Sunday, November 27, 2016

Um cinema para descolonizar o vitimismo humanitário

Um cinema para descolonizar o vitimismo humanitário

Por Miguel Mellino e Giuseppe Orlandini, no Decolonizing Knowledge, 1/3/2016 | Trad. Bruno Cava, UniNômade
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Resenha de Fogo no mar (dir. Gianfranco Rosi, Itália, 2016)
A representação das imigrações no cinema italiano continua bastante problemática. O último exemplo dessa longa história de “repetições sem diferenças”, para parafrasear uma conhecida expressão de Deleuze, é o filmeFogo no mar, do diretor Gianfranco Rosi, que venceu o Urso de Ouro e o prêmio do júri da Anistia Internacional, no festival de Berlim. Não é por acaso que tenha vencido justamente em Berlim, dada a ordem do discurso com caráter de emergência que vem sendo imposta à dita “crise dos refugiados”, que continua a dominar a conjuntura política europeia. O filme-documentário de Rosi foi recebido positivamente não somente por boa parte da opinião pública sensível à questão, como também em âmbitos mais ou menos especializados da pesquisa teórica e prática sobre o fenômeno das migrações. Mas parece realmente difícil ver a narrativa de Fogo no mar como diferente do festival de vitimologia, de bons sentimentos e paternalismos humanitários, com que desde os anos 80 o cinema italiano codifica a experiência do imigrante e a relação entre a sociedade italiana e esse fenômeno.
Humanitarismo e cinema implicado
Digamos de uma vez que o filme de Rosi (construído como olhar documentarista sobre o seu próprio objeto) nos parece em perfeita sintonia com o regime discursivo institucional pelo qual se tentou remodelar, pelo menos num primeiro momento, do verão passado em diante, a gestão europeia e italiana das imigrações. Trata-se de uma nova enunciação do discurso humanitário, que apareceu como resposta de governo quer à imponente série de naufrágios de imigrantes “ilegalizados” no Mediterrâneo, quer à “crise” da gestão das políticas imigratórias da União Europeia, desencadeada no próprio território europeu devido ao movimento de milhões de “requerentes de asilo” que estão em fuga da Síria e de outras zonas de guerra. Está claro, contudo, que essa nova construção humanitária da crise deve ser ainda considerada como um elemento totalmente interno e necessário ao funcionamento do regime europeu de controle (militar, policial e carcerário) das fronteiras e das migrações. Sabemos que, desde os anos 90, o discurso humanitário (nas suas múltiplas traduções no business do acolhimento) e o arame farpado (em todas as suas dimensões materiais e simbólicas) fazem parte de um único e mesmo dispositivo de governo das imigrações, a mão esquerda e a mão direita do Estado, para dizê-lo com Bourdieu.
O grau zero desse novo momento humanitário pode ser bem representado pelo conhecido plano de Angela Merkel, apresentado no último verão, na sequência da grande repercussão midiática da foto de Aylan, o menino sírio morto afogado, e da abertura momentânea da Alemanha e de outros países europeus aos pedidos de asilo por parte de imigrantes em fuga, bem como à proposta de revisão, ainda que efêmera, da Convenção de Dublin. A partir desse momento, o regime de representação institucional/midiático cada vez mais ficou marcado pelo que podemos chamar de “discurso do resgate”, ou seja, a codificação dos imigrantes cada vez mais como “refugiados” (favorecendo assim uma ulterior estigmatização dos imigrantes econômicos, que estão inteiramente excluídos dessa classificação), sobretudo enquanto vítimas ou corpos a ser salvos, ajudados, protegidos porque sofredores e necessitados da nossa compaixão, visando à sua re-humanização. Neste ponto, é preciso ressaltar que esse discurso salvacionista começou a emborcar no arco de tempo que vai do massacre de 13 de novembro de 2015 na boate Bataclan, em Paris, aos misteriosos fatos da noite de ano novo em Colônia, na Alemanha, seguidos da codificação racista em ambos os casos, produzida pelas mídias e posteriormente reforçada pelos posicionamentos oficiais assumidos por muitos governos europeus. Daí por diante, assistimos cada vez mais à construção do imigrante-refugiado como inimigo público e sujeito perigoso, desta vez na roupagem do predador do welfare, do cidadão “binacional”, potencialmente desleal, do potencial estuprador ou terrorista islâmico, do estrangeiro culturalmente inassimilável.
A representação da experiência imigratória de Fogo no mar nos parece uma engrenagem interna a esse processo de significação, ou seja, uma produção de sentido somente enquanto fragmento do discurso humanitário. As suas estruturas do sentir implicam capacidades interpeladoras (de mobilizações subjetivas) que, por sinal, afundam raízes num persistente inconsciente colonial europeu. Pensa-se aqui na codificação dos desembarques proposta pelo filme, cuja colocação em cena parece inteiramente interna à lógica vitimizante e dessubjetivante da atual razão humanitária de governo, que está fundada no sofrimento e na compaixão. No clima de uma humanidade piegas, de bons sentimentos nauseantes e de uma virginal simplicidade provinciana, a partir do que se constrói a Lampedusa do filme, os imigrantes aparecem como “humanos” e os lampedusanos como pessoas boas e simples, para não dizer inofensivas — temos aqui em mente a cena do jogo de futebol entre imigrantes internos a um presumido Centro di Identificazione, — sobretudo porque são vítimas desamparadas de formas “inenarráveis” de violência. Desse ponto de vista, o filme se compraz num gozo necropolítico, quase mórbido, do imigrante-vítima-objeto-cadáver, — na maior parte dos casos, rigorosamente negros — que amiúde está radicado num certo tipo de imaginário (midiático-cultural-político) coletivo, concentrado sobre um novo delírio maniqueísta. De um lado, a consciência moral, os “emancipadores” (aqueles em condições de conduzir ativamente o resgate), de outro lado, os novos escravos, os “submersos” a ser representados (sujeitos-assujeitados já na sala de espera da história).
