Sunday, November 15, 2015

Lama contaminada tem concentração de metais até 1.300.000% acima do normal

Lama contaminada tem concentração de metais até 1.300.000% acima do normal

O rompimento de duas barragens da Samarco em Mariana, na região central de Minas, começa a ganhar números que dão a dimensão da catástrofe ambiental. Amostras da enxurrada de lama que foram coletadas cerca de 300 km depois do distrito de Bento Rodrigues apontam concentrações absurdas de metais como ferro, manganês e alumínio.
A reportagem é de Enzo Menezes e publicado por R7 Notícias, 11-11-2015. 
A água coletada pelo SAAE(Serviço de Água e Esgoto) de Valadares aponta um índice de ferro 1.366.666% acima do tolerável para tratamento - um milhão e trezentos mil por cento além do recomendado, segundo relatório enviado à reportagem do R7.
Os níveis de manganês, metal tóxico, superam o tolerável em 118.000%, enquanto o alumínio estava presente com concentração 645.000% maior do que o possível para tratamento e distribuição aos moradores. As alterações foram sentidas a partir de 8h, enquanto o pico de lama tóxica ocorreu às 14h no rio Doce.
Servidores da prefeitura esclarecem que não têm condições técnicas de verificar a ocorrência de materiais pesados (como arsênio, antimônio e chumbo, normalmente presentes em rejeitos que contêm ferro), e por isso aguardam análises da Copasa e de dois laboratórios para detalhar a situação.
A quantidade de manganês presente na água em quantidade adequada para tratamento é - 0,1 mg, mas os técnicos encontraram 29,3 mg pela manhã e 118 mg (1.180 vezes acima) durante a cheia da tarde. O alumínio aparece com 0,1 mg, mas estava disponível em 13,7 mg e 64,5 mg, respectivamente (6.450 vezes superior). A concentração tolerada de ferro é 0,03 mg, mas as amostras continham 133 mg e 410 mg. O nível de turbidez regular é 1000 uT, mas chegou a 80 mil uT na passagem da enchente.
Manganês traz riscos
Segundo o chefe do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas da USP, Anthony Wong, a concentração mais preocupante é do manganês.
— É um metal tóxico que, por ser mais pesado, devia estar depositado no fundo. Pode provocar alterações nas contrações musculares, problemas ósseos, intestinais e agravar distúrbios cardíacos. O alumínio não traz riscos para a população em geral, mas nestas quantidades pode trazer riscos para diabéticos, pessoas com tumores ou problemas renais crônicos. O organismo mais ácido absorve mais alumínio. Já o ferro não é considerado tóxico.
O infectologista destaca que a Samarco já deveria ter tornado públicas as análises de qualidade da água, principalmente em relação aos metais pesados, que podem trazer consequências mais graves - já se passaram seis dias do desastre enquanto Vale e Samarco não apresentaram nenhum estudo das amostras coletadas.
— Dentro de 48 horas já deveriam ter divulgado, as equipes de socorro e sobreviventes tiveram contato [com essa água]. Metais pesados como chumbo, arsênio e antimônio costumam acompanhar o ferro, mais raramente o níquel.
A preocupação com os riscos de elementos pesados é compartilhada por Ricardo Valory, diretor geral do IBIO-AGB Doce (Instituto Bioatlântica).
— A dúvida é sobre a composição real da lama, se tem metal pesado. A Samarco afirma que não, mas de qualquer maneira temos que aguardar os laudos oficiais.
Samarco ainda não respondeu
A reportagem do R7 questionou a Samarco diversas vezes na segunda (9) e terça (10) sobre os estudos das amostras coletadas pela própria empresa e sobre os resultados do SAAE, mas ainda não obteve respostas. Em comunicados no site e em entrevistas de executivos desde o dia do rompimento, a mineradora, que é controlada pela Vale e pela BHP, reforçou que a enchente de lama não continha rejeitos tóxicos para seres humanos, apenas material inerte em compostos de areia.
Por causa destes níveis de contaminação, o tratamento de água foi suspenso em Governador Valadares há três dias e a partir de hoje pode faltar água para 800 mil habitantes em nove cidades em Minas e no Espírito Santo. A prefeitura decretou situação de calamidade pública.

