seja pelo papel que sempre desempenhou na vida do país, com intransigente defesa da democracia, seja pelo seu nível acadêmico, reconhecido internacionalmente.
O que está acontecendo? A PUC-SP encontra-se sitiada por dívidas. São, praticamente, R$ 103 milhões, se o cálculo restringir-se ao passivo bancário. Se somados os impostos e o passivo trabalhista, o valor ultrapassa o patamar dos R$ 300 milhões. Na realidade, é uma dívida móvel que não se tem ainda um cálculo exato, mas a verdade é que a cifra em foco pode ser considerada conservadora. Há pouco menos de uma década, o endividamento bancário somava mais ou menos R$ 24 milhões e as dívidas relativas a impostos e responsabilidades trabalhistas eram muito menores.
Pois bem, entre março de 1999 e abril de 2000 um especialista em gestão, engenheiro com doutorado em finanças, ocupou o cargo de Vice-Reitor e reduziu o endividamento bancário para R$ 14 milhões, restituindo as linhas de crédito junto aos bancos. Estranhamente, foi afastado e, desde então, as dívidas vêm se multiplicando. O nome deste gestor é Fábio Gallo que agora disputa a Reitoria com outros três candidatos. A diferença é que ele tem uma plataforma que une a refundação do modelo de gestão da PUC-SP com um impulso renovador no campo acadêmico.
Além disso, Gallo transita com desenvoltura nas diferentes áreas da Universidade, inclusive junto à Igreja que, não se pode negar, é quem detém o controle da PUC-SP. Esse aspecto é relevante sob qualquer ângulo que se avalie. Significa, em parte, que haverá sintonia quanto a qualidade de gestão e da escolha dos caminhos certos para superação da crise financeira. Em parte, significa também, a preservação de um bem maior da PUC-SP: a liberdade acadêmica. Aliás, vale registrar, a Igreja de São Paulo sempre incentivou e alinhou-se a esse princípio fundamental para o ensino e a pesquisa na Universidade. Nela, todas as correntes políticas, mesmo nos anos de chumbo do regime militar, sempre tiveram voz e representatividade. A liberdade acadêmica tornou-se assim um valor soberano.
Não é, fora de dúvida, o que está em questão. O ponto central, na atualidade, é a capacidade de unir esses valores – liberdade e excelência acadêmicas – ao projeto de gestão. Essa convergência é vital e torna-se incontornável. Se olharmos o ambiente do ensino universitário, é fácil constatar que a PUC-SP, em termos de qualidade, disputa lado a lado a liderança com as melhores universidades do Brasil. Mas, se o tema for a infra-estrutura, as contas a pagar e os horizontes de investimento, a posição no ranking está muito distante do mínimo razoável. Perdemos posições nesse terreno estratégico. O que isto significa? Que a qualidade do ensino encontra-se seriamente ameaçada. Porém, para extrema felicidade, a Professora Maria Margarida Cavalcanti Limena, socióloga por formação, estudiosa da teoria da complexidade, é candidata a Vice-Reitora, e tem conciliado uma carreira acadêmica notável com a Direção da Centro de Ciências Humanas (2005-2008) e a Direção da Faculdade de Ciências Sociais (2001-2005).
É, portanto, o momento de construir a convergência. De explicitar os conflitos latentes, mantendo a fidelidade ao que existe de melhor nos valores republicanos, e, ao mesmo tempo, pensar grande, mas com coerência, competência e visão de futuro. Não se trata apenas de uma disputa entre plataformas concorrentes, mas entre os que sabem e podem fazer melhor e aqueles que apenas vestem os trajes cintilantes de uma concepção idealista – meritória, sem dúvida -, mas sem a vivência prática do que é gerir uma organização em crise. Crise, vale assinalar, são para especialistas, não para aprendizes.
Essa peculiaridade é que será o motor da mudança. Não se pode esquecer, nesse contexto, que a PUC paulistana possui um ativo de inestimável valor: sua marca. Se revitalizada, se alicerçada na convergência entre a gestão e seu patrimônio acadêmico, se soerguerá ainda mais vigorosa do que foi no passado. Será uma questão de tempo, mas o momento inicial, o verdadeiro ponto de partida, encontra-se nas eleições que se aproximam. A sociedade precisa acompanhá-la com interesse porque, afinal, a PUC de São Paulo, mais do que uma organização de ensino, pesquisa e prestação de serviços, pertencente à Igreja, aos estudantes, aos professores e aos funcionários, é um ícone, um patrimônio essencial do país. E essa nuança que faz, neste ano, as eleições para Reitor um fato relevante, um tema que transcende os campi e o universo acadêmico.
________________________________________1] Professor do Departamento de Filosofia da PUC-SP e Coordenador da campanha eleitoral “Fábio Gallo – Margarida Limena”, gestão 2008-2010. www.puchoje.com.br
PUC-SP: convergir para mudar
Antonio José Romera Valverde [1]
Há exatos 28 anos a PUC de São Paulo, com liberdade rara no ambiente acadêmico brasileiro, realiza eleições diretas para escolha de Reitor, com participação de alunos, professores e funcionários. Entre os dias 21 e 24 deste mês, o rito democrático se repetirá, com uma novidade: mais do que a escolha do Reitor e, também do Vice-Reitor, estarão em jogo o futuro daquela que é uma das mais conceituadas universidades brasileiras, seja pelo papel que sempre desempenhou na vida do país, com intransigente defesa da democracia, seja pelo seu nível acadêmico, reconhecido internacionalmente.
O que está acontecendo? A PUC-SP encontra-se sitiada por dívidas. São, praticamente, R$ 103 milhões, se o cálculo restringir-se ao passivo bancário. Se somados os impostos e o passivo trabalhista, o valor ultrapassa o patamar dos R$ 300 milhões. Na realidade, é uma dívida móvel que não se tem ainda um cálculo exato, mas a verdade é que a cifra em foco pode ser considerada conservadora. Há pouco menos de uma década, o endividamento bancário somava mais ou menos R$ 24 milhões e as dívidas relativas a impostos e responsabilidades trabalhistas eram muito menores.
Pois bem, entre março de 1999 e abril de 2000 um especialista em gestão, engenheiro com doutorado em finanças, ocupou o cargo de Vice-Reitor e reduziu o endividamento bancário para R$ 14 milhões, restituindo as linhas de crédito junto aos bancos. Estranhamente, foi afastado e, desde então, as dívidas vêm se multiplicando. O nome deste gestor é Fábio Gallo que agora disputa a Reitoria com outros três candidatos. A diferença é que ele tem uma plataforma que une a refundação do modelo de gestão da PUC-SP com um impulso renovador no campo acadêmico.