É particularmente grotesca — porque impregnada de uma infantilização paroquial e colonial — a cena em que a câmera pede aos imigrantes que contem suas histórias e cantem ao som de rap as violências sofridas, enquadrando-os no lugar de enunciação. Aqui, não somente se ativa o habitual dispositivo narrativo-pastoral (e racista) do tipo: “venham contar o seu sofrimento, Eu o difundirei e serei a voz e consciência de vocês”, mas o próprio relato subtraído dos imigrantes não serve para outra coisa senão reforçar um dos principais enunciados da ordem do discurso humanitário: a violência nos é “narrada” como qualquer coisa de distante e separada de nós (da Europa e de sua responsabilidade), como tendo a ver somente com lugares distantes, a Líbia, o Sudão, a Síria, a África como um todo, o ISIS, ou seja, com nomes que terminam por aparecer como os “únicos” significantes maus do filme, e que a seguir se inscrevem naquele imaginário orientalista e colonial que sempre conota esses territórios como escuros, incivilizados, afligidos por violências endêmicas e “tribais”. Como o discurso humanitário de nossos dias, o filme constrói os “refugiados” enquanto produtos de uma catástrofe natural, como o resultado de um processo totalmente externo ao sujeito enunciante (europeu). Tentemos ser claros aqui: não que o canto da própria exploração ou miséria seja, por si próprio, privado de força ou autonomia subjetiva, não, a história dos sujeitos oprimidos (escravos, índios, proletários, negros, favelados etc) nos diz exatamente o contrário. O problema aqui é o enquadramento que atribui uma significação paternalista à tomada de palavra pelo imigrante, do que não resulta noutra coisa que não na domesticação de qualquer instinto rebelde. E pouco importa o recorte documental do filme, ou seja, que os imigrantes, o que eles fazem e dizem, assim como os desembarques representem o registro de situações reais, porque em todo caso o que está em jogo é uma determinada representação subjetiva.
Por isso, não nos parece exagero definir Fogo no mar como outra representação implicada do fenômeno imigratório: a sua subjetividade — a “posição do sujeito enunciante” — não é muito diversa daquele do Ministério do Interior, da Marinha de Guerra e das instituições de acolhimento, que aliás recebem o agradecimento pela colaboração nos letreiros finais do filme.  Documentar a relação de Lampedusa com os imigrantes a partir da presumida humanidade dos funcionários do Estado ao enfrentar os “desembarques” e a “emergência” criada pelas políticas imigratórias europeias parece aqui não somente como ainda outra variação do nacionalismo metodológico na representação das migrações, como também, acima de tudo, uma estratégia discursiva assaz discutível num momento em que está cada vez mais claro que o sistema de acolhimento não passa de um gigantesco negócio humanitário, cuja finalidade é a exploração desavergonhada dos imigrantes e a produção de força de trabalho servil (basta ver medidas como o constrangimento ao pagamento de serviços e tíquetes sanitários pelos “refugiados”, o confisco de seus bens, a remoção dos benefícios etc). Para dizer diretamente: cremos que o ponto não esteja na maior ou menor humanidade dos socorristas, mas na desumanidade das instituições que eles representam, alicerces do atual regime de controle, ilegalização e exploração das migrações.
Lampedusa entre a banalidade do bem e a “brava gente italiana”
O panorama não muda se atentarmos para o olhar que o filme nos oferece sobre Lampedusa. A representação dos lampedusanos é construída entre a moldura discursiva de uma banalidade do bem já vista. Também aqui, pouco importa se os personagens do filme sejam os verdadeiros habitantes da ilha, recrutados pelas forças da ordem, que estejam falando de si e da sua vida cotidiana. Cada personagem do filme — as duas crianças, a dona de casa rigorosamente orientalizada ou sicilianizada, o médico, os policiais, os trabalhadores, os pescadores, os apresentadores do programa da rádio — toca a sua vida cotidiana fazendo o bem, mostrando a sua contribuição humilde e bondosa ao bem comum numa comunidade local codificada como alguma coisa de muito próximo daquilo que Rousseau havia idealizado como o bom selvagem. O olhar folclorizante-exotizante do filme segue sem pestanejar, atuando como um espelho para certo tipo de gozo nacional-identitário que é imprimido a uma autorrepresentação regionalista ou localista, como uma forma de vida boa em si, simples e, sobretudo, genuína(sintomática, nesse sentido, a cena em que é mostrada a mãe da criança protagonista enquanto cozinha a massa com frutos do mar).
Nesse contexto, se torna particularmente repulsivo o discurso-sermão do médico da ilha sobre o sofrimento dos imigrantes, as suas necessidades e o seu empenho por eles. Mais uma vez, como o restante dos personagens, o que aqui conta não é a sua maior ou menor sinceridade, já que o que chega a nós não é a realidade áspera de todos os dias vivida em primeira pessoa (que pode ser também de grande valor e dignidade), mas a codificação discursiva dessa realidade produzida pela narrativa em questão — não o médico real, portanto, mas sim o médico de Fogo no mar. Interessa-nos assim não tanto a realidade que o filme mostra, mas o modo como a representa; não Lampedusa, mas Lampedusa de Rosi. Claro, o que dizemos, então, não se refere à vida real dos personagens, mas à “política da representação” que o filme constrói para nos transmitir a experiência.
A política da representação, no filme, concede demais ao imaginário nacional-colonial da “brava gente italiana”. A narrativa de Rosi é, de fato, despida de contradições (de maldades, de ambivalências). Não há, por exemplo, qualquer traço de racismo popular ou institucional, como se esses fenômenos não fizessem parte da vida cotidiana da ilha. A coisa toda até poderia ter um lado de verdade, mas é caso de nos perguntarmos: qual o sentido afinal dessa autorrepresentação? Ou melhor: existiria ainda necessidade de produzir esse tipo de narrativa pastoral e conciliadora numa sociedade em que não somente as violências e as agressões racistas estão na ordem do dia, como também, ao mesmo tempo, consiste num grande esforço conseguir que as sociedades europeias reconheçam o racismo – enquanto herança do próprio passado colonial – como um dispositivo constitutivo, para dizê-lo aqui com Foucault, do próprio processo de produção da nação e de sua população?