Da lama ao caos: o País que não queremos

Da lama ao caos: o País que não queremos

"Entre esses Projetos de Lei, destaca-se, pelo seu conteúdo absurdo, o 654/2015, do senador Romero Jucá (PMDB-RR), segundo o qual os 'empreendimentos de infraestrutura estratégicos para o interesse nacional' (segundo o texto da proposta: rodovias, ferrovias, hidrovias, portos, aeroportos, empreendimentos de energia e quaisquer outros destinados à exploração de recursos naturais) seriam regidos por um diminuto rito de Licenciamento Ambiental. Trocando em miúdos: as obras com maior potencial de causar significativos danos socioambientais seriam justamente aquelas com menor controle e prevenção", escreve Maurício Guetta, advogado e mestre em Direito Ambiental, em artigo publicado porInstituto Socioambiental (ISA), 12-11-2015. 
Eis o artigo.
A tragédia do rompimento das barragens de rejeitos de mineração da Samarco, empresa controlada pela Vale e pela australiana BHP Billiton, deixa exposta a ferida brasileira sobre os descaminhos políticos que vivemos, principalmente em relação a questões socioambientais.
Mortes de um (ainda) sem número de pessoas, uma cidade inteira destruída, fauna e flora dizimadas, rios estéreis, desabastecimento público de água e outros tantos danos irreparáveis poderiam e deveriam ter sido evitados. A tônica sempre latente no Brasil é a da insuficiência de planejamento e de prevenção, além do desrespeito aos direitos dos vulneráveis, invisíveis aos olhos do Estado, refletindo o descaso do Poder Público e das empresas exploradoras de recursos naturais com a mais relevante orientação constitucional em relação ao Direito Socioambiental: sendo os danos socioambientais de impossível ou difícil reparação, geralmente com drásticas e duradouras consequências para a população e o equilíbrio ecológico, é preciso sempre adotar práticas de prevenção destinadas a antecipá-los e, com isso, evitá-los.
Por uma trágica coincidência, foi ao final do seminário “Licenciamento Ambiental: realidade e perspectivas”, realizado, na semana passada, pelo ISA e o Ministério Público Federal, que recebemos a triste notícia sobre este que certamente é um dos maiores – senão o maior – desastre ambiental da história recente brasileira. A mais contundente lição extraída das exposições de 23 especialistas no evento foi uníssona: o Licenciamento Ambiental, principal instrumento da Política Nacional de Meio Ambiental, é uma conquista do povo brasileiro e deve ser aprimorado. Apesar disso, para atender à malsinada “Agenda Brasil” – conjunto de propostas supostamente destinadas a tirar o País da crise econômica – tramitam no Congresso 19 Projetos de Lei com o objetivo de alterar a legislação sobre o tema, sendo a sua grande maioria destinada a simplificar o licenciamento. Segundo esta lógica perversa, o meio ambiente e as populações afetadas nada mais seriam do que meros entraves ao desenvolvimento.
Entre esses Projetos de Lei, destaca-se, pelo seu conteúdo absurdo, o 654/2015, do senador Romero Jucá (PMDB-RR), segundo o qual os “empreendimentos de infraestrutura estratégicos para o interesse nacional” (segundo o texto da proposta: rodovias, ferrovias, hidrovias, portos, aeroportos, empreendimentos de energia e quaisquer outros destinados à exploração de recursos naturais) seriam regidos por um diminuto rito de Licenciamento Ambiental.
Trocando em miúdos: as obras com maior potencial de causar significativos danos socioambientais seriam justamente aquelas com menor controle e prevenção. O que não se percebe é que o aperfeiçoamento – e não o desmantelamento – dos instrumentos de prevenção de danos seria altamente benéfico não apenas ao meio ambiente e às populações afetadas por empreendimentos potencialmente poluidores, mas também ao empresariado, que teria maior segurança jurídica e econômica para operar, além de ver reduzidos os conflitos e demandas a que tem de responder, inclusive judicialmente.
