Tuesday, June 09, 2020

Brasil pagará um preço incalculável por ter um presidente incapaz na pandemia

Brasil pagará um preço incalculável por ter um presidente incapaz na pandemia


Pandemia como a que estamos vivendo é tão rara e grave que pode ser tornar o evento histórico mais marcante de nossas vidas. Marcará o início de uma nova era. Em função disso, as decisões dos líderes no momento e nos próximos anos, em um mundo em fluxo, terão consequências sistêmicas em longo prazo para seus países e a ordem global.
Como afirmou recentemente Janan Ganesh, colunista do jornal britânico Financial Times, é provável que o próximo presidente dos Estados Unidos tenha, junto com o presidente chinês Xi Jinping, a oportunidade de definir os fundamentos da era pós-pandemia. Cita como exemplo histórico o presidente americano Harry Truman, que chegou ao poder depois da morte de Franklin D. Roosevelt no fim da Segunda Guerra Mundial. Em circunstâncias normais, Truman dificilmente teria sido um líder relevante. O momento histórico em que se tornou presidente, porém, era atípico. Truman implementou o Plano Marshall para reconstruir a economia da Europa Ocidental e fundou a OTAN, tornando-se o líder americano de maior impacto da segunda metade do século 20. Por décadas, seus sucessores operaram dentro do sistema geopolítico que ele havia desenhado. Em um mundo em fluxo, líderes ao redor do mundo se tornaram altamente relevantes para suas nações naquele momento, desde Konrad Adenauer na Alemanha, Mao Tsé Tung na China até o premiê indiano Jawaharlal Nehru e o líder israelense David Ben-Gurion. Como observa Ganesh, “as circunstâncias contavam mais do que o indivíduo.”
Tal como em 1945, há cada vez mais evidência de que a atual pandemia será um momento de transformação, elevando governantes mundo afora, mais uma vez, à posição de líderes cujas decisões terão impacto em seus países por décadas. A resposta confusa dos EUA ao novo coronavírus sugere que a época marcada pela liderança global de Washington chegou ao fim, iniciando um processo complexo de transição para um sistema liderado por duas potências. A pandemia também deve simbolizar o fim da hiperglobalização, provavelmente com um maior papel do Estado na economia e taxas de crescimento mais baixas em países em desenvolvimento. James Crabtree, professor da Universidade Nacional da Singapura, escreveu recentemente que todo o conceito de Mercados Emergentes deve deixar de existir, com profundas consequências para a distribuição global de poder e o futuro do capitalismo. A crise sanitária global causará o primeiro retrocesso no desenvolvimento humano global em três décadas, causando aumentos bruscos nas taxas de pobreza e instabilidade política em numerosos países ao redor do mundo, alimentando a xenofobia, o nacionalismo e acelerando a crise do multilateralismo. Até a chegada de uma vacina, países terão que intercalar a flexibilização da quarentena com novos períodos de isolamento, sempre acompanhados de milhares de testes.
No meio disso tudo, nascerá uma ordem diferente, moldada pelas estratégias adotadas por líderes ao redor do mundo. Como as escolhas durante a atual pandemia deverão definir o contexto no qual futuros governos operarão, os países que atualmente têm líderes inteligentes e visionários provavelmente serão recompensados ​​desproporcionalmente —simplesmente porque, devido ao momento histórico, suas lideranças terão maior impacto. Países com governos eficientes sairão da crise mais unificados e resilientes, com sociedades mais empáticas e seguras de sua capacidade de superar desafios complexos. Nesse países, cientistas e profissionais da saúde ganharão mais visibilidade e respeito, e há um debate público construtivo sobre como encontrar o equilíbrio certo entre aumentar a capacidade de monitoramento do Estado e a proteção da privacidade, como reabrir a economia sem pôr vidas em risco e como financiar os pacotes de estímulo econômico.
Países que atualmente têm maus líderes, por outro lado, podem acabar sendo punidos mais do que em circunstâncias normais. Além de gerir mal a pandemia e prorrogar a crise sanitária e econômica, eles não levam evidência científica em consideração e não atuam de maneira transparente. Deixarão de estabelecer as bases necessárias para iniciar a dolorosa adaptação de longo prazo. Ao invés de unificar seus países, deixarão suas sociedades mais divididas e desconfiadas, inviabilizando um debate público sobre os numerosos desafios, desde o futuro da educação, da economia, do emprego, do transporte e até do processo eleitoral em tempos de pandemia. Como sempre na história, países com lideranças inteligentes aproveitarão do mundo em fluxo para galgar posições, enquanto as nações à deriva perderão relevância.
Levará muito tempo para se poder avaliar as consequências geopolíticas da pandemia e o inevitável rearranjo na distribuição de poder entre nações. Porém, até agora, tudo indica que o Brasil será um dos grandes perdedores geopolíticos deste momento histórico. Quando o Brasil não foi nem sequer convidado para lançar, em abril, a iniciativa “Colaboração Global para Acelerar o Desenvolvimento, Produção e Acesso Equitativo a Diagnósticos, Tratamento e Vacina contra a Covid-19”, que reúne Governos, organizações internacionais, fundações e empresas privadas, revelou-se ali uma irrelevância internacional do Brasil que pode ser o novo normal pós-pandemia —e que demoraria anos para ser revertida. A triste realidade é que, neste momento, o Brasil traz muito pouco à mesa dos debates sobre os maiores desafios que a humanidade enfrenta. É relevante apenas no sentido em que causa preocupação dentro e fora do país. Além das muitas mortes que poderiam ser evitadas com uma resposta mais coerente e baseada em evidências científicas, o Brasil pode chegar a pagar um preço muito maior, por muito mais tempo, do que a maioria acredita.
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Militares, ciências, Educação Popular.

Militares, ciências, Educação Popular.