Talvez o objetivo do filme fosse narrar a ilha de um ponto de vista diverso daquele do regime de representação midiático dominante, concentrado em retratar Lampedusa como “ilha-prisão a céu aberto”, como teatro de um entrechoque racista permanente entre habitantes insulares e imigrantes. Contudo, nos parece que contrapor-lhe a imagem de uma ilha da fantasia, como sua “via de mão única”, para retomar uma expressão de W. Benjamin, a fim de desmontar aquela representação demonizante, fazer isso não apenas acaba se enclausurando no interior dos códigos da própria simplificação maniqueísta, mas termina por tornar grotescos e inverossímeis os fragmentos de representação que parecem mais críveis e certamente desejáveis. Como ensina o trabalho de Edward Said, as representações de mão única terminam sempre por orientalizar-essencializar os objetos de seu próprio discurso. Se o objetivo era narrar a vida na ilha a partir de diversas histórias ou pontos de vista (como o filme parece propor), para dar credibilidade, complexidade e heterogeneidade à narrativa, esses diversos pontos de vista deveriam entrar em colisão-contradição entre eles; se de outra feita são relatadas diversas situações que, na realidade, relatam a mesma coisa, não se ganha de fato nada em termos de complexidade ou veracidade, recaindo apenas numa caricatura: os bons-excelentes, os ruins-péssimos.
A construção humanitária e a incrustação colonial se desdobram também através de uma espécie de empatia paradoxal e hierárquica. A piedade que o médico e o próprio documentário como um todo suscitam permanece confinada num bom-mocismo vertical e auto-absolutório: não há traço de responsabilidade, como se o sentimento de misericórdia descesse direto dos céus (como o espírito santo) e não há sequer o menor sinal de um envolvimento comum entre os sujeitos. Isto se exprime inclusive na falta de relação entre a narrativa sobre os lampedusanos e os imigrantes. Não há nenhuma presença mútua das respectivas representações, nem alguma referência ao conjunto de relações e efeitos ambivalentes e gerais que o fluxo dos desembarques traz à tona, nada que não seja novamente por meio do framing compassivo (quando na rádio chega a notícia da enésima tragédia no mar e a dona de casa manifesta dor). Alguma coisa que aparece inclusive na escolha de um tipo de montagem alternada, como se estivéssemos diante de um diálogo mudo entre dois sujeitos-assujeitados pelo filme.
Provavelmente, isso tudo define uma precisa vontade do autor, que se realiza na alegoria do olho vago diagnosticado na criança. É claro que tal escolha narrativa visa a estimular uma identificação afetiva com o outro, o reconhecimento dele. No entanto, o filme representa os imigrantes como meros corpos sobre o que se deve intervir com humanidade e clemência e sem levar em conta alguns dos dispositivos de desumanização e exploração que os sujeitos vivem, além de rechear de bons sentimentos o próprio ego, terminando por repercutir a preguiça (a má fé, diria Sartre) do olhar do diretor, do cinema italiano e dos júris internacionais em relação ao tema das migrações. Uma preguiça interessada e (pós-)colonial.
Um cinema contra a subjetividade migrante
Fogo no mar, então, não faz outra coisa que não seja confirmar alguma coisa já sabida: no momento de escolher como representar no cinema os imigrantes, na Itália a primeira opção é sempre o relato paternal e vitimizante. É assim que outras realidades (se assim se quiser chamá-las) constitutivas da experiência e da subjetividade imigrante na Itália — as fugas e revoltas nos centros de acolhimento, insurgências espontâneas como as de Rosarno e Castel Volturno, participações em “greves sociais”, lutas contra a exploração das corporativas do setor da logística, recusas a que se tirem as impressões digitais, ou que se facilite a própria deportação quando decidida pelas autoridades, resistências ao racismo institucional e popular, produção de espaços sociais de mestiçagem — se mantêm principalmente: ou fora do olhar cinematográfico italiano ou narradas em chave salvacionista e por meio de uma escolha estética “realista” bastante ingênua.
Não que uma estética realista ou documental seja em si mesma simplificadora ou banalizante. Longe disso e filmes como os dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne (A promessaRosettaO silêncio de Lorna), de J. Audiard (O profeta, Dheepan – O refúgio), de A. Kechiche (A esquiva), de F. Akin (A esposa turca) ou de Kassovitz de O ódio, apenas para citar alguns, nos provam o contrário. O problema é que, com frequência, o cinema sobre as imigrações na Itália é narrado com um realismo despido de ambições estético-formais, o que termina por essencializar o fenômeno a posteriori, no que o degrada a um gênero menor (de mera crônica), doravante despojado totalmente de originalidade, manietado, e saturado de retórica. O filme se passa e nada acontece de novo. Sente-se hoje cada vez mais a necessidade de narrativas cinematográficas que saibam restituir os fenômenos das migrações e do racismo a toda a sua complexidade e ambivalência. Chega de relatos humanitários de mão única, úteis somente às boas consciências do narrador e da audiência. Faltam sobretudo aqueles que tenham a coragem de evitar toda e qualquer ambição pedagógica (para estar novamente no velho Bourdieu crítico do sistema acadêmico), toda e qualquer distribuição de “pílulas moralistas e educativas”. De filme sobre as migrações para-ser-assistido-nas-escolas, por assim dizer, francamente, não aguentamos mais.
A incapacidade de produzir narrativas mais politicamente incorretas, a ponto de romper (em vez de reforçar ou celebrar) os mesmos clichês que atravessam o imaginário nacional-colonial sobre esses assuntos, parece sintomática de todos os limites, quer seja da situação do antirracismo na Itália, quer dos seus modos de pensar a relação entre o eu e os outros. Talvez um bom começo para interrogá-los e ir além desses limites seja começar a pensar um cinema sobre as imigrações que esteja em condições de assumir como ponto de partida a necessidade de uma descolonização do próprio olhar, quer dizer, a problematização constante seja das próprias concepções-projeções sobre o objeto da representação, seja da própria relação com ele. Também aqui como alhures, não existe por conseguinte uma “questão imigrante” a ser representada, mas somente uma “questão nacional” com a qual acertar as contas.