Será que a tragédia que observamos hoje nos Estados de Minas Gerais e do Espírito Santo trarão lições aos governantes e legisladores? Infelizmente, não há nenhum sinal nesse sentido. Apesar da magnitude do desastre, nem a presidente Dilma Rousseff, nem Izabella Teixeira ou Eduardo Braga, ministros de Meio Ambiente e de Minas e Energia, levantaram-se de suas poltronas para ir à região impactada, ou apresentar um plano emergencial. Omissão que não surpreende. Aliás, interessante notar que o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, não teve qualquer pudor ao realizar uma coletiva de imprensa na sede da própria Samarco. Vale anotar que o próprio governador é autor do Projeto de Lei Estadual n.º 2.946/2015, que igualmente pretende flexibilizar as regras do Licenciamento Ambientalem seu Estado. Nada mais comum no País em que interesse público e interesse privado andam sempre de mãos dadas.
Na política, nada é por acaso. Para garantir sua influência nos rumos das decisões públicas, a Vale financiou as campanhas eleitorais tanto de Dilma Rousseff como de Aécio Neves. Financiou também a candidatura de Fernando Pimentel, além de parlamentares. A influência diária de grandes empresas nas decisões políticas se escancara quando constatamos que as bancadas legislativas são classificadas não pela linha ideológica que defendem, mas pelo setor empresarial para quem advogam (da mineração, dos bancos, da agropecuária, da construção civil…). Trata-se do oposto ao que deveria ocorrer num regime verdadeiramente democrático.
Daí o Projeto de Lei n.º 37/2011, que pretende instituir o novo Código de Mineração, ter como relator o deputado federalLeonardo Quintão (PMDB-MG), que teve cerca de 40 % de sua campanha eleitoral financiada por mineradoras. A proposta, vale registrar, não traz qualquer medida preventiva ou protetiva ao meio ambiente e às populações afetadas, como vem denunciando o Comitê em Defesa dos Territórios Frente à Mineração.
Tivessem sido prevenidos, não seria necessário reparar os danos decorrentes da lama que levou caos a dois estados. Isto, claro, se tais danos forem, de fato, passíveis de reparação. De um modo ou de outro, o fato é que a Samarco e suas controladoras, Vale e BHP Billiton, poderão ser responsabilizadas nas três esferas de responsabilidade, como preconiza o artigo 225, § 3.º, da Constituição.
No âmbito civil, de índole eminentemente preventiva e reparatória, não haverá como fugir de uma dura condenação. É que, devido à relevância essencial do meio ambiente para toda a coletividade, a legislação impõe ao poluidor o dever dereparação integral dos danos independente da existência de culpa ou dolo, inclusive em casos de força maior ou caso fortuito. Isso vale tanto para os danos ambientais de natureza difusa e coletiva, como para os danos individuais, sofridos pelas pessoas afetadas.
Tremor de terra nenhum seria capaz de livrar a empresa do dever de reparar. Na esfera administrativa, além da suspensão das atividades da empresa determinadas pela Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais, ainda poderão ser aplicadas outras sanções, que vão desde multas milionárias até o encerramento definitivo das atividades. Por fim, é igualmente possível uma eventual condenação penal, visto que as ações e/ou omissões da empresa poderiam ser enquadradas em dispositivos da Lei n.º 9.605/1998, conhecida como Lei de Crimes Ambientais.
Um País que desconsidera o planejamento e a prevenção necessários para evitar danos socioambientais como aqueles decorrentes do rompimento das barragens da Samarco, aliado ao cenário de graves retrocessos em sua legislação ambiental, é justamente o País que não queremos. Estamos trilhando um caminho perigoso. E pode não ter volta.