Além disso, Gallo transita com desenvoltura nas diferentes áreas da Universidade, inclusive junto à Igreja que, não se pode negar, é quem detém o controle da PUC-SP. Esse aspecto é relevante sob qualquer ângulo que se avalie. Significa, em parte, que haverá sintonia quanto a qualidade de gestão e da escolha dos caminhos certos para superação da crise financeira. Em parte, significa também, a preservação de um bem maior da PUC-SP: a liberdade acadêmica. Aliás, vale registrar, a Igreja de São Paulo sempre incentivou e alinhou-se a esse princípio fundamental para o ensino e a pesquisa na Universidade. Nela, todas as correntes políticas, mesmo nos anos de chumbo do regime militar, sempre tiveram voz e representatividade. A liberdade acadêmica tornou-se assim um valor soberano.
Não é, fora de dúvida, o que está em questão. O ponto central, na atualidade, é a capacidade de unir esses valores – liberdade e excelência acadêmicas – ao projeto de gestão. Essa convergência é vital e torna-se incontornável. Se olharmos o ambiente do ensino universitário, é fácil constatar que a PUC-SP, em termos de qualidade, disputa lado a lado a liderança com as melhores universidades do Brasil. Mas, se o tema for a infra-estrutura, as contas a pagar e os horizontes de investimento, a posição no ranking está muito distante do mínimo razoável. Perdemos posições nesse terreno estratégico. O que isto significa? Que a qualidade do ensino encontra-se seriamente ameaçada. Porém, para extrema felicidade, a Professora Maria Margarida Cavalcanti Limena, socióloga por formação, estudiosa da teoria da complexidade, é candidata a Vice-Reitora, e tem conciliado uma carreira acadêmica notável com a Direção da Centro de Ciências Humanas (2005-2008) e a Direção da Faculdade de Ciências Sociais (2001-2005).
É, portanto, o momento de construir a convergência. De explicitar os conflitos latentes, mantendo a fidelidade ao que existe de melhor nos valores republicanos, e, ao mesmo tempo, pensar grande, mas com coerência, competência e visão de futuro. Não se trata apenas de uma disputa entre plataformas concorrentes, mas entre os que sabem e podem fazer melhor e aqueles que apenas vestem os trajes cintilantes de uma concepção idealista – meritória, sem dúvida -, mas sem a vivência prática do que é gerir uma organização em crise. Crise, vale assinalar, são para especialistas, não para aprendizes.
Essa peculiaridade é que será o motor da mudança. Não se pode esquecer, nesse contexto, que a PUC paulistana possui um ativo de inestimável valor: sua marca. Se revitalizada, se alicerçada na convergência entre a gestão e seu patrimônio acadêmico, se soerguerá ainda mais vigorosa do que foi no passado. Será uma questão de tempo, mas o momento inicial, o verdadeiro ponto de partida, encontra-se nas eleições que se aproximam. A sociedade precisa acompanhá-la com interesse porque, afinal, a PUC de São Paulo, mais do que uma organização de ensino, pesquisa e prestação de serviços, pertencente à Igreja, aos estudantes, aos professores e aos funcionários, é um ícone, um patrimônio essencial do país. E essa nuança que faz, neste ano, as eleições para Reitor um fato relevante, um tema que transcende os campi e o universo acadêmico.
________________________________________1] Professor do Departamento de Filosofia da PUC-SP e Coordenador da campanha eleitoral “Fábio Gallo – Margarida Limena”, gestão 2008-2010. www.puchoje.com.br
Wednesday, September 24, 2008
Filosofia e adulação
Um bom artigo do professor Roberto Romano:
Correio Popular de Campinas, 24 de setembro de 2008
Filosofia e adulação
Roberto Romano
“A inteligência não possibilita nenhuma livre docência.” A frase é de Walter Benjamin, filósofo importante do século 20 cujo suicídio mostra as aporias do pensamento diante dos governos. Os pensadores, à semelhança de Cristo, sentem desde longa data a tentação do poder. Mas, ao contrário do paradigma ético inscrito no Evangelho de Lucas (“E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe, num momento de tempo, todos os reinos do mundo. E disse-lhe o diabo: Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero. Portanto, se tu me adorares, tudo será teu. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a ele servirás.”), a resposta, quase sempre, é um esplendoroso “sim” aos donos do mundo.
Platão, após o desastre dos tiranos atenienses, pensou que um governo dirigido por ele, em Siracusa, seria viável e melhor do que o exercido por Dionisio. E para lá se foi, na esperança de controlar finalmente os homens reais. Ledo engano! Quase deixou a vida física nas mãos do poderoso autoritário. Seneca, o moralista e professor de Nero, tem muito a dizer sobre o conúbio entre filosofia e palácios. No século 18, Voltaire foi preso pelo amigo, o rei Frederico, por imaginar que falava com o monarca em igualdade de condições. Os filósofos que ajudaram os ditadores do século 19 e 20 mostraram que entre a verdade e a espinha dobrada, eles preferiram a segunda.
Schopenhauer estigmatiza os docentes da filosofia universitária que acostumaram os leitores a “tomar os mais vazios jogos de palavras por filosofia, os mais pobres sofismas por pensamentos engenhosos e as mais insossas extravagâncias por dialética”. O Estado patrocina uma filosofia industrial que “nutre como qualquer outra”. Os professores “se agrupam solícitos ao redor dos poderosos, proclamam boas intenções, ou seja, dizem estar dispostos a executar todo tipo de complacência para com eles”.
No Brasil, a filosofia acadêmica começa novamente a se ajoelhar diante dos poderes. Tal tendência surge com vigor inaudito. Um filósofo louva na grande imprensa os triunfos do lulismo e transforma o presidente em admirável César: amigo do povo cuja legitimidade vem das pesquisas de opinião. Outro, ensaia rapapés ao Planalto, afirmando inclusive que seu sucesso vem da preservação irrestrita do Estado de direito. Nenhum deles nota o projeto do Executivo, de censura à imprensa, cujos efeitos serão mais desastrosos do que os serviços dos extintos DIP e SNI. Em vez de punir arapongas arbitrários, o governo decide (pela enésima vez) que a mordaça é o melhor instrumento.