Trump, business as usual

Trump, business as usual

Por Andrea Fumagalli, em Effimera, 11/11/2016 | Trad. UniNômade
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O resultado das eleições americanas, com a vitória de Donald Trump, foi recebida por muitas mídias de esquerda e de movimento com um misto de indignação, devido a posições abertamente racistas e misóginas do magnata americano. O fato confirma que a esquerda, deslocando-se ao centro e trocando piscadelas com as empresas multinacionais e os poderes de Wall Street, está destinada a sucumbir. Isso se deve à incapacidade dela ser capaz de exprimir o incômodo e o rancor, cada vez maiores, de uma parte do povo trabalhador, hoje enfraquecido e empobrecido pela crise econômica. Ocupando o espaço deixado pela “traição” da esquerda “reformista”, o populismo encontra um terreno fácil para insinuar-se no eleitorado que compõe a classe trabalhadora, promovendo posições protecionistas, nacionalistas e xenófobas: um populismo que pode, segundo alguns, erigir-se a intérprete em potencial para uma nova luta de classe. Esse diagnóstico já havia aparecido depois do referendo inglês sobre a Brexit: e se repete agora numa eleição americana que premiou quem bradou contra os efeitos da globalização e do poder das finanças.
Essa leitura, entretanto, nos parece simplista demais. Somente se permanecermos sobre a superfície dos fenômenos em questão, é que tal linha de análise poderia soar verossímil e razoável. Contudo, se formos um pouco mais fundo, outros elementos aparecerão que devem ser levados em conta.
A classe trabalhadora que votou Trump (e no Reino Unido, a favor da Brexit) é principalmente branca e masculina, com idade entre 40 e 60 anos, uma faixa que nas últimas décadas viveu na pele os efeitos provocados pela crise, seja em termos quantitativos, seja qualitativos. As estatísticas do Bureau of Labour Statistics (BLS), nos informam que hoje nos Estados Unidos a força de trabalho nos setores manufatureiros (operários e funcionários) não supera 10% do total, enquanto no complexo industrial (compreendendo as cadeias produtivas da produção de energia, extrativas e construção civil) não chega a 15%.
Na sequência de tamanha redução do emprego, seguiu-se uma desclassificação em termos de reconhecimento e status social. Com a crise da grande indústria, aconteceu com frequência de regiões urbanas se transformarem em zonas rurais, as fontes de renda se diluíram e se tornou cada vez mais importante recorrer à poupança, a fim de propiciar ao menos um padrão de vida digno. Essa fração social rebaixada perdeu a esperança na ascensão social, cuja promessa animava a geração anterior.
Porém, diferentemente do que no passado (assim como, ainda que em menor medida, se deu na Grã Bretanha), os fundos para onde converge a poupança do trabalhador são geridos pelos mercados financeiros e se convertem, diante da redução da renda do trabalho, num componente cada vez mais central para o orçamento familiar.
Noutras palavras, o padrão de vida dessa classe média empobrecida está ligado cada vez mais à dinâmica das finanças, tanto como gestora dos fundos do trabalho e da seguridade social, quanto através das várias formas de endividamento. Isto vale, evidentemente, também para os aposentados.
Podemos dizer, então, que o biopoder das finanças se exerce num grau relativamente maior sobre esses estratos sociais. Isto poderia parecer um paradoxo, uma vez que esse componente social é a carne viva que fora fustigada diretamente a partir da crise das finanças de 2008 (subprimes), tendo sido a principal vítima da especulação financeira. A mesma da qual depende. Este paradoxo é um bom exemplo de como funciona a subsunção vital às lógicas financeiras do capital.
Sobre isso, queremos lembrar o que aconteceu há mais de 20 anos, quando começou a revolução zapatista em Chiapas. Logo em seguida, em janeiro de 1994, a assinatura do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA) teve de ser adiada, provocando efeitos negativos sobre os fundos de pensão de trabalhadores californianos, que tinham apostado na revalorização do peso mexicano (que, ao contrário, desvalorizou no dia do adiamento em mais de 20%). O descontentamento foi tamanho que chegaram  a ser organizadas manifestações e tomadas de posição “sindicais” contra a sublevação zapatista. Era demonstrada, desse modo, a capacidade dos mercados financeiros de facilitar (ou melhor, incitar) o processo de divisão internacional do trabalho, pondo os trabalhadores americanos contra os mexicanos.
Como sabemos, Trump jogou muito com esse fator para capitalizar eleitoralmente. Mas isto não significa que ele, que no discurso se colocou como paladino contra o poder das finanças, queira realmente trabalhar para reconfigurar esse poder. Dois fatos nos indicam o contrário.
No site oficial da campanha de Trump, há pouca informação sobre quais são realmente os pontos centrais do programa para o novo governo, com maioria absoluta republicana. Mas um ponto, em particular, está claro: a vontade de abolir o Dodd-Frank Act. Esta é uma legislação abrangente, pretendida pela administração Obama, voltada a instituir uma regulação mais estreita e completa das finanças americanas, promovendo simultaneamente a tutela dos consumidores e do sistema econômico estadunidense.
Os objetivos declarados são afastar a possibilidade de surgimento de novas bolhas, como a que levou à crise dos subprimes, e evitar o acúmulo de riscos excessivos que no final são suportados pelo contribuinte americano. Dessa maneira, se pretendia promover uma maior transparência nos vários mercados financeiros.
A eficácia dessa medida foi praticamente nenhuma. Mas certamente a abolição desejada por Trump assume um valor altamente simbólico: marca a liberação de caminho para o mesmo poder financeiro que ele não cessou de declarar que queria combater.
Mas há mais do que isso.
Segundo as últimas revelações da imprensa, no cargo de Ministro do Tesouro (o cargo mais importante junto de gestor da Federal Reserve, que definem as linhas de política econômica dos Estados Unidos), Trump está sinalizando a nomeação de um executivo da JP Morgan, Jamie Dimion, uma indicação ao redor do que giram os nomes do ex-banqueiro da Goldman Sachs, Steve Mnuchin, e de Carl Icahn, 43º homem mais rico do mundo segundo a revista Forbes, um investidor famoso em todo o mundo econômico por sua atividade como corporate raider (isto é, quem adquire uma empresa para fracioná-la e vendê-la com o máximo lucro pelas costas dos empregados – na cara da classe trabalhadora!), não por acaso uma atividade que vem sendo objeto de controvérsias.
O que dizer? Paradoxalmente, Wall Street pode se tornar protagonista com TRump mais ainda do que poderia vir a ser com Clinton! E volta a ser protagonista com a fina flor de seus tubarões! Trump fez da bandeira contra a oligarquia de Wall Street um de seus cavalos de batalha eleitoral. Uma vez eleito, revela-se como um dos mais fiéis aliados da mesma Wall Street. E, certamente, não houve grande oposição a Trump depois da eleito, por parte desses poderes, na verdade, rapidamente as reações dos mercados financeiros foram no sentido contrário, numa reacomodação.
O resultado das eleições americanas não pode surpreender-nos e este não pode ser lido como um momento de ruptura. Num contexto eleitoral em que o voto é fortemente influenciado pela classe social a que se pertence não poderia ser diferente. Não é por acaso que o percentual de votos entre as classes sociais mais pobres — o proletariado das periferias e guetos e as minorias étnicas (o verdadeiro reservatório da força de trabalho a baixo custo, pelo menos não branca, desde os McJobs aos trabalhadores do terciário retraído — com rendimentos e precariamente bem abaixo da ex-aristocracia operária branca) tenha chegado perto de 30%.
Desde sempre, o presidente dos EUA é expressão da oligarquia dos poderes, um poder amiúde atravessado de lutas intestinas, rixas e conflitos os mais diversos, mas, em todos os casos, internos aos poderes dominantes. Certamente, Hillary também era expressão desse círculo de poder, como também o foram os demais presidentes americanos, inclusive Obama. Mas Hillary era mulher e sopesemos o fato que este dado particular não é para ser subestimado numa cultura americana ainda impregnada de sexismo.
Nada de novo sob o Sol, portanto.
Cabe, apesar de tudo, ter em conta que as posições populistas, embora hoje se apresentem como expressões antissistêmicas, na realidade representam uma das formas para melhor manter o atual sistema de poder.

Andrea Fumagalli, professor e economista, reside a Milão, é autor de vários livros sobre biocapitalismo, moeda do comum e a dimensão econômico-financeira das lutas e subjetividades antagonistas.