A reforma da Igreja e os “sofrimentos apostólicos” do Papa Francisco. Entrevista com Godfried Daneels

A reforma da Igreja e os “sofrimentos apostólicos” do Papa Francisco. Entrevista com Godfried Daneels

A “barca de Pedro” está atravessando águas de um tempo muito singular, impulsionada por ventos primaveris, mas também sacudida por correntes geladas e povoadas de um novo conformismo. Até mesmo os beneficiários de documentos roubados tentam ganhar dinheiro com suas mercadorias traficadas apresentando-se como defensores da “reforma desejada por Francisco”. É possível confundir-se. E neste caso poderia ser útil recordar algumas coordenadas proporcionadas pelo cardeal Godfried Daneels, arcebispo emérito de Malinas-Bruxelas. Suas palavras são neutras e, como sempre, não são necessariamente óbvias.
A entrevista é de Gianni Valente e publicada por Vatican Insider, 13-11-2015. A tradução é de André Langer.
Eis a entrevista.
Jozef De Kesel é o novo arcebispo de Malinas-Bruxelas. Você o conhece bem. Qual é o seu perfil humano e pastoral?
Jozef De Kesel é um bom teólogo, que coloca a Igreja no meio da sociedade. Ele tem uma visão da Igreja: uma Igreja para o mundo, absolutamente mergulhada na cultura. É um homem muito humilde e amável no trato. Quer curar e santificar em primeiro lugar as almas. Sempre pensa primeiro nas almas e depois nas estruturas. Reflete e pondera muito as coisas antes de tomar uma decisão.
O que acha dos critérios que o Papa Francisco seguiu na nomeação dos bispos?
O Papa dá uma prioridade à alma e à vida espiritual. A pastoral precede todo o resto. Por isso, dá sua preferência ao perfil pastoral e não ao perfil do professor. E manifesta também a predileção pelos pobres. Tenho a impressão de que é muito independente da cúria, inclusive nas nomeações. Demonstra certa autonomia em suas decisões.
Há alguns que estão começando a dizer que a salvação do catolicismo pode vir somente das Igrejas africanas, “saudáveis” e doutrinariamente robustas, em comparação com as “decadentes” Igrejas ocidentais. A começar por vocês, belgas.
Alguns bispos africanos nos dizem: vocês são uns pagãos. Vocês acabaram com tudo. Mas eu lembro que a Bélgicatinha muitas vocações, foram construídos grandes seminários e noviciados, até os anos 1960. As famílias cristãs faziam de tudo para transmitir aos filhos o sentido de pertença à Igreja. Mas depois viam que a fé se apagava nos filhos, aos 17 ou 20 anos. E para eles era uma ferida, um sofrimento muito grande. Pode-se dizer que era culpa sua, que os pais não eram bons cristãos? Não, as coisas não funcionam assim. Tornar-se cristão e perseverar na fé continua sendo um mistério, e não é o efeito de algum mecanismo educativo ou sociológico. E então penso que os discursos sobre as “Igrejas robustas” que deveriam salvar o resto do catolicismo servem, sobretudo, para fazer operações de política eclesiástica. Surpreende a abstração destes discursos.
Quais?
As Igrejas europeias foram avassaladas por fenômenos de secularização que produziram um aumento do individualismo. Mas, o mesmo individualismo, em um futuro mais ou menos próximo, poderia chegar à África: esse fenômeno que leva as pessoas a pensarem em si mesmas como indivíduos e não apenas como membros de um grupo, de uma comunidade ou de uma massa. É possível que esta crise que tivemos chegue também ali, com tudo o que isso implica. Pode ser que um dia a África também vá viver uma situação semelhante à nossa. E então, talvez, nos chamarão para saber o que foi que nós fizemos. Para que lhes demos alguns conselhos.
E você, que conselhos daria?
Eu sempre reconheci que talvez Deus nos conduziu para uma espécie de novo “exílio babilônico”, para nos ensinar a ser mais humildes e experimentar que a Igreja pode viver e crescer apenas pela força e a Graça de Cristo. Então, sempre aconselhei a todos para que se cuidem de qualquer forma de triunfalismo ou de pretensão de autossuficiência. Aqueles que acreditam estar de pé, que se cuidem para não cair.
Com o chamado caso Vatileaks 2.0 surgiu novamente no debate público a expressão “reforma da Igreja”. Os meios de comunicação apresentam-na como uma espécie de reestruturação para que o ambiente eclesial seja mais “apresentável” segundo critérios mundanos. Mas, qual é a razão e o objetivo da reforma da Igreja?
A reforma só pode resultar do desejo de que a luz de Cristo brilhe com maior transparência sobre o rosto da Igreja. Por isso, é preciso fazer o que seja possível, incluindo a reforma das leis e das instituições, para simplificar a vida cristã de todos os fiéis. Sempre me lembro da simples constatação de Yves Congar: “As reformas bem sucedidas na Igreja são aquelas que se fazem em função das necessidades concretas das almas”.