O enterro da crítica mostra a que ponto chegamos, na marcha da bajulação. A coisa está complicada e seria de bom alvitre deixarmos, imediatamente, de parolar sobre ética e coisas afins, para instituir cursos públicos e privados de adulação filosófica. Imagino as ementas do referido ensino: “o aluno aprenderá a louvar qualidades inexistentes dos governantes e dos ricos, de maneira plausível e, portanto, eficaz. A disciplina abrangerá estágios cujos títulos serão: brownosing I, II, III, e neles os alunos aprenderão a bem usar o nariz, aplicando-o às partes secretas dos poderosos. Como aperfeiçoamento, o estudante aprenderá a mímica admirativa diante dos governantes”. A bibliografia pode ser nutrida pelos tratados de Plutarco, sobretudo o “Como distinguir o amigo do adulador”.
Com o panorama dos últimos tempos, e com o que se testemunha em parcelas das elites intelectuais, cujo bico sedento se abre para as verbas dos governos e conspurca o verbo que deveria manter fidedigno, só podemos anuir com o diagnóstico melancólico de Eric Voegelin (Hitler e os alemães): “Estupidez, ignorância, preguiça, inércia, decadência de diferentes tipos (...) são forças eminentemente importantes no processo social”. É difícil manter o espírito alerta quando surgem tantas oportunidades de suicídio intelectual rendoso, tanto em finanças quanto em poder. Tristes Trópicos.
Fonte: http://robertounicamp.blogspot.com/ 24/09/2008
Correio Popular de Campinas, 24 de setembro de 2008
Filosofia e adulação
Roberto Romano
“A inteligência não possibilita nenhuma livre docência.” A frase é de Walter Benjamin, filósofo importante do século 20 cujo suicídio mostra as aporias do pensamento diante dos governos. Os pensadores, à semelhança de Cristo, sentem desde longa data a tentação do poder. Mas, ao contrário do paradigma ético inscrito no Evangelho de Lucas (“E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe, num momento de tempo, todos os reinos do mundo. E disse-lhe o diabo: Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero. Portanto, se tu me adorares, tudo será teu. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a ele servirás.”), a resposta, quase sempre, é um esplendoroso “sim” aos donos do mundo.
Platão, após o desastre dos tiranos atenienses, pensou que um governo dirigido por ele, em Siracusa, seria viável e melhor do que o exercido por Dionisio. E para lá se foi, na esperança de controlar finalmente os homens reais. Ledo engano! Quase deixou a vida física nas mãos do poderoso autoritário. Seneca, o moralista e professor de Nero, tem muito a dizer sobre o conúbio entre filosofia e palácios. No século 18, Voltaire foi preso pelo amigo, o rei Frederico, por imaginar que falava com o monarca em igualdade de condições. Os filósofos que ajudaram os ditadores do século 19 e 20 mostraram que entre a verdade e a espinha dobrada, eles preferiram a segunda.
Schopenhauer estigmatiza os docentes da filosofia universitária que acostumaram os leitores a “tomar os mais vazios jogos de palavras por filosofia, os mais pobres sofismas por pensamentos engenhosos e as mais insossas extravagâncias por dialética”. O Estado patrocina uma filosofia industrial que “nutre como qualquer outra”. Os professores “se agrupam solícitos ao redor dos poderosos, proclamam boas intenções, ou seja, dizem estar dispostos a executar todo tipo de complacência para com eles”.
No Brasil, a filosofia acadêmica começa novamente a se ajoelhar diante dos poderes. Tal tendência surge com vigor inaudito. Um filósofo louva na grande imprensa os triunfos do lulismo e transforma o presidente em admirável César: amigo do povo cuja legitimidade vem das pesquisas de opinião. Outro, ensaia rapapés ao Planalto, afirmando inclusive que seu sucesso vem da preservação irrestrita do Estado de direito. Nenhum deles nota o projeto do Executivo, de censura à imprensa, cujos efeitos serão mais desastrosos do que os serviços dos extintos DIP e SNI. Em vez de punir arapongas arbitrários, o governo decide (pela enésima vez) que a mordaça é o melhor instrumento.
O enterro da crítica mostra a que ponto chegamos, na marcha da bajulação. A coisa está complicada e seria de bom alvitre deixarmos, imediatamente, de parolar sobre ética e coisas afins, para instituir cursos públicos e privados de adulação filosófica. Imagino as ementas do referido ensino: “o aluno aprenderá a louvar qualidades inexistentes dos governantes e dos ricos, de maneira plausível e, portanto, eficaz. A disciplina abrangerá estágios cujos títulos serão: brownosing I, II, III, e neles os alunos aprenderão a bem usar o nariz, aplicando-o às partes secretas dos poderosos. Como aperfeiçoamento, o estudante aprenderá a mímica admirativa diante dos governantes”. A bibliografia pode ser nutrida pelos tratados de Plutarco, sobretudo o “Como distinguir o amigo do adulador”.
Com o panorama dos últimos tempos, e com o que se testemunha em parcelas das elites intelectuais, cujo bico sedento se abre para as verbas dos governos e conspurca o verbo que deveria manter fidedigno, só podemos anuir com o diagnóstico melancólico de Eric Voegelin (Hitler e os alemães): “Estupidez, ignorância, preguiça, inércia, decadência de diferentes tipos (...) são forças eminentemente importantes no processo social”. É difícil manter o espírito alerta quando surgem tantas oportunidades de suicídio intelectual rendoso, tanto em finanças quanto em poder. Tristes Trópicos.
Fonte: http://robertounicamp.blogspot.com/ 24/09/2008
Saturday, September 20, 2008
Eleições: Alerta Brasil!
Em tempos de eleições devemos ficar atentos aos pilantras e picaretas que não buscam o bem comum, mas o seu próprio “bem particular” – como os nossos governantes que elaboram leis para cercear a liberdade de expressão, isto é de impressa.
Thursday, August 21, 2008
O atual status quo é pior do que muitas ditaduras, porque é um poder de castas disfarçado com aparências democráticas.
Segue abaixo o bom artigo do professor Roberto Romano.
Tirania e privilégios
Roberto Romano
Todos os dias, os brasileiros, escorchados por impostos e sem receber do Estado proteção física e espiritual, educação e saúde, segurança e justos tribunais, ficam sabendo pela imprensa (quando não impera a censura) que os operadores estatais legislam em causa própria, geram privilégios que alimentam seus desejos e ambições, em detrimento do bem comum. Nos três poderes do Brasil, vigora muita injustiça. O atual status quo é pior do que muitas ditaduras, porque é um poder de castas disfarçado com aparências democráticas. Como a cegueira do privilégio impede os dirigentes de enxergar a triste realidade do país, voltemos às fontes filosóficas que nos ajudam a perceber (falo dos “cidadãos comuns”) o quanto nosso Estado é tirânico.