O império do cansaço

 partir de A sociedade do cansaço (Byung-Chul Han, 2010, ed. brasileira pela Vozes: 2010) e outras pistas
O nosso tempo apresenta uma sintomatologia que nada tem que ver com velhas patologias, não se inscreve numa história das fobias e não nos leva a discutir sobre o estranho, o desvio, o anormal. A sintomatologia está mais ligada à superestimulação, à excitação permanente ao prazer individual, à superabundância de informação e, sobretudo, a uma cobrança difusa e cada vez maior por desempenho, por performance. Byung-Chul Han fala de um “excesso de positividade”, uma violência da positividade. Por isso, a sua hipótese sobre a “sociedade do cansaço” parte de um rechaço ao modelo imunológico (encarnado, entre outros, pelo filósofo italiano Roberto Espósito), que ele considera adequado para o século passado, quando fazia mais sentido um pensamento do estranho e do familiar, do ameaçador e do seguro, como permanente demarcação das relações sociais. Contudo, em nossas condições, Byung-Chul diz coisas como: “os imigrantes ou refugiados são considerados antes como um fardo do que como ameaça”. De fato, são somente os poucos e localizáveis neofascistas e as ligas ultradireitistas que mantêm a imagem desse outro ameaçador, pois o discurso bem-pensante realista, consciência que melhor exprime a racionalidade da nossa época, prefere a outra imagem, a do “fardo”, do que está sobrando. Um realismo que lança mão de metáforas patéticas, como a do “cobertor curto” demais.
Assim é levada também à crise a inimizade, enquanto categoria psíquica e política. Na era da pacificação, não se trata mais da eliminação do inimigo, mas da eliminação do próprio conflito. A novidade não está na repressão, mas na cobrança por um sucesso e um desempenho em condições a que, paradoxalmente, não temos acesso. De fato, as polarizações tornam ainda mais opaca a sintomatologia do tempo, ao desviar a nossa atenção para outras coisas. A violência da positividade, diz Han, não é a única, mas é a única que opera por saturação.
Um artigo publicado pelo The Guardian [NT. traduzido no Brasil no Outras Palavras] atribui as doenças mentais de hoje ao neoliberalismo, quando diz: “Bem vindos à distopia post-hobbesiana: uma guerra de todos contra si próprios.” É uma fórmula interessante que toca o nosso problema. O Leviatã, como imagem para a ordem social e força motriz das promessas no horizonte, foi montado ao redor da necessidade histórica de reunificar territórios, economias e expectativas; porém, no plano existencial, seu maior êxito foi conjugar uma paixão, o medo, com uma questão estratégica, a obediência ao soberano. Assim, a fórmula “homem lobo do homem” serviu de transição para a coesão social. Que é, então, que o social ordena em condições pós-hobbesianas? O que antes era ameaça, o “todos contra todos”, hoje se coloca como pedra angular da experiência, uma vez que a “competitividade” de todos contra todos já se tornou lugar comum. Em consequência, poderíamos seguir pensando no medo como fonte de coesão e obediência? Ou melhor, qual forma adquire o medo nas nossas condições hoje? Novamente, a positividade reaparece um como traço decisivo. A fantasia apocalíptica, a projeção do caos que a época do Leviatã construiu como o seu outro absoluto, já não arde nas consciências. A negatividade do outro, o seu caráter ameaçador, cedeu o lugar a uma ameaça que hoje é o norte dos comportamentos: a ameaça da indiferença generalizada e do fracasso. O medo da desorganização social de outrora perdeu peso, já que o neoliberalismo e o desbotamento da modernidade, em vez de desordenar os laços sociais existentes, simplesmente os desfizeram.
O outro, para além de situações específicas, não é nem lobo nem inimigo, mas um objetivo. O problema passou a ser como agradá-lo ou, pelo menos, como não o desagradar. O inimigo, o culpável, o deficiente, sou eu mesmo. Os dispositivos contemporâneos tendem, por um lado, a acentuar a dimensão neuronal e comportamental e, por outro, a condicionar os vínculos em termos de uma qualificação anímica. Tão banal quanto o é na realidade: você me cai bem ou mal, me interessa mais ou menos a sua existência, me agrada ou não, e eis carinhas alegres ou tristes (emoticons) para cá e para lá etc. Não se trata mais de colocar todos contra todos, como em Hobbes, mas todos na beira de sua própria implosão.
Da disciplina ao controle, e do controle ao desempenho. Em nosso tempo, um louco não é mais o anormal, mas o fracassado. Quer dizer, não está nem sequer em jogo o fracasso da sociedade como um todo, mas o fracasso do indivíduo. Byung-Chul diz que a depressão provocada hoje em dia pela pressão por desempenho passou a causar “infartos psíquicos”. É certo que, vinda tal reflexão de um filósofo coreano, – da Coreia do Sul, – poderíamos levantar alguma desconfiança a respeito do papel do desempenho nesse país, se levarmos em conta a pressão desmedida em aumentar a produtividade e, sobretudo, igualar a produtividade ao próprio sentido da vida. Mas, nesse caso, haveria que perguntar-se pelas distintas formas que o “desempenhismo” assume nas várias culturas e trajetórias coletivas, quando é tensionado pelo efeito da globalização. Em nosso caso, não podemos sustentar que se trata de produtivismo extremo, sempre difícil de impor em sociedades que insistem em recusar e resistir a esse conjunto de ditames, para além do avanço de uma meritocracia medíocre e hipócrita. De qualquer modo, a lógica das redes, por um lado, e a crescente adoção de técnicas espirituais prestes a massificar-se, por outro, assim como as tendências farmacológicas, abrem um sulco por onde pode seguir a pesquisa.
Um contraste de época: a sensação permanente que nada acontece simultânea à latência que pode acontecer qualquer coisa: um medo impossível de caracterizar, uma angústia inapreensível. Ataque de pânico. Como não evitar expor-se ao pânico numa vida que nos coloca permanentemente na borda da implosão? Somos como um carro com três pedais: acelerador, embreagem, acelerador de novo. As terapias propõem ações para mitigar os efeitos do excesso de ação.
Perdemos ao longo do caminho um discurso sobre a morte e, com ele, a possibilidade de habitar a morte, de torná-la vivível. Como reverso da moeda, morremos em vida pretendendo vencer a morte (como reza o livro do geneticista Laurent Alexandre: “A morte da morte”). Entroniza-se a exigência de uma saúde impossível, uma espécie de hipocondria latente que, para insistir com os paroxismos, nos deixa doentes.