Mas a reforma das estruturas não é secundária em relação ao anúncio e a conversão dos corações?
A Igreja é um instrumento nas mãos de Cristo. Então, em certo sentido, toda a Igreja, enquanto instrumento, é secundária, e pode ser mudada e reformada para desempenhar melhor sua função. Portanto, a necessidade de mudar e de reformar as coisas faz parte da própria natureza da Igreja. “Ecclesia semper reformanda”.
Quais são os critérios e as condições para reconhecer e levar adiante uma reforma da Igreja autêntica do ponto de vista eclesial, sem que esteja contagiada pelo funcionalismo?
O único critério é a salvação das almas: favorecer a vida de fé e a salvação de todos deveria ser o critério vinculante para julgar qualquer mudança, incluindo os modos de exercício da autoridade na Igreja. A Igreja é para os homens e não os homens para a Igreja. Por isso, uma condição para uma verdadeira reforma é a paciência. A Igreja não pode ser reformada mediante revoluções, mas por meio de processos orgânicos. Não há mudanças bruscas e violentas, não há separações. O Papa Francisco também repete que os processos requerem tempo, em vez de pensar em resolver os problemas ocupando espaços de poder.
No passado, você assinalou que a relação com os órgãos centrais da Igreja pode converter-se em algo pesado para os bispos locais. Continua sendo o caso?
Durante muito tempo, nós nos vimos inundados por documentos longuíssimos, instruções e orientações. Uma saraivada de pronunciamentos que sempre assumem um caráter normativo, dado que provém dos dicastérios romanos. Convém favorecer uma simplificação. Ter um momento de calma.
O debate sobre a colegialidade é muitas vezes interpretado com a categoria mundana da democracia.
A sinodalidade não é uma questão de equilíbrio de poderes. Tem um valor teológico. Não se trata de diminuir a influência do Papa ou dos demais bispos, beneficiando um ou outro. Felizmente, o Sínodo está começando a ser um lugar de debate real, onde é possível uma discussão livre e responsável, respeitando as prerrogativas do Papa.
Falando do Papa, alguns destacaram o “gigantismo papal” como uma distorção que marcou as épocas recentes da Igreja. E pedem para corrigir a imagem do Papa como um “super-bispo”, cuja diocese coincide com o mundo inteiro. Você concorda com isso?
O que não se pode mudar é a vontade de Cristo referente à Igreja, ou seja, o fato de que o Papa é o Sucessor de Pedroe possui o primado. Historicamente, o exercício do primado foi exercido de forma diversa. Não podemos planejar o que vai acontecer no terceiro milênio. Mas, na minha opinião, é sempre útil insistir nas características do ministério petrino.
Quais destas características vale a pena sublinhar tendo em conta a situação atual?
O Papa é, em primeiro lugar, Bispo de Roma. Exerce o seu primado sem deixar de ser bispo de sua diocese. E o atualPontífice vem insistindo neste ponto desde a primeira vez que apareceu como Papa diante da multidão na Praça São Pedro. O enorme volume de compromissos que precisa assumir faz com que seja difícil acompanhar a própria diocese no dia a dia. Mas esta continua sendo essencial e novas formas precisam ser encontradas: servir a Igreja universal, sendo o Bispo de Roma.
No passado, você aplicou ao trabalho dos pastores de hoje a fórmula da “thlipsis”, a “pressão” à qual são submetidos os Apóstolos, já usada por São Paulo. Certos ataques e certas acusações que o Papa Francisco sofreu pertencem a esta categoria?
A palavra “thlipsis” indica os sofrimentos apostólicos de que fala São Paulo. Quando um homem é verdadeiramente evangélico, e não pensa em si mesmo, sempre acaba sofrendo a “thlipsis”. Não se pode ser um verdadeiro apóstolo de Cristo sem que se dê esta prova. E isto vale também para o Papa Francisco.
Mas, o que é concretamente a “thlipsis” apostólica?
São Paulo, quando algo não saía bem na sua missão, pensava que era culpa sua. Diante de algo que não funciona, diante dos acidentes e dos fracassos, a pessoa pode pensar: é minha culpa, errei, deveria ter feito isto, ou com outra metodologia. Mas depois, em certas situações, a pessoa se dá conta de que os próprios erros e pecados não explicam tudo. “Oderunt me gratis”, diz o salmo. Odiaram-me sem motivo. Não tinham motivos para odiar Jesus. Da mesma maneira, creio que, mesmo sendo o testemunho do Papa Francisco claro, não significa que tudo teria que sair perfeito. Talvez o ódio se desencadeasse mais ainda. Sem motivo.