A pandemia atual expõe a falácia de alguns dogmas sobre a pós modernidade, ela mesma integra a lista dos enunciados falsos de evidências lógicas ou empíricas. Segundo os defensores daquela cultura imaginária derreteram-se as formas sociais e políticas  definidas nas Luzes e nas Revoluções inglesa (século 17), norte-americana e francesa (século 18). A ordem moderna estaria em questão, sobretudo instituições como o Estado.  Com a globalização – outro dogma assumido sem muitas perguntas por acadêmicos, políticos, jornalistas –   vieram as exéquias dos países que exigiam para si e seus amigos ou inimigos o poder soberano. Outro dogma: se não existem direitos individuais e coletivos garantidos pelo Estado democrático – conquista das revoluções mencionadas –  seria preciso privatizar os serviços públicos. A sobra do poder soberano só pode manter duas funções: seguir o mercado, em especial o financeiro, e reprimir levantes populares contrários aos ditames das bolsas de valores.
A receita foi aplicada na Europa, mesmo por administrações “de esquerda”, nos EUA por governos “democratas”, na Ásia, África e América do Sul. A pandemia atual (outras com certeza podem ocorrer) é potenciada pela urbanização inédita da vida humana. Seu início mais forte vem do século XIV, mas ela foi acelerada desde o fim da Segunda Guerra. Bilhões de seres humanos se dirigiram para as periferias na busca de sobrevida. É dado histórico: a concentração populacional agravou as várias pestes europeias e mundiais como é o caso da influenza.  Prover serviços para tais massas (água, esgoto, saúde, educação, segurança, alimentos, cultura, tecnologia) exige muito recurso técnico, humano, político, financeiro. Com as instituições públicas corroídas pela privatização e perdões de impostos para grandes empresas e fortunas, o caixa dos Estados fica à míngua. As massas tangidas rumo às megalópoles, ali postas em tugúrios sem espaço para respirar são as maiores vítimas da morte e da vida sem amanhã. Os poderes urbanos sempre foram tomados pelas “inesperadas”  doenças que matam mais do que em muitas guerras. Urge repensar os pressupostos lógicos, jurídicos, políticos e científicos das doutrinas mencionadas no início, retornando ao poder de Estado e reconfigurando os seus três monopólios: o da norma jurídica, da força, dos impostos. Sem tais providências milhões perecerão ao desabrigo. Chegaremos quase mortos ao reino da natureza bruta, onde todos são os lobos de todos.  Aliás, a frase do Leviatã não veio até Hobbes por acaso. Tradutor da Guerra do Peloponeso, ele sabe o quanto numa endemia – como a que levou Atenas à ruína– os laços entre humanos se degradam rumo à ferocidade. [I]
Elias Canetti comenta a passagem de Tucídides em Massa e Poder. Ele considera a epidemia um caso exemplar das massas sob ataque. Segundo Canetti os eventos que reúnem massas no mundo moderno pertencem à categoria das hordas em fuga ou em perseguição. Um ponto relevante trazido por Maclleland [II] é que a biologia, estratégica para compreender as pandemias, assumida no pensamento de Canetti não se aproxima de Darwin. Ponto estratégico pois muitas doutrinas sobre as massas e as elites, sobretudo as que defendem uma suposta meritocracia na educação, assumem de forma direta ou sub-reptícia a tese de que os “inferiores” caem vítimas das doenças, miséria, ignorância em processos “naturais” onde são escolhidos os melhores. Assim, sacralizam-se os genocídios modernos. Não. A biologia próxima ao pensamento de Canetti encontra-se em Pasteur. Cito Maclleland: “Toda a teoria das massas é ligada a números; multidões são contadas aos milhares e as massas aos milhões; a teoria das multidões em suas formas modernas teria sido desnecessária, talvez impossível, sem a consciência da vida fervilhante das grandes cidades, num mundo cuja população aumenta sem cessar e premido por espaço. Canetti pensa que a origem de tal ‘milhão mágico’ vai além da urbanização e crescimento populacional com a descoberta (...) de que o mundo já foi superpovoado em grau inimaginável por massas de bacilos hostis que lutam com o homem (...) viver agora é viver entre incontáveis milhões; multidões estão em toda parte e exigem a atenção das ciências”. [III] 
No interior da natureza as massas existem e se aglomeram, são dizimadas e ressurgem nos quatro elementos. Não é diferente com o ser humano. Daí, digamos, a enorme dificuldade para estabelecer isolamentos profiláticos nas cidades superpovoadas durante as pandemias. Restringir grupos em espaços limitados vai contra o que ocorre no plano físico, biológico, psicológico e social que, todos eles, moldam e são moldados pela atividade técnica dos homens. Ocorre mesmo que tal restrição pode trazer resultados tremendos. Canetti mostra que o interior das massas é uma espécie de reino natural hobbesiano. Concentradas em pequenos espaços os seus embates crescem, a violência e o medo as seguem. Não é também acidente que os alemães tragados pela Primeira Guerra Mundial, diminuído o seu território, passaram a delirar com espaços cada vez mais amplos. A busca frenética do Lebensraum os levou ao assassinato de seis milhões de judeus, ciganos, homossexuais,  milhões de guerreiros germânicos, franceses, ingleses, soviéticos. Concentrar massas em espaços pequenos serve como estopim de ódios, ideologias ressentidas que, para serem momentaneamente saciadas exigem a plena adesão dos grupos e indivíduos à massa que opera por meio das hordas. Para atingir tal fim líderes assassinos incentivam a geração de massas virulentas. Mas precisam reprimi-las para que sigam o rumo favorável ao controle político. 
Um elemento essencial na urbanização sofrida pela Humanidade reside no excesso concedido às políticas de repressão das massas. Agora mesmo no Brasil milhões de pessoas sem emprego passam fome e perdem esperanças de sobrevida. Surgem na imprensa “avisos” do Ministério Público sobre “vandalismos” e “saques” que apavoram o comércio, os bancos, as indústrias. [IV] Comoções sociais são prognosticadas e as culpas do perigo são jogadas sobre as multidões famintas. Nenhuma novidade em tal comportamento das elites seguidas pelas classes médias do mundo inteiro. Aliás, desde o começo da suposta civilização cristã e ocidental as massas foram apresentadas como perigo eterno a ameaçar as “boas sociedades” e seus regimes políticos. Mas com a concentração urbana, na passagem do feudalismo para o Estado provido de um centro de poder, a polícia foi inventada, bem como os Exércitos burocráticos, máquinas de matar no aparelho público. Começa a cultura da repressão planificada contra as massas pobres, as “aves de rapina” no dizer de John Locke, liberal mas não o bastante para tolerar insurreições populares. [V]