A sociedade da superocupação alarga a sua cobrança por desempenho a todos os grupos e classes. Para as crianças, há períodos escolares duplos, atividades extra e conselhos para mães e pais sobre como mantê-los permanentemente ativos (uma recente propaganda publicitária de iogurte erige a principal inimigo infantil um simpático mas repudiável personagem: a “indolência”). Para os pobres, se multiplicam oficinas que oscilam entre a capacitação e uma ideia racista e classista de “reabilitação”, ainda que ultimamente também aterrissam nos bairros populares propostas ligadas ao espírito empreendedor. Enquanto isso, as classes médias, as médias “estúpidas” (como dizia Mafalda), e as médias acomodadas, passeiam em meio a terapias e assistências de problemas bem específicos, espaços de regozijo espiritual, cursos de liderança, coaching ontológico, disciplinas corporais e diversos retalhos de culturas orientais reintroduzidas nas velocidades de nossa metrópole. Diante de um ativismo que nos é imposto como norma, da ativação automatizada, da atividade incessante, de todas as formas da positividade de nosso tempo, do modo como a potência é exigida pelos mercados, de um regime de exploração e produção sem fim que conjuga consumo, afetos e signos, diante de tudo isso, parece que debaixo da manga só nos resta resguardar a carta de um sacrossanto dizer “não”. Alguns o chamam “potência de não fazer”. A potência é positiva, a impotência é, pela força da deserção, defectivamente, o contrário da potência, isto é, se reduz a uma potência que não se cumpre ou que está impedida. Portanto, somente a potência de não fazer extrapola ou tem chances de suplantar o fazer enquanto imperativo. Isto significa desobedecer. Ante a situação, Han contrapõe a figura da atividade contemplativa do zen que, levada às suas últimas consequências, se despoja de tudo isso que nos é imposto como uma exigência de época. É essa linha delgada que requer toda a nossa atenção, justamente uma capacidade que o excesso de positividade nos atrofia. Mas a potência do não fazer não pode confundir-se com o simples deixar-se estar, com um retiro alucinado alimentado por certo ressentimento ou com a passividade e nada mais. Pensamos, ao contrário, em atividades como escrever, pintar, pesquisar com devoção, travar conversas que inventem um tempo próprio, cultivar uma solidão capaz de fazer passar paisagens inteiras, juntar-se para ver o correr do rio, fundir-se no horizonte de uma rota…
doping contemporâneo, ou seja, as drogas “inteligentes” ou suplementos nootrópicos se caracterizam por tonificar um aspecto do cérebro que não é, necessariamente, o mais importante para a sua própria vida orgânica, para a simples vida como parte do corpo. São tonificantes cognitivos, hiperestimulantes, reforçadores de memória (reduzindo assim a memória a depósito de informação), fortificantes da concentração, entre outros. Há médicos e cientistas que consideram uma banalidade o uso desse tipo de remédio. Eles alegam: por que não deveríamos beneficiar-nos deles se estão ao alcance, para que possamos render mais? Entretanto, em termos de produção de sentido, essa imagem de incremento (“augmentation”) já estava contida nas publicidades e produtos de uma maneira aparentemente simplória: o Speed (e sua combinação com Viagra nos jovens), as barras proteicas ou energéticas e todo tipo de aditivos ou suplementos retóricos e químicos à disposição no mercado de alimentos.
Como contrapartida, prolifera a automedicação dos que sofrem de depressão e dos apáticos. Toda uma fauna de zumbis a suportar a própria existência nas margens do desempenho.
Diz Han: “Se o doping fosse permitido nos esportes, teriam se convertido numa competição entre remédios.” O incremento farmacológico supõe uma diminuição de mundo. A complexidade de uma vida se reduz a funções simplificadas, mas desta vez nem tanto em virtude de uma fragmentação das capacidades (divisão do trabalho) ou da alienação no sentido clássico, mas por entregar-se toda inteira, com tudo o que é e o que pode vir a ser (sua potencialidade), ao dogma, e sem doutrina, do desempenho. Sorte da metafísica contrabandeada sob a aparência de uma pura praticidade indiferente às ideias, o “desempenhismo” que chega a superar em refinamento e risco algumas religiões. A “livre obrigação de maximizar o desempenho”. Já não se trata mais apenas de vender a força de trabalho, mas sim otimizar a vida.
Na paisagem do pós-fordismo, poucos foram os que enxergaram que o trabalho aparentemente desregulamentado e a precarização não tornariam a relação de exploração mais amável ou menos exploradora, ao contrário, ela foi sofisticada. Passou-se da luta pela redução da jornada laboral à total indeterminação sobre o quantum de trabalho necessário ou requerido para manter-se o posto de trabalho. Além disso, o comportamento volátil de boa parte dos trabalhadores contemporâneos parece confirmar a precarização, conforme um círculo vicioso. Sempre que tenhamos removido de nossa imaginação política toda alternativa ou alteração do capitalismo, o único critério remanescente coincidirá com o ponto de vista daqueles que nos subordinam ao desempenho, segundo uma relação de exploração, dívida e submissão a critérios indefinidos e disputáveis.
Em última instância, o cansaço mais tremendo é o de não poder descansar de si mesmo. Esse “Eu” tanto nutrido com alimento balanceado, digital, imaginário, informativo, apegado à exigência de nosso tempo: uma adaptabilidade infinita, uma disponibilidade 24/7, a permanente incitação ao prazer imediato e, sobretudo, a cobrança desarraigada e sem parâmetros claros pela conversão da vida inteira em desempenho, em performance. Dá-se como um dentro sem fora, que o ameaça com um horizonte de desespero. Apesar disso, não experimentamos imediatamente o que há de desagradável nessas cobranças e aspectos de nossa época, ao contrário, elas subsistem numa mistura libidinal que Han descreve como “excesso de positividade”. Quando escutamos alguém ou nos escutamos exclamando “estou a mil” (e outras expressões sucedâneas), podemos perceber um tipo de gozo histérico. Por um lado, “estar mal” nos põe abaixo da altura do que o nosso tempo reconhece como válido: se você não está na borda do desborde, no limite do ilimitado, é porque a sua vida é aborrecida, improdutiva, nada interessante e até um tanto suspeita. Mas, por outro lado, nada que se conte por mil nesses termos é vivível por um corpo: mil amigos ou contatos, mil atividades, mil projetos, mil o quê? Novamente, o cansaço. O excesso de positividade não alimenta descontentamentos presentes e rebeldias futuras, não nos deixa tempo para fazer germinar a raiva, e se desenvolve até que cansemos ou fiquemos doentes. Voltamos ao nosso advérbio preferido: e então?