“Em Roma, há hierarcas que têm muito medo do Papa Francisco”. Artigo de José Maria Castillo

“Em Roma, há hierarcas que têm muito medo do Papa Francisco”. Artigo de José Maria Castillo

“Seguramente, muitas pessoas não conseguem imaginar a atualidade de tudo isso. Agora se diz, em todo o mundo, que importantes “mandachuvas” da cúria romana não toleram o Papa Francisco. E a história se repete. Assim, nos encontramos diante de uma situação que se parece (mais do que alguns suspeitam) com aquela que ocorreu na vida de Jesus.”
A reflexão é do teólogo espanhol José María Castillo, e publicada por Religión Digital, 13-11-2015. A tradução é deAndré Langer.
Eis o artigo.
Os Evangelhos nos dizem, repetidas vezes, que as pessoas que exerciam o máximo poder na sociedade judaica do tempo de Jesus, tinham medo (Mc 11,18; 12,12; Mt 14,5; 21,26.46; Lc 20,19; 22,2). Concretizando mais, aqueles que tinham medo eram os “sumos sacerdotes”, os “senadores” (“anciãos”) e os “escribas” ou mestres da Lei (Mt 21, 26. 46; Lc 20, 19; Mc 11, 18; Lc 22, 2). Ou seja, os assustados eram os homens do poder, aqueles que mandavam naquela sociedade.
E de quem tinham medo? Simplesmente do “povo” (Mc 11,18; Mt 21,26; Lc 20,6, etc.). Ou seja (segundo a expressão que os Evangelhos usam), aqueles que mandavam tinham medo do “óchlos”, da “multidão”, do povo simples, de condição modesta, aqueles que eram considerados ignorantes e até malditos (Jo 7,48). Dito com poucas palavras: os mais poderosos, entendidos e privilegiados tinham medo dos fracos, dos ignorantes e daqueles que eram vistos como gente indesejável.
Tudo isso é ainda mais estranho se considerarmos que aqueles governantes assustados não eram apenas governantes civis, mas, além disso, governantes também religiosos. Ou seja, concentravam todo o poder, toda a riqueza e todos os privilégios.
Então, por que tinham medo? Há uma diferença fundamental entre os governantes de agora e os daquela época. Agora, a diferença entre o poder civil e o poder religioso é suficientemente clara e bem delimitada. No tempo de Jesus – e concretamente na Palestina – o poder que mandava era, sobretudo, o poder “religioso”, o poder do Sinédrio. Os romanos encarregavam-se de modo especial das tarefas de impor a ordem civil e cobrar os impostos. Sendo assim, os “homens da religião” não queriam, de modo algum, dar pretexto para que houvesse tumultos populares. Porque Romanão o tolerava. Por isso, o Sinédrio decidiu finalmente que teria que matar Jesus (Jo 11,47-53).
Seguramente, muitas pessoas não conseguem imaginar a atualidade de tudo isso. Agora se diz, em todo o mundo, que importantes “mandachuvas” da cúria romana não toleram o Papa Francisco. E a história se repete. Assim, nos encontramos diante de uma situação que se parece (mais do que alguns suspeitam) com aquela que ocorreu na vida de Jesus. Por que alguns cardeais se afanam agora dizendo em público que eles não são contra o Papa Francisco? Independentemente de se é verdade ou não o que esses eminentes cardeais estão dizendo, não há dúvida de que emRoma (e fora de Roma) há hierarcas que têm medo, talvez muito medo.
Medo de quem? Dos pobres, dos doentes, dos anciãos, das multidões que aclamam Francisco por onde ele passa. E por que esse medo? Porque o poder religioso não se impõe pela “coação”. A força do poder religioso está na “sedução”. Jesus seduzia os sofredores pelo motivo que fosse. Os cardeais, por mais caudas e roupagens que vestirem, não atraem ninguém. E o fato claro, ao qual estamos assistindo, é que em Francisco deixa transparecer a presença de Jesus. Nos cardeais que fazem intrigas às escondidas, o que e quem deixam transparecer? Vamos ficar por aí.

Os atentados da sexta-feira 13 em Paris: a desinformação da mídia aberta reforça a hipocrisia do Sistema Internacional

Os atentados da sexta-feira 13 em Paris: a desinformação da mídia aberta reforça a hipocrisia do Sistema Internacional