No tratado sobre O Regime dos Príncipes, de Tomás de Aquino, escrito entre 1265 e 1266, o santo retoma Aristóteles: “Um regime torna-se injusto se, ao desprezar o bem comum da multidão, busca o bem privado do governante. Por tal motivo, quanto mais um regime se afasta do bem comum, mais ele é injusto (...) A tirania se afasta mais do bem comum, pois nela se procura o bem de um só, logo o regime do tirano é o mais injusto”. Com base em Aristóteles, mas também por recolher alguma lembrança do injusto platônico, Aquino diz que “o tirano é um o lobo que não garante a segurança dos governados e persegue os bons cidadãos, favorece as quadrilhas reunidas para delinqüir, impede a amizade, propicia a discórdia. Ele em nada difere de uma fera”.
Referência de Aquino é Isidoro de Sevilha, quando se trata da análise da lei e da tirania. A lei é fundamentada na razão e composta não tendo em vista a vantagem privada mas o bem comum dos cidadãos. Qual o alvo das leis? Segundo Isidoro citado por Aquino, “as leis foram feitas para que a audácia humana pudesse ser colocada em limites pelo medo que elas inspiram, para que a inocência fosse protegida no meio dos desordeiros, e que o pavor da punição restringisse os perversos de produzir danos”. Aquino cita Aristóteles: “‘É melhor que todas as coisas sejam reguladas por lei do que deixadas à decisão dos juízes’ e isto por três razões. Primeira, pois é mais fácil encontrar poucos sábios capazes de encontrar leis sábias do que muitos para julgar corretamente cada caso individual. Segunda, porque os legisladores devotam muito tempo ao que faz a lei enquanto o juízo sobre os casos singulares deve ser dado logo que o caso ocorre; mas é mais fácil para o homem ver o que é direito tomando em consideração muitos exemplos, em vez de um só caso. Terceira, porque os legisladores julgam termos em geral em vista do futuro, mas os juízes o fazem em relação ao presente, tratam com o que pode afetá-los pelo amor ou ódio ou ambição de algum tipo, e assim seu julgamento pode ser distorcido. Dado que a ‘lei animada’ dos juizes não se encontra em muitos homens, e porque ela pode ser distorcida, foi preciso, sempre que possível, que a lei determinasse como deveria ser o julgamento, e para muito poucas matérias se confiasse na decisão dos homens”.
Aquino reitera com Isidoro: “‘A lei não deve ser composta para vantagem privada mas para o benefício comum dos cidadãos’, e deve se adaptar ao bem comum. Se a lei é injusta, a ordem divinamente ordenada dos poderes não se aplica, e portanto um homem não é obrigado a obedecer a lei em tais casos, se pode resistir, assim o fazendo sem escândalo ou alarma pior”.
O privilégio de foro, auto-aplicado pelos políticos, é aceito pela Justiça sem maiores questionamentos. O ministro Joaquim Barbosa é dos poucos que criticam tal norma tirânica. E vem a notícia: o Estado brasileiro pagará mais de um bilhão de reais a magistrados, em vantagens, como ajuda moradia, mesmo que residam na mesma cidade onde julgam. Existiria algum nexo entre os privilégios ? Que diriam Isidoro de Sevilha, Aquino, Aristóteles sobre tais atos? Ajudam o bem comum? Ou são tirânicos? Aos, políticos, aos juízes e aos que pagam impostos, a resposta.
Fonte: http://robertounicamp.blogspot.com/ - 21/08/2008
Tirania e privilégios
Roberto Romano
Todos os dias, os brasileiros, escorchados por impostos e sem receber do Estado proteção física e espiritual, educação e saúde, segurança e justos tribunais, ficam sabendo pela imprensa (quando não impera a censura) que os operadores estatais legislam em causa própria, geram privilégios que alimentam seus desejos e ambições, em detrimento do bem comum. Nos três poderes do Brasil, vigora muita injustiça. O atual status quo é pior do que muitas ditaduras, porque é um poder de castas disfarçado com aparências democráticas. Como a cegueira do privilégio impede os dirigentes de enxergar a triste realidade do país, voltemos às fontes filosóficas que nos ajudam a perceber (falo dos “cidadãos comuns”) o quanto nosso Estado é tirânico.
No tratado sobre O Regime dos Príncipes, de Tomás de Aquino, escrito entre 1265 e 1266, o santo retoma Aristóteles: “Um regime torna-se injusto se, ao desprezar o bem comum da multidão, busca o bem privado do governante. Por tal motivo, quanto mais um regime se afasta do bem comum, mais ele é injusto (...) A tirania se afasta mais do bem comum, pois nela se procura o bem de um só, logo o regime do tirano é o mais injusto”. Com base em Aristóteles, mas também por recolher alguma lembrança do injusto platônico, Aquino diz que “o tirano é um o lobo que não garante a segurança dos governados e persegue os bons cidadãos, favorece as quadrilhas reunidas para delinqüir, impede a amizade, propicia a discórdia. Ele em nada difere de uma fera”.
Referência de Aquino é Isidoro de Sevilha, quando se trata da análise da lei e da tirania. A lei é fundamentada na razão e composta não tendo em vista a vantagem privada mas o bem comum dos cidadãos. Qual o alvo das leis? Segundo Isidoro citado por Aquino, “as leis foram feitas para que a audácia humana pudesse ser colocada em limites pelo medo que elas inspiram, para que a inocência fosse protegida no meio dos desordeiros, e que o pavor da punição restringisse os perversos de produzir danos”. Aquino cita Aristóteles: “‘É melhor que todas as coisas sejam reguladas por lei do que deixadas à decisão dos juízes’ e isto por três razões. Primeira, pois é mais fácil encontrar poucos sábios capazes de encontrar leis sábias do que muitos para julgar corretamente cada caso individual. Segunda, porque os legisladores devotam muito tempo ao que faz a lei enquanto o juízo sobre os casos singulares deve ser dado logo que o caso ocorre; mas é mais fácil para o homem ver o que é direito tomando em consideração muitos exemplos, em vez de um só caso. Terceira, porque os legisladores julgam termos em geral em vista do futuro, mas os juízes o fazem em relação ao presente, tratam com o que pode afetá-los pelo amor ou ódio ou ambição de algum tipo, e assim seu julgamento pode ser distorcido. Dado que a ‘lei animada’ dos juizes não se encontra em muitos homens, e porque ela pode ser distorcida, foi preciso, sempre que possível, que a lei determinasse como deveria ser o julgamento, e para muito poucas matérias se confiasse na decisão dos homens”.