Dos três monopólios do Estado moderno – norma jurídica, impostos e força física – o último se evidenciou cada vez mais necessário para manter os outros e o domínio no poder social e político. No Brasil o monopólio das armas não se estabeleceu de imediato com a Independência. O costume dos fazendeiros, cujos exércitos privados (os esquemas da capangagem) ajudavam a definir o mando nos municípios persistiu na Guarda Nacional sob seu controle, agora como Coronéis. Forte resistência ao Exército Nacional veio em nome de um pretenso programa “federativo” para reiterar a sua força e dominação sobre populações pobres.  Mesmo após a implantação do Exército o coronelismo se mantém e gera déficit democrático nas entranhas do país.
O Exército, desde o seu início, apresenta uma característica intelectual importante. Existem estudos sobre o uso, nele,  das ciências e das técnicas. Um clássico descreve com acuidade os primeiros passos da república e a importância do positivismo na formação das lideranças militares. A releitura de Ivan Lins faria muito bem aos militares hoje silentes diante de um ministro da Fazenda que se gaba de ter lido oito livros sobre cada processo de reconstrução nacional na Europa. A formação de um militar de alta patente nos inícios da república compreendia a matemática, a física, a química… a biologia e outros setores da pesquisa. [VI] Além do culto à ciência os militares defendiam a laicidade estatal e o predomínio do poder civil. Durante a Questão Militar que, seguida pela Questão Religiosa acelerou a queda do Império, ocorre o caso Senna Madureira. Este se desdobra em dois episódios: primeiro veio a atitude do Tenente-coronel Senna Madureira contra a contributo ao montepio militar. Punido, ele traz no ano seguinte para a Escola de Tiro o jangadeiro Francisco José do Nascimento (alcunhado Dragão do Mar que se recusou a transportar escravos). A homenagem causa a punição de Madureira. Como fruto da penalidade segue a proibição para os militares discutirem assuntos nacionais na imprensa. A ebulição foi grande e no dia 2 de fevereiro de 1887 Benjamin Constant, no Clube Militar, defende a subordinação da farda ao poder civil. Ivan Lins destaca o pronunciamento: “Se, no regime democrático é condenada a preponderância de qualquer classe, muito maior condenação deve haver para o predomínio da espada, que tem sempre mais fáceis e melhores meios de executar os abusos e as prepotências”.   
Volto à pandemia e às massas. O projeto positivista para o Brasil, em termos educacionais, exigia que as cidades concentradas no Atlântico, sem maiores extensões para o interior, se aplicassem à ciência, técnicas e, last but not least, ao pensamento laico. O mesmo ocorre no Exército. Apesar de seu programa ditatorial (que os adeptos afastavam de ditaduras como as bonapartistas) o positivismo valoriza os debates públicos, a livre imprensa e a separação do Estado e das igrejas. Se teve enraizamento nas elites militares e civis, a doutrina comteana não atingiu massas urbanas ainda sob o manto eclesiástico. A guerra surda para atingir multidões foi vencida pela Igreja. Esta última, desde o final do século 19 orientou seu controle social pelo movimento de massas. Nos anos 30, em imensas procissões dos Congressos Eucarísticos, fica patente o uso de multidões pela Hierarquia católica para manter o controle da sociedade. [VII] Os positivistas  foram contrários à instauração da universidade. Eles receavam com receio  que a Igreja a controlasse. Os seguidores de Comte no Brasil valorizam institutos de pesquisa e a educação popular nos campos técnicos e científicos.  A defesa da ciência e do laicismo tem como centro elites acadêmicas e militares. Vence o programa da Igreja, com a presença de católicos conservadores no Ministério da Educação durante décadas. É o caso de Alceu Amoroso Lima e seus companheiros da Revista A Ordem. O programa positivista de ampla educação popular nos setores científicos foi derrotado. O país não seguiu no rumo de valorizar a ciência e os militares positivistas permaneceram ativos sobretudo nas instituições de ensino das Forças Armadas.  Estava posta a sementeira do ódio à ciência no país. A ditadura Vargas protege o plano da Igreja e com ela se protege dos “inimigos”. Em vez de preparar uma administração das massas pelo ensino científico ocorre a reafirmação do autoritarismo,  do culto ao ditador, da perseguição aos defensores do ensino laico. Simbolicamente a consagração do Brasil ao Sagrado Coração – o Cristo Redentor – definiu os rumos do poder teológico-político, inimigo da ciência, propagador de milagres na redução do povo ao estatuto de  rebanho.
Mesmo na ditadura de 1964 os militares não abandonam totalmente a ciência e a técnica. Projetos não raro grandiosos foram iniciados com ajuda de universitários. Mesmo com a caça aos “comunistas” dos campi, os militares guardaram núcleos de pesquisa. Apesar das intervenções contra as ciências humanas, elas foram mantidas e, em alguns casos, incentivadas. A fundação da Unicamp evidencia a ambiguidade do governo ditatorial: de um lado, persegue os opositores acadêmicos ao regime e, de outro, dialoga com o saber  universitário. [VIII] E assim foi nos anos em que o governo se tornou oficialmente civil, após a ditadura. Ressalto um ponto: durante os últimos decênios os militares pareciam adstritos às funções constitucionais. Eles continuaram seus estudos científicos e técnicos. A Embraer marca semelhante rotina, o trato dos pesquisadores das Forças Armadas com os campi civis teve progressos significativos.
No entanto, os militares ligados às ciências e os acadêmicos estão limitados a um público diminuto, se considerarmos as massas populacionais brasileiras. A ciência e a técnica, longe dos projetos positivistas e dos liberais paulistas que fundaram a USP, não chegou às camadas populares. No mesmo ritmo, as técnicas de comunicação e controle popular se aprimoraram no áudio visual, na TV, na telefonia (primeiro os e-mails, depois o Torpedo, depois as redes “sociais”, o Whatsapp e similares), gerando uma potência persuasiva e de comando inédito na história humana. Sem conhecimentos científicos pelo menos medianos, massas passam a “opinar” do único modo costumeiro: pelo ouvir dizer sem análise lógica ou empírica. As universidades e laboratórios, embora produzam conhecimentos essenciais para a sobrevivência e o progresso social, encontram-se isolados das multidões  que consomem técnicas de comunicação persuasiva e controle. Tal barreira pode ser notada sempre que ocorrem cortes de recursos financeiros para a pesquisa científica e técnica, algo praticado desde os governos FHC, Luiz Inácio da Silva, Dilma Rousseff. A subtração de meios para incentivar as investigações (em todas as especialidades) não enfrenta resistência popular, muito pelo contrário. Diminui, assim, de modo acelerado a potência do conhecimento no trato com as massas no território nacional.