"Qualquer pessoa que estude o conceito de taifyya – o comunalismo sectário baseado em clãs que formam tribos e são unificados por identidades comuns comandadas por homens dando como base no patriarcado ancestral da região – sabe que fora do Confederalismo Democrático não há realmente nenhuma saída para a região. E também sabe que a armadilha de sempre é tentar reproduzir o conceito abstrato de Estado-nação no Oriente Médio", escreve Bruno Lima Rocha, professor de ciência política e de relações internacionais, ao analisar a cobertura da chacina de Paris pela mídia aberta.
Eis o artigo.
Paris, sexta-feira 13 de novembro de 2015 e o quadro do horror. A demência jihadista sunita, depois assumida peloEstado Islâmico (ISIS), realiza quatro atentados simultâneos, incluindo a boate Bataclan e o Stade de France, onde se realizava um amistoso entre as seleções de futebol profissional de França e Alemanha. O total de mortos fechou em 129 e nada justifica essa ação de terror indiscriminado, assim como nada justifica o acionar de bombas em Beirute, o atentado contra o avião civil russo e outras barbaridades cometidas por este grupo e similares concorrentes da rede rivalAl Qaeda.
Os atentados de Paris, sexta feira 13 de novembro, reforçam a idéia de que a única saída para o Oriente Médio e os povos da região é o Confederalismo Democrático. Fora disso só resta demência jihadista, salafismo e o também nefasto chauvinismo de todos os matizes, além da teocracia iraniana e seus aliados regionais, todos apoiados pelaRússia. Os ataques de Paris reforçam a denúncia perene e o embate: “Quem são os terroristas?!” Os hipócritas daAliança do Tratado do Atlântico Norte (Otan, aliança militar herdeira da Guerra Fria e comandada por EUA e Inglaterra) ousam denominar o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) como terrorista! Isto é um absurdo intolerável e é fácil de provar que é todo o contrário. Só se espera - sincera e honestamente- que a resposta do Estado francês não venha a criminalizar aos mais de seis milhões de franceses com descendência árabe e outros milhões de afro-descendentes com credo islâmico e com cidadania francesa. Também cabe nesta Introdução reforçar que os aliados dos EUA na região como Arábia Saudita, Omã, Kuwait, Qatar e Emirados Árabes Unidos (EAU) apoiam as redes doISIS e da Al Qaeda e nada sofre de retaliações ou punições do Sistema Internacional.
Neste texto que segue procuro expor as falhas de cobertura da mídia brasileira e a ausência da relação causal mais importante, se não para a existência de ISIS e Al Qaeda, ao menos para seu amplo funcionamento e sua capacidade operacional.
A mídia aberta brasileira repete a desinformação da CNN
O Jornal da Globo de sexta-feira 13, logo após  o término do jogo entre Argentina e Brasil  em Buenos Aires foi uma aula de desinformação. O âncora do telejornal, William Waack, tem formação também em relações internacionais e costuma ser mais ponderado quando está  na Globonews. Em mídia aberta, este âncora que além de jornalista é professor de RI e tem certa erudição, deixou vazar o cacoete ideológico que grita com intenções discutíveis.
Ele, Waack, insistiu em falar de choque de civilizações, várias vezes. As teses de Samuel P. Huntington são desmontadas já no primeiro semestre desta instituição e em toda linha crítica de estudos tanto de segurança como de Oriente Médio. Não contente com este desserviço houve também o reforço das medidas da Guerra ao Terror (GWOT, General War on Terror, uma política de Estado dos EUA recheada de ilegalidades e que tem como símbolo a prisão deGuantánamo) como “saída” para este confronto. Para piorar os enunciados, erroneamente fala em terror islâmico – sequer assumindo o Islã político em sua versão sunita - e não utiliza o termo apropriado, de integrismo sunita através de redes terroristas. Não se trata aqui de exigir erudição acadêmica em rede nacional, mas justamente combater os efeitos nefastos da desinformação.  
Não para por aí a desinformação.  Na sexta 13 de novembro o ISIS sofreu uma grande derrota na frente do Curdistão iraquiano. O guarda-chuva do PKK através do HPG, YBS e YPG recuperou um importante cantão e lugar de maioria yázidi. Hipocritamente a CNN anunciou a “vitória dos curdos” – o que não é verdade absoluta – aqui no Brasil repetiram tudo de novo.
Em diálogo televisivo entre o professor de RI William Waack e ocorrespondente em Nova York (NYC), Jorge Pontual, o segundo teve a "capacidade" de afirmar que "os Peshmergas tomaram Shingal!". Peshmergas é o apelido das tropas semi-profissionais do Governo Regional Curdo (KRG), comandado pelo corrupto clã dos Barzani e homem de confiança tanto de Israel como das empresas petrolíferas. Estas forças simplesmente abandonaram os yázidis à sua própria sorte e teve depois a derrota política de ver esta comunidade étnico-cultural aliar-se ao PKK e passar a adotar o mesmo sistema político de Rojava.
Sinceramente não me furto à crítica. É este tipo de hipocrisia, este ato de desinformar baseado nos informes monitorados pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos que faz a alegria dos serviços de inteligência sauditas e turcos, os financiadores da demência sunita-jihadista. Para um país como o Brasil, com mais de 12 milhões de árabe-descendentes (dentre os quais me incluo), desinformar é uma intenção de projetar poder e uma perspectiva equivocada de mundo.
Quem financia o jihadismo sunita? Os países de credo wahhabita e com ligações entre suas elites dirigentes e os controladores das redes integristas; o papel da Rússia e a hipocrisia do G-20