Aquino reitera com Isidoro: “‘A lei não deve ser composta para vantagem privada mas para o benefício comum dos cidadãos’, e deve se adaptar ao bem comum. Se a lei é injusta, a ordem divinamente ordenada dos poderes não se aplica, e portanto um homem não é obrigado a obedecer a lei em tais casos, se pode resistir, assim o fazendo sem escândalo ou alarma pior”.
O privilégio de foro, auto-aplicado pelos políticos, é aceito pela Justiça sem maiores questionamentos. O ministro Joaquim Barbosa é dos poucos que criticam tal norma tirânica. E vem a notícia: o Estado brasileiro pagará mais de um bilhão de reais a magistrados, em vantagens, como ajuda moradia, mesmo que residam na mesma cidade onde julgam. Existiria algum nexo entre os privilégios ? Que diriam Isidoro de Sevilha, Aquino, Aristóteles sobre tais atos? Ajudam o bem comum? Ou são tirânicos? Aos, políticos, aos juízes e aos que pagam impostos, a resposta.
Fonte: http://robertounicamp.blogspot.com/ - 21/08/2008
Monday, July 14, 2008
A “grande propriedade monocultural” – (uma das mazelas que se alastram como um câncer na sociedade brasileira
O livro A formação do Brasil Contemporâneo do Caio Prado Junior é um bom (excelente) livro para ser visitado nos “tempo de monocultura” na “produção agrária” brasileira ou da “grande propriedade monocultural” – (uma das mazelas que se alastram como um câncer na sociedade brasileira - desmatamento é pouco) que se instalou por aqui desde os tempos da Colônia.
Boa leitura!
Daner Hornich
Boa leitura!
Daner Hornich
Saturday, May 31, 2008
A atualidade de Max Weber
SAIU NA REVISTA CULT,
A atualidade de Max Weber
A noção de "patrimonialismo" continua a orientar parte significativa da reflexão sociológica nacional. No entanto, é preciso fundamentar um novo paradigma à luz da própria crítica weberiana
Por Jessé de Souza
Max Weber é provavelmente o autor mais influente e conhecido no âmbito das ciências sociais. Não apenas a sociologia e a ciência política modernas o têm como autor central e referência constante, mas também o direito, a economia, a administração de empresas e até a filosofia mobilizam várias de suas interpretações e idéias. É difícil imaginar um pensador contemporâneo que não tenha sido influenciado por suas idéias. Em Pierre Bourdieu e Jürgen Habermas, por exemplo, a influência é decisiva. Mas também no contexto brasileiro, Weber não só é um dos autores mais citados nas teses acadêmicas de ciências sociais entre nós, mas também foi inspiração para a produção do conceito mais influente, ainda hoje, da sociologia e da ciência política brasileiras: a noção - ambígua e equívoca, como teremos, mais adiante, ocasião de explicitar - de patrimonialismo. O que explica tamanha influência?
Sua influência diz respeito à especificidade do que ele denominava de "racionalismo ocidental". "Racionalismo" significa a forma, culturalmente singular, de como uma civilização específica e, por extensão, também os indivíduos, que constituem sua forma de pensar e agir a partir desses modelos culturais, interpreta o mundo. Isso implica, antes de tudo, que não existe definição "universal" possível acerca do que é "racional" ou do que seja "racionalidade". A forma como a racionalidade vai ser definida em cada sociedade específica depende, desse modo, da matriz civilizacional a qual essa sociedade particular pertença. Em relação à civilização ocidental moderna, Weber irá definir seu racionalismo específico como sendo o do "racionalismo da dominação do mundo". Esse racionalismo difere de modo profundo, por exemplo, dos racionalismos não-ocidentais como o da "fuga do mundo", típico da sociedade de castas hindu, ou do racionalismo da "acomodação ao mundo" típico da sociedade tradicional chinesa. O racionalismo da dominação do mundo vai ser definido por uma "atitude instrumental" em relação a todas as três dimensões possíveis da ação humana: ação no mundo exterior, na natureza; no mundo social; e no próprio mundo subjetivo, como meros "meios" para a consecução de fins heterônomos como poder e dinheiro.
Weber logra transformar a percepção de uma "racionalidade objetiva" que se impõe aos sujeitos de modo independente de sua vontade, no fundamento mesmo de uma "sociologia compreensiva", toda voltada a captar o "sentido subjetivo" das ações humanas. É que, no "racionalismo moderno", são os pressupostos da "ação eficaz", no sentido de efetivamente transformadora da realidade externa, que a tornam "compreensível" para todos, permitindo a "evidência intersubjetiva" que garante a cientificidade de proposições e descrições da realidade.
Mas Weber não formula apenas a possibilidade de junção científica dos aspectos subjetivos e objetivos no contexto do "racionalismo da dominação do mundo". Ele inspirou também, precisamente por ter captado a "ambigüidade constitutiva" do racionalismo singular ao ocidente, os dois diagnósticos mais importantes para a autocompreensão do ocidente até nossos dias: uma concepção liberal, afirmativa e triunfalista do racionalismo ocidental; e uma concepção crítica desse mesmo racionalismo, que procura mostrar sua unidimensionalidade e superficialidade.
Para a versão liberal e afirmativa, Weber fornece, por um lado, sua análise da "revolução simbólica" do protestantismo ascético, para ele a efetiva revolução moderna, na medida em que transformou a "consciência" dos indivíduos, e a partir daí a realidade externa, e não o contrário, como na Revolução Francesa, que termina em restauração do poder monárquico. É a figura do protestante ascético, dotado de vontade férrea e com as armas da disciplina e do autocontrole, quem cria o fundamento histórico para a noção do "sujeito moderno" e até mesmo para a noção moderna de "personalidade" enquanto entidade percebida como um todo unitário com fins e motivos conscientes e refletidos. Todas as versões apologéticas do "sujeito liberal" (às vezes, com a contribuição de Tocqueville, sujeito também tornado unidimensional e acrítico) nutrem-se, quase sempre com fundamento empírico na história da pujança econômica e política americana, em maior ou menor grau, da figura do pioneiro protestante weberiano. Por outro lado, é Weber quem reconstrói sistematicamente a lógica de funcionamento, tanto do mercado competitivo capitalista, quanto do Estado racional centralizado, de modo a percebê-los como instituições cuja eficiência e "racionalidade" não teriam igual. Ainda que a perspectiva liberal apologética se restrinja ao elogio do mercado, confluem, aqui, os aspectos subjetivos e objetivos (institucionais) que fundamentam, de modo convincente, a afirmação do "dado", ou seja, do mundo como ele é.