Xi Jinping não perde tempo

Presidente chinês aproveita confusão aberta em Washington, com eleição de Trump, e lança vasta ofensiva diplomática na Ásia, Europa e América do Sul
Por Pepe Escobar
Em capítulo ainda mais espetacular de sua saga reversa à Marco Polo, o presidente Xi Jinping da China fez, em 16/11, uma parada estratégica na Sardenha, Itália, em sua rota para participar da reunião de cúpula da Cooperação Econômica do Pacífico Asiático [ing. Asia-Pacific Economic Cooperation, APEC]) em Lima, Peru.
Por que a bela Sardenha? Com certeza não para cruzeiro em iate pela Costa Esmeralda. Trata-se, mais uma vez e sempre, das Novas Rotas da Seda puxadas pelos chineses.
Huawei está construindo seu maior quartel-general europeu na Sardenha. Os chineses querem comprar o porto de Cagliari. E o fabuloso Pecorino sardo – sério aspirante ao título de melhor queijo de cabra do planeta – oferecido em pó, já está alimentando milhões de bebês chineses.
Como espécie de bônus extra, Xi Jinping, “Marco Polo da China”, exortou seus compatriotas, pela TV nacional chinesa, a investir numa maciça invasão turística na Sardenha. Agora, é disso que trata qualquer pacote de estímulo na Europa.
Enquanto isso, o presidente Obama pato-manco, também a caminho da cúpula da APEC, está na Alemanha passando o bastão de “líder do mundo livre” a Angela Merkel, mais desentendida que veado surpreendido pela luz dos faróis. Os faróis atendem pelo nome de Donald Trump.
TEXTO-MEIO
TTP enterrado a sete palmos de profundidade
A imagem de um Xi efervescente ao lado de um Obama reduzido a pó de traque, contra o pano de fundo da costa do Pacífico sul-americano, será impagável. Longe vão os anos 1990s, quando Bill Clinton comandava a APEC e lhe aplicava o sinete da agenda dos EUA. Agora o Pacífico Asiático tem de se entender não só com a
Trumponomics protecionista, mas também com o fato de que a Parceria Trans-Pacífico (TTP), que Obama tanto prezava – o braço mercantil do “pivô para a Ásia” – está morto e enterrado, para todas as finalidades práticas.
A equipe de transição de Trump, comandada por Mike Pence, aconselhou o presidente eleito a enterrar a Parceria Trans-Pacífico (que reuniria os EUA mais 11 países de todo o anel do Pacífico), sem mais delongas, logo nos primeiros 100 dias de governo. O  mapa do caminho vai ainda mais longe e aconselha Trump a esquecer também o Acordo de Livre Comércio da América do Norte [ing. NAFTA], a menos que uma longa lista de “concessões” sejam atendidas.
Aliados abatidos dos EUA – sobretudo Japão, Cingapura, Austrália e Nova Zelândia – que contavam com a ascensão de Hillary e a entronização da Parceria Trans-Pacífico, estão decididos a trabalhar em reuniões “secretas” no Peru, para construir um artigo revisto. Para isso, será preciso assumir que os republicanos no Congresso podem concordar com que Trump conduza algum tipo de renegociação.
Há também a – distante – possibilidade de uma taxa de corte, excluindo os EUA. EUA e Japão respondem por cerca de 60% do PIB somado dos países da TTP. A TTP sem os EUA vira outro bicho, absolutamente diferente.
E isso nos leva à sutil contraofensiva de Pequim: promover a liga anti-TTP, na linha da Parceria Econômica Regional Compreensiva [ing. Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP). O leste da Ásia, Japão e Malásia, além da Austrália não asiática – três atores chaves – apoiam a RCEP.
Apesar de o relacionamento Trump-China poder sempre acabar nos proverbiais mares tenebrosos, Pequim já pode ter certeza que o braço mercantil do pivô para a Ásia, que excluía a China, já é história.
Aqui, a palavra oficial, do vice-ministro de Relações Exteriores da China Li Baodong: “A China acredita que devemos fixar um plano de trabalho novo e muito prático, para responder positivamente às expectativas da indústria, manter o atual impulso e estabelecer uma área de comércio no Pacífico Asiático, e sem demora.” Nada de TTP; mais parecida com a RCEP.
Todos aqueles resets
Um novo acordo comercial do Pacífico Asiático representará, definitivamente um reset nas relações EUA-China.
Há também aquele outro reset crucial: com a Rússia.
O chefe pato-manco do Pentágono, Ashton Carter, “aconselhou” Trump e a equipe dele a não cooperar com a Rússia na questão da Síria. Foi solenemente ignorado.
O vice-ministro de Relações Exteriores, Sergey Ryabkov, disse que Moscou não quer cooperação. Mas disse também que Moscou não cogita de “persuadir a liderança do Pentágono a modificar qualquer coisa relacionada a isso.”
Tradução diplomática: Vocês – o governo Obama – no que diga respeito à Rússia, estão mortos.
Assim sendo, haverá um reset. Será extremamente complicado, e em bases trumpianas de acordo-a-acordo: expansão da OTAN para as fronteiras da Rússia; Crimeia; defesa de mísseis dos EUA; tentativas de revoluções coloridas. Dirá respeito a toda a Eurásia. E começará com cooperação na Síria.
Pequim e Moscou chegaram à conclusão de que Trump não é ideólogo (à moda dos neoconservadores): é homem pragmático. São inevitáveis os resets. Bem como algumas surpresas.
Trump pode estar inclinado a que os EUA incluam-se no Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII), furiosamente demonizado pelo moribundo governo Obama. O projeto de Trump, 1 trilhão de dólares para infraestrutura é coisa que a China já faz – iniciado no final dos anos 1990s. Ellen Brown tem uma sugestão: imprima dinheiro e construa toda a infraestrutura de que você precisa.
Um eventual acordo EUA-Rússia na Síria beneficiaria, afinal de contas – e quem poderia ser? – a China. Espelhando-se na Rota da Seda original, a China vê a Síria como nodo crucial das Novas Rotas da Seda, atualmente bloqueado. Imaginem um dia, em futuro não muito distante, em que Xi desembarcará em Damasco para assinar acordos comerciais. E requererá pacote de estímulos para que turistas chineses possam visitar uma Palmyra restaurada…

O que vende o MBL? (II) POR FRAN ALAVINA

Grupo agora hesita: será ventríloquo de um governo deplorável? Ou praticará, como no Paraná, intimidação e violência, rompendo de vez os limites entre a fala e os atos fascistas?
Por Fran Alavina