Este tópico tem toda relação com o anterior. Sem apontar as fontes de financiamento e suporte material, é impossível apontar as causas ou combater o fenômeno. A lógica é relativamente simples e moralmente indefensável. O wahhabismo sunita é financiado pelos países produtores de petróleo que combatem a esquerda na região e são aliados das potências ocidentais. Já as potências ocidentais promovem a suposta "guerra ao Terror”, mas, não punem quem financia as redes supostamente combatidas pelas potências.
Vítimas da desinformação as populações europeias podem embarcar na onda da extrema direita e a islamofobia.
Aqui no Brasil a mídia desinforma operando como reprodutora da tese furada do choque de civilizações. Já a ex-esquerda ainda de corte estalinista ou baseada em um realismo a todo custo, faz coro com a Rússia e defende a teocracia xiita iraniana e o carcomido governo Assad na Síria (ou o que restara desta invenção francesa). Operando como alternativa viável e politicamente revolucionária, a macro proposta do PKK termina por sofrer de ocultamento forçado. Qualquer pessoa que estude o conceito de taifyya – o comunalismo sectário baseado em clãs que formam tribos e são unificados por identidades comuns comandadas por homens dando como base no patriarcado ancestral da região – sabe que fora do Confederalismo Democrático não há realmente nenhuma saída para a região. E também sabe que a armadilha de sempre é tentar reproduzir o conceito abstrato de Estado-nação no Oriente Médio.
O PKK fica inviabilizado em seu combate ferrenho e vitorioso contra o ISIS porque a OTAN precisa do governo do KRG – repito, da direita curda através do partido oligárquico KDP -,  uma grande plataforma de petróleo além de operar como cabeça de ponte de Israel. O problema é que o clã Barzani (do presidente que jamais fora eleito Massoud Barzani) não quer nada com a luta antiintegrista e  menos ainda com a defesa dos yázidis. É importante ressaltar que no panorama da guerra ampliada do Levante e da Mesopotâmia (Síria e Iraque), Agora, por sorte, Shingal foi liberado por forças conjuntas coordenadas pelo PKK e vai avançar o modo de auto-governo do TEV-Dem (democracia direta, igualdade de gêneros e economia cooperativada). Vitórias assim aumentam a urgência de intervenção das potências ocidentais na região,  ainda mais depois da sexta-feira 13 de novembro em Paris.
O fato é que se a OTAN quisesse realmente fazer a sua parte precisaria congelar as contas suspeitas de emires e sheiks e fazer retaliações contra os Estados do Golfo. Este mecanismo – de como estes recursos são compensados e como giram através de contas indiretas me comprometo a explicar em detalhes em textos posteriores. Mas, reforço que é isso ou nada. Do contrário, é tudo um faz de conta e agora uma corrida bélica contra e coordenada com a aliança Rússia-Irã. Se a OTAN insistir em derrubar o governo Assad primeiro, não vai conseguir nada além de fortalecer a Al Nusra (filial da Al Qaeda na Síria), concorrente direta do ISIS.
Já quanto ao papel da Rússia e do Irã, acredito que ambos vão bancar o governo Assad até porque por ali tem um sopro de "legalidade", pois a Rússia está intervindo através de um pedido formal de Damasco. Mas, insisto, a comparação com a Guerra Civil Espanhola é perfeita, e Rojava e Shingal são a Catalunha e a Aragón desta guerra. A diferença - positiva - é a dimensão do PKK, e sua reserva estratégica em Qandil (cantão do Curdistão iraquiano que opera como santuário da esquerda). Pelas condições da região, realmente acredito que o guarda-chuva do KCK-PKK vai se fortalecer e organizar de forma autônoma e dentro de um acordo "constitucional" federalista, com amplos territórios na antiga Síria e no praticamente extinto Estado do Iraque. Hoje eles já organizam Rojava (três cantões), Shingal e Qandil(Iraque) e fazem duplo poder no Sudoeste da Turquia. O processo avança mas daqui de longe a gente não dimensiona porque por um lado a grande mídia mente e omite e, por outro, as bases teóricas da RI hegemônica não habilitam a interpretação correta das realidades.
A hipocrisia sem tréguas ocorria – e ocorre - simultaneamente a chacina de Paris e suas consequências.  Enquanto o G-20 se reúne no balneário de Antália, na costa Mediterrânea da Turquia (ao sul do Estado kemalista) e faz declarações de "combate ao terrorismo", o país membro da OTAN e detentor do segundo maior contingente militar profissional dentre os Estados desta Aliança trama suas redes de inteligência e segurança interna com o Estado Islâmico (ISIS). Simultaneamente, em rede nacional e aberta, as televisões brasileiras repetem de forma acrítica a versão do governo deRecep Erdogan dizendo que os atentados recentes contra "turcos" foi uma obra da infiltração jihadista e não, como já foi comprovado, uma ação coordenada pelos conspiradores militares turcos, a ala de segurança do AKP e sim, militantes doISIS de nacionalidade turca ou síria.
Foram dois atentados empurrando o país rumo à guerra civil, rompendo a trégua com o PKK e ganhando as eleições para o AKP com os votos da direita militar (MHP, que migraram para o AKP). Isso é tão óbvio que soam como absurdas as versões dadas por William Waack e Demétrio Magnolli a respeito. O problema da desinformação é sua consequência. Por mais que possamos desmascarar estas versões em redes de internet e no meio acadêmico, para o grande público receptor esta prevalece.
Se houvesse a circulação de informes factualmente corretos a hegemonia no pensamento das RI e mesmo na esquerda internacional já teria se transformado. Isto porque, de fato, quem combate às forças integristas sunitas no solo da Grande Síria é a esquerda do Curdistão coordenada pelo YPG-PKK. Quem combate às forças integristas sunitas no solo do antigo Iraque é a esquerda do Curdistão coordenada pelo PKK-YBS. A primeira linha desta infantaria ligeira e semi-motorizada é composta pela força das mulheres no YPJ e YJA Star. Todo o resto é desinformação ou amoralidade geopolítica.

Militares, ciências, Educação Popular.

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