Mas Weber (e nisso reside sua atualidade extraordinária) também percebia o lado sombrio do racionalismo ocidental. Se o pioneiro protestante ainda possuía perspectivas éticas na sua conduta, seu "filho" e, muito especialmente, seu "neto", habitante do mundo secularizado, é percebido por Weber de modo bastante diferente. Para descrevê-lo, Weber lança mão de dois "tipos ideais", ou seja, de modelos abstratos, no caso, de modelos abstratos de condução de vida individual, os quais se encontram sempre misturados em proporções diversas na realidade empírica concreta. Esses "tipos ideais", que explicam o indivíduo típico moderno para Weber, são, por um lado, o "especialista sem espírito", que tudo sabe acerca do seu pequeno mundo de atividade e nada sabe (nem quer saber) acerca de contextos mais amplos que determinam seu pequeno mundo, e, por outro lado, o "homem do prazer sem coração", que tende a amesquinhar seu mundo sentimental e emotivo à busca de prazeres momentâneos e imediatos.
Se a primeira leitura fornece o estofo para a apologia liberal do mercado e do sujeito percebido como independente da sociedade e de valores supra-individuais, a segunda leitura marcou profundamente toda a reflexão crítica até nossos dias. A percepção do indivíduo moderno como suporte das ilusões da independência absoluta e da própria perfeição narcísica, quando, na verdade, realiza, sem saber, todas as virtualidades de uma razão instrumental que termina em consumismo e conformismo político, está na base de todas as variações influentes do assim chamado "marxismo ocidental". Esse termo, denominação ampla que se refere às perspectivas intelectuais que procuraram unir o impulso crítico do marxismo com a análise weberiana do racionalismo ocidental enquanto razão instrumental, foi a base de praticamente todas as concepções críticas do século 20.
Weber no Brasil
No Brasil, a influência do pensamento weberiano é dominada pela leitura liberal apologética. É de Weber que se retira a autoridade científica e a "palavra", no sentido do "nome" e não do "conceito científico", para a legitimação científica da noção central, ainda hoje, da sociologia e da ciência política brasileira: a noção de "patrimonialismo", para indicar uma suposta ação parasitária do Estado e de sua "elite" sobre a sociedade. Entre nós, no entanto, esse conceito perde qualquer contextualização histórica, fundamental no seu uso por Max Weber, e passa a designar uma espécie de "mal de origem" da atuação do Estado enquanto tal em qualquer período histórico. Em Raymundo Faoro, por exemplo, que fez dessa noção seu mote investigativo - enquanto na maioria dos intelectuais brasileiros ela é um pressuposto implícito, embora fundamental - a noção de patrimonialismo carece de qualquer precisão histórica e conceitual. Historicamente, na visão de Faoro, existiria patrimonialismo desde o Portugal medieval, onde não havia sequer a noção de "soberania popular" e, portanto, não havia a separação entre bem privado (do rei) e bem público, já que o rei e seus prepostos não podiam "roubar" o que já era dele de direito.
Em segundo lugar, no âmbito de suas generalizações sociológicas, o patrimonialismo acaba se tornando, de forma implícita, em um equivalente funcional para a mera intervenção estatal. No decorrer do livro de Faoro, o conceito de patrimonialismo perde crescentemente qualquer vínculo concreto, passando a ser substitutivo da mera noção de intervenção do Estado, seja quando este é furiosamente tributário e dilapidador, por ocasião da exploração das minas no século 18, seja quando o mesmo é benignamente interventor, quando D. João cria, no início do século 19, as pré-condições para o desenvolvimento do comércio e da economia monetária, quadruplicando a receita estatal e introduzindo inúmeras melhorias públicas.
A imprecisão contamina até a noção central de "estamento", uma suposta "elite" incrustada no Estado, que seria o suporte social do patrimonialismo. O tal "estamento" é composto, afinal, quem o suporta e fundamenta? Os juízes, o presidente, os burocratas? O que dizer do empresariado brasileiro, especialmente o paulista, que foi, no caso brasileiro, o principal beneficiário do processo de industrialização nacional financiado pelo Estado interventor desde Vargas? Ele também é parte do "estamento" estatal? Deveria ser, pois foi quem econômica e socialmente mais ganhou com o suposto "Estado patrimonial" brasileiro.
A quem interessa a idealização do mercado e a demonização do Estado?
Como fica, em vista disso, a falsa oposição entre mercado "idealizado" e Estado "corrupto"? Ora, trata-se de um conceito que se refere a todos e a ninguém e pouco ou nada esclarece. Se o potencial científico e esclarecedor dessa noção é tendencialmente nulo, o mesmo não pode ser dito de seu potencial ideológico e político. Ela "simplifica" e "distorce" a realidade social de diversas maneiras e sempre em um único sentido: aquele que simplifica e "idealiza" o mercado e subjetiviza e "demoniza" o Estado. De weberiano, pelo menos, esse processo não tem nada. Vimos que a marca da riqueza da reflexão weberiana é precisamente perceber a ambigüidade constitutiva dessas instituições fundamentais do mundo moderno e, com isso, perceber a ambigüidade imanente ao próprio racionalismo ocidental. O mercado cria riquezas com uma eficiência singular, mas produz, simultaneamente, desigualdades e injustiça social de todo tipo. O Estado pode agir das mais diversas maneiras, dependendo da correlação de forças política que esteja no controle do poder de Estado.
Como uma hipótese tão frágil, pode-se perguntar o leitor atento, conseguiu ser até hoje o conceito central da reflexão brasileira, a tal ponto que é repetido, mesmo hoje, não só pela maioria dos intelectuais, na universidade e fora dela, mas também pela mídia e pelos cidadãos comuns nos bares de esquina do Brasil afora? Se quisermos responder a essa questão "weberianamente" - o Max Weber crítico que sempre se interessou pela forma como indivíduos e classes "legitimam" seus "interesses" materiais e ideais criando "racionalizações convincentes" -, temos que perceber as necessidades e interesses que esse tipo de visão de mundo justifica. A quem interessa "demonizar" o Estado, pleitear o Estado mínimo, criticar a incipiente assistência social estatal, e, em suma, reduzir os interesses da sociedade aos interesses da reprodução do mercado?