Em outra vertente os militares passam a ser chamados a intervir em assuntos não previstos em sua função, sobretudo na repressão policial. Gradativamente eles são postos em operações desastradas nas periferias urbanas, manobras que autorizam procedimentos contra os direitos civis. No Rio de Janeiro, na luta contra narcotraficantes, foi comum juízes decidirem sentenças e processos instalados em caminhões do Exército. Na exata medida em que os governos civis se fragmentam e perdem legitimidade por atos corruptos (desde a Emenda da Reeleição presidencial) os militares são chamados para resolver assuntos próprios da Justiça, polícia ou demais instituições civis.
Volto à questão educacional e às massas. Tanto os positivistas quanto os liberais que idealizaram o ensino universitário (ainda cito a USP) consideravam que a pesquisa superior deveria ser praticada por elites do saber, mas com obrigatória difusão entre a massa populacional, múnus do Estado. Os militares positivistas conheciam de cor e salteado o programa do Catecismo Positivista.  A Biblioteca do Proletário elenca 150 títulos para leitura dos setores populares. A coleção se divide em quatro setores, entre os quais história, ciências, poesia. Autores indicados? Buffon, Broussais, Lavoisier, Condorcet, Carnot, Lagrange, Bichat, Blainville, Navier, Poinsot, Aristóteles, Santo Agostinho, Cabanis, Gall, Barthez, Dante... O fato de ser a lista dirigida aos proletários mostra o ímpeto positivista. O Estado deveria cuidar para que as multidões saíssem do reino da superstição, caminhando para o saber que, embora não rigoroso como o dos pesquisadores e cientistas,  preparava para o pensamento, o controle das informações. [IX] 
Ao longo da república militares e liberais civis pagaram um lip service ao programa de educação das massas. Apesar dos progressos, conseguidos com muitas lutas, sacrifícios, heroísmos, o ideal não se efetivou. Salvo iniciativas como as lideradas por Paulo Freire e Darcy Ribeiro, inspirados em Anísio Teixeira, pouco se fez naquele setor. Mas os coletivos civis e militares ligados à pesquisa científica desenvolveram esforços naquele plano. Com o regime de 1964 houve uma grande abertura para o ensino popular. Em vez das antigas escolas rigorosas, a rede pública  acolheu alunos aos borbotões. Mas o Estado não se adequou à nova efetividade. O número foi imenso mas o programa educacional não foi pensado de modo eficaz. Além disso, dado o número espetacular somado à  ineficiência do ensino, surgem os cursinhos preparatórios ao vestibular para os que pudessem dispender tempo e dinheiro. O vestibular se apresenta como barreira para os “negativamente privilegiados” (termo de Max Weber).  Tais cursinhos se organizam em termos capitalistas gerando “universidades. A indústria das instituições “universitárias”  passa a integrar a Bolsa de Valores, um negócio a mais.
As universidades públicas perceberam muito tarde o sistema injusto dominado pelo vestibular. Surgem propostas para diminuir o desigual acesso ao campus, aparecem as cotas para remediar a injustiça. Jovens pobres, negros, indígenas são acolhidos mas não o bastante para gerar capilaridade entre os campi e as massas. Já era tarde para definir o elo entre os povos e os pesquisadores acadêmicos. A massa desprovida de saberes mas com acesso imediato aos instrumentos de comunicação já se formara. E tal massa, sem informação, não sabem que os celulares e computadores exigem muito esforço intelectual. Ela passa a difundir mensagens misólogas em escala inusitada. E tudo é simultâneo ao predomínio na “opinião pública” de pastores, ideólogos, políticos fascistas que atacam a ciência e negam o saber.
Os militares, embalados pelo sucesso relativo de suas intervenções repressivas nas periferias, começam a esposar teses da extrema direita inimiga do conhecimento.  Com a eleição de Bolsonaro surge a face religiosa obscurantista que promete perenidade no poder desde que a pauta eclesiástica, protestante ou católica, seja obedecida. Assim, retornamos ao período Vargas, mas com hegemonia “evangélica”. Igrejas fundamentalistas assumem algo impensável no protestantismo dos século 16 e 17, a guerra, antes privilégio católico, contra a ciência.
Acrescento o conúbio do governo Bolsonaro – e seus economistas neoliberais que desejam tudo privatizar – e militares. Pela primeira vez na história brasileira as pessoas fardadas assumem uma atitude cordial diante de discursos que desejam reduzir a laicidade e os deveres do Estado para com os serviços públicos. Termino: as Forças Armadas não continuam a politica pretérita de defender a ciência e a técnica, aspirando à educação das  massas. Hoje os militares aproveitam oportunidades para sua vida pessoal nos governos, defendem pautas corporativas e não têm mais uma doutrina de ciência e tecnologia para o Estado brasileiro. No recente e infausto vídeo da reunião ministerial, assistido por toda a Nação, vimos o pensamento político das Forças Armadas estraçalhado pelo Ministro da Economia. “Li oito livros sobre cada processo de recuperação econômica na Europa”. Na universidade que se preza tal assertiva impediria um mestrando de ir à Banca, tal a pobreza exibida sem pejo. Mas o general ao lado, responsável por um Plano de recuperação econômica para o Brasil pós epidemia, calou-se, não forneceu ao pedante ministro nenhuma resposta à altura. Assim, infelizmente, os militares brasileiros deixam de valorizar a ciência ao obedecer pastores ignaros ou economistas que defendem o interesse privado e não o estatal. Eles servem  como instrumento para que velhas raposas retornem ao controle de cargos e verbas, como  o Centrão de Roberto Jefferson. Em vez de diminuir, aumenta a distância entre geradores de saber e a massa popular. Esta, por sua vez, segue como Destino uma vocação letal: a de se prestar como elemento de barganha de poderosos e permanecer sem os saberes que lhe permitiriam o salto do estatuto de vulgo (que Spinoza seja relido...) para o da cidadania. Os próximos tempos tornarão ainda mais triste o papel das Forças Armadas, levando para bem longe o sonho de Benjamin Constant: o de fazer o setor militar servir governos civis, e não vice-versa. E fazer da ciência o fundamento de um país soberano.  Ouvimos a cada dia maior número de militares que perdem a sua herança histórica, a vituperar como simples militantes de extrema direita a Justiça e o Parlamento. E temos os ensaios de golpes em prol de obscurantistas delirantes postos a serviço de seitas evangélicas inimigas da ciência e dos direitos humanos. Assim, o gráfico que indica o grau civilizatório do braço armado no poder estatal brasileiro mostra acentuada queda. Rumo à barbárie.   No Clube Militar está sendo retirado o retrato de Benjamin Constant. Em seu lugar chega a efígie do General Augusto Heleno Ribeiro Pereira. Ele marca os novos tempos dos golpes, da repressão, de intimidação dirigida aos poderes republicanos e, sobretudo, da intolerância contra a ciência.