Esse texto é segunda parte do artigo “O que vende o MBL?”. Para ler a primeira parte clique aqui
Retomando a discussão: uma visibilidade violenta e deformada
No primeiro momento deste artigo buscou-se desnudar as relações entre a precarização do “mundo político” e do “mundo do trabalho” que abrem um horizonte histórico no qual movimentos do tipo MBL são possíveis. Tal movimento opera no registro da política como negócio, cuja “mercadoria”, não material, mas simbólica, é a satisfação dos desejos e paixões na forma de participação em um grupo que reúne indivíduos de mesma “aspiração política”. Em grupos como o MBL, este agrupamento de indivíduos não opera com determinações de classe, não representam um grupo ou setor social determinado, definido, (pelo menos aparentemente), porém, usando de termos frouxos, por isso de fácil manipulação, como o termo Livre que adjetiva o movimento, pode se difundir sem amarras. Isto é, alcançar uma maior variabilidade de público: desde aqueles que já leram um pouco sobre liberalismo e neoliberalismo até àqueles proto-fascistas que querem apenas fazer do ódio o sentido de suas aspirações políticas. Odiar em grupo parece ser melhor que odiar sozinho: eis um dos mais lucrativos mecanismos passionais do grupo. Trata-se, pois, de orientar o ódio na direção mais lucrativa. Do lado dos que odeiam não pode haver distinções, a massa que odeia tem como único liame o reconhecimento de uma paixão violenta, tal como consumidores compulsivos que independentemente dos produtos consumidos se reconhecem tão somente na vontade de consumir.
Tais questões foram sintetizadas na pergunta título do primeiro momento deste artigo: “O que vende o MBL?”. Agora que sabemos o que, de fato, vende o grupelho de discurso liberal e gestos proto-fascistas, antes de analisarmos os novos (des)serviços e mercadorias oferecidos pelo grupo no mercado político, cumpre não desconsiderar um dos aspectos mais determinantes do modo de atuação de seus mais notórios integrantes: a busca por visibilidade, violenta e deformada.
TEXTO-MEIO
Como efeito da concorrência estúpida e brutal proporcionada pela barbárie neoliberal, a visibilidade tornou-se não apenas uma questão empresarial e um nicho de mercado, mas também uma dimensão que incidindo diretamente sobre os afetos e desejos realiza uma mudança nos liames sociais, nos modos de constituição identitários. A formação de identidades, com efeito, passa necessariamente pela imagem que cada um tem de si, bem como pela imagem que os outros possuem de nós. Ora, apropriando-se dessa intrínseca necessidade subjetiva, a ideologia do empreendedorismo de si joga os indivíduos para uma busca desenfreada de visibilidade. Não se trata do que se vê, mais de como se é visto. Porém como todos querem ser vistos ao mesmo tempo, a visibilidade transformada em signo de reconhecimento social, a busca pela visibilidade gera um tipo de concorrência difusa, na qual se sai melhor quem alcança uma visibilidade perene. Os mais vistos serão então aqueles que forjarem novas formas de visibilidade, destacando-se daquelas comuns. Se no mercado da visibilidade todos são empreendedores de si, todos concorrem mutuamente, logo em concorrência assim tão absurda, reinam a estupidez e a insensatez, pois se rompem regras básicas de civilidade, os limites dos decoros sociais são esquecidos, posto que a concorrência desenfreada não enxerga tais limites.
Tudo pode ser feito, tudo pode ser dito; desde que gere visibilidade. O outro nada mais é que um concorrente que deve ser eliminado, uma vez que também almeja visibilidade. O discurso neoliberal implode a si mesmo, pois ao mesmo tempo em que louva a livre concorrência, tem como regra básica solapar o concorrente. Não por outro motivo, o neoliberalismo é o irmão siamês do fascismo, pois ambos levam à barbárie. O absurdo se torna razoável: a mentira é dita “pós-verdade”; a perseguição insana é aplaudida; pouco falar e menos ainda dizer considera-se eloquência; a ignorância, antes signo de vergonha pública, agora é exibida; a negação do tempo necessário ao exercício crítico aparece como rapidez; simplesmente gritar é altivez; o gesto do dedo em riste que desnuda o autoritarismo se mostra como veste da coragem; difamar torna-se valentia; injuriar é a atitude recomendável; a perfídia é cultivada; a mediocridade louvada; a intimidação legitimada faz da violência recurso usual e preconceitos são ditos por bocas cínicas em rostos que não se ruborizam. Como poderiam se ruborizar, se os limites dos decoros sociais foram rompidos?
Tudo isto que se pode diagnosticar em nosso trágico e cruciante presente político, se expressa nos discursos e nas ações do MBL, pois se tratando de submeter tudo às regras do mercado, isto é, à lógica mercadológica neoliberal, a “ação política” também opera segundo tais parâmetros. Filhos diletos da precarização, sabemos que o “Livre” que adjetiva o grupo nada mais é que a liberdade de mercado, portanto a barbárie.
Não basta ter o produto certo e conhecer o público alvo, é preciso visibilidade. É ela, a determinação estético-política de nosso tempo. “Se você não aparece, não vende”. Nesse âmbito, as redes sociais virtuais permitem que essa visibilidade seja feita sem grandes custos: basta um smartphone na mão e uma ideia na cabeça. Ademais, a visibilidade, filha da concorrência do empreendedorismo de si, deve propiciar excitação. Desse modo, o MBL forjou sua visibilidade no rastro das manifestações de junho de 2013, naquele momento em que as ruas foram cooptadas pelos discursos reacionários. De lá até aqui, o modo de atuação tem sido o mesmo. Perseguir, discursar com dedos em riste, espalhar boatos, operar com ofensas, gritar para se passar por corajoso e enfático. Foi assim nosdomingos do golpe, assim sempre nos lugares e momentos que possam propiciar visibilidade. Agora, a visibilidade está nas ações conjuntas com o governo ilegítimo e na intimidação das ocupações secundaristas. Uma vez garantida a visibilidade, sela-se a consolidação da marca no mercado. Consolidada a marca, os negócios se expandem.
A terceirização da palavra e o fascismo como negócio: um governo gago e a “língua das ruas”
Em artigo anterior (Foucault, as palavras e as coisas), abordamos aquilo que é possível considerar como sendo o âmbito linguístico do golpismo, oGolpe em sua dimensão discursiva: os usos e abusos dos termos, as usurpações de seus sentidos, bem como o cerceamento da livre da palavra. Com efeito, à medida que avança a agenda de maldades do (des)governo usurpador, o caráter linguístico e seus agentes tornam-se ainda mais evidentes, pois é no campo discursivo que se formam o consenso e a legitimidade: elementos que o (des)governo não possui. Logo, no âmbito das falas públicas feita pelo (des)governo e seus sequazes, a comunicaçãotornou-se uma trincheira singular.
Como este governo é pobre de elementos constituidores de legitimação, sua fala pública nas ocasiões de maior visibilidade é sempre reativa. Isto é, não se trata de uma fala autônoma, mas de “respostas”. Nestas respostas, além do cinismo discursivo de tentar resignificar aquilo que outros disseram contra, nota-se também o nervosismo que é fruto do reconhecimento das próprias incapacidades. O símbolo máximo disto se deu logo no dia da posse, no modo destemperado da não aceitação do termo golpista. A tentativa de mostrar algum tipo de altivez demonstrou o quanto o homem que está investido da faixa presidencial desconhece os limites discursivos das boas falas públicas. Quem não está acostumado à fala pública, ao se deparar com a sua execução, se expõe a dois erros: ou gagueja, ou faz uso de uma fala impoluta, rica de artifícios gramaticais, mas pobre de expressividade. Quando estes dois erros convergem em uma mesma direção, como é o caso do atual presidente, apela-se para um discurso reativo que opera distorcendo o sentido e a legitimidade das falas contrárias. Foi assim quando ele comentou o discurso do papa Francisco, quando debochou dos trabalhadores que protestavam em Brasília, também foi assim quando tentou deslegitimar as ocupações secundaristas: sempre com um sorriso que pode ser encontrado na boca daqueles que estão suspensos entre o cinismo e a insegurança. Do reconhecimento das carências comunicativas do ilegítimo, o Planalto, como foi noticiado em setembro, recorreu ao MBL para “colaborar” no setor de comunicação. Como movimento que supostamente conhece a “língua das ruas” diz-se que poderá ajudar a tornar palatável o plano de maldades que se tenta implementar.
Assim, o MBL aparece como detentor de uma nova mercadoria: a “língua das ruas”. O (des)governo, por carência comunicativa, terceiriza sua fala. É sintomático que um “governo” louvado em seu começo pelo uso correto do vernáculo, mais precisamente o elogio das mesóclises, esteja agoraterceirizando a palavra. Sinal de suas fraquezas, por um lado; de fortalecimento dos movimentos proto-fascistas, por outro.
Aqui há, porém, uma confusão entre a “língua do MBL” e a “língua das ruas”. A língua do MBL se pauta por uma delinquência discursiva que não é necessariamente a língua das ruas, mas que o MBL impulsionou nas e às ruas. A língua do movimento como já sabemos é uma delinquência discursiva que infringe os parâmetros de qualquer decoro social, portanto uma língua violenta que espetaculariza o próprio movimento e injuriando os adversários, os torna objeto de ódio. A língua do grito como forma e do destemperamento como conteúdo (características mais visíveis no vereador paulistano Fernando Holiday), portanto a língua do fascismo.
Este fascismo que se expressa na língua do movimento, ou seja, na sua delinquência discursiva, já se configura em atos. A intimidação e o recurso à violência na tentativa de desocupar as escolas ocupadas no Paraná dão mostras que para o grupo se rompeu os limites entre a fala fascista e osatos fascistas. Nesse sentido, o MBL revela o que há de fascismo no (neo)liberalismo. Chegamos ao ponto que já não se trata mais de nos opormos a um discurso que reduz nossas vidas à perversidade do âmbito econômico, mas da oposição àqueles que tentam extirpar os últimos liames de civilidade que nos resta para jogar-nos na barbárie. Portanto, ao se ler MBL, entenda-se fascismo.

Militares, ciências, Educação Popular.

A pandemia atual expõe a falácia de alguns dogmas sobre a pós modernidade, ela mesma integra a lista dos enunciados falsos de evidências lóg...