Quaisquer que sejam os interesses em jogo, o tema do patrimonialismo, precisamente por sua aparência de "crítica radical", dramatiza um conflito aparente e falso, aquele entre mercado e Estado, sob o preço de deixar à sombra todas as contradições de uma sociedade que naturaliza desigualdades sociais abissais e um cotidiano de carência e exclusão. Na crítica deste paradigma ultrapassado e superficial, e na construção de outros mais adequados e verdadeiramente críticos, a tradição crítica que Weber também inspirou pode construir, também entre nós, uma alternativa fundamental para a auto-reflexão dos brasileiros. É de se esperar, como vemos, que as tradições que se alimentam da riqueza da obra desse pensador cada vez mais atual, ainda continuem a desempenhar, aqui e alhures, um papel nada desprezível.
Jessé de Souza é professor de sociologia da UFJF e organizador do livro A atualidade de Max Weber (Editora UNB), entre outros
fONTE: http://revistacult.uol.com.br/website/news.asp?edtCode=20E706E2-C7EC-40FD-A886-92E8D595EDB7&nwsCode=D994722C-6B25-4D99-9802-4EAF32967382
A atualidade de Max Weber
A noção de "patrimonialismo" continua a orientar parte significativa da reflexão sociológica nacional. No entanto, é preciso fundamentar um novo paradigma à luz da própria crítica weberiana
Por Jessé de Souza
Max Weber é provavelmente o autor mais influente e conhecido no âmbito das ciências sociais. Não apenas a sociologia e a ciência política modernas o têm como autor central e referência constante, mas também o direito, a economia, a administração de empresas e até a filosofia mobilizam várias de suas interpretações e idéias. É difícil imaginar um pensador contemporâneo que não tenha sido influenciado por suas idéias. Em Pierre Bourdieu e Jürgen Habermas, por exemplo, a influência é decisiva. Mas também no contexto brasileiro, Weber não só é um dos autores mais citados nas teses acadêmicas de ciências sociais entre nós, mas também foi inspiração para a produção do conceito mais influente, ainda hoje, da sociologia e da ciência política brasileiras: a noção - ambígua e equívoca, como teremos, mais adiante, ocasião de explicitar - de patrimonialismo. O que explica tamanha influência?
Sua influência diz respeito à especificidade do que ele denominava de "racionalismo ocidental". "Racionalismo" significa a forma, culturalmente singular, de como uma civilização específica e, por extensão, também os indivíduos, que constituem sua forma de pensar e agir a partir desses modelos culturais, interpreta o mundo. Isso implica, antes de tudo, que não existe definição "universal" possível acerca do que é "racional" ou do que seja "racionalidade". A forma como a racionalidade vai ser definida em cada sociedade específica depende, desse modo, da matriz civilizacional a qual essa sociedade particular pertença. Em relação à civilização ocidental moderna, Weber irá definir seu racionalismo específico como sendo o do "racionalismo da dominação do mundo". Esse racionalismo difere de modo profundo, por exemplo, dos racionalismos não-ocidentais como o da "fuga do mundo", típico da sociedade de castas hindu, ou do racionalismo da "acomodação ao mundo" típico da sociedade tradicional chinesa. O racionalismo da dominação do mundo vai ser definido por uma "atitude instrumental" em relação a todas as três dimensões possíveis da ação humana: ação no mundo exterior, na natureza; no mundo social; e no próprio mundo subjetivo, como meros "meios" para a consecução de fins heterônomos como poder e dinheiro.
Weber logra transformar a percepção de uma "racionalidade objetiva" que se impõe aos sujeitos de modo independente de sua vontade, no fundamento mesmo de uma "sociologia compreensiva", toda voltada a captar o "sentido subjetivo" das ações humanas. É que, no "racionalismo moderno", são os pressupostos da "ação eficaz", no sentido de efetivamente transformadora da realidade externa, que a tornam "compreensível" para todos, permitindo a "evidência intersubjetiva" que garante a cientificidade de proposições e descrições da realidade.
Mas Weber não formula apenas a possibilidade de junção científica dos aspectos subjetivos e objetivos no contexto do "racionalismo da dominação do mundo". Ele inspirou também, precisamente por ter captado a "ambigüidade constitutiva" do racionalismo singular ao ocidente, os dois diagnósticos mais importantes para a autocompreensão do ocidente até nossos dias: uma concepção liberal, afirmativa e triunfalista do racionalismo ocidental; e uma concepção crítica desse mesmo racionalismo, que procura mostrar sua unidimensionalidade e superficialidade.
Para a versão liberal e afirmativa, Weber fornece, por um lado, sua análise da "revolução simbólica" do protestantismo ascético, para ele a efetiva revolução moderna, na medida em que transformou a "consciência" dos indivíduos, e a partir daí a realidade externa, e não o contrário, como na Revolução Francesa, que termina em restauração do poder monárquico. É a figura do protestante ascético, dotado de vontade férrea e com as armas da disciplina e do autocontrole, quem cria o fundamento histórico para a noção do "sujeito moderno" e até mesmo para a noção moderna de "personalidade" enquanto entidade percebida como um todo unitário com fins e motivos conscientes e refletidos. Todas as versões apologéticas do "sujeito liberal" (às vezes, com a contribuição de Tocqueville, sujeito também tornado unidimensional e acrítico) nutrem-se, quase sempre com fundamento empírico na história da pujança econômica e política americana, em maior ou menor grau, da figura do pioneiro protestante weberiano. Por outro lado, é Weber quem reconstrói sistematicamente a lógica de funcionamento, tanto do mercado competitivo capitalista, quanto do Estado racional centralizado, de modo a percebê-los como instituições cuja eficiência e "racionalidade" não teriam igual. Ainda que a perspectiva liberal apologética se restrinja ao elogio do mercado, confluem, aqui, os aspectos subjetivos e objetivos (institucionais) que fundamentam, de modo convincente, a afirmação do "dado", ou seja, do mundo como ele é.
Mas Weber (e nisso reside sua atualidade extraordinária) também percebia o lado sombrio do racionalismo ocidental. Se o pioneiro protestante ainda possuía perspectivas éticas na sua conduta, seu "filho" e, muito especialmente, seu "neto", habitante do mundo secularizado, é percebido por Weber de modo bastante diferente. Para descrevê-lo, Weber lança mão de dois "tipos ideais", ou seja, de modelos abstratos, no caso, de modelos abstratos de condução de vida individual, os quais se encontram sempre misturados em proporções diversas na realidade empírica concreta. Esses "tipos ideais", que explicam o indivíduo típico moderno para Weber, são, por um lado, o "especialista sem espírito", que tudo sabe acerca do seu pequeno mundo de atividade e nada sabe (nem quer saber) acerca de contextos mais amplos que determinam seu pequeno mundo, e, por outro lado, o "homem do prazer sem coração", que tende a amesquinhar seu mundo sentimental e emotivo à busca de prazeres momentâneos e imediatos.