[I] Uma passagem significativa da tradução hobbesiana de Tucídides. As pessoas, na epidemia, nada temiam dos deuses “nor laws of men awed any man, nor the former because they concluded it was alike to worship or not worship from seeing tha alike they all perished, nor the latter because no man expected tha lives would last till he received punishment of his crimes by judgement”. Thucydides, The Peloponesian War 53 , The complete Hobbes Translation (London, University of Chicago Press, 1989), página 119.
[II] Cf. J.S. McLelland : The Crowd and the Mob, from Plato to Canetti (Unwin Hyman, 1989).
[III] Mclelland, página 294.
[IV] Por exemplo o sugestivo alerta do Ministério Público diante dos eventos “indesejáveis”da pandemia trazida pelo coronavirus : “Promotoria alerta Covas sobre riscos de saques e vandalismo em São Paulo”:   https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/05/20/promotoria-alerta-covas-sobre-riscos-de-saques-e-vandalismo-em-sp.htm. Sobre o uso da força pelos Estados modernos, cf. Ann L. Phillips, “Prosperity and Monopoly on the use of force” no link  https://library.fes.de/pdf-files/iez/12036.pdf
[V] Maria Sylvia Carvalho Franco:  “All the World was America”, John Locke, liberalismo e propriedade como conceito antropológico”, Revista USP, Dossie Liberalismo/Neoliberalismo, http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/25952
[VI] Ivan Lins, História do Positivismo no Brasil (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1964). Um estudo significativo e útil foi publicado por Maria Isabel Moura Nascimento “O Império e as primeiras tentativas de organização da Educação Nacional (1822-1889) in http://www.histedbr.fe.unicamp.br/navegando/periodo_imperial_intro.html#_ftnref1
[VII] Romualdo Dias:  Imagens de OrdemA doutrina católica sobre autoridade no Brasil. . Ed. Unesp.
[VIII] Um clássico sobre a Unicamp é o livro do saudoso Eustaquio Gomes: O MandarimA sua leitura permite notar a enorme diferença entre a política ditatorial e o que o ocorre hoje no governo Bolsonaro.
[IX] Cf. Robert Fox : The savant and the State: Science and Cultural Politics in Nineteenth (The Johns Hopkins University Press, 2012).

Roberto Romano da Silva é professor titular aposentado do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Autor de vários livros, entre eles “Brasil, Igreja contra Estado” (Editora Kayrós, 1979), “Conservadorismo romântico” (Editora da Unesp), “Silêncio e Ruído, a sátira e Denis Diderot” (Editora da Unicamp), “Razão de Estado e outros estados da razão” (Editora Perspectiva).

Sunday, January 20, 2019

Luis MIRANDA DEPUTADO PSL: um gênio da vigarice. Agora, um gênio com foro privilegiado. calotes-mentiras-ameacas-luis-miranda-deputado

CALOTES, MENTIRAS E AMEAÇAS — CONHEÇA O YOUTUBER ELEITO DEPUTADO FEDERAL

Luis Miranda em visita ao gabinete de Jair Bolsonaro na Câmara em 2017. Foto: Reprodução/YouTube
OS PRIMEIROS 15 dias de governo mostram que o bolsonarismo é mesmo o terraplanismo aplicado à política. Nada precisa fazer sentido. Basta se apegar a uma crença, ignorar a realidade dos fatos e seguir em frente. Até agora tem dado certo.
Depois de se elegerem ostentado um anticomunismo insano, parlamentares da bancada do PSL e outros bolsonaristas foram convidados pelo Partido Comunista da China para conhecer a tecnologia de reconhecimento facial em locais públicos — o Big Brother do regime. E lá foram cerca de 20 anticomunistas passear durante dez dias para conhecer as maravilhas tecnológicas daquele país. Toda essa mamata da trupe de Bolsonaro, incluindo hotel de luxo e passagem aérea em classe executiva, foi financiada pelo comunismo.
As violações dos direitos humanos na China não são motivo de repúdio como são as da Venezuela. Mas há uma explicação. Segundo o deputado pitboy Daniel Vieira (PSL-RJ) — aquele que destruiu a placa de rua simbólica que levava o nome de Marielle Franco —, a China é um “socialismo light”, e não uma ditadura como a Venezuela. Eu sei que já devia estar acostumado, mas ainda fico constrangido com a dificuldade com que esses novos políticos de extrema direita têm em lidar com conceitos básicos de política. Certamente o nosso pitboy considera o “socialismo chinês” muito mais brando do que a ditadura do PT.
Olavo de Carvalho, o farol intelectual do bolsonarismo, gravou um vídeo dando umas belas chineladas na turma que traiu o movimento anti-globalista e embarcou no trem da alegria. Prometeu não falar mais com sua amiga Carla Zambelli (PSL-SP) e chamou todos da comitiva de “semi-analfabetos” e “caipiras”. Olavo nunca teve tanta razão. De fato, alguns vídeos que os bolsonaristas publicaram em suas redes mostram um deslumbre que lembra a família Buscapé chegando em Beverly Hills.
A coisa fica ainda mais cômica quando se descobre que a viagem não foi uma iniciativa do governo brasileiro, mas de um amigo do Alexandre Frota (PSL-SP), o empresário Vinícius de Aquino. Ele combinou a viagem com a embaixada e escolheu os convidados. “Convidei os deputados de que gosto e confio, e que são web influencers, para que a esta viagem possa trazer o maior êxito possível”, afirmou o empresário que jura não estar ganhando nada fazendo essa ponte.
Entre os convidados, o influenciador digital de maior presença na internet é o deputado Luis Miranda (DEM-DF). Ele tem publicado muitos vídeos da viagem e parece ser o parlamentar mais entusiasmado no país da foice e do martelo. É sobre ele que eu quero falar nesta coluna. A sua trajetória até a Câmara dos Deputados é um troço meio inacreditável, mas bastante representativa do embuste que é essa viagem pra China e do bolsonarismo vigente.
Miranda se apresenta na internet como um empreendedor de sucesso. Um self-made man que saiu do Brasil sem um tostão e virou um empresário milionário em Miami. Durante anos, ele se dedicou a contar no YouTube as maravilhas do capitalismo na terra do Tio Sam, sempre comparando com as desgraças do “socialismo brasileiro”. Nos vídeos, ele aparece ostentando imóveis, carros, lancha e bolos de notas de cem dólares — algumas vezes falsas. Foi assim que ganhou fama na comunidade brasileira nos EUA e entre os brasileiros que sonham em migrar. Conquistou aproximadamente 800 mil seguidores no YouTube e 3 milhões no Facebook. Virou uma estrela da internet.
Sempre usando frases motivacionais e retórica de coach, Luis Miranda também deu palestras e vendeu cursos ensinando como conseguir o green card e ficar rico nos EUA. No Linkedin, se apresenta como um “multi empresário, que assim como seu ídolo famoso Steve Jobs, precisou se reinventar após um grande sucesso e queda”.
Acontece que o sucesso empresarial de Miranda é mais fake do que a mamadeira de piroca do WhatsApp. Simplesmente todas as empresas que ele fundou faliram e deixaram um histórico de calotes na praça.
Sua carreira empresarial se iniciou ainda no Brasil em 2008, quando fundou a Fitcorpus, uma franquia de clínicas de estética que chegou a aparecer mais de uma vez no programa Amaury Jr. como um modelo de negócio revolucionário.
Depois de aplicar muitos calotes e receber muitos processos, a Fitcorpus faliu. Foi então que Miranda decidiu viajar para os EUA e prosseguir no ramo da picaretagem.
O deputado eleito faz qualquer tipo de negócio. Em Miami, fundou a Gifts for World, empresa de importação e exportação, que seduzia brasileiros com produtos a preços baixos, mas que também ficou marcada por calotes. No Reclame Aqui, há diversos relatos de clientes lesados que pagaram e não receberam seus produtos.
Outra empreitada de Miranda foi a Dreamtrips, uma espécie de clube de viagens sob o modelo de Marketing Multinível, em que você paga um pequeno valor mensal e tem direito a diárias em bons hotéis no Brasil e no exterior. Quem aderir ao clube também pode ganhar dinheiro se conseguir atrair novos membros. Tem cara, cheiro e talvez seja mesmo uma pirâmide financeira.
A Dreamtrips oferece os produtos de outra empresa, a WorldVentures, que não tem permissão para vender no Brasil. Mas isso não é um problema para Miranda. Em um vídeo tutorial gravado no ano passado, ele ensina como se cadastrar no site da empresa e se tornar um membro do clube fornecendo número de identidade e endereço americano falsos! A própria WorldVentures teve que declarar que não está trabalhando legalmente no Brasil. Ou seja, Luis Miranda ofereceu um serviço ilegal para quem mora aqui. Os calotes relatados no Reclame Aqui não deixam dúvidas de que a Dreamtrips é mais uma empreitada picareta do deputado eleito.
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Propaganda de um dos cursos de Luis Miranda que prometem milagres.
 