Se a primeira leitura fornece o estofo para a apologia liberal do mercado e do sujeito percebido como independente da sociedade e de valores supra-individuais, a segunda leitura marcou profundamente toda a reflexão crítica até nossos dias. A percepção do indivíduo moderno como suporte das ilusões da independência absoluta e da própria perfeição narcísica, quando, na verdade, realiza, sem saber, todas as virtualidades de uma razão instrumental que termina em consumismo e conformismo político, está na base de todas as variações influentes do assim chamado "marxismo ocidental". Esse termo, denominação ampla que se refere às perspectivas intelectuais que procuraram unir o impulso crítico do marxismo com a análise weberiana do racionalismo ocidental enquanto razão instrumental, foi a base de praticamente todas as concepções críticas do século 20.
Weber no Brasil
No Brasil, a influência do pensamento weberiano é dominada pela leitura liberal apologética. É de Weber que se retira a autoridade científica e a "palavra", no sentido do "nome" e não do "conceito científico", para a legitimação científica da noção central, ainda hoje, da sociologia e da ciência política brasileira: a noção de "patrimonialismo", para indicar uma suposta ação parasitária do Estado e de sua "elite" sobre a sociedade. Entre nós, no entanto, esse conceito perde qualquer contextualização histórica, fundamental no seu uso por Max Weber, e passa a designar uma espécie de "mal de origem" da atuação do Estado enquanto tal em qualquer período histórico. Em Raymundo Faoro, por exemplo, que fez dessa noção seu mote investigativo - enquanto na maioria dos intelectuais brasileiros ela é um pressuposto implícito, embora fundamental - a noção de patrimonialismo carece de qualquer precisão histórica e conceitual. Historicamente, na visão de Faoro, existiria patrimonialismo desde o Portugal medieval, onde não havia sequer a noção de "soberania popular" e, portanto, não havia a separação entre bem privado (do rei) e bem público, já que o rei e seus prepostos não podiam "roubar" o que já era dele de direito.
Em segundo lugar, no âmbito de suas generalizações sociológicas, o patrimonialismo acaba se tornando, de forma implícita, em um equivalente funcional para a mera intervenção estatal. No decorrer do livro de Faoro, o conceito de patrimonialismo perde crescentemente qualquer vínculo concreto, passando a ser substitutivo da mera noção de intervenção do Estado, seja quando este é furiosamente tributário e dilapidador, por ocasião da exploração das minas no século 18, seja quando o mesmo é benignamente interventor, quando D. João cria, no início do século 19, as pré-condições para o desenvolvimento do comércio e da economia monetária, quadruplicando a receita estatal e introduzindo inúmeras melhorias públicas.
A imprecisão contamina até a noção central de "estamento", uma suposta "elite" incrustada no Estado, que seria o suporte social do patrimonialismo. O tal "estamento" é composto, afinal, quem o suporta e fundamenta? Os juízes, o presidente, os burocratas? O que dizer do empresariado brasileiro, especialmente o paulista, que foi, no caso brasileiro, o principal beneficiário do processo de industrialização nacional financiado pelo Estado interventor desde Vargas? Ele também é parte do "estamento" estatal? Deveria ser, pois foi quem econômica e socialmente mais ganhou com o suposto "Estado patrimonial" brasileiro.
A quem interessa a idealização do mercado e a demonização do Estado?
Como fica, em vista disso, a falsa oposição entre mercado "idealizado" e Estado "corrupto"? Ora, trata-se de um conceito que se refere a todos e a ninguém e pouco ou nada esclarece. Se o potencial científico e esclarecedor dessa noção é tendencialmente nulo, o mesmo não pode ser dito de seu potencial ideológico e político. Ela "simplifica" e "distorce" a realidade social de diversas maneiras e sempre em um único sentido: aquele que simplifica e "idealiza" o mercado e subjetiviza e "demoniza" o Estado. De weberiano, pelo menos, esse processo não tem nada. Vimos que a marca da riqueza da reflexão weberiana é precisamente perceber a ambigüidade constitutiva dessas instituições fundamentais do mundo moderno e, com isso, perceber a ambigüidade imanente ao próprio racionalismo ocidental. O mercado cria riquezas com uma eficiência singular, mas produz, simultaneamente, desigualdades e injustiça social de todo tipo. O Estado pode agir das mais diversas maneiras, dependendo da correlação de forças política que esteja no controle do poder de Estado.
Como uma hipótese tão frágil, pode-se perguntar o leitor atento, conseguiu ser até hoje o conceito central da reflexão brasileira, a tal ponto que é repetido, mesmo hoje, não só pela maioria dos intelectuais, na universidade e fora dela, mas também pela mídia e pelos cidadãos comuns nos bares de esquina do Brasil afora? Se quisermos responder a essa questão "weberianamente" - o Max Weber crítico que sempre se interessou pela forma como indivíduos e classes "legitimam" seus "interesses" materiais e ideais criando "racionalizações convincentes" -, temos que perceber as necessidades e interesses que esse tipo de visão de mundo justifica. A quem interessa "demonizar" o Estado, pleitear o Estado mínimo, criticar a incipiente assistência social estatal, e, em suma, reduzir os interesses da sociedade aos interesses da reprodução do mercado?
Quaisquer que sejam os interesses em jogo, o tema do patrimonialismo, precisamente por sua aparência de "crítica radical", dramatiza um conflito aparente e falso, aquele entre mercado e Estado, sob o preço de deixar à sombra todas as contradições de uma sociedade que naturaliza desigualdades sociais abissais e um cotidiano de carência e exclusão. Na crítica deste paradigma ultrapassado e superficial, e na construção de outros mais adequados e verdadeiramente críticos, a tradição crítica que Weber também inspirou pode construir, também entre nós, uma alternativa fundamental para a auto-reflexão dos brasileiros. É de se esperar, como vemos, que as tradições que se alimentam da riqueza da obra desse pensador cada vez mais atual, ainda continuem a desempenhar, aqui e alhures, um papel nada desprezível.
Jessé de Souza é professor de sociologia da UFJF e organizador do livro A atualidade de Max Weber (Editora UNB), entre outros
fONTE: http://revistacult.uol.com.br/website/news.asp?edtCode=20E706E2-C7EC-40FD-A886-92E8D595EDB7&nwsCode=D994722C-6B25-4D99-9802-4EAF32967382
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