Foto: Reprodução/Site do Luis Miranda
Há dezenas de publicações no YouTube com pessoas relatando terem sido vítimas desses golpes. Lauri de Matos, um dos youtubers que se dedica a desmascarar as mutretas de Miranda, revelou alguns processos que ele sofreu nos EUA. Em um deles foi condenado por não pagar o aluguel do seu escritório na Flórida. Em outro, foi condenado por dar calotes de quase US$ 200 mil em um grupo de investidores. Ele prometia comprar carros em leilões, reformá-los e lucrar em cima da revenda. Mas a grana nunca aparecia. É o que costuma acontecer com muitos dos que fazem negócios com o deputado eleito.
Luis Miranda também tem o hábito de ameaçar quem o denuncia. Em uma das ameaças, mostra tacos de madeira expostos na parede do seu escritório que ele diz servir “para dar porrada em vagabundo”. Segundo ele, só não os usou ainda porque seus denunciantes “estão longe, senão já teria feito maldades”. Neste mesmo vídeo, ele também exibe um Lamborghini e plaquês de 100 dólares enquanto grita “dinheiro falso? Confere direito! Tira um print disso aqui, seu filho da puta! Vai, seu viado do caralho! Tira um print!”
Mesmo tendo sido desmascarado por vários outros youtubers, Luis Miranda continuou com seus negócios obscuros e começou a preparar o terreno para entrar na política brasileira. Em 2017, foi recebido pelo então deputado Jair Bolsonaro em seu gabinete, onde gravaram um vídeo demonstrando simpatia mútua. Seus vídeos passaram a falar cada vez mais sobre política, sempre surfando na onda bolsonarista. No ano passado, ele decidiu lançar sua candidatura a deputado federal pelo DEM.
Mesmo morando em Miami, Miranda foi o sexto deputado federal mais votado do Distrito Federal. Durante a campanha, vendeu a imagem do herói que abandonou uma carreira empresarial de sucesso no exterior para salvar sua terra natal do comunismo. O milionário condenado por não pagar aluguel fez uma promessa de campanha que dificilmente poderá cumprir: abrir mão dos salários e benefícios de deputado.
Depois da repercussão negativa da viagem no Brasil, Luis Miranda gravou vídeo na China ao lado do embaixador brasileiro exibindo sua megalomania: “acabei de receber a informação de que a bolsa tá bombando no Brasil porque um grupo de malucos veio fazer uma visita para aquecer a economia”. Em outro vídeo, ele deixou escapar que está usando a viagem para fins particulares. “A todo momento estou pedindo para a delegação me apresentar empresas de tecnologia que vendam produtos que eu possa comercializar no meu grande negócio nos EUA.” Aproveitou também para xingar os críticos da viagem de “burros, idiotas e palhaços”, e fazer novas ameaças: “me chama de safado na minha frente pra ver se eu não quebro um dente do vagabundo.” Miranda está mesmo muito à vontade nessa nova era.
Logo após o primeiro turno, o deputado já vislumbrava grandes negócios com Bolsonaro na presidência.  “Mermão, se o Bolsonaro ganhar, tudo vai melhorar. A economia do Brasil vai explodir. Eu já tenho negócios articulados com pessoas do alto escalão”. Poucos dias depois, lá estava ele viajando com a bancada do PSL para fazer negócios na meca do comunismo.
Fale o que quiser de Luis Miranda, mas não dá para negar que se trata de um gênio da vigarice. Agora, um gênio com foro privilegiado.
https://theintercept.com/2019/01/20/calotes-mentiras-ameacas-luis-miranda-deputado/

Thursday, January 17, 2019

Arun Sundararajan – Economia compartilhada: o fim do emprego e a ascensão do capitalismo de multidão. Senac, São Paulo, 2018, 301p.

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Arun Sundararajan – Economia compartilhada: o fim do emprego e a ascensão do capitalismo de multidão. Senac, São Paulo, 2018, 301p.

Arun Sundararajan publica uma das melhores análises abrangentes da economia do compartilhamento, agora em português, publicado pelo Senac, Economia do Compartilhamento, livro tão essencial para entender as novas dinâmicas como por exemplo A sociedade de custo marginal zero de Jeremy Rifkin. Trata-se de um conjunto de atividades que aproveitam a conectividade ampla das pessoas e agentes econômicos, com uma grande variedade de arquiteturas organizacionais. A grande vantagem aqui é que o autor sistematiza de forma muito legível o que são as atividades, os desafios econômicos, culturais e legais, os impactos no emprego, as formas de regulação. O fato de dar numerosos exemplos explicando como funcionam ajuda muito. A economia criativa, as redes de colaboração, a economia solidária, o princípio do compartilhar e outras iniciativas trazem sem dúvida vento fresco ao opressivo sistema corporativo que nos empurra em correrias incessantes para ter mais dinheiro para comprar mais coisas que teremos cada vez menos tempo ou paciência para apreciar.

Fotógrafo é atingido por bala de borracha em ato contra aumento de tarifa em São Paulo

Fotógrafo é atingido por bala de borracha em ato contra aumento de tarifa em São Paulo

Tiro disparado por policial militar acertou a perna de Daniel Arroyo, da Ponte, durante tumulto na concentração do protesto organizado pelo MPL nesta quarta. O profissional passa bem

Daniel Arroyo foi atingido no joelho direito por uma bala de borracha
Daniel Arroyo foi atingido no joelho direito por uma bala de borracha PONTE JORNALISMO
O fotojornalista da Ponte Jornalismo Daniel Arroyo, 39 anos, levou um tiro de bala de borracha no joelho direito, disparado pela Polícia Militar do Estado de São Paulo, na tarde desta quarta-feira, 16, quando cobria o segundo ato do MPL (Movimento Passe Livre) contra o aumento da tarifa do transporte público municipal, de 4 reais para 4,30 reais.
O tiro que atingiu Arroyo foi a culminação de uma série de ataques e provocações lançados pela PM contra manifestantes e jornalistas ao longo da tarde. Pela segunda vez, o ato contou com a presença de policiais identificados com um colete azul onde se lia a palavra 'mediador'. Os PMs mediadores deveriam ter a função de dialogar com os participantes do protesto para evitar violências. Na tarde desta quarta, contudo, houve pouca mediação e sobraram tiro, porrada e bomba.
Arroyo foi alvejado antes mesmo de o protesto começar. O grupo de manifestantes ainda estava concentrado na Praça do Ciclista, na avenida Paulista, na região central da cidade de São Paulo. Os manifestantes ainda negociavam com a PM o trajeto que pretendiam percorrer, ao mesmo tempo em que faziam um jogral para comunicar suas reivindicações. Nesse momento, os policiais avançaram sobre o grupo e arrastaram um dos participantes do protesto para “averiguação”. Houve correria e colegas do rapaz arrastado tentaram impedir os PMs de levá-lo. A reação da PM veio na forma de tiros de bala de borracha.
“Um PM à queima-roupa deu um tiro de bala de borracha nesse primeiro manifestante, depois deu um segundo tiro. No que deu o segundo tiro, me acertou. Eu estava a três metros dele”, conta Arroyo.
Segundo as próprias normas da Polícia Militar, que constam de um documento secreto revelado pela Ponte, os tiros de bala de borracha só podem ser disparados a uma distância de pelo menos 20 metros, contra um “agressor ativo, certo e específico”. As imagens gravadas por Arroyo do momento em que foi baleado mostram que os policiais não seguiram nenhum dos seus procedimentos:
“No momento em que ele foi atingido, os manifestantes estavam sentados ainda na praça, e do nada a polícia lançou bombas, deu correria e vieram os disparos. Não dá pra saber exatamente de onde partiu, mas foi nesse contexto. O ato nem chegou a sair, a polícia ‘envelopou’. Não queria que saísse”, relatou o repórter da Ponte Arthur Stabile.
Após ser baleado, Arroyo se dirigiu aos oficiais que comandavam a tropa, em busca de socorro. “Comandante, desculpa incomodar vocês, mas fui baleado com bala de borracha”, avisou. Os PMs abanaram os braços e disseram “não podemos fazer nada”. O fotógrafo se dirigiu por conta própria a um pronto-socorro, no Hospital São Camilo, no Ipiranga, zona sul. Ele foi medicado e passa bem.
Antes de o fotojornalista ser atingido, a PM já havia feito uma série de investidas contra os membros do MPL. Diversos manifestantes foram abordados e revistados aleatoriamente. Indagados pela reportagem, os policiais afirmaram que agiam com base em “fundadas suspeitas”, mas não disseram quais.
Após o tumulto, o ato seguiu de maneira pacífica até a praça Roosevelt, na região central, onde se dispersou. Ali, um grupo de aproximadamente 20 manifestantes “autonomistas”, que não fariam parte do MPL, se dirigiu até o bairro da Santa Cecília, onde, segundo testemunhas, passou a jogar lixo nas ruas e andar em meio aos carros em movimento. Policiais do Caep detiveram pelo menos cinco desses manifestantes e os levaram até o 2º DP (Bom Retiro).

‘Na missão de zoar jornalista’

Segundo Arthur Stabile, “o clima estava tenso especialmente contra a imprensa”. Em vídeos gravados pela Ponte, policiais militares do Caep avançaram de escudo contra os repórteres e chegaram a lançar uma bomba de gás contra um grupo, formado apenas por jornalistas, que acompanhava uma abordagem.
O jornalista João De Mari, 21 anos, sentiu o mesmo, embora participasse do ato como manifestante e não como repórter. Ele relata que policiais o abordaram na esquina das ruas Consolação e Araújo, quando se dirigia à manifestação, e zombaram dele quando descobriram qual era sua profissão. “Um deles veio atrás de mim, me puxou pelo braço, me encostou na parede e me enquadrou. Na sequência, começou a tirar sarro de mim”, conta Mari.
As zombarias começaram quando os PMs viram que Mari carregava uma bolsa com a inscrição da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo). “Ele me zoou que eu era jornalista e que qualquer um poderia ser jornalista, que não precisava de diploma”, diz. Quando o jovem contou que trabalhava na Casa do Povo, localizada no Bom Retiro, a duas quadras do Comando Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo, os policiais disseram em tom ameaçador: “Quer dizer que vocês ficam pertinho do Comando?”. Antes de deixar Mari ir, um dos policiais ficou com sua bolsa. “Eu pedi de volta e ele se negou, dizendo que ia devolver depois. Os caras hoje saíram na missão de zoar jornalista”, desabafa.
Apesar dos registros da reportagem, a conta oficial do Twitter da PM parecia tratar de um evento que acontecia em outro local. Em um dos tuítes, informou que “alguns participantes do ato, não havendo acordo entre o Mediador e os manifestantes tentam quebrar a ordem. Ação policial para contenção e restabelecimento da ordem”.

Repúdio

O presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, Paulo Zocchi, afirma que a entidade “repudia de maneira veemente a agressão da polícia contra os manifestantes, que lutam por um direito legítimo e correto, por um transporte acessível à população, e a agressão dirigida especificamente aos jornalistas”. Segundo Zocchi, ao agredir jornalistas, “a PM está tentando impedir o registro da violência contra os manifestantes”.
“A polícia deveria garantir o direito do cidadão se expressar, mas, como a gente sabe, esse novo cenário do governo Bolsonaro e João Doria, a gente tem que se preparar para enfrentar uma violência ainda maior das forças policiais. Exigimos que os policiais respeitem o direito à livre manifestação e o trabalho dos jornalistas”, diz o presidente do Sindicato.

Governo passa informação incorreta

A Secretaria de Segurança Pública (SSP) do governo João Doria (PSDB) foi procurada pela Ponte através de e-mail enviado à sua assessoria de imprensa, mas não respondeu até o momento.
Por volta das 19h, o major Emerson Massera, porta-voz da Polícia Militar, declarou à TV Globo, por telefone, que “uma equipe da PM foi ao local para ouvir a vítima [Daniel] e que foi aberto inquérito para averiguar as circunstâncias do ocorrido”.
Apesar das declarações da PM, contudo, naquele momento nenhum representante do poder público havia entrado em contato com o jornalista ferido ou com qualquer profissional da Ponte. A única ligação de um policial militar para Arroyo foi feita por volta das 21h50. O oficial se limitou a informar em qual delegacia o jornalista deveria comparecer se quisesse registrar um boletim de ocorrência.
https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/17/politica/1547723366_604096.html

Militares, ciências, Educação Popular.

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